Homem de cuíca: o ronco, a raiva e a fome (para homens)

por Gustavo Gitti 25 julho 2008 30 comentários

Diante de uma mulher, você tem fome e raiva? Como você se aproxima de sua parceira? Homens são conhecidos pelo ronco de sono, porém nós somos capazes de outros 3 tipos de roncos muito mais importantes.

Cuíca, raiva e fome, isso sim é coisa de homem.

Roncou, roncou
Roncou de raiva a cuíca
Roncou de fome
Alguém mandou
Mandou parar a cuíca, é coisa dos home

A raiva dá pra parar, pra interromper
A fome não dá pra interromper
A raiva e a fome é coisas dos home

A fome tem que ter raiva pra interromper
A raiva é a fome de interromper
A fome e a raiva é coisas dos home

“O ronco da cuíca”, de João Bosco (dê play acima e ouça a versão da cantora CéU)

Roncar de fome

É muito fácil encontrar homens que se entopem de filmes pornôs, amigas chatas, conversas de IM, música ou drogas para depois reclamar de seu fracasso com mulheres. Quando nos relacionamos com o feminino de outros modos, longe da presença de uma mulher de verdade, é preciso tomar cuidado para não exagerar e ficar satisfeito. O outro extremo também é perigoso, afinal como se deliciar com uma mulher se há tempos você não pára e aprecia uma boa comida, vinho e música?

Todos nós nos abrimos quando sentimos que podemos oferecer algo. Quer deixar alguém confortável em um grupo? Peça que ele ajude em algo, contribua com habilidades que só ele tenha. Do mesmo modo, uma mulher se abre quando sente que pode oferecer sua energia feminina. Você precisa, então, estar preparado para isso, ter espaço para recebê-la. Não basta desejá-la, tem de ter fome de mulher.

Um mulher é capaz de sentir quando um homem está com fome, quando está prestes a devorá-la, ou melhor, quando come e se delicia com ela a cada gesto. Ela sente-se desejada e então passa desejar também. Sua fome ativa a sede dela. Sede pela sua energia masculina, sede de homem.

Saber disso não adianta. A transformação se dá pelo corpo. De tempos em tempos, faça jejum: desligue a TV, tire o computador da tomada, coma só o necessário, corte a música e esqueça que você é capaz de ejacular. Não desperdice energia. Não se distraia. Quando sua potência de vida aumentar (depois de um fim de semana percorrendo trilhas em uma montanha ou em retiro de meditação, por exemplo), naturalmente surgirá fome de vida, isto é, uma vontade de penetrar o mundo, agarrar uma mulher e comê-la viva. É como se você treinasse um olhar profundo e depois desejasse objetos, paisagens e bailarinas para contemplar e atravessar com os olhos.

Roncar de raiva

Sabe aquele homem que não consegue se impor a sua parceira? Ela faz tudo errado, solta mil venenos e ele lá, quietinho, incapaz de tomar alguma atitude. Ela o humilha e rebaixa, ele aceita e se controla para não esmurrá-la.

Existem padrões negativos que machucam não só o parceiro, mas a própria pessoa que os manifesta. Às vezes, ser sensível e compreensivo significa ser negligente. Situação que só piora com quem tenta ser “espiritual” e reprimir qualquer impulso obscuro e violento.

Não abaixe a cabeça para os obstáculos de sua mulher. Elogie-a e corteje-a, claro, mas saiba cortar e interromper qualquer negatividade que ela possa apresentar. Ao fazê-lo, aja como um pai que impede a filha de sair com um traficante: ela chora e esperneia, mas ele sabe que aquilo é benéfico para todos. Não a afronte, lute ou vá contra ela; aja a favor dela, calmo e preciso.

Além desse aspecto de compaixão irada, a raiva serve também para ampliar nossa energia masculina. Se liberada como raiva, por ignorância, ela é prejudicial. Mas se movida com sabedoria, a energia da raiva cria uma atitude passional. Nós avançamos sobre nossa mulher com uma fúria mansa. Sem esse poder, é muito difícil rendê-la, domá-la e penetrá-la totalmente. É essa raiva amorosa que explode na cama: você a puxa para cá, joga para lá e bate na cara dela. Você leva seu respeito por ela para além do que ela pode conceber. Você a desrespeita.

O ronco da cuíca

cuicaCuíca não se toca batendo. Cuíca faz som por fricção. Uma mão esfrega por dentro, a outra coloca pressão por fora na pele. O som é uma espécie de fala cheia de grunhidos e soluços.

Mulher é coisa parecida. Como a cuíca, ela não tem um som próprio definido. É pele e se solta por fricção. Mulher se toca explorando, uma mão dentro, outra fora, descobrindo o som que pulsa a dois. Diferente do instrumento, porém, uma mulher dança ao som que sai de si mesma. Ela se surpreende quando sua própria fala vira poesia, quando seu som torna-se música gostosa.

Para se tocar uma cuíca, é preciso malícia, algo que não é muito diferente de poesia. Falar uma coisa já falando outra. Portanto, homens, para mover uma mulher basta chegar com malemolência, sem pedir permissão. Abra-a e deixe que ela se extasie com o próprio cheiro, plena de si mesma. Chegue com gingado e ela já vai saber que é hora de dançar. Roncou?

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30 comentários »

  • Nati

    Mais um texo, que descreve bem o que a gente quer.

    Pelo menos pra mim né!

  • Bruno

    Roncarei =D

  • Mulher Solteira

    Odeio cigarro. Por que será que esse post meu deu vontade de fumar?

  • Lina

    Sensacional!rs
    Depois da leitura do texto, sob critérios associativos diversos, pensei no seguinte:
    1) a vida de uma dona de pousada na Chapada Diamantina pode ser excepcional. Boa anfitriã alimenta bem os hóspedes.
    2) mães controladoras arrebentam o futuro do filho.
    3) topas abrir uma Escola de Música ao lado do Ó do Borogodó?
    Abraço!

  • Gustavo Gitti (autor)

    “topas abrir uma Escola de Música ao lado do Ó do Borogodó?”

    Lina, topo, claro. ;-) Por quê? Você tem um espaço por ali? Toca o quê?

    Aliás, amanhã vem dois músicos foda aqui em casa (ambos com doutorado, USP e Unicamp, um toca sax e outro piano e shakuhashi, flauta japonesa). Vamos treinar polirritmia com o corpo, algo bem legal.

    Abs!

  • Gustavo Gitti (autor)

    Mulher solteira, você não quer ouvir a tradução nao2nao1 para “súbito desejo de fumar em quem não ou raramente fuma”, né? ;-)

  • Mulher Solteira

    Não, Gustavo. Foi uma pergunta retórica. :)

    Isso é pra você tomar consciência dos efeitos que os seus posts vão provocando pelo mundo afora…

    Beijos,

    Cris.

  • Sarah K

    Comparação fantástica!
    Fiquei aqui pensando …. vc tem toda razão… grande insight!

    ;-)

  • Amarilis

    Menino, você roncou! Concordo que a transformação se dá pelo corpo. Neste processo, a mulher também entra. Instigar a fome, receber o desrespeito que aproxima na intimidade, roncar ao sabor do encontro. Mas e esse encontro… tem que envolver pessoas que se querem reciprocamente, não é? Uma variável a mais para complicar o cenário.

  • Lina

    Gitti,
    Rs… Eu toco caixinha de fósforo, serve?
    Estava brincando, mas é uma idéia e tanto.
    Aulas teóricas na escola e práticas no Ó do Borogodó. Gosto do lugar e às vezes acabo conhecendo uns músicos por lá.
    Bjs

  • Não Dois, Não Um | Maísa na Blogosfera

    [...] além do ronco de sono, bem dizer uma marca registrada dos seres do sexo masculino, Gustavo Gitti propõe uma reflexão sobre outros três tipos de ronco: cuíca, raiva e fome. Segundo ele, “isso sim é coisa de [...]

  • iara

    amei o texto!
    sintotodas essa fases, só não tinha dado nomes! rs.percebo-as deixo fluir, e sigo o momento, mas foi observando o fluxo da vida que aprendi. exige parar, olhar pra dentro, pra fora, pra dentro de novo e ser extremamente sincero com vc mesmo, para depois aprender a observar o outro no silêncio.
    mas poucos homens estão nesse estágio de sentir…

    bjs

  • Ju Dacoregio

    Amei o trecho Roncar de Fome. Aliás, adorei seu blog, um homem escrevendo sobre relacionamentos é algo raro! Seu banner já está lá em meu blog.
    Parabéns pelos textos e pela iniciativa em falar sobre esse assunto universal: o amor!

  • indiamaislinda

    Isso e descriminação!!!

    Vcs são piores de q nós!!!

    PoR isso durmo com meu travesseiro babadinho,pois não dá problemas!!!

    Heheheehe

  • Khandinho

    Ótimo, Gustavo.

    Interessante. control+c (abro o word) control+v e salvo.

    Leio novamente no futuro. E quando estou em uma roda de pessoas e as mulheres dizem “De onde vc tirou essas informações” eu respondo ” leio livros, leio um certo blog ((ar de misterio))” “Que livros?? Que blog” Ai eu digo “chega mais perto que eu te conto” e dai já saiu amizade, uns foras fenomenais, e algumas boas gostosas!

  • Gustavo Gitti (autor)

    Khandinho, ah, agora entendi por que algumas mulheres me enviam emails revoltadas com homens que as deixaram “apaixonadinhas”. Lêem algum post meu aqui e então dizem que agora se sentem “usadas” e “manipuladas”, que foi tudo um jogo, bla, bla, bla. ;-)

    Vê se trata bem essas gostosas, hein?

    Abraço!

  • Lívia

    Khandinho tem 12 anos?

  • Carlão

    Gustavo..valeu pelas dicas ae irmão..seu site está na minha lista de favoritos..
    continue escrevendo esses textos fantásticos…
    abraço!!!

  • Angelica Bocsor

    Gustavo,

    Pensei q so mulheres liam seus blogs, q susto…dai fui descendo o cursor.

    Eh bom q muitos homens leiam isso…mas isso q vc falou das mulheres se apaixonarem, depois se sentirem usadas!!! Eh grave, vivi uma relação de 8 anos q terminou agora, eu infernizei um pouco concordo e ate explodi, ele realmente nao sabe ser calmo e homem, como vc ensina.
    Ele deveria ler seu blog, mas ele quebrou o computador.

    Ele dizia e diz para todo mundo q me ama, ama, ama ….mas nao demonstra isso dia a dia, so fala, eh isso q revolta as mulheres, “homens” q mentem pra si e para as pessoas ao redor.

    Hoje acho q ele tem problema mental. Desculpe ainda estou abalada.

  • Para além de bebidas, mulheres e dinheiro: o que é um grupo virtuoso de homens? (ou Sobre a Cabana PdH) | Revista Papo de Homem - Lifestyle Magazine

    [...] Em meu próprio site, Não2Não1, muitas vezes também me dirijo aos homens. Já escrevi sobre como tratar mulheres com fome e raiva, sobre o poder do corpo, dança de salão, homens sensíveis e machões, prática de liberdade, [...]

  • MarianaMSDias

    Ah, Gustavo, seus textos são mesmo atemporais!

    “Às vezes, ser sensível e compreensivo significa ser negligente.” Pq é tão difícil de entender isso, até mesmo para as mulheres? Mas é engraçado que, a exemplo das crianças, mesmo aquela que se rebela contra o ‘corte’, depois sente-se segura!

    Quem teve um PAI, sabe disso!

    Homens que se curvam para suas mulheres (ensandecidas) demonstram, na verdade, falta de amor!

    Parabéns pelo belo texto!

  • Gustavo Gitti (autor)

    Com certeza, Mariana!

    Apesar de não ser pai, tenho observado vários mimando seus filhos… e vou me meter a escrever isso também. Só que acho que vou publicar no PapodeHomem.

    O próximo do Não2Não1 tá quase pronto (um entre mais de 100 rascunhos). Vamos ver se sai essa semana ainda.

    Beijo e obrigado sempre pelo apoio. ;-)

  • Hérica Rocha

    Comparação deliciosa!É engraçado com você consegue dizer coisas tão exatas de forma tão simples….admirável e encantador!
    (Elogie-a e corteje-a, claro, mas saiba cortar e interromper qualquer negatividade que ela possa apresentar). Esse é um ponto bastante forte, falo isso por experiência própria, pois é algo que acontece muito conosco, essa negatividade que as vezes apresentamos, voluntária ou involuntariamente…é algo desenfreiado mesmo, e se o homem não souber cortar fazemos tempestade com um copo d´agua mesmo, aí um único detalhes vira uma discussão sem fim que no final das contas corta qualquer tesão e vontade de estar junto.Já estraguei muitas noites que tinham tudo para serem perfeitas, tudo graças a certas negatividades.

    As dicas são excelentes….
    Isso tudo que virar um livro logo!
    Um grande abraço

  • Leonardo Costa

    Li bastante coisas aqui ,mas ainda não tinha lido esse texto, muito esclarecedor.

    obrigado por oferecer mais esse texto de qualidade.

  • Rodrigo

    Legionário Dr. Gitti, escolheste bem a música e as palavras… Como sempre! Também acompanho os textos, e não posso deixar de dar minhas congratulações.
    Cada um (ser humano) tem um composto que bem trabalhado nas alquimias da vida vira ouro. Encontraste o teu.
    Passando por essa veia observadora, afirmo como já dito, que nós (os homens) se quisermos manter nossos lugares na cadeia reprodutiva, temos mesmo que evoluir. E essa linha que você expõe é uma das mais interessantes que tenho visto.
    Afirmo que já me peguei enredado em diversas situações críticas aqui citadas, e que este instumento (os textos )tem ajudado muito.
    Então vamos embora colocar a mão na massa e dar ronco a cuíca, que o samba vai se aperfeiçoando ao ser tocado…

  • Gustavo Gitti (autor)

    Grande Rodrigo!

    Você não sabe como fico feliz em ver comentários assim, cara.

    E qual é o teu “composto bem trabalhado”?

    Abraço!

  • filadelfo

    Se fosse para escolher… escolheria a fome… ir como no primeiro passo do bolero em que o homem avança o território feminino… como quem enlaça um oásis com o braço direito… É amigo, vou refletir sobre o texto…

  • Rodrigo

    Bom meu caro,
    eu gosto muito de escrever também.
    È uma das coisas que me deixa feliz.
    Mas eu ainda caminho pesquisando entre “fórmulas”, experimentando, para achar meu “composto” que me trará ouro.
    .
    .
    .
    Certa vez, por insinuação de um texto seu (agora, não vou me recordar qual), escrevi:

    “A admiração é uma ferramenta de valorização das nossas multi-faces.”

    E reduzindo a interpretação ao sentido que agora quero dar a ele, ver traços e caminhos que admiramos nos ajudam a enxergar melhor qual, dentre os que temos disponíveis, vem a ser preferível.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Sim, Rodrigo, nosso futuro está bem próximo àqueles que admiramos.

    Para conhecer alguém, não basta olhar para seus amigos ou pedir para que descreva o mundo (que é melhor que pedir pra descrever a si mesmo). O lance é ver quem a pessoa admira. É isso que ela vai se tornar.

    Escrevi sobre esse processo aqui:

    http://nao2nao1.com.br/meus-mestres-de-musica-relacionamento-filosofia-espiritualidade-e-sexo/

  • Rodrigo

    Bom, suas palavras me alegram bastante.
    Ao reler o texto no link me vi preso a uma gama espantosa de insights.

    No baú de histórias (de ontem e amanhã) alguns dos átomos seus ( que recolho neste rastro ) com certeza estarão presentes. E espero inverter este processo, onde o auto-retrato ou a fórmula que ficará no pergaminho encerrará um ensejo a esta convivência.

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