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Meu corpo sobre o arrependimento

por Gustavo Gitti 7 November 2007 11 comentários



Se te casas, arrependes-te;
se não te casa, arrependes-te também;
cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre.
Ri-te das loucuras do mundo e irás arrepender-te;
chora sobre elas, e arrependes-te também;
ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas,
e de ambas as coisas te arrependes;
quer te rias das loucuras do mundo,
quer chores sobre elas irás sempre arrepender-te.
Acredita numa mulher, e irás arrepender-te,
não acredites nela e arrependes-te também;
acredites ou não numa mulher, arrependes-te de ambas as coisas.
Enforca-te, e arrependes-te;
não te enforques, e na mesma te arrependes.
É esta, meus senhores, a quintessência de toda a sabedoria da vida.
Søren Kierkegaard

Já me deparei muito com “Meus pensamentos sobre…”, mas o que importa é filosofia com corpo (como disseram no texto sobre as qualidades do homem guerreiro). Nosso corpo sobre… Deitado, estirado, envolvendo, envolvido, respirando, se movendo sobre algo.

Waking LifeAs idéias sobre o arrependimento são várias. Citações múltiplas em qualquer local. Teoria, teoria, teoria. E o que o corpo fala? Ele se contorce, geme, pulsa o arrependimento. O que me interessa aqui é descrever esse movimento, não tanto filosofar sobre o conceito de arrependimento na obra de Kierkegaard.

A idéia do arrependimento supõe uma negação de algo no passado, um desejo por outro caminho, um impulso de ter ido a outro lugar, feito outra coisa, agido de forma diferente. A negação do passado é uma negação do presente. Pensar “Queria ter feito diferente” é o mesmo que dizer “Quero ser outro”. Ora, como o corpo sente isso? Sensação parecida com olhar no espelho e desejar não ter essa barriga proeminente, esses traços a mais, essa curvatura em desvio.

O corpo vivencia a negação mental como uma automutilação: eu tento não ver a barriga, eu me esforço para não ver uma parte de mim mesmo, eu corto meu excesso. Sem estruturação lógica, sem encadeamento de proposições teóricas, meu corpo dá uma só fisgada e me ensina uma tese filosófica muito simples: o arrependimento é uma negação do ser. Um grande “Não!” ao presente que retira nossa potência de viver e trava nossas ações futuras com hesitação, medo e second thoughts.

A saída? Tratados de filosofia não chegaram a lugar algum. De novo, pelo corpo. No espelho, não ignoro o desvio. Olho com dedicação e demora para minha barriga. Os traços a mais não me são estranhos, eles são eu. O desvio sou eu. Eu sou exatamente esse que foge à perfeição. Na perfeição, sou nada. Minha beleza está exatamente onde ela não está. No outro, eu mesmo. Amo os outros na medida em que não mutilo seus excessos com meu olhar. Amo quando o desvio me parece belo.

Se não tivesse errado tão feio, não estaria aqui agora. Se tivesse acertado, não teria vivido o que vivi. Aceito meu passado e a imagem do espelho não mais fica borrada. O grande “Sim!” para minha barriga é uma grande afirmação da totalidade da existência, como afirma o velho Otto Hofmann em Waking Life: “To say yes to one instant is to say yes to all of existence”. Pelo corpo, encontro Nietzsche e seu amor fati:

“Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo.”

A noção de necessário aqui faz sentido. Necessário é aquilo que não poderia deixar de ser. Na cadeira, a cor é contingente: pode ser amarela, rosa, azul… O assento é necessário: se não há, cadeira deixa de ser cadeira. Enquanto há coisas necessárias e outras contingentes, sofremos. No momento em que percebemos tudo como necessário, naturalmente nos liberamos e nos abrimos.

Amar o necessário é dizer para tudo e todos: “Não poderia ter sido diferente!”. Tal afirmação da perfeição de todas as coisas é a redenção suprema de nossos erros. Suprema pois transcendental: o erro não precisa ser alterado ou reinterpretado para deixar de ser erro, basta que olhemos bem para ele até que sua perfeição nos encha os olhos.

Não há uma única linha no universo inteiro que está fora do lugar. Nenhuma ação errada nas dez direções. Basta saber ouvir a música para entender a dança. Com pele, ouvidos, olhos e bocas, toda filosofia se auto-dissolve como se nunca tivesse existido. Engolimos a pergunta no café da manhã e saímos de casa com pés que não hesitam. O corpo, sábio, tem uma única fala: “Amor fati, amor fati, amor fati”…

Dedico esse texto a meu grande amigo Fábio Rodrigues, designer de SC. Sem ele, esse texto nunca teria aparecido em minha mente. Abração, cara! Obrigado.

Perdi meu tempo.Você tem 12 anos?Tá frio hj, né?Quando sai o livro?Deu uma vontade de fumar... (1 votos | gostou do post?)
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11 comentários »

  • Kodie disse:

    Gustavo parabéns por mais um incrível texto e, mais do que isso, um texto que nos faz pensar. Pensando justamente no que escreveu cheguei a um dilema: se temos que aceitar o passado e o presente, além disso, entender nossos erros no passado como parte do que somos, se temos que dizer sim ao nosso corpo e mente e assim ser feliz junto ao momento, qual seria o sentido de sonhar e de buscar realizar esses sonhos quando eles significam, muitas vezes, buscar acertar algo no qual falhamos no passado ou mudar o que somos no presente? Isso significa que para alguem que tenha alcançado esse nível de aceitação não existam sonhos nem desejos, já que essa pessoa diz sim ao que é e não ao que poderia ser?

    Abraços, Kodie

  • Gustavo Gitti disse:

    Kodie, excelente pergunta!!! Amanhã publico post sobre isso, ok?

    Valeu!

  • Fábio disse:

    “Miro en el alba mis manos, miro en las manos las venas; con estrañeza las miro como si fueran ajenas.

    [Todos vámonos] a morir, eso es moneda corriente; morir es una costumbre que sabe tener la gente.”

    Milonga de Manuel Flores | J.L.Borges

    Abração, Gittones! ;)

  • Fanny Webber disse:

    O importante é que ao se “arrepender” tenhamos em mente que “o que passou, passou!” e visar o melhor no futuro.

  • Luide disse:

    Algumas teorias são feitas, justamente, para nos engravidar de uma realidade maior. Algumas teorias são a alma para um corpo mais são. A Verdade não é tanto para ser alcançada, mas sim para ser encarnada. Um humilde tocador de rabeca antes de ver uma partitura de Vivaldi, jamais conceberá que aquele tipo de música é possível. Talvez, mesmo vendo, ele ainda duvide que alguém possa tocá-la. Mas ao ver e ouvir alguém executando tal partitura… o choque!!!, que nada mais é que a abertura de uma nova porta para uma concepção maior da potencialidade do homem!

    Como dizia Santo Agostinho: “eu creio para entender”.

  • Gustavo Gitti disse:

    Luide, ótimo comentário! Perfeito o exemplo da música… É assim mesmo! Valeuzaço, cara.

    Abraço.

  • myla disse:

    mais um post show, q convida a tanta coisa… (e o fato d ter sido dedicado, torna-o ainda mais belo!)

    o que mais gostei: “Um grande ‘Não!’ ao presente que retira nossa potência de viver e trava nossas ações futuras com hesitação, medo e second thoughts.”

    lendo esse trecho, outro da Pema Chödrön me veio direto à lembrança; foi algo q marcou muito e q acho q sempre vai marcar, a todos. por isso o cito:

    As long as you’re wanting to be thinner, smarter, more enlightened, less uptight, or whatever it might be, somehow you’re always going to be approaching your problem with the very same logic that created it to begin with: you’re not good enough. That’s why the habitual pattern never unwinds itself when you’re trying to improve, because you go about it in exactly the same habitual style that caused all the pain to start.
    (Start where you are, P. Chödrön)

    foi aí que aprendi que duas coisas são importantíssimas quando a gente quer mudar, refinar algo em nós mesmos. primeiro, claro, é a vontade legítima d querer ser melhor e, segundo, essa caminhada só se inicia mesmo e não é abandonada se e somente se a gente se aceita como é por inteiro e por completo, hoje, agora, nesse momento e nesse instante.

    o problema é que há sempre duas grandes tentações nos rondando. a primeira é achar que a gente melhora depois d adquirir ou conquistar algo externo: “as coisas vão melhorar qdo eu arrumar um emprego”, “qdo eu emagrecer”, “for promovido”, “comprar um carro”, “casar”, “ter minha empresa”, “ter um filho”, “passar no vestibular”, etc, etc, etc.

    a gente pode vir a sentir um grande contentamento e até felicidade por essas conquistas, mas esse sentimento é passageiro e vai querer ser revivido na expressão d novos desejos.

    a segunda é essa mania d fantasiar que o amanhã vai ser melhor, mas sem ajustar ações *no hoje* visando esse fim. essa é tão auto-explicativa q dispensa demais comentários. aliás, já falei até demais.

    beijos e valeu por mais esse belo post, Gustavo!!!

  • Alê disse:

    lindo. Me emocionei.
    “Se não tivesse errado tão feio, não estaria aqui agora. Se tivesse acertado, não teria vivido o que vivi. Aceito meu passado e a imagem do espelho não mais fica borrada.”
    Lembra do borrão de mim mesma? É a culpa do arrependimento.
    Sem esse borrão viramos poeira cósmica e aí tudo acontece como na frase que destaquei do seu texto de Rilke.

    obrigada por fazer parte dessa cura.

    bjs

  • Arrependimento | Discussão | A Grande Abobora disse:

    [...] escrito por Søren Kierkegaard que resume o que escrevi acima, de forma muito elegante. Encontrei-o neste post do Gitti sobre arrependimento: Se te casas, arrependes-te; se não te casa, arrependes-te também; cases-te ou não te cases, [...]

  • A Outra disse:

    O que importa é que fez a diferença para mim…
    Obrigada!
    Bjs!

  • Plinio Marcos Moreira da Rocha disse:

    Mas uma vez, eloqüência e coerência do texto não permite, qualquer outra colocação, exceto, se mudarmos a referência, uma vez que nem sempre, “A negação do passado é uma negação do presente”, pois, não é difícil nos encontrarmos afirmando um passado negado em função do próprio presente.

    Um exemplo bobo, mas não menos importante, nos remete a uma peça publicitária onde encontramos um jovem avô, se questionando pelo fato de ter gasto tudo, o que havia ganho, em prol do desenvolvimento da família, quando então, se pergunta e se não tivesse feito, neste exato momento chega a netinha, quando então, se responde, se pudesse faria tudo de novo.

    Portanto, um passado negado, pode ter uma série de explicações para, mesmo negado, ser importante, e vivo, ao seu Presente e base contínua para o seu Futuro.

    Aliás, como se descobrir, ou mesmo se redescobrir, sem nos darmos ao prazer de negar nosso passado, de tal forma, que também possamos reafirmar nosso Presente e confirmarmos nosso Futuro, portanto, “Felizes de nós, que ao questionarmos nossas opções passadas, mesmo chegando à conclusão de que poderiam ser diferentes, possivelmente, mas ricas no TER, sejam reafirmadas pelo SER Humano que Somos e possibilitamos a outros de SERem”. (Plínio Marcos Moreira da Rocha)

    Quando [Pensar “Queria ter feito diferente” é o mesmo que dizer ‘Quero ser outro’] é colocado, me sinto “sufocado” na impossibilidade de querer ser outro, sem a necessária necessidade de queria ter feito diferente, pois, mesmo acertando e estando em sintonia com nosso passado, posso, em função de um olhar alheiro, porem construtivo e valoroso, reconhece-me como necessariamente outro.

    Quando “O corpo vivencia a negação mental como uma automutilação” é colocado, me dá a impressão de que nosso corpo apenas, e tão somente, se automutila, quando, frente a uma negação própria, o que, fato concreto, não é uma verdade, pois, nosso corpo sofre as mutilações naturais de excessos mentais, de negação, de afirmação, de inconformismos, de indefinições, em suma, da própria essência humana que é a capacidade de raciocinar, que as vezes é exarcebada e não controlada.

    Quando “Se não tivesse errado tão feio, não estaria aqui agora. Se tivesse acertado, não teria vivido o que vivi.” é colocado, infelizmente, me dá a impressão de que não estaria onde estou, se só tivesse acertado, bem como, se só tivesse acertado não teria vivido o que vivi, portanto, acertando ou errando sempre estaremos onde estamos e teremos vivido o que vivemos, muito embora, alguns acertos tenham nos agregado mais, bem como, alguns erros tenham nos, também, agregado mais, muito embora, reconheça no “fracasso” pessoal, de alguns, uma possível realidade ao colocado, em sua forma e conteúdo.

    Quanto ao texto “texto sobre as qualidades do homem guerreiro”, não vi nenhuma possibilidade de referência distorcida, portanto, estou contigo em gênero, número e grau e não abro.

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