Não discuta a relação
Além dos ensaios e dicas, vou iniciar uma nova categoria aqui no “Não dois, não um”: indicações de livros. Espero, com isso, contribuir para que insights surjam em algum dos parceiros e os relacionamentos melhorem, fiquem mais vivos e lúcidos. Aliás, eu já tinha indicado um livro genial logo no início deste blog, neste post aqui.
Vamos à ficha técnica:
Não Discuta a Relação: Como melhorar seu relacionamento sem ter que falar sobre isso
Autores: Patricia Love e Steven Stosny
Editora: Nova Fronteira
Nº de páginas: 288
Domingo fiquei um tempo lendo este livro com minha namorada na Livraria Cultura (aliás, se você morar em Sampa, vale a pena conferir o novo espaço!). Achei o título genial: How to Improve Your Marriage Without Talking About It: Finding Love Beyond Words (Patricia Love e Steven Stosny). E eu concordo com o mote que o sustenta: “Love is not about better communication. It’s about connection.”
Apesar de ter um excessivo discurso auto-ajuda (principalmente no final o livro se perde), eu achei algumas orientações geniais e right on the spot! O livro não é bom o suficiente para me fazer comprá-lo, mas interessante o suficiente para nos fazer pensar um pouco. Seu grande problema é simples: o título é muito bom em comparação com o conteúdo. Um título desse deveria render um livro mil vezes melhor do que o atual, não um amontoado de siglas, metáforas imbecis e métodos 1-2-3.
Mas vamos ao essencial… Na parte boa do livro, os autores resumem o problema dos relacionamentos em dois processos que afetam a relação. Chamam de vergonha a diminuição da potência masculina e listam inúmeras situações em que isso acontece, muitas delas com uma boa ajuda da parceira. Pelo lado feminino, o problema detectado resume-se em solidão/medo e eles explicam por que a causa disso é muitas vezes o próprio homem.
No limite, tal dinâmica do casal leva a uma sensação de total isolamento na mulher e de fracasso no homem. De fato, um processo alimenta o outro. A insegurança da mulher faz com que o homem sinta vergonha, enquanto que a impotência masculina aumenta a solidão feminina. Isso afasta e irrita ambos. É como se ele desejasse dizer a ela: “Você não confia em mim? Seu medo e insegurança fazem com que eu me sinta um fraco e perdido!”. E ela a ele: “Por que você não se aproxima? Sua depressão e falta de direção me fazem sentir medo, totalmente sozinha em meus sonhos, sozinha em meus mundos”.
As partes mais inovadoras do livro são: “The Worst Thing a Woman Does to a Man: Shaming” e “The Worst Thing a Man Does to a Woman: Leaving Her Alone but Married“. Todos os itens da primeira lista são exemplos de como uma mulher pode assumir a energia masculina da relação e dificultar a condução de seu homem. Os itens da segunda lista possuem também algo em comum: um espírito frágil que não consegue penetrar e conduzir as energias femininas. E não vou citar exemplos porque o mais efetivo é olhar para nossas próprias vidas e revelar os nossos próprios.
A saída recomendada divide-se em quatro focos: toque, rotina, atividades e sexo. Ou seja, nada de conversa, diálogo, emails e bla, bla, bla. Como diz uma amiga, conversa é para amigos. Entre amantes, deve haver tensão e equilíbrio, equilíbrio em cima da tensão e muita tensão embaixo do equilíbrio. Pela tensão, nos transformamos; no equilíbrio, repousamos. Ou, como diz meu mestre, a linguagem na qual o mundo opera é a da energia, não a discursivo-conceitual. Lembro também daquela pesquisa que mostra como homens que tocam nas mulheres desejadas possuem mais chances de conquista do que os que não o fazem. O biólogo Humberto Maturana concorda, ao defender que nenhuma discussão se resolve com argumentos racionais:
“Every rational system has an emotional basis and this explains why it is not possible to convince anyone with a logical argument if an a priori acceptance has not been made beforehand.”
O sentido original da palavra “conversar” vem do latim versare (”virar, dar voltas”) e cum (”junto, com”). Ou seja, conversar é virar junto, como fazemos muito no tango e no bolero. A verdadeira comunicação nunca é semântica, nunca ocorre por signos, símbolos, sons e palavras. Se comunicação é conexão, ela sempre ocorre por contato, condução, dança. Quando falamos algo a alguém, na verdade estamos conduzinho o olhar do outro, interagindo com sua corporalidade, pegando na mão do outro e levando-o para passear. É isso o que acontece quando explicamos uma filosofia, contamos uma história ou simplesmente batemos papo. Eis por que Maturana afirma que a linguagem humana é conotativa, não denotativa. Ela não nos informa ou transmite significados à mente, ela nos orienta, nos conduz por dentro de um universo particular e nos faz ver e tocar com o corpo.
Para entender como isso funciona, experimente resolver um problema com uma conversa estritamente analítica. Sentem-se distantes um do outro e comecem a listar as reclamações, fazer brainstorm de soluções, escrever metas e objetivos rumo a uma conclusão. É fascinante perceber como nenhuma argumentação lógica, ainda que sofisticada e totalmente impecável, consegue dissolver nós emocionais. Sofremos porque paramos de dançar. A solução não é parar a música, sair do salão e começar a discutir. A solução é ouvir a música e voltar a dançar.
Se no início é difícil encontrar um caminho do meio entre discussão e dança, basta tentar algo no outro extremo. No meio do caos, supere seu orgulho e sua raiva (sem isso, você sequer conseguirá sentir tesão, tamanho nosso estreitamento nesses momentos), conecte seu corpo inteiro por meio da respiração e ataque-a! Ela vai resistir, talvez querer voltar para o diálogo, mas se havia raiva, agora há energia, e se há energia basta redirecioná-la. Qualquer casal sabe bem como o makeup sex é talvez o mais delicioso dos prazeres…
Enquanto os homens se esforçam em filosofar e construir prédios, as mulheres – esses seres naturalmente mais sábios – não perdem tempo com as linguagens materiais. Elas ouvem e falam só poesia, aquele perfume inexistente que dá vida a qualquer coisa que faça algum sentido. Ele manda um email, escreve bits, letras no teclado, pensamentos em português. Mas ela não lê os bits. Seus olhos ignoram letras. Seu corpo capta cada pensamento como um som. Não me perguntem como, mas o que ela vê são os gestos de quando ele escrevia, sua mão sobre o teclado, a quantidade de força e suavidade, seus olhos fixos além do monitor, sua respiração, ritmo, os pés, o corpo na cadeira. Ela se interessa pelo movimento, pela condução, pelo cheiro daquilo. Sua comunicação é incorporada. Ela lê com o corpo e para lhe dizer algo basta se conectar e usar palavras como um adorno, assim como a poesia abusa dos poemas. E isso, o email como gesto poético, isso a seduz, isso a convida para dançar. Outro homem poderia replicar os bits e enviar o mesmo email… Nada disso seria lido, não haveria o convite.
Por fim, duas dicas que, em minha visão, também não são bem exploradas no livro:
Para ela: “Let him see you happy. Your man loves to make you happy.”
A potência masculina cresce à medida que ele se sente capaz de fazer uma mulher feliz, de oferecer, de prover. O que o deixa feliz não é tanto o poder que ele sente (ainda que muitos afirmem isso), mas a segurança que ela recebe. Portanto, uma mulher generosa exibirá sua alegria para seu homem e com isso aumentará sua potência, alimentando o ciclo que nutre sua própria felicidade.
Para ele: “Understand the compassion paradox: If it’s available whenever needed, it’s rarely needed.”
Um homem disponível – lúcido e pronto para receber todas as energias femininas – raramente terá uma avalanche de reclamações e pedidos de sua parceira. No entanto, um homem fechado, pouco disponível e autocentrado em suas próprias complicações, receberá pedidos, exigências e reclamações a todo momento! Uma mulher que se sente acolhida (lembrando que não basta você achar que ela é acolhida, ela precisa se sentir acolhida!) pode passar dias longe, feliz, sem desconfianças, andando, se desenvolvendo. Já uma mulher que se sente isolada buscará por contato e segurança a cada instante, testando você, exigindo mais, reclamando de cada detalhe.
Por enquanto, é isso que tenho para compartilhar. Boa leitura!
E vocês? Que livros indicam? Deixem comentários ou me enviem um email.







querido Gustavo, mais uma vez, com poucas e simples palavras, vc disse tudo: right on the spot!
descobri esse cantinho deliciosamente lúcido qdo pesquisei sobre K Wilber na internet há quase um mês. foi um presentão!!! já te li inteiro, te releio às vezes, qdo dá vontade e, claro, endosso o coro dos fãs.
acho que não dois, não um deveria ter um doce apelido: orvalho da alma.
parabééééééns!!!
abraços de BH,
myla
Poxa, Myla, obrigado pelas carinhosas palavras. Não achei seu email para lhe agradecer mais diretamente.
Um abraço, Gustavo.
Olá! é a primeira vez que faço uma visita ao blog e estou verdadeiramente impressionada, nem eu nos meus poemas conseguiria explicar com tanta maestria o que os meus sentidos disseram quando leram estes posts! É incrívelmente coerente, me deu respostas pra coisas que eu jamais pensei serem explicáveis… Estou de fato impressionada e feliz em saber que agora encontrei um lugar excelente pra passar meu tempo… Acredite, minha alma sente-se renovada e cheia de energia pra terminar este dia! Muito grata por sua sensibilidade em dividir conosco estas palavras.
oi Gustavo,
descobri seu blog passeando pela net e ADOREI!!
já era prá ter comentado antes, mas a pressa …. vc entende não!
pois é, agora venho aqui pois te linkei no meu blog para um destaque … seu blog é ótimo!!
bjs
;-)
Gustavo, cada vez que passeio por aqui fico mais impressionada com suas reflexões, sua sensibilidade e a forma poética com que descreve o universo feminino (é o que vejo na sua apreciação do livro). A sugestão de “solução” dos dilemas pelo não verbal, mas sim pela energia, pelo encontro, pelos toques é perfeita pra mim. Acredito tanto nisso. A racionalização exacerbada do nosso mundo é uma porcaria e gera um empobrecimento enorme da nossa existência. Ler textos como o seu é um conforto pra minha alma, e reforçam a minha crença na possibilidade de encontros opostos aos “amores liquidos” que às vezes parecem ser a regra no nosso tempo.
Bjs
Gostaria de saber se vcs tem como mim informar se é normalum homem de 46 anos não ter relações com frequencia e não gostar de fazer sexo oral e de fazer qualquer tipo de preliminar na esposa? estou casada a dois anos e mim sinto muito mal com essa relação por favor mim ajude a entender e ao que fazer?????????
Oi Dan,
É muito difícil saber o que fazer. Você mesmo tem essa resposta. Converse com quem conhece seu parceiro, pense em formas de abri-lo, faça uma massagem, convide-o, peça, se ofereça.
Se fosse eu, gostaria de ouvir você reclamar com todas as sílabas: “quero isso, você não faz isso, nem isso, eu preciso disso”. Melhor ser sincera do que começar a se envolver com outro homem que faça o que você deseja.
Experimente e depois nos conte aqui os resultados. Boa sorte!
Gu
[...] Se você desejar ler mais sobre isso, clique aqui (reflexão sensacional do Gustavo Gitti sobre os tais relacionamentos). [...]
To chocada.
Bom demais!!!!
Acho que vou ter que ler mais umas 5 vezes, pelo menos, para assimilar e passar a por em pratica.
Mulher tem essa mania de querer discutir a relacao e isso nunca funciona! Nao sei porque a gente insiste!!
Obrigadissima pelas dicas, clarificacoes e insights.
Li o livro Tantra do Georg Feuerstein ha’ muito tempo atras. Muito bom.
Estranhei voce nao recomendar “Homens sao de Marte, Mulheres sao de Venus”. E’ bem basico, mas explica coisas obvias que a gente nao percebe. Para mim, foi um otimo “open-eyes” inicial.
B
*Beijo
Este livro só fala bobagens!
Eu o li brevemente na livraria e não o levei.
Os casais não podem resumir suas uniões numa relação macho-fêmea.Nem tudo se resolve na cama.
Companheirismo e amizade também faz parte de um
relacionamento.No diálogo , desenvolvemos admiração,respeito pelo parceiro.Há o fortalecimento das razões que nos une a um outro alguém.
Além do mais, num diálogo, sempre nos situamos mais rapidamente se esta pessoa é aquela com quem realmente queremos dividir nossa vida, ou se é melhor para ambos cada um seguir seu rumo.
Um abraço Gustavo, curto muito seu blog
Nossa !!!
Gustavo, sem palavras para descrever vc.
Acho q o sonho de qq mulher…rsrsrsr….não me entenda mal “sou legal, n estou te dando móle!”….rsrsrsr
Mas sério….sensacional sua forma de escrever e pensar….virei sua fã !!!
Adoro escrever e ler….virei sua frequentadora assídua !!!
Abraços..
Boa tarde!
Me mande seu blog.
Mulher tem essa mania de querer discutir a relacao e isso nunca funciona! Nao sei porque a gente insiste!!
Tatiane, como assim “me mande seu blog”?
Achei a abordagem feita por vc a respeito do livro ” não discuta a relação”, o qual só li um artigo, interessante quando vc fala da linguagem falada. Concordo em alguns ponto com o que disse. Prá que falar com o outro se ás vezes não nos ouvem? Por outro lado, acredito que a estrategica do contato funcionará até enquanto houver algum resquiço de envolvimento, quando não existir o mais viavel é achar uma solução que atenda aos nossos interesses. Essa não é a verdade plena e sim, um ponto de vista.
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