Meios hábeis do amor
“A sabedoria sem meios hábeis
E os meios hábeis, também, sem sabedoria
São referidos como cativeiro.
Portanto, não abandone nenhum dos dois.”
–Atisha, Bodhipathapradipa
No Budismo, os meios hábeis (skillful means, upaya-kaushalya) são métodos, estratégias, técnicas que funcionam tanto para a transmissão dos ensinamentos quanto para nos levar diretamente à liberação. De modo breve, há dois aspectos interessantes em relação a eles: os meios hábeis são modos de acessar o outro e são inseparáveis da sabedoria e da compaixão (bem utilizados somente por mentes livres). O meio hábil é o filho do encontro da sabedoria com a confusão, a interface entre sofrimento e compaixão.
Há uma cena no filme Patch Adams na qual um quarto é totalmente preenchido de bexigas para comemorar o aniversário de uma garota. O verdadeiro Patch realizou isso várias vezes em sua vida. Os atores e a equipe contam que a experiência é maravilhosa pois, mesmo se houver apenas duas pessoas em um quarto e elas tiverem bem distantes, é possível sentir o outro, perceber cada movimento e respiração pelas bexigas. Eis um experimento que pode servir como um ensinamento sobre a natureza da realidade ou como um modo de dizer “Eu te amo”, ao se recitar um poema do Neruda no meio de todo aquele colorido (como faz Patch no filme): “I love you without knowing how, or when, or from where / I love you straightforwardly, without complexities or pride / so I love you because I know no other way”.
No filme Fearless (”Sem Medo de Viver”, belíssimo, aliás), acontece um exemplo notável de meio hábil. O personagem principal, que havia se libertado do medo da morte, ajuda sua amiga a se livrar da culpa de ter soltado seu próprio bebê durante um acidente de avião. Muitas pessoas conversaram com ela, psicólogos, um grupo de terapia, familiares, todos esgotando as argumentações e os abraços. Nada funcionava. Ele, então, sem pedir por sua autorização, deixou um bebê de brinquedo em suas mãos, colocou-a no banco de trás de seu carro, pediu a ela que segurasse o bebê com toda sua força e simplesmente acelerou com tudo até bater contra um muro. O bebê, claro, voou longe, levando junto a culpa da mãe.
Determinadas ações possuem essa magia de fazer com que o outro se abra ao mesmo tempo em que se oferece um toque de cura. Os meios hábeis são exatamente isso: diferentes modos de tocar o outro, simultaneamente acessando e transformando seus mundos.
Para entendermos o segundo aspecto, é necessário lembrar que no Budismo os próprios ensinamentos são vistos como meios hábeis, não como descrições corretas da realidade. Um bom mestre não guarda concepções arbitrárias em sua mente e não possui nada específico para ensinar. O dharma, o ensinamento, só surge quando alguém mostra alguma fixação; então o mestre utiliza algum meio hábil para liberá-la. Para uma pessoa, ele pode ensinar que há uma continuidade pós-morte, enquanto que para outra ele pode simplesmente ensinar que tudo cessa na morte. O importante é agir de tal modo que as fixações, obstáculos e condicionamentos sejam liberados, seja por um ensinamento oral, por meio da música, de mantras, por um tapa no rosto, assim por diante. Portanto, somente alguém que não possui nada a falar poderá falar aquilo que o outro necessita ouvir. Somente aquele que não tem nenhum impulso condicionado para uma ação específica poderá agir de modo livre em benefício dos seres ao seu redor. Os meios hábeis implicam em uma espécie de liberdade e flexibilidade de corpo, energia e mente sob a motivação de ajudar o outro.
Ora, não é uma má idéia aplicar a noção de meios hábeis ao amor. Todas as artes do amor são, em um certo sentido, meios hábeis, modos de incorporar o amor na ação, modos de tocar, transformar, inflamar o outro. Dança de salão (tango, salsa, zouk), pompoarismo, massagem (em suas incontáveis variações), mehndi, culinária, striptease, nawa shibari, fantasias, acessórios e posições sexuais… Eis alguns meios mais clichês de abrir seu parceiro. Há outros, porém, que tentarei explorar nos próximos posts.
Pode-se dizer que o foco não deveria ser os meios hábeis, as técnicas, os acessórios, e que um bom amante não precisa de nada disso. Bastaria ao homem, por exemplo, ser presente, profundo e livre, oferecer um espaço para que o amor possa fluir e saber conduzir as energias femininas. No entanto, é este mesmo homem que reconhece o poder dos meios hábeis, assim como um mestre reconhece o poder de mantras, prostrações e recitações.
As tecnologias do amor são tão essenciais porque elas não funcionam apenas como expressão de uma energia pré-existente. Esse é um ponto importante. Tais métodos e estratégias são menos ferramentas frias do que agentes flamejantes. Ao nos utilizarmos delas, começamos a construir amores improváveis, descobrimos outras energias dentro de nós e outras identidades no outro. Cada ação faz surgir um mundo possível de outras ações. Cada novo toque faz nascer um outro amante diante de nós – a ser seduzido, conquistado, contemplado, amado. A cada sedução dessas, nascemos como novos amantes também. E é exatamente aí, em um espaço de descondicionamento e liberação, que o jogo amoroso fica ainda mais delicioso. Eles seguem nascendo um para o outro, banhados pela alegria de amar desimpedidamente.
Eu posso começar a fazer tango porque desejo expressar meu amor, mas esse aprendizado fatalmente construirá um amor antes inexistente. Inicialmente posso apenas desejar amá-la pela dança, fazer amor com ela pelo tango, mas o tango me apresenta novas relações e conexões possíveis, novos amores e interfaces que posteriormente poderão ser vivenciados de outras formas. O ciclo não tem princípio nem fim: o amor leva aos meios hábeis e os meios hábeis conduzem a um amor renascido.
Se a relação está morna, se você não consegue renovar o amor partindo dele mesmo, uma ótima saída é começar a aprender uma das artes do amor, treinar-se em um meio hábil ou executar (ainda que de modo atrapalhado) uma ação específica. Muitas vezes o amor, sozinho sem nenhum meio hábil, é insuficiente. Há áreas do corpo do outro que não conseguimos acessar com um abraço, áreas da mente que se escondem das palavras, áreas que resistem a pedidos explícitos de abertura. Para amar completamente, você terá de fazer seu toque, seu olhar, seu calor chegar até elas. É preciso agir como um artista – explorando novas linguagens, arriscando limites, brincando de loucura.
Do mesmo modo que um mestre só pode ensinar se não guardar concepções arbitrárias na mente, também um amante só poderá amar com toda intensidade se não possuir fixações, se tiver livre até mesmo da necessidade de amar, ou seja: do apego. Quanto mais livre (em corpo, energia e mente) for um homem, mais fácil ele saberá lidar com as manifestações femininas sem obstruí-las, por um lado, e sem se deixar levar cegamente, por outro. Sem impulsos condicionados, a ação adequada surge naturalmente e a relação se torna virtuosa, além do carma. Uma mente profunda, estável e presente é uma mente capaz de ouvir as necessidades do outro, ainda que estas possam contrariar seus desejos como parceiro. O bom amante age além de seus próprios apegos e aversões. Ele oferece sua vida como uma obra-prima ao outro e oferece sua arte para que o outro se construa como outra obra-prima ao seu lado. O casal, então, se oferece ao mundo.
Vemos, assim, dois tipos de treinamento para quem (como eu) é um aprendiz do amor. O primeiro é o desenvolvimento de algumas habilidades e capacidades (dançar, cozinhar), a prática de técnicas (massagem, pompoarismo) e a aplicação de algumas estratégias e métodos (encher um quarto de bexigas, publicar um blog só para ela). O segundo, mais complicado, quase um treinamento espiritual, se diferencia para homens e mulheres. Para homens, o treinamento é em liberdade, presença e profundidade: o cultivo de uma mente atenta e presente, que não vacila, que não hesita. Para mulheres, o treinamento (igualmente espiritual) é em liberdade, radiância e brilho: o cultivo de uma estabilidade que dança e fascina, uma capacidade de entrega e aceitação.
O amor só existe no amar (como nos ensina o biólogo Humberto Maturana). E amar não é senão expandir o amar, sem parar, sem cessar. Para isso, nada como os incontáveis meios hábeis que temos à nossa disposição. Escolha um e seja feliz.
* Nos próximos posts, tentarei indicar alguns meios hábeis. Sintam-se livres para comentar e sugerir outros!




[...] mais longo, até mesmo nossas relações mais viciadas serão transformadas. Entretanto, se temos meios hábeis e atalhos a nosso dispor, para que [...]
[...] ou sem muita generosidade e disposição. Hoje lembrei de alguns momentos e decidi compartilhar 9 meios hábeis para que homens e mulheres aprofundem a relação e evitem o cansaço. Alguns deles eu já fiz, [...]
[...] mais longo, até mesmo nossas relações mais viciadas serão transformadas. Entretanto, se temos meios hábeis e atalhos a nosso dispor, para que [...]
[...] é com você. Como eu já disse, o amor não é um jogo, mas ele ele se dá por [...]
[...] criar o Não2Não1, vivi algumas experiências bastante intensas que me levaram a escrever sobre os meios hábeis do amor. Prometi abrir a boca somente depois de ter vivido e testado cada uma das práticas, o que me [...]
[...] Ideia explicada em detalhes no segundo texto da série “Meios hábeis do amor”. [...]
Há uma história sobre Buda, onde uma manhã um homem perguntou a ele: “Existe um Deus?”
Buda olhou para o homem, olhou dentro e seus olhos e disse:
“Sim, existe um Deus.”
Neste mesmo dia, à tarde, outro homem perguntou: “O que você acha de Deus? Existe um Deus?”
Novamente ele olhou para o homem e para dentro de seus olhos disse: “Não, não existe nenhum Deus.”
Ananda, que estava com ele nas duas ocasiões, ficou muito confuso, mas ele sempre era muito cuidadoso para não interferir em nada. Ele tinha o seu tempo quando todo mundo partia à noite e Buda estava indo dormir; se ele tinha que perguntar alguma coisa, ele poderia perguntar neste momento. Mas, à noite, enquanto o sol estava se pondo, um terceiro homem veio com quase a mesma questão, formulada diferentemente. Ele disse: “Você pode dizer algo sobre Deus?”
Ananda estava agora escutando muito concentradamente o que Buda diria. Ele deu duas respostas absolutamente contraditórias no mesmo dia e agora uma terceira oportunidade surgiu – e não existe uma terceira resposta. Mas Buda deu uma terceira resposta. Ele não falou, ele fechou os seus olhos. Era uma linda noite. Os pássaros tinham se acomodado em suas árvores – Buda estava em baixo de uma mangueira – o sol se pôs, uma brisa fresca estava começando a soprar. O homem, vendo Buda sentando com os olhos fechados, pensou que talvez esta é a resposta, assim ele também se sentou com os olhos fechados.
Uma hora se passou, o homem abriu os olhos, tocou os pés de Buda e disse: “Obrigado pela resposta.” E foi embora.
Mais no link: http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2009/03/humano_x_divino.html
Para ilustrar mais ainda:
Há uma história sobre Buda, onde uma manhã um homem perguntou a ele: “Existe um Deus?”
Buda olhou para o homem, olhou dentro e seus olhos e disse:
“Sim, existe um Deus.”
Neste mesmo dia, à tarde, outro homem perguntou: “O que você acha de Deus? Existe um Deus?”
Novamente ele olhou para o homem e para dentro de seus olhos disse: “Não, não existe nenhum Deus.”
Ananda, que estava com ele nas duas ocasiões, ficou muito confuso, mas ele sempre era muito cuidadoso para não interferir em nada. Ele tinha o seu tempo quando todo mundo partia à noite e Buda estava indo dormir; se ele tinha que perguntar alguma coisa, ele poderia perguntar neste momento. Mas, à noite, enquanto o sol estava se pondo, um terceiro homem veio com quase a mesma questão, formulada diferentemente. Ele disse: “Você pode dizer algo sobre Deus?”
Ananda estava agora escutando muito concentradamente o que Buda diria. Ele deu duas respostas absolutamente contraditórias no mesmo dia e agora uma terceira oportunidade surgiu – e não existe uma terceira resposta. Mas Buda deu uma terceira resposta. Ele não falou, ele fechou os seus olhos. Era uma linda noite. Os pássaros tinham se acomodado em suas árvores – Buda estava em baixo de uma mangueira – o sol se pôs, uma brisa fresca estava começando a soprar. O homem, vendo Buda sentando com os olhos fechados, pensou que talvez esta é a resposta, assim ele também se sentou com os olhos fechados.
Uma hora se passou, o homem abriu os olhos, tocou os pés de Buda e disse: “Obrigado pela resposta.” E foi embora.
(…)
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