Liberdade, profundidade e presença (para homens) – Parte 3

por Gustavo Gitti 30 October 2007 12 comentários

Você é um homem com pegada? Você tem presença? Como você toca as mulheres e o mundo?

Esta é a terceira e última parte de uma resposta à pergunta do Fernando. A primeira falou de liberdade (horizonte da ação) e a segunda de profundidade (base da ação). Agora o foco é a energia da ação.

Valeu, Fernando! Você contribuiu para a formação de homens com pegada. ;-)

Presença

Minha pele. Como eu ajo a partir de meu mundo? Qual é meu toque? Minha presença é a energia de minha ação.

Tai ChiÉ inevitável. Nós somos atraídos pela luminosidade. Antes de nascermos, vimos lá longe uma luz que nos agradou e para lá seguimos até o ventre de nossa mãe. Desde então, sons, cheiros e flashes têm direcionado nossa atenção. Antes era um brinquedo de neon, agora são carros tunados, bundas, iPods e filmes de ação.

A fascinação pelo brilho possui pelo menos dois aspectos negativos. Já reparou como seguimos respondendo – objeto a objeto, situação a situação, pensamento a pensamento – como se as coisas tivessem uma energia interna de redirecionamento, igual sites e links na Internet? Já aconteceu comigo várias vezes. Uma tarde inteira de navegação na web para enfim, ao desligar o computador, me dar conta de que não fiz nada além de ir de um link a outro fantasiando mundos particulares. Essa constatação é seguida por um receio: “E se eu chegar assim ao fim da vida?”.

Por outro lado, sabemos usar a luminosidade com habilidade quando imaginamos, planejamos e construímos coisas. Somos mestres em manipulação, controle, estatísticas, cálculos, projeções. Trabalhamos, compramos, mobiliamos, consertamos. Ao fim de cada processo desse, fecha-se mais um mundo restrito ao nosso redor.

A reatividade passiva do primeiro exemplo é o aspecto de prisão, cujo antídoto é a prática da liberdade. Já a progressiva contração em direção a mundos cada vez mais limitados possui como antídoto a prática da profundidade, que equivale a habitar (sem deixar de construir) uma base aberta além dessas construções e constrições.

No entanto, o problema dessas duas abordagens é que elas implicam em um certo distanciamento dos fenômenos, uma desidentificação. Ora, não fica claro como fazer para manter a liberdade sem perder intimidade, mergulhar sem se afogar. Sem os impulsivos redirecionamentos e sem os mundos constritos, não sabemos como tocar a vida! Falta uma abordagem que trabalhe diretamente com os fenômenos como são, com cada bit luminoso, sem fechar vídeo algum, sem apagar nenhuma imagem.

Estamos no carro e uma mulher de minissaia rebola na calçada. Abrem-se duas possibilidades de ação: comê-la com os olhos como se não houvesse nada mais ao redor, ou se esforçar para fingir que ela não existe. Há um fechamento em reagir e há outro fechamento em fugir. Se reajo, olho demoradamente e acabo batendo no carro da frente. Se tento fugir, acelero, desvio de minha rota, chego atrasado… Temos uma prática dupla a fazer: não podemos ser arrastados, mas também não podemos nos cegar àquilo. Por expor esse dilema, a presença é a culminância e o teste final da prática de liberdade e profundidade – o grande ISO 9000 de nossas vidas.

Não é necessário fugir das maravilhas do mundo. Elas rebolam, reconhecemos sua beleza e seguimos digirindo pela rua, sem distração. Ao viver assim, somos alimentados – ao invés de aprisionados – pela luminosidade. Somos invadidos por uma libido que vem de todas as direções. O tesão que nos anima é precisamente o mesmo daquele que damos aos outros. Um homem presente faz isso com a gente: dá tesão. Os amigos ganham um companheiro corajoso, um incentivo para uma vida rica e um suporte para quando tudo desmoronar. As mulheres se abrem, florescem e se entregam àquele olhar sereno e malicioso, translúcido e íntimo.

Mais tarde veremos que a rebolada só tem sentido enquanto o homem segue dirigindo, imperturbável. No exato momento em que ele se distrai e se perde na luz, não há mais por que ela rebolar. Ela pára, constrangida. Se, contudo, ele não olha, também não há motivos para ela continuar rebolando. O feminino se solta e resplandece na mesma medida que o masculino permanece imóvel mas presente, impassível mas aberto. A luminosidade é sempre proporcional à liberdade. Ou seja, se ele se perturba (olhando ou não olhando), ela cessa o brilho.

Prática

Antes de indicar alguns treinamentos possíveis, desejo mostrar como as abordagens anteriores (sobre liberdade e profundidade) implicam no desenvolvimento da presença.

Presença como sustentação da profundidade
Ontem você assistiu ao excelente Waking Life e saiu renascido. Pensou em outros caminhos a seguir, sentiu-se mais vivo, quis abraçar o mundo. Só que hoje você acordou atrasado como de costume e saiu irritado pelo atraso, como sempre fez. É muito comum adentrarmos mundos profundos e logo depois não conseguirmos mais acessá-los novamente. Esquecemos de guardá-los em nós… Qualquer mulher já encontrou um homem que guardava mundos inteiros dentro dos olhos. Ele escondia lugares nos quais ela sabia que seria mais bonita se ali vivesse. Ela então pedia pelo olhar daquele homem. Queria habitar seus olhos, se tornar a beleza que ele parecia ver em qualquer coisa.

Presença como expressão de liberdade
A prática da profundidade abre mundos nos quais, por liberdade, transitamos sem barreiras. Esse agir livre resgata a energia que antes ficava encapsulada em nossas fixações, costumes e hábitos. A maioria de nós deixa boa parte da energia em pessoas, tarefas, objetos, emoções, pendências. Poucos são os que se movem inteiros, que se levam completos para qualquer lugar.

Agora, sem rodeios, vamos direto aos principais modos de praticar presença:

1. Pratique liberdade

2. Pratique profundidade

Tai Chi3. Não desperdice energia
Evite falar excessivamente, ejacular na masturbação, ficar nervoso ou pensar demais. Quanto menor a dispersão, maior o foco e a concentração. Já ouvi de alguns amigos: “Quando vou sair com uma mulher gostosa, eu bato uma antes”. Isso é a pior coisa a se fazer! Uma das causas da atração é energia sexual transformada. Se não desperdiçamos, podemos direcioná-la para qualquer lado: conversas filosóficas, risadas, carinhos… Ficamos com mais libido, pele mais bonita e até uma ereção melhor.

4. Ancore-se no corpo
Se há uma saída para o dilema entre a fuga ascética e o mergulho cego nos fenômenos, ela está no corpo. Ele é fonte tanto do instinto quanto das ações positivas. É condicionamento e liberdade. A prática do Tai Chi Chuan, por exemplo, é imobilidade em ação, meditação em movimento, ou seja: liberdade em meio à luminosidade. Sozinha, sua mente não o levará a lugar algum. Para evitar distração, hesitação ou indecisão (processos típicos de uma mente desincorporada), ancore sua consciência no corpo. Tome banho frio, alongue-se, cante, aprenda overtone singing. Enrijeça seu corpo inteiro de uma vez e depois relaxe, pratique tensegridade, artes marciais, aprenda dança de salão, break, sapateado. Toque um instrumento, escale uma montanha, jogue futebol, levante peso.

5. Faça atividades braçais repetitivas
Se for comum, é bom. Se ninguém quiser fazer, melhor. Em um churrasco com toda a sua família, ofereça-se para lavar os pratos. Em um retiro, peça para limpar os banheiros. Ajude seu tio na marcenaria dele. Lave todos os carros da família. Uma mente que se entrega às ações do corpo, sem expectativa de ganho ou lucro, é algo que deveríamos todos treinar.

6. Respire pelo abdômen
Se puder, evite as respirações aflitivas do peito. Use o diafragma. Para começar, deite-se de costas e coloque as mãos na barriga. Sem mexer o peito, infle o abdômen até que sua mãe suba ao máximo. Inspire e expire… Durante o dia, lembre-se de respirar lenta e profundamente desse modo.

7. Aprofunde seu relacionamento com o feminino
Presença pode ser definida como brilho interno. A luminosidade – que na mulher é expansiva e exteriorizada – no homem é interior, cresce pra dentro. Para fomentar esse processo, você pode usar qualquer coisa como alimento. Qualquer coisa que se move: artes, natureza, mulheres… Você olha, celebra e respira a energia feminina inesgotável que preenche toda e cada coisa. Você não vê melodias, cores, pernas e bundas. Você não vê o filme nem a lua. Você vê o feminino, você vê beleza. Para exemplificar essa postura, copio abaixo o trecho de um texto que escrevi para minha namorada há um tempinho. Ele se dirige ao feminino transcendente:

“Raios de metamorfose estão percorrendo minha libido, meus sentidos, meu corpo. Às vezes olho tudo, todas as coisas, sob uma perspectiva sexual. Bem, isso eu já fazia, mas a diferença…

Reparo nas pernas de uma mulher e elas me lembram de suas pernas. Olho os olhos de outra garota, e eles me lembram os seus olhos. Vejo o cabelo bonito de alguém e quero acariciar os seus. Tudo aponta para você. Sempre que me deparo com qualquer mulher bonita, a excitação que normalmente surgia em relação a ela é direcionada, projetada, para você. Todo o tesão que o mundo me causa passa a ser tesão por você.

Deixe-me ser mais claro: não estou dizendo que vejo uma garota bonita, fico excitado e depois lembro de quando me senti assim com você. Não é isso. O que é acontece é o seguinte: a sensação que uma garota bonita me dá não está mais ligada a ela mesma, mas a você. Sinto tudo em você, por você, para você.

Só há um corpo. O seu.”

8. Medite
A primeira meditação nos liberou de nossas identidades e automatismos. A segunda cultivou um espaço além das construções. A meditação da presença, por fim, fará a energia circular de forma autônoma, sem precisar de nenhuma configuração externa para nos excitar. A técnica é a mesma: sentamos sob a orientação de um professor autêntico, olhos abertos, respiração abdominal, língua no palato, etc. Porém, agora não nos desidentificamos ou nos distanciamos. Permanecemos abertos para conduzir todas as energias em direções virtuosas. Vamos nos reconstruir e usar nossa luminosidade a favor de todos os seres. Vamos à ação inevitável: o mergulho.

Conclusão: Homens inteligentes, sensíveis e ricos?

As mulheres dizem querer homens inteligentes, sensíveis, bonitos e ricos. Mas o que elas querem mesmo é liberdade, profundidade e presença. Um homem livre, capaz de incorporar várias linguagens e transitar entre diversos mundos – origem, aliás, do bom humor que elas adoram. Um homem profundo, com visão própria e filosofias várias (já ouviu falar em tesão intelectual?), que habite um mundo amplo. Um homem presente, sem estratégias, espontâneo, olhos misteriosos e abismantes, corpo vivo, respiração profunda, pés fincados na terra.

Por que liberdade, profundidade e presença? Pois esse não é o desejo de uma ou outra mulher tanto quanto é da própria essência feminina. Para entender como isso funciona, imagine cada mulher como uma música, um perfume ou uma dança. O feminino deseja horizontes ilimitados para sua reverberação, mundos vastos e densos para sua expressão, energia constante e sem distração para segurá-lo em seus rodopios. O feminino é Shakti, cuja manifestação às vezes recebe o nome de mulher.

Liberdade, profundidade e presença. Olhos, mundo e pele. O horizonte, a base e a energia da ação. Imprevisibilidade, densidade e espontaneidade. Eis os três pontos do treinamento masculino. Três jóias que eventualmente todo homem oferecerá a uma mulher.

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Para transformar nossas relações

Há algum tempo parei de escrever no Não2Não1 e comecei a agir de modo mais coletivo, visando transformações mais efetivas e mais a longo prazo. Para aprofundar nosso desenvolvimento em qualquer âmbito da vida (corpo, mente, relacionamentos, trabalho...), abrimos um espaço que oferece artigos de visão, práticas e treinamentos sugeridos, encontros presenciais e um fórum online com conversas diárias. Você está convidado.



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12 comentários »

  • Luide

    Bravo!

  • Bruno

    É um bixa mesmo =P~

    Abraço, keep up the good work ;P~

  • Thiago

    Muito bom Gustavo!!! O início do texo me lembrou uma frase recente que pude ler mas que não lembro de quem era. “O homem se tornou um mestre na tecnologia, capaz de transformar coisas outrora incapazes até de imaginarmos, porém se tornou um completo ignorante na arte de conhecer o seu próprio interior”. Achei simples, real e maravilhoso.
    Você deixa bem claro a necessidade do conhecimento versátil.
    Gostaria de ler um artigo seu que falasse sobre ser impresível. Vejo que ressalta isto sempre. Gostaria de ver saindo da afirmação da necessidade de ser para como fazer para atingir a imprevisibilidade?!
    Um grande abraço e mais uma vez parábens pelo trabalho…

  • Se você deseja que sua mulher seja uma puta na cama... - Parte I — A Revista Papo de Homem - Lyfestyle Magazine

    […] um homem que se move em busca de liberdade, profundidade e presença . Seu direcionamento pode ser chamado de "espiritual", ainda que ele tenha muitas […]

  • etore sanguanini

    achei interessante a troca de informações e experiências, creio que é por aí o caminho

  • ELAINE LOIRA

    GOSTARIA DE LER ALGUMA COISA QUE FOSSE PARA MULHERES, POR QUE TODOS OS TEXTOS QUE LI ESTAVAM DIRECIONADOS AOS HOMENS, ADOREI ACHEI TODOS INTERESSANTES MAS SERIA OTIMO SE FALASSEM POR EX DO QUE OS HOIMENS PROCURAM NA MULHER COMO AQUELE ONDE DIZ: – QUE O FEMININO PROCURA LIBERDADE PROFUNDIDADE E PRESENÇA. QUE TAL ALGO PARA NOS MULHERES?

  • Para além de bebidas, mulheres e dinheiro: o que é um grupo virtuoso de homens? (ou Sobre a Cabana PdH) | Revista Papo de Homem - Lifestyle Magazine

    […] Em meus textos aqui na Papo de Homem, compartilho um pouco do que conversamos diariamente na Cabana. Os melhores exemplos são os artigos sobre tapa na cara, sobre como deixar que sua mulher seja uma puta na cama, homem guerreiro, meditação e 10 conselhos para homens. Em meu próprio site, Não2Não1, muitas vezes também me dirijo aos homens. Já escrevi sobre como tratar mulheres com fome e raiva, sobre o poder do corpo, dança de salão, homens sensíveis e machões, prática de liberdade, profundidade e presença… […]

  • Dani

    Gu

    Como é que vc assim tão jovem consegue saber exatamente o que eu quero mas demorei anos pra descobrir??

    A dúvida que fica é se você consegue SER o que DESCREVE tão bem!

    Sorte da bela Isabela!!hahaha

    Beijo

  • índio

    Gustavo,

    Agora me sinto bem melhor na presença da minha namorada e na presença que proporciono a ela.

    As conversas fluem, os carinhos, os momentos, isso acontecia antes, mas sem direcionamento. Ultimamente tem nos proporcionado exatamente isso leveza, imprevisibilidade e espacialidade, hoje a vejo mais bela, mais espontanea.

    A prática tem que ser diária. Assim, acabamos internalizando isso e muitas outras coisas.

    Muito bons, todos as três partes.

    Abraço.

  • bruno

    Muito, bom, e de fato, pela profundidade do processo é necessário um instrutor. Verei se encontro algum aqui em pinheiros. Mas uma vez um bom trabalho.

  • HXC

    Gustavo, excelente seu texto. Quando você fala em somente tocar a vida, um livro, que recomendo a todos, vem a minha cabeça: Viagem a Ixtlan, de Carlos Castaneda. Na minha opnião é impossivel ler esse livro e não se sentir, em certo nível, tocado ou tranformado. A capacidade de somente “Tocar a vida”, da forma que interpretei em seu texto, é também um dos pré-requisitos essenciais para se viver como um verdadeiro guerreiro.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Cara, como já disse aqui, VIAGEM A IXTLAN foi o livro do Castaneda que mais me deixou arrepiado. Li em 1 ou 2 dias pelo que me lembro, em pé algumas vezes, ansioso e com um certo pavor diante das possibilidades da vida.

    Lembro dele até hoje. Leitura essencial para homens.