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Meio hábil 04 - Presenteie um estranho

por Gustavo Gitti 14 November 2007 Sem comentários



Nos domingos de meditação, é comum surgir a seguinte questão: “Eu admiro esses seres sábios, mas sinto que nunca conseguirei agir assim!”. De fato, diante da generosidade de Gandhi ou da compaixão de S.S. o XIV Dalai Lama, nos sentimos medíocres e impotentes. Como seria possível amar sem apego ou ajudar alguém sem gerar expectativas e orgulho?

A qualidade de nossa generosidade delimita dois tipos de felicidade. O primeiro é condicionado, artificial, construído: depende de diversos fatores, faz checagens, espera por confirmação. Dou um iPod e vinculo meu prazer às reações do outro: se ele não gosta, me frustro, me arrependo de ter gasto tanto dinheiro para nada. O segundo tipo de felicidade é autônomo e independe do exterior. Ao dar o iPod, fico feliz pelo ato em si de generosidade. Essa satisfação ninguém me tira. É inabalável, imperturbável.

Lembra daquele dia no qual você realmente foi paciente, ou daquela situação em que agiu com desapego? Tais faíscas significam que as qualidades positivas já estão em nós, porém com um foco limitado – funciona com uma ou outra pessoa, sob uma condição específica. Já temos tudo, resta ampliar, ampliar, ampliar… Um ser é virtuoso na medida em que expande essas práticas para todos ao seu redor. O Dalai Lama não é diferente de nós. Seu diferencial é a estabilidade e a presença constante daquela lucidez que nos infla só de vez em quando.

Comigo, a descoberta da generosidade ocorreu por meio de dois livros da Viviane Mosé (Desato e Toda Palavra). Estava em pé numa livraria há mais de uma hora, esperando a sala do cinema abrir. As palavras poéticas e nietzscheanas da Viviane não saíam de meu corpo. Quando enfim caminhei para fora da livraria, percebi que elas estavam na mochila, substituindo o pouco dinheiro que antes havia ali. Tinha a certeza de que eles não eram meus… Havia pedido para embrulhar para presente, sem entender por quê.

No dia seguinte, fui a uma palestra. Muita gente nova, outros conhecidos. Durante o ensinamento, observei uma garota sentada do outro lado da sala. Pequenina, graciosa, cheia de sutilezas para a performance das mínimas ações. Ela era desato em toda palavra. Os livros eram dela, claro!

Esperei tudo acabar e me aproximei:

– Oi, tudo bem? Qual seu nome?

– Fernanda.

– Isso, Fernanda. Você mesmo. Mandaram entregar isso para você.

– Hum… Como assim?

– Isso aqui é seu. Se ler e não gostar, passe adiante. Sério. Algum problema?

– Não, tudo bem.

– Até mais, então.

Eis o diálogo na íntegra, sem tirar nem por. Estava todo desengonçado, arrebatado por uma alegria que nunca havia sentido antes. Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Aquele sorriso tão vermelho e surpreso na minha frente! Mais do que a leitura, eu desejo que ela possa um dia presentear um estranho…

Temos o costume ilógico de presentear apenas nossos queridos, íntimos, conhecidos. Assim é muito fácil corromper a generosidade com inveja (do outro que deu um presente melhor), orgulho (por ter acertado em cheio) ou frustração (quando o presente não satisfaz o desejo do outro). Com um treinamento mais longo, até mesmo nossas relações mais viciadas serão transformadas. Entretanto, se temos meios hábeis e atalhos a nosso dispor, para que esperar?

Ao escolher um estranho, você automaticamente corta qualquer expectativa. Você não conhece seu passado nem seu futuro. Oferece o que considera bom, abre as mãos, sorri e se afasta. O prazer que vem do objeto logo cessará. iPods quebram, ficam velhos, perdem a graça. Já o êxtase de sua ação nunca precisará ir ao conserto. Ele seguirá em seu coração.

Para compartilhar esse contentamento com outros, lembre-se que o maior presente que você pode oferecer é sua própria generosidade, além de qualquer objeto. O maior presente que podemos receber é também a própria abertura do outro, não tanto o conteúdo de sua generosidade. Preste atenção: você sente mais prazer com a caixa embrulhada ou com o toque da mão do outro? Qual felicidade é mais permanente e completa?

Declaro hoje, 14 de novembro, o dia oficial da generosidade absurda. É o momento perfeito para você comprar um presente – aquele que daria para seu grande amor – e entregá-lo para qualquer um, em qualquer lugar. Assim que o fizer, comente abaixo. Será uma experiência liberadora, eu garanto.

Perdi meu tempo.Você tem 12 anos?Tá frio hj, né?Quando sai o livro?Deu uma vontade de fumar... (Gostou do texto?)
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Sem comentários até o momento »

  • Meio hábil 04 - Presenteie um estranho | Não Dois, Não Um: Um blog sobre relacionamentos lúcidos disse:

    [...] Hoje é dia de presentear um estranho! [...]

  • Gustavo via Rec6 disse:

    Hoje é dia de presentear um estranho!…

    Você já presenteou um estranho? Então aproveite o dia oficial da generosidade para experimentar a maior das alegrias humanas….

  • Thulio disse:

    legal seu blog, viva a generosidade!

  • Caleydoscope Eyes disse:

    Você está sabendo da campanha dos correios para arrebanhar ”papai noel” pra esse ano?
    Em breve eu divulgarei com mais detalhes no meu blog, mas é algo assim. Você vai a uma agência, pega a cartinha de alguma criança e compra o que ela quer. Tem criança que pede panetone, agasalho pra vó, carrinho, bonequinha, maquiagem…tem também os que pedem bicicleta, max stell e barbie (mas para esses existem os ricos por aí que podem contribuir não é mesmo?).

  • Sonho de consumo « A vida como a vida quer disse:

    [...] P.S. Ontem no Nossa Via Gustavo Gitti fez um convite inusitado a todos: Declaro hoje, 14 de novembro, o dia oficial da generosidade absurda. A idéia, linda e exigente, é defendida em Hoje é dia de presentear um estranho! [...]

  • Sam disse:

    Gustavo
    a idéia é linda e extremamente exigente, apesar de parecer muito simples à primeira vista. Boa provocação.
    Abraços
    Sam

  • Gustavo Gitti disse:

    Sim!!! Estou sabendo dessa campanha! Excelente, né? Também estou com um draft no meu blog sobre isso (quero participar e tb ajudar a divulgar). Me avise quando publicar.

    A ONG de uma amiga faz isso tb. Esse ano serei “padrinho” de uma garota. O legal é que, além dos presentes, há uma festa, contato humano, carinho, etc.

    Abração!

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