Minto (por Fabio Rodrigues)
“Crer é errar. Não crer de nada serve.”
- Fernando Pessoa
Isto que já começo a dizer é emprestado, estou mentindo. A cara, a boca, a mão, não são as minhas. E não é demais avisar que já começo a falar com o orgulho disfarçado de quem acredita saber algo a mais. Mas importa pouco. Essa coisa a que temos por hábito chamar de verdade, não a conhecemos ou vemos, tão menos nos pertence. Apenas ocorre que estamos acostumados a elas como ao rosto de nossas mães. A vergonha que eu quase sinto por fingir, desconfio que ela seja falsa – a ética, tal verdade, é repetidamente inventada. Invenções, elas são previsíveis e quase sempre adiáveis, elas mesmas, por si, tão pouco importantes. Mas a mentira é isso que já temos desde o começo – ela nos poupa de um esforço a mais e o velho hábito é condescendente.
Digo-o apenas para explicar que aceito de bom grado, então, o que me for diverso do acerto. É preciso notar que, de fato, eu desejaria alguma outra coisa que não o engano, mas na falta disto outro, o erro está bem.
Sei também, desde agora, a mentira que já vais me contar em resposta, e sei que ela será anunciada com o mesmo orgulho que tento velar. Vejamos: enganadores, nós não estamos sós. (Já disse que minto).
…
Fiz questão de publicar mais um texto do Fabio Rodrigues, amigaço e responsável pelo banner superior do Não2Não1. Leia seus outros dois: “Increíble” | “Coisa alguma“.

“Digo-o apenas para explicar que aceito de bom grado, então, o que me for diverso do acerto. É preciso notar que, de fato, eu desejaria alguma outra coisa que não o engano, mas na falta disto outro, o erro está bem.”
Adorei isso! Texto que encaixa muito bem nesse momento.
Como disse Quintana “A mentira é uma verdade que ainda não aconteceu”.
bjs
Bom texto-espelho… risos. Pra pensar…
Belo texto. Vou já lá conhecer mais do rapaz.
…
twitter, blog, orkut, a gente se esforça pra q o outro nos conheça, mas o que realmente queremos é a liberdade de não ser conhecido
Será? Acho que em tudo isso, a gente mente pra caramba, também. Já dizia um filósofo famoso “a pessoa que fala muito de si tem muito a esconder”.
Beijo pra ti.
esse é o cara com quem tenho várias das minhas melhores conversas ;)
e esse é o texto dele, até agora, q mais gostei: um presentaço ver q tá aqui, pra muitas outras pessoas lerem tb.
niiiinja!!!!!! rs
Sem palavras! Perfeito..
Não quis comentar no próprio post para não sugerir possíveis interpretações, então deixo aqui meu comentário.
Talvez seja preciso saber do contexto filosófico no qual o Fábio se insere (uma mistura de humanismo, ceticismo, existencialismo e budismo), ou de seu histórico de relacionamentos, para compreender o que está dito neste curto texto.
Suas palavras vêm de uma perspectiva que supera o eternalismo (a crença na existência de alguma verdade última) e o niilismo (o abandono das verdades relativas). É como se o niilismo se voltasse a si mesmo e começasse a afirmar coisas.
Para se relacionar sem artificialidades com o outro, é preciso que nós mesmos nos descubramos artificiais. Para não manipulá-lo, deixemos ser manipulados. Para não jogar, entremos primeiro no jogo, antes de qualquer um.
Para não mentir, sejamos inteiros mentira. Para não errar, sejamos erro.
Abração, cara, valeu!
Interessante.
Sempre achei mesmo que a verdade é relativa. pois pra um mesmo fato sempre existe 3 histórias, a minha, a sua e a verdadeira.
Mas nunca tinha visto o lado da mentira, somos todos uma mentira que contamos todos os dias esperando que ela se torne verdade.
Somos todos grandes mentirosos, verdadeiramente mentirosos.
Caio, na perspectiva que adoto (e acho que o Fabio concorda pelo que vejo em nossos diálogos diários), a mentira deixa de ser mentira no exato momento em que cessa a oposição à verdade.
Quando tudo é ilusão, não faz mais sentido falar em realidade. Quando tudo é realidade, não faz sentido falar em ilusão. O mesmo para verdade e mentira.
Se mentimos pensando falar a verdade, enganamos a nós e aos outros. Se mentimos sabendo disso, surge autenticidade, espontaneidade e leveza em nossas relações. A beleza dos 3 textos do Fábio (não só nesse) está na expressão deste estado livre e descomplicado.
Abs!
Bom ponto de vista.
sem mais, tudo eu possa escrever depois não tem mais solidez nenhuma.
então fico por aqui.
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa.
Comentando um pouco mais antes de tirar o texto do destaque…
A essência da mentira é justamente a tentativa de se passar por verdade. Só é mentira aquilo que quer ser verdade. As relações falsificadas, o tempo perdido, os enganos, as mentiras que contamos uns aos outros… Tudo só se faz possível porque buscamos a verdade, em nós e nos outros, na vida e no mundo.
Se retiramos o desejo por verdade, a mentira negativa não se sustenta. Ela sequer surge.
Desista, o mais rápido possível, de encontrar a verdade do outro. Desista, urgentemente, de ser coerente consigo mesmo.
Num mundo sem verdades, não mais é preciso mentir. Podemos nos relacionar abertamente com os outros, já admitindo nossa falsidade logo de saída, como o Fabio descreveu tão bem no texto.
Hummmm, que coisa linda. Ser ou não Ser…. tentamos nos enganar mais que aos outros. E como doi!
bjus
parabens
Droga! Agora me apaixonei pelos dois.kkkkkk
[...] na sua casa, faça a assinatura online.Aqui no Não2Não1, já publiquei três textos do Fabio: “Minto”, “Increíble”, “Coisa alguma”.//LinkWithinCodeStart var linkwithin_site_id [...]
Não sei se é porque estou cansada, o fato é que não entendi nadinha deste texto.
Hahahaha…ninguém precisa explicar…quer dizer: se é que alguém iria tentar…
Depois voltarei descansada e o lerei novamente e, então, se continuar sem entender é porque o texto não é para o meu uso.
Resolvi, apesar da minha limitação de entendimento, compartinhar como entendo a questão da verdade: ela, bem como a realidade, é inapreensível.
Desta forma, nenhum de nós a detém totalmente.
Para vivermos da forma mais plena possível é bom que saíbamos que podemos ter apenas uma porporção dela e manter a mente e o coração abertos para a dos outros que, inclusive, pode ser o oposto da nossa.
O contrário de uma verdade autentica não é uma mentira, mas, paradoxalmente, outra verdade.
Vou parar porque, como já confessei (e é verdade) estou cansada para aprofundar na filosofia.
beijos
Olá Gitti,
Veja que interessante este texto do Krishnamurti.
Segundo ele a verdade é, ao mesmo tempo, atemporal e sempre nova.
Talvez estas características representem também a mentira…
Estou repassando porque achei didático e interessante.
abraço,
Áurea
Em tempo: não uso mais pseudônimo.
Não há caminho para a verdade, ela deve vir até você. Mas a verdade virá tão somente quando sua mente e seu coração forem simples, puros. Quando lá existir o amor. Não haverá espaço para a verdade se o seu coração estiver ocupado com as coisas da mente. Quando há amor no seu coração, você não fala sobre organizar-se em irmandades; você não fala sobre crenças; não fala sobre divisões e forças que criam conflitos. Não precisa esforçar-se por reconciliações. Você é simplesmente um ser humano sem rótulos, sem bandeira.
Isto significa que você precisa despir-se de todas aquelas coisas e deixar a verdade entrar em seu ser. Ela virá quando a mente estiver vazia, quando a mente parar de inventar. Então a verdade chega sem ser convidada. E ela virá tão rápida quanto o vento. Ela chega de repente, quando você não estiver olhando nem a espera. Súbita como o Sol, pura como a noite. Mas para recebê-la seu coração deve estar cheio e sua mente vazia… Como estão eles agora.
Assim, não há nenhum caminho para a verdade, e não há duas verdades. Verdade não é do passado ou do presente, é “atemporal”; e o homem que cita a verdade do Buda, de Shankara, do Cristo, ou que repete o que eu estou dizendo somente, não achará a verdade, porque a repetição não é nenhuma verdade. Repetição é uma mentira. Verdade é um estado de ser que surge quando a mente – que busca dividir, ser exclusiva, que só pode pensar em termos de resultados, de realização – se acabou. Só então a verdade poderá estar lá.
A mente que está fazendo esforço, enquanto se disciplinando para alcançar um fim, não pode saber a verdade, porque a meta é sua própria projeção, e a perseguição daquela projeção, mesmo nobre, é uma forma de auto-adoração. Tal ser que está adorando a si mesmo não pode conhecer a verdade.
Verdade só será conhecida quando nós entendermos o processo total da mente, quer dizer, quando não há nenhum “conflito”. …Verdade não é contínua, não tem nenhum lugar permanente, só pode ser percebida de momento a momento… A verdade é sempre nova; é ver o mesmo sorriso, e vê-lo como novo, é ver a mesma pessoa, e ver uma pessoa nova, é ver as novas palmeiras ondulantes, conhecer a vida novamente
Há comparação quando vocês dizem: “Lembro-me daquele rio que vi há um ano e ele era ainda mais bonito.” Vocês se comparam com alguém, comparam-se com um exemplo, com o ideal máximo. O juízo comparativo embota a mente; ele não torna a mente mais perspicaz, ele não a faz abrangente, compreensiva, – porque, quando se passa o tempo todo comparando, o que acontece? Vocês vêem o ocaso e o comparam de imediato com o ocaso anterior. Vocês vêem uma montanha e percebem sua grande beleza.
Depois dizem:
“Vi uma montanha ainda mais bonita há dois anos.” Quando comparam, vocês não estão de fato contemplando o pôr-do-sol que está na sua frente, mas o contemplam a fim de compará-lo com alguma outra coisa. Assim, a comparação impede que vocês contemplem plenamente. Olho para você, que é bonito, mas digo: “Conheço uma pessoa muito mais bonita, uma pessoa muito melhor, uma pessoa mais nobre, uma pessoa mais tola”. Quando faço isso, não estou olhando para você. Como a minha mente está ocupada com outra coisa, não estou absolutamente olhando para você. Da mesma forma, não estou absolutamente contemplando o ocaso. Para se contemplar de fato o ocaso, não pode haver comparação; para olhar de fato para você, não posso compará-lo com outra pessoa.
Somente quando olho para você sem um juízo comparativo é que posso conhecê-lo. Porém, quando o comparo com outra pessoa, eu julgo você e digo: “Ah!, ele é um homem muito estúpido”. Assim, a estupidez surge quando há comparação. Eu o comparo com outra pessoa e essa mesma comparação elimina a dignidade humana. Quando olho para você sem comparar, interesso-me apenas por você e não por outra pessoa. O próprio interesse por você, sem comparações, gera a dignidade humana.
Em conseqüência, enquanto a mente está comparando, não há amor; e a mente está sempre julgando, comparando, avaliando, procurando descobrir onde está o ponto fraco. Logo, onde há comparação não existe amor. Quando a mãe e o pai amam os filhos, eles não os comparam, não comparam o filho com outra criança; ele é o seu filho e eles amam esse filho. Mas vocês querem comparar-se com algo melhor, com algo mais nobre, com algo mais rico; e, assim, criam em si mesmos, uma falta de amor.
Vocês estão sempre preocupados consigo mesmos em relação a outra pessoa. À medida que se torna cada vez mais comparativa, cada vez mais possessiva, cada vez mais dependente, a mente cria um padrão em cujas malhas se aprisiona a si mesma, de modo que não pode ver coisa alguma de maneira nova pela primeira vez. Desse modo, ela destrói essa coisa, esse perfume da vida, que é o amor.
Krishnamurti
Esqueci de dizer que, após ler o Krishnamurti, achei o Fábio Rodrigues muito avançado.
Portanto, gostaria de saber dele o que ele pensa sobre a seguinte questão: creio que a verdade esta embrulhada/ mistura com o amor, a mentira se mistura com o quê?
Será que ele me responde?
Oi, Áurea,
Avançado nada… Melhor pensar que isso é só estética, uma brincadeira ;-)
Sobre a pergunta, eu acho um perigo colocar as palavras verdade, mentira e amor numa mesma frase. Ninguém entende a mesma coisa pra cada uma delas ;-)
Mas, imaginando que houvesse um acordo sobre o que elas significam, eu diria que as três coisas estão misturadas, juntas, com mais um monte de outras coisas. E que não vejo porque separá-las, classificá-las e combiná-las como se umas fossem boas e outras ruins. É complicação demais pra resolver nada ;-)
Hahahaha…valeu, Fábio! Obrigada!
Também não estou vendo porque ficar separando, classificando e combinando coisas que não resolvem nada.
Você me fez lembrar de Sá Luzia,benzedeira do Vale do Jequitinhonha, mulher do povo maravilhosa que viveu por 106 anos.
Certa vez a entrevistadora Leila Ferreira perguntou para ela sobre o que importava na vida e a resposta arrasou:
- “Dá vida eu rapo tudo.”
IMPERDÌVEL: Só dez por cento é mentira.
A desbiografia oficial de Manoel De Barros.
[...] texto é apareceu originalmente no Nâo2Não1, blog sobre relacionamentos mantido pelo nosso Gustavo [...]
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