O segredo da vida de um casal (Contardo Calligaris)

Eu sou leitor fiel do Calligaris, psicanalista italiano que mora aqui no Brasil com sua mulher. Ele é meu ídolo intelectual e o único psicanalista ao qual eu confiaria minha mente. Como o texto abaixo fala explicitamente sobre relacionamentos, senti-me obrigado a postá-lo aqui no nao2nao1.
Para quem gostar: artigos on-line e livros do Contardo Calligaris.
O segredo da vida de um casal
Contardo Calligaris
Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente.
Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, que seria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?
Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la “Dormindo com o Inimigo”.
Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo, “Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’s Eat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.
À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.
Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.
Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fato de que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.
Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.
Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.






Olá Gustavo!saudações!Cheguei ao seu blog pela indicação do Alessandro Martins e estou ADORANDO!!!!Estou lendo,lendo e lendo e não consigo parar…me identifiquei muito com sua visão budista nos relacionamentos.It`s Great!
Em relação ao Calligaris,já add o”artigos on-line “aos meus favoritos,pois gostei muito desse texto sobre o casal e quero conhecer mais sobre ele…
Enfim,nesse primeiro contato vou ficando por aqui…Namastê.Sou Grata.Ciça
Oi Ciça! O Calligaris é foda! Toda quinta sai um artigo dele na Folha de SP.
Você pratica Budismo tb?
Abração!
Oi Gustavo!
Estou começando a prática do Budismo Kadampa.Moro no Rio e aqui perto da minha casa tem um templo Mahabodhi que eu comecei a frequentar e estou gostando muito.
Legal saber que tem artigo do Calligaris toda semana,vou ficar atenta.
Encaminhei uns artigos seus pra uma amiga que está passando por um momento frágil no casamento dela…That`s all.
*Aloha Mahalo*
Oi Gustavo,
Sou uma blogueira iniciante e procurando textos do Calligaris descobri seu blog.
Fiquei instigada com uma questão, vc conseguiu um relacionamento lúcido? Em sua opnião, qual o segredo para ele acontecer?
Vc só entregaria sua mente ao Calligaris, já pensou em um Gestal Terapeuta, rssss
Um abraço,
Mariana
PS Aguardo sua visita!
Mariana, legal seu blog. Gostei do vídeo do Perls.
Não, nunca consegui um relacionamento lúcido e ainda não sei o que é isso. Exatamente por isso fiz um blog sobre isso e não sobre maçãs, que é algo que conheço bem.
No momento, mal tenho tempo pra meditar, imagine pra perder tempo com terapia. Tenho muitos problemas: se for resolver um a um, morro louco. Preciso resolver todos de uma só vez. ;-)
Abração!
Procurando artigos do Calligaris, encontrei sua página. Realmente, o Calligaris é foda!! Apesar de ser psicanalista lacaniano, ele escreve de forma simples e objetiva. Obrigada pela dica da Verdes Trigos.
Beijos
Helen
[...] um oferecendo ao outro aquilo que nenhum precisa, aquilo que ninguém nunca quis ou pediu (como ensina Contardo Calligaris). Amor necessário é horrível. Amor bom é igual arte: inútil, completamente descartável… [...]
Sou fã de Calligaris. Já o leio ha muito tempo e nunca vi um pensador contemporâneo tão moderno e que lança sobre tudo um ohar sempre num ponto nunca visitado. Sou casada ha 25 anos e acho que nem ELE descobrirá o caminho das pedras, embora analise o caminho e seus atalhos de maneira brilhante. Este condicionamento de encontar no outro sua completude é que acaba com tudo. Se entendêssemos(emocionalmente), como ele fala no texto, que completar é achar alguem que seja diferente para fazer seu contraponto, seria ótimo. Mas vêm a paixão, a posse, as inseguranças, as incompreensões,que acompanhadas do amor idealizado,acabam com tudo.
Mas amar e casar é bom,justamente porque não é simples. Se todos fossem iguais ninguem se suportaria.
Divulgarei o texto para todos os amigos, jovens e velhos, casados e solteiros. Alem de estarmos no mesmo barco, ele acende um luz no fundo da “valvula mitral” que parece é onde encalham todos nossos problemas de relacionamento
Sou fa do calligaris e procuro um texto que saiu ontem na folha de sao Paulo: Amores e Mudancas.
Quem tiver este texto poderia me mandar?
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