Paixão e Intimidade

por Gustavo Gitti 16 June 2006 9 comentários

A Mente Erótica - Livro

Paixão é o risco vindo do mistério do outro. Intimidade é o conforto que a transparência oferece. Qual você prefere em um relacionamento?

Estava lendo uma resenha sobre o livro The Erotic Mind: Unlocking the Inner Sources of Sexual Passion and Fulfillment, de Jack Morin (publicado no Brasil pela Rocco).

Achei interessante a distinção que ele faz entre intimidade e paixão. Intimidade é definida como a sensação de conhecer cada detalhe do parceiro – é a segurança, o conforto, a transparência, um sentir-se em casa. Já a paixão surge quando percebemos o parceiro como um mistério insondável, como alguém que nunca poderemos conhecer, tocar ou acessar totalmente – é a insegurança, o risco, o incerto, a aventura.

Eu ainda não li o livro, mas sinto que as relações que possuem apenas um desses contrários não duram muito, não se desenvolvem, não nos completam. Somente intimidade é quase como uma profunda amizade. Não há desejo sexual, não há polaridade entre os parceiros, não há vontade de penetrar o outro, não há surpresas, somente um terno abraço e um longo andar de mãos dadas. Por outro lado, se uma relação é construída somente pela paixão, os laços são frágeis e nossa ânsia por intimidade rapidamente desgasta os encontros. Sem intimidade, fica faltando algo no sexo, no carinho, na conversa. Fica faltando algo na própria paixão.

Talvez a paixão autêntica apenas floresça em meio à intimidade. Talvez a intimidade só surja com a paixão, como o côncavo e o convexo. Talvez elas nasçam e morram juntas, pois quando o que existe é a sensação de saber tudo sobre o outro, há o tédio e não intimidade, e quando o outro é apenas um mistério inalcançável e fascinante, há a distância e não a paixão. Sem paixão, a intimidade acaba morrendo por asfixia, sem conseguir expressar-se por meio de atos transgressores. Sem intimidade, a paixão não se sustenta e perde o sentido, como um final de filme para quem não viu o início e o meio.

Tem de haver contato, mas o contato nunca pode chegar a acontecer… Por isso nos beijamos, esfregamos, suamos juntos: tentamos o contato que não é possível por meio dos contatos que nos são possíveis.

Sexo e abraço, aventura e acolhimento, paixão e intimidade. O sexo pleno demanda o mínimo de intimidade e a conexão transparente só nos completa quando se desdobra em sexo, em paixão, em envolvimento com um outro que nunca se mostra totalmente ao nosso olhar.

Somos, a um só tempo, totalmente expostos, cognoscíveis, e totalmente inacessíveis, incognoscíveis. Nosso parceiro sempre está perto demais e distante demais. Em nossa dimensão epidérmica, desejamos nos vestir com o outro, desejamos intimidade. Em nossa dimensão abismal, nos apaixonamos ao correr a distância irredutível do outro.

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Para transformar nossas relações

Há algum tempo parei de escrever no Não2Não1 e comecei a agir de modo mais coletivo, visando transformações mais efetivas e mais a longo prazo. Para aprofundar nosso desenvolvimento em qualquer âmbito da vida (corpo, mente, relacionamentos, trabalho...), abrimos um espaço que oferece artigos de visão, práticas e treinamentos sugeridos, encontros presenciais e um fórum online com conversas diárias. Você está convidado.



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9 comentários »

  • Bruno Lemos

    Caí nesse blog meio ao acaso (li alguns artigos seus na Papo De Homem), e estou simplesmente sem palavras. Juro que não consigo achar palavras para comentar esse post!

  • Gustavo Gitti (autor)

    Que bom, Bruno. Valeu pelo comment.

    Normalmente é o público feminino que gosta dos textos. MUITO legal saber que tem homens por aí sabendo valorizar essas questões também.

    Abraço!

  • Os motéis invisíveis de São Paulo (ou como fazer amor com estranhos) - Parte 1 | Não Dois, Não Um: Um blog sobre relacionamentos lúcidos

    […] Não escolhi tampouco os três últimos títulos, já que não tenho certeza de que todos lerão o seguinte artigo do Contardo Calligaris (Folha de São Paulo, 11/11/2005): “Melhor não conhecer quem você ama”. Pois insisto: não prossigam aqui sem antes passar pelo Contardo. Além disso, lembro que esse post aprofunda um mais antigo do Não2Não1: “Paixão e intimidade”. […]

  • Andrea Di Girogio

    Penso, sinto e manifesto,que se carinho, não há intimidade.
    Grande beijo pra tu escritor iluminado.

  • Alice

    Sem paixão, a intimidade acaba morrendo por asfixia, sem conseguir expressar-se por meio de atos transgressores…

    …………………Disse TUDO!

  • Tainah Fernandes

    Que moço interessante.

  • Ju

    Atualmente ando às voltas sobre essa tal intimidade, não só a intimidade nas relações entre o casal, mas também nas amizades, entre familiares etc.

    De um lado, como diria uma sábia amiga “a intimidade é uma merda!” (aguarde um post sobre o assunto), mas por outro, sem ela a vida não passa de um cinza e morno letárgicos.

    Interessante essa idéia de que só intimidade faz com que a relação vire uma profunda amizade, a mais pura verdade, mas, definitivamente “sem intimidade, fica faltando algo no sexo, no carinho, na conversa. Fica faltando algo na própria paixão”.

    É quase um alívio que me dá ao me ler no que escreve.

  • Nathalia

    ja tiveram a sensaçao de experimentar pela mesma pessoa, paixao e intimidade em completa assincronicidade?

    é engraçado… No inicio aquela paixao que a gente tenta controlar com a busca da intimidade, a paixao queima, a intimidade existe. A separaçao acontece por um fator externo, a paixao se guarda, bem no fundo de uma gaveta. com a intimidade é impossivel de fazer o mesmo. ela esta la e qualquer minimo contato a instiga.

    e a intimidade iminente tenta abrir aquela gaveta trancada. e o bom senso vendo isto tudo mostra a data de validade passada…

    tudo culpa da assincronicidade…

  • BEL

    muito interessante mas o bom mesmo eh ter os dois…