Série “Mulheres que me dão tesão” (2) - Tori Amos

“If you can’t create physical life, you find a life force. If that’s in music, that’s in music. I started to find this deep, primitive rhythm, and I started to move to it. And I held hands with sorrow, and I danced with her, and we giggled a bit.”
Ah, eu casaria com essa mulher! Quando listei meus mestres, propositalmente não mencionei a Tori. Minha relação com ela é em outro nível. Se fosse pensá-la como mestre, ela seria minha mestra de duas coisas: feminino e dor. Feminino, pois talvez não exista mulher mais mulher que ela. Dor… Não conseguiria contar as vezes que chorei ouvindo “Silent All These Years” e “Black Dove”. Com a Tori, aprendi a me deitar sobre as feridas e ficar ali. Apenas ficar ali. Eu colocava minha dor dentro da música e ficava observando como ela se movia, como ela virava piano e o que cada nota fazia com meu sofrimento.
O grande mérito da Tori foi entregar sua dor, sem enfeites, ao mundo. Ela é existencialismo com gloss. Xamanismo ao piano. Se deixarmos, ela faz conosco o que fez consigo mesma. Ela cura. E não tem nada mais feminino que a cura. Em inglês é mais bonito: healing. Os médicos podem se revoltar, mas o processo de cura reúne todos os elementos do feminino: sangue, abertura, acolhimento, cuidado, uso da natureza e suas substâncias, toque, preenchimento, restauração, espera, nascimento. O feminino regenera o que o masculino rompeu.
O feminino em Tori Amos
O trabalho da Tori preocupa-se em expor e criticar os extremos do masculino. Em homens e mulheres, na sociedade e nas religiões. Ela se liberou de seu abuso e hoje canta sobre as saídas aos abusos masculinos. O feminino que sai disso dá vontade de agarrar e trazer para casa.
O diálogo com o Cristianismo é constante. A negação do pecado e da culpa e a afirmação de uma espiritualidade genuinamente feminina, sem necessidade de apoiá-la ou derivá-la da masculina. O neologismo que condensa esse percurso foi encontrado e cantado recentemente por Tori: SINsuality. Para quem não sabe, sin é pecado. Antes da Gênese, na árvore da vida, Sophia insistiu: “You must eat of this”.
Original Sin?
No it should be
Original Sinsuality
No início da carreira, ela foi estuprada ao dar carona para um fã. “You know that saying, bad things don’t happen to good people? That’s a lie”. O estupro virou RAINN (Rape, Abuse & Incest National Network) e a música Me and a Gun. Cantada a capella, é de arrepiar (entre nos olhos dela):
It was me and a gun
And a man on my back
But i haven’t seen Barbados
So i must get out of this
É mais fácil citar exemplos do que teorizar. Um deles é o álbum Boys for Pele. Na mitologia havaiana, Pele é a deidade do vulcão, fogo, dança e violência. Pele é Tori. Pele é qualquer mulher: faz nascer os oceanos, está por trás dos vulcões, testa os homens e vira monstro quando somos medíocres.
Outro álbum: The Beekeeper, inspirado no livro The Shamanic Way of the Bee: Ancient Wisdom and Healing Practices of the Bee Masters, de Simon Buxton. A metáfora do abelha e do mestre apicultor inicia uma viagem que eu nunca imaginei fazer. De fato, a abelha poliniza, faz vida nascer. O apicultor é xamã e movimenta o feminino (homens, este deveria ser nosso mestre). A Tori fala sobre o processo:
“The Beekeeper really explores the story from the Creative Mother’s perspective because we know from the bible the Creative Father’s perspective. And in this garden, we do not call this the garden of original sin, we call this the garden of Original Sinsuality. You will see when you open up the album itself of The Beekeeper, which songs live in which gardens and you can take a journey with them. They’re their own Garden of Eden. They’re their own shape. It’s a sonic shape, so it’s not a physical space. This is a place where male or female may enter, it’s not just emotions of a woman. We all experience disappointment and we all experience transformation and we all experience passion. Even if it’s not passion for another human being, but passion is an essence in itself.”
“By eating from the tree of knowledge, our female character starts to experience all these things: Passion. Betrayal. All the emotions you could possibly feel in a relationship. Some I’ve put more emphasis on than others, but they’re all covered. And we developed the six gardens, number 6 being a reflection of the hexagon shape of the cells in the Beehive and of course the 6 days that it took the God in Genesis to create the world. Biblical mythology and the ancient feminine mysteries are joined together.”
Coincidência ou não, no Budismo a Roda da Vida possui também 6 mundos (experiências de vida possíveis) representados por 6 emoções. Nesse vídeo, Tori fala sobre um desses jardins (os outros cinco estão no YouTube). No fim, ela fala sobre a música The Beekeeper e sua relação com a morte de sua mãe (é impressionante):
A dor em Tori
Não espere o desespero de um Radiohead. Não espere a transcendência de uma Enya. Tori Amos não sai da dor. Ela monta seu set ali. Delicadamente traz a guitarra, monta a bateria, arruma o piano. Ela monta seu palco dentro de nós, bem dentro daquilo que tentamos evitar.
A dor da alienação e submissão:
She’s been everybody else’s girl maybe one day she’ll be her own.
A dor da solidão e invisibilidade:
cause sometimes i said
sometimes i hear my voice
and it’s been
HERE silent all these years
A dor da distância:
china all the way to new york
maybe you got lost in MEXICO
you’re right next to me
i think that you can hear me
funny how the distance
learns to grow
O que fazer com nossa dor? Olhe para a Tori. Um estupro e alguns abortos. Em vez de se livrar, ela liberou. Em vez de fugir, ela deixou entrar. A dor dói porque tenta invadir nosso corpo e nós não deixamos. A cura não é o sucesso de nossos esforços. A cura vem do fracasso, da desesperança, da entrega. Quando tiramos as fronteiras da dor, desobstruímos seu movimento.
Ora, a energia que sustenta o sofrimento é a mesma que depois nos regenera e infla de vida. Não há dois tipos de potência vital! Quando estamos contraídos e obstruídos, nosso nome é dor. Quando nos abrimos e oferecemos um espaço sem barreiras a tudo o que surge (liberar é isso), transformamos e direcionamos qualquer aflição para ações virtuosas: escrevemos, cantamos, pintamos, amamos. Aqui também a abelha: a vida ameaçada pica e faz doer. Resta-nos o exemplo do mestre apicultor…
Frases
Minha intenção era pegar só umas quatro, só que ficou impossível escolher as melhores! Deliciem-se:
“An ounce of breast milk is even more potent than the finest tequila.”
“I’m into drugs as a teaching tool, which is why I only take hallucinogenics. I mean, it’s not like I’ve never done cocaine, but, on the whole, if I can’t see dancing elephants then I’m not interested.”
“I love chasing the dark. That which is hidden. I like licking it like ice cream.”
“Guys would sleep with a bicycle if it had the right color lip gloss on.”
“I have so many different personalities in me and I still feel lonely.”
“I think you have to know who you are. Get to know the monster that lives in your soul, dive deep into your soul and explore it.”
“I usually get myself into situations that cause sparks. I mean I’m a girl that likes the storms. I love feeling alive, I love walking out in the cold in my bare feet and feeling the ice on my toes.”
“In our minds, love and lust are really separated. It’s hard to find someone that can be kind and you can trust enough to leave your kids with, and isn’t afraid to throw her man up against the wall and lick him from head to toe.”
“Some people are afraid of what they might find if they try to analyze themselves too much, but you have to crawl into your wounds to discover where your fears are. Once the bleeding starts, the cleansing can begin.”
“There’s room for everybody on the planet to be creative and conscious if you are your own person. If you’re trying to be like somebody else, then there is isn’t.”
“What girls do to each other is beyond description. No chinese torture comes close.”
“I’m a winter girl. I like coming out when things are desolate and everybody’s ready to slit their wrists.”
“If you call me a new-age, airy-fairy, hippie-dippy airhead I will shove my crystals up your ass.”
A filha da Tori
Assistam ao vídeo abaixo. Os homens terão uma imagem nítida do que é o espírito feminino. E as mulheres poderão sorrir ao saber que o feminino nunca morre. No fundo, ela fala de nosso ser livre… Vindo da Tori, posso dizer que ela sabe bem do que está falando!
Para quem gostou, recomendo:






Adoro a Tori! Uma fada, não é desse mundo.
Lindo td que escreveu sobre ela e mais linda ainda sua abertura!
bjs
Grande Gustavo!
ter encontrado teu blog foi como achar um “lugar” onde posso respirar tranquilamente e descobrir novas maneiras de pensar, ver e ouvir. Obrigada por tudo. Tudo o que encontro aqui me ajudou muito a entender meu sofrimento e minha possível alegria. Quis te dizer isso porque às vezes a gente não imagina o quanto pode influenciar pósitivamente a vida de pessoas à distância. Esse blog tem feito isso por mim.
God bless you
Maria
“a gente não imagina o quanto pode influenciar pósitivamente a vida de pessoas à distância.”
Maria, pode não parecer, mas o contrário também acontece. Sou bastante influenciado por quem passa por aqui, mesmo por quem não comenta (a maioria, aliás).
Eu percebo essa influência na minha própria mente, nos caminhos que ela me faz percorrer como se eu tivesse interlocutores sutis. É bem legal essa dinâmica!
Ah, e se você vê esse “lugar” no meu blog, é porque ele já está prontinho dentro de você. É meio paradoxal, mas nós podemos aprender novas maneiras de ver e sentir com nós mesmos… De fato, é isso que acontece, ainda que tenhamos a ilusão de termos aprendido aquilo de outro “lá fora”.
Estamos todos navegando o mesmo espaço básico. Estamos todos no mesmo lugar. Não há “lá fora”.
Abração!
eu adoreeeeei isso de “existencialismo com gloss”
Olá caro Gustavo. Também sou um grande admirador dessa magnífica mulher. Tori denuncia toda “mediocricidade” ao qual estamos submetidos no mundo da música contemporânea. Concordo com muito do que você escreveu, porém, não querendo ser pedante ou algo parecidol, gostaria de fazer uma ressalva. Melhor um ponto pra reflexão. Quando você escreve sobre a Dor em TOri você coloca: “O grande mérito da Tori foi entregar sua dor, sem enfeites, ao mundo”. Não concordo muito com essa tese. O que diferencia Tori do milhão de cantoras (os), que fazem de seus cds meras tranposições de diário, é o lirismo, a poesia. E isso, pra mim, é enfeite sim, é uma forma de se expressar que privilegia outra coisa que não o lugar comum, que desdobra essa dor emmais dor e em outras coisas possíveis (que é poesia pura e que, às vezes, beira a ironia e o sarcasmo (But I Haven´t Seen Barbados, so I must Get out of this). Essa questão que você coloca de se entregar a dor é muito interessante e me lembrou algumas coisas que a Clarice Lispector escreve sobre se deturpar pra alcançar o divino (ou algo do tipo). Desculpe a intromissão.Grande Abraço.
Rubens, muito bom seu comentário, cara! Obrigado. Concordo, claro.
Quando a letra é transposição de diário sem poesia, não há dor ali. Oferecer a dor sem enfeites já é o enfeite supremo que você descreveu. É algo raríssimo.
Acho que a Tori tem um pouco da Clarice, sim.
Tem até uma terapia que trabalha com essa abordagem da dor. É bastante reconhecida hoje em dia (por psiquiatras, inclusive). O nome é ACT (lê-se “act”, não como sigla): Acceptance and Commitment Therapy. Saiba mais:
http://en.wikipedia.org/wiki/Acceptance_and_Commitment_Therapy
Abraço!
pôxa, só agora q vi o vídeo e li o post. me emocionou muito, principalmente qdo ela sobre a mãe; toca fundo.
muito obrigada :0))))
Maravilhoso teu post, guri. Gostei absurdamente.
Abração.
“entre nos olhos dela”…vc coloca entre parenteses, mas n é menos significante, eu entendo isso!
Mas uma vez, conheço algo através de sua escrita que faz bem e alívia meu corpo e prazerosamente a minha alma!
“If you can’t create physical life, you find a life force.”
Tori Amos é A Mulher!
vagando pela net, ouvindo Tori, encontrei seu blog…
Você é o tipo de cara com quem eu certamente conversaria pra sempre.
Já te admiro.
Marcelo
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