“Nosso belo e despido coração” – Chögyam Trungpa

por Gustavo Gitti 26 abril 2007 3 comentários

Lembrando que uma das propostas do “Não Dois, Não Um” é mostrar que a prática espiritual é essencial para o cultivo de um relacionamento virtuoso, compartilho com vocês um belíssimo trecho de um livro que estou relendo (agradeço a transcrição deste blog). Chögyam Trungpa foi um grande mestre budista.

“Quando acordamos desse modo o nosso coração, descobrimos com surpresa que ele está vazio. Temos a impressão de olhar o espaço sideral. O que somos nós? Quem somos nós? Onde está nosso coração? Se olharmos com atenção, nada veremos de tangível ou sólido. Claro, é possível encontrar algo muito sólido, se tivermos rancor contra alguém ou se estivermos possessivamente apaixonados. Esse, porém, não é um coração desperto. Se procuramos o coração desperto, se colocamos a mão no peito para senti-lo, nada encontramos – a não ser ternura. Sentimo-nos doloridos e ternos, e se abrimos os olhos para o mundo, reconhecemos em nós uma profunda tristeza. Uma tristeza que não vem de termos sido maltratados. Não estamos tristes porque nos insultaram ou porque nos consideramos pobres. Não. Essa experiência de tristeza é incondicional. Ela se manifesta porque nosso coração está absolutamente exposto. Nenhuma pele ou tecido o recobre – é pura carne viva. Mesmo que nele pousasse apenas um mosquito, nós nos sentiríamos terrivelmente tocados. Nossa experiência é crua; nossa experiência é terna e absolutamente pessoal.O autêntico coração da tristeza provém da sensação de que o nosso inexistente coração está repleto. Estaríamos prontos para derramar o sangue desse coração, prontos para oferecê-lo aos outros. Para um guerreiro, é a experiência do coração triste e terno que dá origem ao destemor, à coragem. Convencionalmente “ser destemido” significa não ter medo, significa revidar um murro, dar o troco. Aqui, entretanto, não estamos falando do destemor das brigas de rua. O verdadeiro destemor é produto da ternura e sobrevém quando deixamos o mundo roçar nosso coração, nosso belo e despido coração. Estamos dispostos a nos abrir, sem resistência ou timidez, e a encarar o mundo. Estamos dispostos a compartilhar nosso coração.”

Chögyam Trungpa, Shambala: A Trilha Sagrada do Guerreiro, Editora Cultrix.

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Para transformar nossas relações

Há algum tempo parei de escrever no Não2Não1 e comecei a agir de modo mais coletivo, visando transformações mais efetivas e mais a longo prazo. Para aprofundar nosso desenvolvimento em qualquer âmbito da vida (corpo, mente, relacionamentos, trabalho...), abrimos um espaço que oferece artigos de visão, práticas e treinamentos sugeridos, encontros presenciais e um fórum online com conversas diárias. Você está convidado.



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3 comentários »

  • zen to be

    “Deste blog” para este blog:

    Agradeço o agradecimento pela transcrição nesta demonstração de relacionamento virtuoso.

    paraserzen
    http://paraserzen.blogspirit.com/

  • Marília

    Nosso belo e despido coração!

    Belo texto, real em mim! Me pego no fim de um relacionamento de 3 anos e meio, unico na minha vida em diversas facetas, agora estou apaixonada por alguem que se vai para sempre em semanas, e que naum percebe todo o sentimento que eu tenho a ofecer, mas eu simplesmente sinto tudo isso pelo puro prazer do sentimento. Queria me aproximar de maneira mais verdadeira, e ter uma curta historia ao lado dessa pessoa, mas tenho medo dele pensar errado de mim e se afastar de mim de vez. Eu sei que fantasio tudo isso para um final feliz, mas eu quero viver essa historia de alguma maneira!

    Pequeno desabafo de alguem que quase perdeu a esperança nos homens…

    grata pelos seus textos, nunca me conheci tao bem em minha vida!

  • Validation (Kurt Kuenne | 2007): o curta que eu queria ter feito | Não Dois, Não Um: Um blog sobre relacionamentos lúcidos

    [...] outra alegria vem de uma espécie de tristeza, uma vontade de compartilhar não-sei-o-quê com o outro, uma certeza de que ele também tem esse [...]

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