Um fracasso
Um ensaio sobre o relacionamento conosco mesmo
Eu ia colocar “A sabedoria do fracasso” como título, porque é disso que vou falar. Mas isso seria pintar tudo de cor-de-rosa, ressignificar, reinterpretar positivamente. Depois pensei em “Sobre o fracasso”, mas logo vi dois problemas com o novo título: era por demais acadêmico e usava artigo definido, conferindo uma certa importância ao tema, o que contradiz a defesa que farei daquilo que não é importante. Substituí por artigo indefinido e acho que ficará (quase) perfeito.
É justamente sobre este (”quase”) que vou falar. Assim mesmo, com parênteses e aspas, afinal tudo o que importa é sempre vivido e dito entre parênteses e aspas. Nossos grandes momentos não são aqueles em negrito, itálico, destacados, sublinhados. São os borrados, apagados, entre aspas e parênteses, sem acentos, com uma vírgula naquele lugar errado que leva à ambiguidade. Tudo sem começo e antes do fim, reticências. Ainda que nos esforcemos por viver, é quando falhamos que tudo se alinha. Quando quase vivemos.
Pense nos momentos mais perfeitos que já viveu e faça uma boa decupagem detalhe a detalhe. Aquela noite maravilhosa aconteceu justamente no dia que você não tinha feito a barba ou escovado bem os dentes ou tomado banho, bem no dia que você estava mal vestida, gripada, menstruada e com uma certa dor de cabeça. Aquela outra inesquecível tarde surgiu em meio a uma crise pessoal, bem na época em que você estava sendo despedido, chegando sempre atrasado nos compromissos e se alimentando mal. Ora, se tais momentos não fossem tão imperfeitos, eles não seriam tão belos. É como se a obra de arte de nossa vida se aproximasse mais de um hai-kai rabiscado do que de uma trilogia épica envolvendo cinema, literatura, teatro e dança. Deve ser por isso que eu nunca gostei de épicos.
Um amigo meu é apaixonado pela arte do sumiê e já me presenteou com algumas de suas pinturas. É dele a imagem acima. No sumiê, o pincel espelha o movimento que faz surgir cada fenômeno no mundo. Apenas a tinta preta é usada, pois o desenho formado não é uma representação do real, mas antes um portal para a profundidade secreta da natureza. O foco não é a aparência da folha ou do tronco retratado, mas a energia mesma que o sustenta. Por isso, o espaço vazio é tão ou mais importante que o espaço preenchido. De modo espontâneo, sem esforço ou hesitação, o artista da estética wabi-sabi permite que a transitoriedade se manifeste por suas mãos e trace linhas assimétricas e singelas, sem propósito ou significado exterior. O segredo do desenho reside no equilíbrio entre controle e espontaneidade, atividade e passividade, criar e ser criado, em um processo contemplativo, espiritual. Não há retoque, reflexão, correção: nada se adiciona ao impulso súbito, vindo de lugar algum, que produz uma paisagem além de si mesma. Na ausência de esboços e ensaios, assim como na vida, o desenho se faz de súbito, de uma só vez – imperfeito, incompleto, impermanente. Só assim pode desvelar a natureza irretocável das coisas.
Tal “estética do quase” fica oculta para os que fervorosamente buscam o sucesso. Para quem corre atrás da perfeição, a beleza do imperfeito é simplesmente descartada em troca do sonhado dia do “aí sim serei feliz”. Quem será que já atingiu o sucesso? Eu não conheço ninguém. Ainda que saibamos disso, continuamos desejando nos aperfeiçoar e ser o melhor em alguma área. Curiosamente, a riqueza desse processo está na sua inevitável falha, em cada tombo que ele provoca. A busca pelo sucesso só é produtiva porque culmina no fracasso (ou seja, ela é sempre produtiva!). Mas não falo dos pequenos fracassos cotidianos com os quais estamos acostumados. Não. Para a coisa funcionar, o fracasso deve ser irremediável, todo-abrangente, aprisionante. Se sobrou alguma saída, o fracasso foi pouco.
Em algum ponto de nossa vida, a ironia cósmica ficará óbvia diante nós. Vamos perceber que acabamos nos transformando em algo muito menor do que a pessoa que sempre havíamos sonhado ser. A maioria de nossos projetos não deu certo. A maioria de nossos momentos foram esquecidos. Nossa vida foi um desperdício, uma perda de tempo. Estávamos muito distraídos! Depois de anos, décadas, a distração passada aparece como uma dor cortante no meio do peito. Uma dor que começa quando acordamos e não pára nem quando queremos dormir. O fracasso não só será esfregado em nossa cara: ele se mostrará como nossa face original.
E então pensei em acabar o texto com alguma reviravolta otimista, indicando uma saída transcendental ao fracasso, falando de vacuidade, luminosidade e liberdade (lema bem melhor que aquele da revolução francesa, aliás). Pensei em citar um mestre, um filósofo e um comediante. Talvez inserir alguma sacada engraçada e finalizar com um ponto de exclamação. Escreveria sobre como os fracassos esmagam cada uma de nossas artificialidades e nos deixam nus, abertos ao mundo, livres de nós mesmos. Citaria Nietzsche para concordar comigo:
“Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a Terra senão como um andarilho – embora não como um viajante em direção a um alvo último: pois este não há. Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo o que propriamente se passa no mundo; por isso não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade.”
Meu texto imaginado corria bem até que lembrei de como estou lutando comigo mesmo para aprender novos passos de dança de salão. Meu orgulho me impede de tentar. Morro de medo de errar ou de passar vergonha. O problema dessa bolha de proteção é óbvio: não há aprendizado ali dentro. Aprender é caminhar para fora, sempre. Lembrei agora que sempre esqueço dos padrões que repito incansavelmente. Esqueço como se estivesse errando tudo pela primeira vez! Esqueço que sempre que evitei o fracasso, deixei de viver. Pela centésima vez, tentei ser verdadeiramente bom em algo. E pela centésima vez, estou me esforçando para negar meu fracasso. Parar de dançar seria niilismo; continuar cegamente, um outro extremo de crença no sucesso. Qualquer estratégia é inútil.
Ao falar sobre isso com você, aproveito e levo minha mão direita ao centro de suas costas. Com a esquerda, levanto sua mão até a altura dos nossos ombros. Olho de frente para você e ofereço todo o meu medo aos seus olhos. Intercalo meus pés com os seus e aguardo o início da música. Desvio o olhar, hesito. As pernas titubeiam. Há suor nas mãos. Dá uma vontade de sair correndo, mas sua pele me impede de qualquer movimento abrupto. Abraçado a você, meu existencialismo vira humanismo, minha angústia se desfaz em mais angústia, minha dor torna-se enfim a dor que sempre desejou ser. Meu fracasso não se transforma em algo diferente. Ele, pela primeira vez, manifesta-se como fracasso, sem minha oposição, sem que eu esteja lutando contra ele. Um fracasso é tudo o que posso compartilhar com você. Um fracasso é tudo o que posso pedir de você.
Acho que agora a música começou. Pensando bem, não sei pra que escrever um texto sobre o que estivemos conversando… Dança comigo?






Gostei muito do seu texto!
um abraço,
andré (aquele q escreve imeio)
Não sei como me permitir ficar sem comentar esse texto na primeira vez que li, simplesmente SENSACIONAL!
Parabéns, óóótimo texto.
E como disse Roger Waters na estimável música Hey You, do Pink Floyd…
Don’t Givin without fight!
Não desista sem lutar.
O fracasso é aceitável, a desistência não.
Falha Thiago!
Não desistir de quê? Lutar para quê?
Para mim, desistir é a única ação além de sucesso e fracasso.
Esse texto não acaba com um esforço, uma luta, ou um não desistir. Ele acaba com uma dança de fracassos.
Desculpe, não me expressei bem.
Você lutou contra o medo do fracasso.. A maioria das pessoas acaba desistindo sem ao menos uma tentativa pois não luta contra o próprio medo, o próprio ego.
Lutar é uma metáfora e lutar contra si mesmo é a mais difícil do que enfrentar um gigante.
Abraço
Opa! Saquei agora.
Abraço!
O medo, ai o medo! O medo nos impede de viver muita coisa, porém é aquele que nos evita sangrar em vão muitas vezes… Quem suportaria viver sem medo? Eu penso que a perfeição mora no mais absoluto imperfeito, deve ser onde o medo está também! Realmente pensando um pouquinho e lembrando, concordo que a minha noite de amor mais perfeita [até hj]foi depois de um encontro catastrófico! Meu maior sonho até hj realizado [minha filha] foi na hora mais indevida… Eh vidinha que escapa entre os dedos. Gustavo você ja pensou se não sentisse mais medo de dançar errado? Se eu perdesse o medo de me expor, nossa a vida seria mais, mais… Sem palavras! Mas com certeza um coisa seria certa eu ia colocar medo em muita gente! rs
Abraço!
Sim, Rê! Sim!!!
Colocaria muito medo em muita gente… hahhha
Ah, mas dançar com medo ou sem medo… tudo muito bom. Chamar o medo para dançar. A dança é boa porque é um convite aberto a tudo. Nada exclui, nada fica de fora.
É como a música, todo abrangente, não rejeita nada, invade tudo.
Abração pra ti!
Então é isso! Criemos a dança do medo… Isso ja deve existir em alguma crença desse mundão, mas vamos inventar a nossa… Dance, dance, dance!
Aliás deixe-me compartilhar uma experiência com vcs. Toda vez que sinto muito medo eu coloco uma música perfeita e danço… Incrível tudo vai embora, tristeza não fica, a coragem surge, a resposta chega. Dose é quem esta por perto entender o que esta acontecendo, mais funciona!!!
O medo é nosso amigo, seu exagero que é perigoso, como tudo na vida em muita quantidade é!
Adoro seu blog, ja devo ter dito antes. Tudo bem, agente perde tempo repetindo coisas tolas, pq não repetir elogios?
Beijo á todos!
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