P.S. I Love You (ou como fazer amor após a separação)

“Linda, domingo à noite fui no cinema ver esse filme, P.S. I Love You (trailer aqui). Não esperava muito, só queria um tempo a mais para digerir tudo antes de voltar para casa. Sabe, a meditação da manhã foi tranqüila, bastante gente, muita piada depois. À tarde é que a dor fisgou. Só eu e mais uma amiga corajosa ficamos para a meditação, ou melhor: só eu e a parede, 2h30 de parede, minha vida inteira, dentro e fora, subindo, descendo, arranhando.
Ainda estava com aquela nitidez absurda, que fica depois de uma boa parede, quando entrei no cinema e começou a briga na primeira cena. Como qualquer outra, sem propósito, sem conteúdo, só energia sendo liberada de um modo indizível até se aprumar esse jeito com lábios, peles e gritos.
Igual a nossa, dentro daquela relação maluca, lembra? Você me pegou confessando saudade ao telefone, entrou monstruosa no quarto, nem a briga seria uma opção, já estava pegando suas coisas para fugir… e a fechadura da porta caiu. Eu tranquei, começamos a brigar, a porta abriu, eu bati, caiu de novo. Na terceira, soltei um ensaio de sorriso, você não aguentou. E encontramos o jeitinho certo de falar o indizível.
O filme tem bom elenco, mas é caricato. Não deixa nada por trás, fala tudo, exagera um pouco, mostra demais. Só que fala bem, mostra bem, com verdade. Uma hora a mãe dela (feita pela grande Kathy Bates) ensina a la Rilke: “Thing to remember is if we’re all alone, then we’re all together in that too” (o importante é lembrar que, se somos todos solitários, então estamos juntos nessa, ou seja, é precisamente isso o que nos une). Amor de solidões, o mais belo de todos.
Em outro momento, um cara pergunta: “What do women want?” (a famosa “O que as mulheres querem?”). Ela diz que vai revelar, chega no pé do ouvido e sussurra: “We have no idea what we want”. Todo homem tem de ouvir ou sacar isso algum dia: “Nós não temos nenhuma noção do que queremos”.
O velório do cara se parece muito com o que eu desejo e já descrevi. Foi uma delícia ver essa cena. Chorei e ri, na mesma proporção. Vou lhe entregar esse meu documento em breve. Assim você saberá o que fazer quando eu morrer.
Minha identificação não foi só com o velório. A morte, o amor, essa carta – eis nossa condição em comum. Pois todo ex-namorado é Gerry Kennedy, morto, falecido, em cinzas. Meu corpo respira, eu sei, mas esse que lhe escreve está morto.
Ora, se nos amamos no início e no meio, o que mais nos resta no fim? Se nosso amor começou já como amor uma semana depois de nos conhecermos, se virou amor de mil jeitos nesses mais de 5 anos, o que mais faríamos no fim? Todo ex é Gerry Kennedy porque tem de aprender a liberar o outro, entregá-lo ao mundo, dar espaço, se retirar, let go. E só com amor conseguimos essa façanha, o mesmo que esteve presente desde o começo.
No meio de nossa relação, se eu soubesse de minha morte e fosse onisciente e todo-poderoso, eu procuraria o melhor dos parceiros para você. Agora, já morto, sem poder ou onisciência, só me resta confiar – na vida e em você – que surgirá alguém ou que existirá amor e brilho em você mesmo quando ninguém estiver ao seu redor.
Se meu amor liberou você de tudo, está na hora desse amor liberar você de mim mesmo. Depois, só o céu será nosso ponto de contato.
Eu luto com meu apego, sim. É só quando me canso, só quando desisto, que ouço uma outra voz, um outro eu que lhe diz: “Go now, and don’t look back”.
Você é isso que sempre amei: constante aprendizado, desdobramento de um brilho, um desbrilhamento. De agora em diante, sem precisar de nenhum espelho masculino, de ninguém para confirmar sua beleza, procure você mesma seu brilho mais profundo, que sempre esteve contigo, e pergunte ao horizonte: “Qual homem consegue penetrar esse brilho e me inundar de mim mesma?”.
No fim, é isso o que importa. Que haja amor. As histórias pessoais não importam, os personagens também não. Seja com quem for, se houver amor, eu estarei feliz.
Para você, morri. Sem dúvidas. A boa notícia é que você não é nem nunca foi você. Posso ter sido obrigado a me distanciar de você, porém ainda consigo sentir o cheiro de Shakti, sua natureza feminina, seu movimento, suas ondulações. Se hoje parei de beijá-la, continuo acariciando e respirando você em cada face feminina que surge ao meu corpo. Em cada vento, música, dança, sol, mulher, cena, gesto que se aproxima.
Esse amor não começou em nós e não vai acabar com nosso fim. Esse é o amor que não cessa. Vasto, insondável, ele segue. Meio sacana, meio teimoso, vive em mim e em você. É insaciável, porque sempre satisfeito.
Se me resta um desejo, aqui vai: que você não viva outro amor que não esse, o amor que não cessa. Se seguir essa única instrução com todos os seus futuros parceiros, serei eu na sua cama todas as noites, serei eu dentro de você, respirando você. Para essa mágica funcionar, minha linda, não quero que se lembre sequer de meu rosto. Por favor, apenas olhe e se entregue para o William que estiver à sua frente. Exatamente como se apresentar, com outra voz, outro corpo, outras idéias, outra história para lhe oferecer, ele será seu eterno amante.
Ah, para seguir uma tradição que vai de Shiva a Gerry, uma última coisa:

P.S.: Eu te amo”







elsas y freds, griffins & phoenixs, hollys and gerrys, andersons e leilas, mylas e flávios, gustavos e lindas, antônios e bias…
um ano, alguns meses, alguns anos, nove, quase dez anos, sete anos, cinco, algumas semanas…
nesse amor q não cessa, vc disse bem: pouco importa os corpos, tipos d envoltório. menos importa ainda o tempo junto.
deixar o outro ir é o derradeiro gesto d amor pra esse amar. um amar q a gente sabe q nunca foi da gente, q a gente só pode tomar pra si, o recebe, qdo o perde.
uma perda estranha, se for se pensar. pq na realidade nada nunca nos foi nosso - nem o tempo e nem mesmo os nossos corpos. mas, mesmo assim, é perda q dilacera, q rasga os dias e pode até mesmo rasgar além. pensamento nenhum faz sentido.
p.s. Gitti, vc já é esse desbrilhamento, aprendiz d desdobrar d brilhos.
(em bom tempo, shakti, em pele nova prata-dourada e coração lapidado numa rosa dos ventos, sorridente, destemida, ultra feminil, vai aparecer por aí - but not yet, q ainda não é hora.)
Que Anderson e que Leila? O resto ok, mas esses não sei quem são… Se for conhecido seu (igual um daí), pode enviar email. ;-)
E quem disse que tem de aparecer alguém? rs… Esse post é fictício, apenas uma brincadeira de fazer uma resenha usando a própria idéia do filme.
Isso aqui tudo é brincadeira, don’t you get it?
é Gu, tá certo, brincadeira como elsas y freds, griffins & phoenixs, hollys and gerrys, andersons e leilas, mylas e flávios, gustavos e lindas, antônios e bias…
tudo no pirilimpimpim! ;0)
Apego. Acho que a dor do fim se resume em apego. Porque toda separação é dolorida, mas quando vc deixa ir em estado de lucidez, vem uma felicidade enorme que abrange todas as possibilidades do mundo. Não é linda essa inclusão?
Acho que isso é o que conforta, todas as possibilidades que nos esperam em campo aberto após a morte.
Ter conhecido o amor de verdade é um puta presente da vida. Pra mim isso já vale todo o resto, todo preço.
Vire pó e dance no Universo, acho que é o melhor que tenho a dizer.
Se for brincadeira, leve isso a sério e se for sério, leve na brincadeira!
bjs
Alê
Olá!!! eu ainda não vi o filme, mas, é fácil desapegar quando estamos consciente que iremos para outra dimensão; e fazer bonito desejando que o outro arrume outro, sabendo que o amor é nosso, e, se eu amo, é minha essa capacidade/intensidade de amar. Mas cá entre nós, enquanto encarnados é apego sim, somos aprendizes de um amor incondicional, só que pra isso ainda falta um bom pedaço no caminho da evolução. Senão não estariamos encarnados na Terra, o planeta evolução.
Amar como Jesus, Buda, Krishna tem que ser o alvo, sempre.
Mais a aceitação do apego é fundamental para o crescimento do amor.
Um abraço,
Vanilda.
[...] Gitti do Não2 Não1, fala sobre o filme PS - I love you de uma maneira bem… Ah, passa lá e [...]
Teus textos são lindos, embora eu não concorde com algumas coisas. Pena que os relacionamentos na vida real não são tão poéticos.
Virei fã!
Bjs
Oi Gisele, estou contigo. Eu também não concordo com MUITO do que eu escrevo. Mas esse não é o ponto: às vezes é preciso discordar de si mesmo para ser sincero. ;-)
Bem mórbida né Gu… risos… Cara, dispenso completamente “eu te amo” depois de morto! Vou ver o filme, depois digo o que acho dele, adoro comédia romântica mesmo, drama banhado a lágrimas então, afffffffffffff, são meus prediletos, principalmente se o mocinho morre.
Felizmente, do teu “PS - I love you” só posso dizer que é muito melhor fazer tais reflexões e expô-las ao companheiro em vida, do que mandar cartinhas “post mortem” (se é que a expressão e assim).
Beijocas!
B.
PS - Eu também te amo, risos, mas o PS não é pra isso. O layout está melhor sim, ainda peno um pouco qdo coloco youtube, dá zica em quem usa firefox. Mas ele ainda vai mudar mais. Tô preocupada com o conteúdo. Tô feliz, um mes de blog e já estou mantendo uma média de 400 clicks/ dia, fora os feeds. Ainda não comecei com as entrevistas, convidados, mas já estou recebendo relatos. Tá indo o negócio… Beijos!
Gustavo, excelente este seu ensaio sobre este filme. Confesso que fui ver com a minha mulher e não esperava ouvir algumas tiradas geniais tal como a resposta ao que passa na cabeça das mulheres. Só gostaria de fazer um comentario sobre a tradução da frase da Kathy Bates:“Thing to remember is if we’re all alone, then we’re all together in that too” cuja tradução mais literal da outro sentido a frase:
lembre-se, se nós estivermos todas solitárias, então estaremos juntas nisto também.
Abraço
Amei o que você escreveu! Genial!
Sinto-me agora inspirada a deixar pra trás o que se foi e a buscar esse amor que não cessa em tudo, em todos e em mim mesma…
Oi Eduardo, obrigado pela tradução literal! É bem isso mesmo, valeu.
Abraço!
Gitti,
gostei de “às vezes é preciso discordar de si mesmo” e que bom saber que este pensamento está por trás de seus textos.
Não que eles sejam piegas, mas há uma diferença tênue entre a idéia contida em ensaio literário e o que verdadeiramente pensa seu autor.
Tenho tendência a ler blogs como pessoas, não como textos, e se você fosse seus textos (como eu tendo a crer) seria um cara meio… estranho? Não que isso tenha importância, os textos continuariam legais.
A propósito: seus textos me lembram os do Fabrício Carpinejar, um dos meus ídolos escritores gaúchos. Conhece o blog dele?
Reli meu comentário, espero não ter ofendido… hehehe.
Eduardo, não entendi o propósito de corrigir a tradução feita por Gitti, cujo sentido está perfeitamente correto. Não deu na mesma?
Nada de ofensas. Vou ler esse blog, valeu pela dica.
Mas é preciso esclarecer: nunca fui e não pretendo ser escritor. A minha proposta é me meter em algumas confusões dentro de relacionamentos e ver o que sai daí.
Quando é piegas, é porque é meu corpo falando. Não quero escrever bem, tanto que uso sempre as mesmas palavras e construções. A maioria dos meus posts eu mesmo não gosto de ler. Acho simplesmente chato e repetitivo.
Quero me comunicar apenas, ver se um blog serve para criar abertura. Por enquanto, estou achando que isso acontece, sim. Sigo experimentando…
Assim que descobrir um meio melhor via Internet, abandono isso aqui. ;-) Os outros meios são todos melhores, mas com alcance limitado.
Sentar para meditar aos domingos: 15 “unique visitors” na sala de meditação.
Realmente abrir o outro pelo sexo: 1 unique visitor na cama (2, if you get lucky).
Escrever um post sobre sua própria experiência com relacionamentos: 3400 unique visitors, 57 comments, em 3 dias. A intensidade é bem menor, mas o reach que me surpreende.
Abração!!!
Ei, agora você me deixou confusa. Acho que entendi a proposta do blog de maneira errada.
De qualquer maneira pretendo seguir lendo e contribuindo com as conversas quando der vontade.
Mesmo sem querer, você escreve bem. :-)
Também assisti a esse filme, foi ontem, e fiquei com uma perturbação reflexiva que só passou quando escrevi sobre o que senti ao me transpor para a tela (eu faço isso de vez em quando…).
Na blogosfera a gente acha mesmo de tudo, mas, desse tudo, poucos escrevem bem. Você é desses: escolhe as palavras como quem escolhe feijão porque não escreve com a forma que elas têm, mas como sentido que carregam. Vou ler mais e quero agradecer por ter prendido a minha atenção. :o)
Kandy, li também seu post sobre o filme e sobre Cem Anos de Solidão, em outro blog. Gostei muito de ambos. ;-)
Obrigado por passar por aqui.
Gu
Belíssima descrição. Deu vontade de assistir ao filme (e levar a patroa). Abracos!
Meu Deus, quanto filme bom estou perdendo. Na India, so posso ver Bollywood no cinema. Os filmes ocidentais que passam aqui sao de acao, tranqueira. Ou coisa para crianca — assisti a animacao do Seinfeld recentemente, em Mumbai.
Bela resenha. O filme esta na minha lista. Um dia assisto.
Esse filme é lindo… ele devia se chamar “tudo o que uma mulher sonhadora e romantica quer”.
Aí com esse título ia lotar de homens as sessões, com cadernetas pra anotar as dicas. E assistindo o filme só se ouviria as tais cardenetas sendo jogadas no chão e homens levantando um por um dizendo “mas isso é ridículo!”
Enfim, cada relacionamento é único. Cada pessoa é única e tem seu próprio encantamento. E cada amor é diferente também. E ainda bem!
Bjs
Poxa, onde eu estava que não conhecia teu blog?
Felizmente o Inagaki te indicou e adorei o nome do blog; agora estou rendida ao blog também!
Vista certa e te linko lá no meu…
abraços,
Sandra
Vc escreve lindamente.
E não interessa se foi “fictício”: tem muito de ti aí, nas entrelinhas.
Parabéns…
Adorei seu texto. Tenho este filme há tempos e ainda não o assisti.
Hoje, navegando, me levaram até seu bolog e dei de cara com este post incrível!
Gostaria de tê-lo escrito…nas devidas proporções, é claro.
Parabéns!!!
Beijão,
Cris
Olá Gitti! Olha, realmente eu não esperava muito desse filme e dps que assisti, vi que estava errada. Muito bom!!
puta merdaaa….quase chorei.
(q bostaa!!)
vi seu texto na PdH e vim conferir oque acontecia aqui no seu blog…
valeu a pena!!!
Abraços
thiago, mais novo visitante.
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