Minto (por Fabio Rodrigues)

por Gustavo Gitti 1 July 2008 21 comentários

“Crer é errar. Não crer de nada serve.”
– Fernando Pessoa

Isto que já começo a dizer é emprestado, estou mentindo. A cara, a boca, a mão, não são as minhas. E não é demais avisar que já começo a falar com o orgulho disfarçado de quem acredita saber algo a mais. Mas importa pouco. Essa coisa a que temos por hábito chamar de verdade, não a conhecemos ou vemos, tão menos nos pertence. Apenas ocorre que estamos acostumados a elas como ao rosto de nossas mães. A vergonha que eu quase sinto por fingir, desconfio que ela seja falsa – a ética, tal verdade, é repetidamente inventada. Invenções, elas são previsíveis e quase sempre adiáveis, elas mesmas, por si, tão pouco importantes. Mas a mentira é isso que já temos desde o começo – ela nos poupa de um esforço a mais e o velho hábito é condescendente.

Digo-o apenas para explicar que aceito de bom grado, então, o que me for diverso do acerto. É preciso notar que, de fato, eu desejaria alguma outra coisa que não o engano, mas na falta disto outro, o erro está bem.

Sei também, desde agora, a mentira que já vais me contar em resposta, e sei que ela será anunciada com o mesmo orgulho que tento velar. Vejamos: enganadores, nós não estamos sós. (Já disse que minto).

Fiz questão de publicar mais um texto do Fabio Rodrigues, amigaço e responsável pelo banner superior do Não2Não1. Leia seus outros dois: “Increíble” | “Coisa alguma“.

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21 comentários »

  • Alê

    “Digo-o apenas para explicar que aceito de bom grado, então, o que me for diverso do acerto. É preciso notar que, de fato, eu desejaria alguma outra coisa que não o engano, mas na falta disto outro, o erro está bem.”
    Adorei isso! Texto que encaixa muito bem nesse momento.

    Como disse Quintana “A mentira é uma verdade que ainda não aconteceu”.

    bjs

  • B.

    Bom texto-espelho… risos. Pra pensar…

  • Jazz

    Belo texto. Vou já lá conhecer mais do rapaz.

    twitter, blog, orkut, a gente se esforça pra q o outro nos conheça, mas o que realmente queremos é a liberdade de não ser conhecido

    Será? Acho que em tudo isso, a gente mente pra caramba, também. Já dizia um filósofo famoso “a pessoa que fala muito de si tem muito a esconder”.

    Beijo pra ti.

  • myla

    esse é o cara com quem tenho várias das minhas melhores conversas ;)

    e esse é o texto dele, até agora, q mais gostei: um presentaço ver q tá aqui, pra muitas outras pessoas lerem tb.

    niiiinja!!!!!! rs

  • Nati

    Sem palavras! Perfeito..

  • Gustavo Gitti (autor)

    Não quis comentar no próprio post para não sugerir possíveis interpretações, então deixo aqui meu comentário.

    Talvez seja preciso saber do contexto filosófico no qual o Fábio se insere (uma mistura de humanismo, ceticismo, existencialismo e budismo), ou de seu histórico de relacionamentos, para compreender o que está dito neste curto texto.

    Suas palavras vêm de uma perspectiva que supera o eternalismo (a crença na existência de alguma verdade última) e o niilismo (o abandono das verdades relativas). É como se o niilismo se voltasse a si mesmo e começasse a afirmar coisas.

    Para se relacionar sem artificialidades com o outro, é preciso que nós mesmos nos descubramos artificiais. Para não manipulá-lo, deixemos ser manipulados. Para não jogar, entremos primeiro no jogo, antes de qualquer um.

    Para não mentir, sejamos inteiros mentira. Para não errar, sejamos erro.

    Abração, cara, valeu!

  • Caio

    Interessante.

    Sempre achei mesmo que a verdade é relativa. pois pra um mesmo fato sempre existe 3 histórias, a minha, a sua e a verdadeira.

    Mas nunca tinha visto o lado da mentira, somos todos uma mentira que contamos todos os dias esperando que ela se torne verdade.

    Somos todos grandes mentirosos, verdadeiramente mentirosos.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Caio, na perspectiva que adoto (e acho que o Fabio concorda pelo que vejo em nossos diálogos diários), a mentira deixa de ser mentira no exato momento em que cessa a oposição à verdade.

    Quando tudo é ilusão, não faz mais sentido falar em realidade. Quando tudo é realidade, não faz sentido falar em ilusão. O mesmo para verdade e mentira.

    Se mentimos pensando falar a verdade, enganamos a nós e aos outros. Se mentimos sabendo disso, surge autenticidade, espontaneidade e leveza em nossas relações. A beleza dos 3 textos do Fábio (não só nesse) está na expressão deste estado livre e descomplicado.

    Abs!

  • Caio

    Bom ponto de vista.
    sem mais, tudo eu possa escrever depois não tem mais solidez nenhuma.
    então fico por aqui.

  • Jazz

    Autopsicografia

    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração.

    Fernando Pessoa.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Comentando um pouco mais antes de tirar o texto do destaque…

    A essência da mentira é justamente a tentativa de se passar por verdade. Só é mentira aquilo que quer ser verdade. As relações falsificadas, o tempo perdido, os enganos, as mentiras que contamos uns aos outros… Tudo só se faz possível porque buscamos a verdade, em nós e nos outros, na vida e no mundo.

    Se retiramos o desejo por verdade, a mentira negativa não se sustenta. Ela sequer surge.

    Desista, o mais rápido possível, de encontrar a verdade do outro. Desista, urgentemente, de ser coerente consigo mesmo.

    Num mundo sem verdades, não mais é preciso mentir. Podemos nos relacionar abertamente com os outros, já admitindo nossa falsidade logo de saída, como o Fabio descreveu tão bem no texto.

  • titi

    Hummmm, que coisa linda. Ser ou não Ser…. tentamos nos enganar mais que aos outros. E como doi!
    bjus
    parabens

  • carol

    Droga! Agora me apaixonei pelos dois.kkkkkk

  • A certeza de amar | Não Dois, Não Um: Um blog sobre relacionamentos lúcidos

    […] na sua casa, faça a assinatura online.Aqui no Não2Não1, já publiquei três textos do Fabio: “Minto”, “Increíble”, “Coisa alguma”.//LinkWithinCodeStart var linkwithin_site_id […]

  • Eterna Aprendiz

    Não sei se é porque estou cansada, o fato é que não entendi nadinha deste texto.
    Hahahaha…ninguém precisa explicar…quer dizer: se é que alguém iria tentar…
    Depois voltarei descansada e o lerei novamente e, então, se continuar sem entender é porque o texto não é para o meu uso.
    Resolvi, apesar da minha limitação de entendimento, compartinhar como entendo a questão da verdade: ela, bem como a realidade, é inapreensível.
    Desta forma, nenhum de nós a detém totalmente.
    Para vivermos da forma mais plena possível é bom que saíbamos que podemos ter apenas uma porporção dela e manter a mente e o coração abertos para a dos outros que, inclusive, pode ser o oposto da nossa.
    O contrário de uma verdade autentica não é uma mentira, mas, paradoxalmente, outra verdade.
    Vou parar porque, como já confessei (e é verdade) estou cansada para aprofundar na filosofia.
    beijos

  • Áurea

    Olá Gitti,

    Veja que interessante este texto do Krishnamurti.
    Segundo ele a verdade é, ao mesmo tempo, atemporal e sempre nova.
    Talvez estas características representem também a mentira…
    Estou repassando porque achei didático e interessante.

    abraço,

    Áurea

    Em tempo: não uso mais pseudônimo.

    Não há caminho para a verdade, ela deve vir até você. Mas a verdade virá tão somente quando sua mente e seu coração forem simples, puros. Quando lá existir o amor. Não haverá espaço para a verdade se o seu coração estiver ocupado com as coisas da mente. Quando há amor no seu coração, você não fala sobre organizar-se em irmandades; você não fala sobre crenças; não fala sobre divisões e forças que criam conflitos. Não precisa esforçar-se por reconciliações. Você é simplesmente um ser humano sem rótulos, sem bandeira.

    Isto significa que você precisa despir-se de todas aquelas coisas e deixar a verdade entrar em seu ser. Ela virá quando a mente estiver vazia, quando a mente parar de inventar. Então a verdade chega sem ser convidada. E ela virá tão rápida quanto o vento. Ela chega de repente, quando você não estiver olhando nem a espera. Súbita como o Sol, pura como a noite. Mas para recebê-la seu coração deve estar cheio e sua mente vazia… Como estão eles agora.

    Assim, não há nenhum caminho para a verdade, e não há duas verdades. Verdade não é do passado ou do presente, é “atemporal”; e o homem que cita a verdade do Buda, de Shankara, do Cristo, ou que repete o que eu estou dizendo somente, não achará a verdade, porque a repetição não é nenhuma verdade. Repetição é uma mentira. Verdade é um estado de ser que surge quando a mente – que busca dividir, ser exclusiva, que só pode pensar em termos de resultados, de realização – se acabou. Só então a verdade poderá estar lá.

    A mente que está fazendo esforço, enquanto se disciplinando para alcançar um fim, não pode saber a verdade, porque a meta é sua própria projeção, e a perseguição daquela projeção, mesmo nobre, é uma forma de auto-adoração. Tal ser que está adorando a si mesmo não pode conhecer a verdade.

    Verdade só será conhecida quando nós entendermos o processo total da mente, quer dizer, quando não há nenhum “conflito”. …Verdade não é contínua, não tem nenhum lugar permanente, só pode ser percebida de momento a momento… A verdade é sempre nova; é ver o mesmo sorriso, e vê-lo como novo, é ver a mesma pessoa, e ver uma pessoa nova, é ver as novas palmeiras ondulantes, conhecer a vida novamente

    Há comparação quando vocês dizem: “Lembro-me daquele rio que vi há um ano e ele era ainda mais bonito.” Vocês se comparam com alguém, comparam-se com um exemplo, com o ideal máximo. O juízo comparativo embota a mente; ele não torna a mente mais perspicaz, ele não a faz abrangente, compreensiva, – porque, quando se passa o tempo todo comparando, o que acontece? Vocês vêem o ocaso e o comparam de imediato com o ocaso anterior. Vocês vêem uma montanha e percebem sua grande beleza.

    Depois dizem:

    “Vi uma montanha ainda mais bonita há dois anos.” Quando comparam, vocês não estão de fato contemplando o pôr-do-sol que está na sua frente, mas o contemplam a fim de compará-lo com alguma outra coisa. Assim, a comparação impede que vocês contemplem plenamente. Olho para você, que é bonito, mas digo: “Conheço uma pessoa muito mais bonita, uma pessoa muito melhor, uma pessoa mais nobre, uma pessoa mais tola”. Quando faço isso, não estou olhando para você. Como a minha mente está ocupada com outra coisa, não estou absolutamente olhando para você. Da mesma forma, não estou absolutamente contemplando o ocaso. Para se contemplar de fato o ocaso, não pode haver comparação; para olhar de fato para você, não posso compará-lo com outra pessoa.

    Somente quando olho para você sem um juízo comparativo é que posso conhecê-lo. Porém, quando o comparo com outra pessoa, eu julgo você e digo: “Ah!, ele é um homem muito estúpido”. Assim, a estupidez surge quando há comparação. Eu o comparo com outra pessoa e essa mesma comparação elimina a dignidade humana. Quando olho para você sem comparar, interesso-me apenas por você e não por outra pessoa. O próprio interesse por você, sem comparações, gera a dignidade humana.

    Em conseqüência, enquanto a mente está comparando, não há amor; e a mente está sempre julgando, comparando, avaliando, procurando descobrir onde está o ponto fraco. Logo, onde há comparação não existe amor. Quando a mãe e o pai amam os filhos, eles não os comparam, não comparam o filho com outra criança; ele é o seu filho e eles amam esse filho. Mas vocês querem comparar-se com algo melhor, com algo mais nobre, com algo mais rico; e, assim, criam em si mesmos, uma falta de amor.

    Vocês estão sempre preocupados consigo mesmos em relação a outra pessoa. À medida que se torna cada vez mais comparativa, cada vez mais possessiva, cada vez mais dependente, a mente cria um padrão em cujas malhas se aprisiona a si mesma, de modo que não pode ver coisa alguma de maneira nova pela primeira vez. Desse modo, ela destrói essa coisa, esse perfume da vida, que é o amor.

    Krishnamurti

  • Áurea

    Esqueci de dizer que, após ler o Krishnamurti, achei o Fábio Rodrigues muito avançado.
    Portanto, gostaria de saber dele o que ele pensa sobre a seguinte questão: creio que a verdade esta embrulhada/ mistura com o amor, a mentira se mistura com o quê?
    Será que ele me responde?

  • Fábio Rodrigues

    Oi, Áurea,

    Avançado nada… Melhor pensar que isso é só estética, uma brincadeira ;-)

    Sobre a pergunta, eu acho um perigo colocar as palavras verdade, mentira e amor numa mesma frase. Ninguém entende a mesma coisa pra cada uma delas ;-)

    Mas, imaginando que houvesse um acordo sobre o que elas significam, eu diria que as três coisas estão misturadas, juntas, com mais um monte de outras coisas. E que não vejo porque separá-las, classificá-las e combiná-las como se umas fossem boas e outras ruins. É complicação demais pra resolver nada ;-)

  • Áurea

    Hahahaha…valeu, Fábio! Obrigada!
    Também não estou vendo porque ficar separando, classificando e combinando coisas que não resolvem nada.
    Você me fez lembrar de Sá Luzia,benzedeira do Vale do Jequitinhonha, mulher do povo maravilhosa que viveu por 106 anos.
    Certa vez a entrevistadora Leila Ferreira perguntou para ela sobre o que importava na vida e a resposta arrasou:
    – “Dá vida eu rapo tudo.”

  • Áurea

    IMPERDÌVEL: Só dez por cento é mentira.
    A desbiografia oficial de Manoel De Barros.

  • Minto | Papo de Homem – Lifestyle Magazine

    […] texto é apareceu originalmente no Nâo2Não1, blog sobre relacionamentos mantido pelo nosso Gustavo […]