Fuerza Bruta: visceral, umbilical e urgente

Minhas roupas estão no varal. Meu corpo está molhado e pretendo escrever enquanto ele ainda está assim. No meu último post, falei dos cinco sentidos. Pois não há continuação melhor (a parte 2 que espere) do que relatar uma noite de Fuerza Bruta (em cartaz até dia 26 de outubro), espetáculo sensorial que faz jus ao seu nome. Tudo é bruto: os rostos, as roupas, as músicas, os cortes, as luzes.
A música, o tempo todo, faz parte do show. Não é plano de fundo ou trilha. É personagem. Conduz cada momento e nos leva a participar. Dá vontade de correr junto com o cara ou mergulhar junto com as mulheres numa das cenas mais lindas que já cruzaram meus olhos.
A história passa por toda uma vida. Começa morrendo, termina também. O homem e sua urgência de ser vivo, de viver tudo. A necessidade que temos em conciliar tudo que acontece ao mesmo tempo. Tentativa desesperada de acompanhar, aproveitar, fruir, como se precisássemos de cada acontecimento para ter a certeza de que estamos… vivos.
Acompanhado, sozinho, correndo, dormindo. Sempre fatigado, sempre correndo atrás do que ele não sabe o que é, mas pretende alcançar. Ou você sabe por que trabalha 8 horas diárias? Passam estranhos, passam amigos, passam mulheres. Ele tem sonhos, ele tem trabalho e ele corre. A cada momento um obstáculo: portas, escadas, caixas. Tudo deve ser transposto, e logo. Ele está preso o tempo todo a uma corda. Um fio condutor, um fio repressor, um cordão umbilical. Algo que o prende a realidade, oferece segurança mas restringe seus movimentos.
Os relacionamentos. De um lado a mulher, do outro o cara. Entre eles, uma barreira fina, algum tipo de plástico. Eles tentam se tocar, se agarrar, um grita pelo outro, se esforçam, mas não conseguem. Esforço, energia dispendida, tentativa de fazer funcionar, o famoso “dar certo”. Stress. Tensão para uma união impossível.
Depois das mulheres, um cara. Horas dançando, horas parado. Aparecem amigos, eles chamam gente da platéia, como se fossem pessoas passageiras, aquelas que participam em alguma momento da nossa história e depois se vão. Dança. Agora todos nós dançamos sob a chuva, nos molhamos e celebramos nossas dores e delícias. Esquecemos do frio lá fora e só deixamos a água cair sobre nós enquanto pulamos no nada, em busca de sermos amados.
Lembrança. A parte mais bonita da noite: do teto, desce uma superfície transparente com uma menina em cima. E água. Útero. Gestação. A mulher em sua essência. Quente, molhada, sexy. Sereia. Depois entram outras mulheres e a superfície baixa até conseguirmos tocá-la. Conhecimento pela sensação. Elas olham para a gente com curiosidade e a gente olha de volta, tenta tocar de volta, entender o que está acontecendo. Queremos agarrar as coisas, o outro, mas nunca conseguimos.
Meu cabelo já está seco. Tudo é sempre tão breve. E intenso. Cada fenômeno é intenso por si só, sem que precisemos fazê-lo assim. Basta saber olhar ou andar. A vida é como Fuerza Bruta: para existir, exige nossos seis sentidos. Mas só. O espetáculo se faz naturalmente, uma vez que estamos prestando atenção.
* No Budismo, a mente é considerada um sentido adicional. Nada a ver com intuição, apenas mais um sentido convencional.
** Acesse o site oficial do espetáculo e assista a alguma cenas no YouTube. Vá. Fuerza Bruta é, digamos assim, necessário.
*** Coloquei o post na categoria “Experimentos para se sentir vivo”. Sim, porque eu ainda acho que um dos modos de cultivar relações criativas é ativar todos os cinco sentidos. Ser visceral. Não esperar. E Fuerza Bruta nos deixa assim, com um certo gosto de urgência nos lábios.




cara, deu vontade de ir ver…
pena que é longe demais :(
gitti,
engraçada a forma que vim parar aqui… trabalho com gestao de projetos socioambientais e um dos meus ultimos projetos e um caminho religioso que une o cristiaismo e o budismo – resgatando um caminho antes feito pelo monge Daiju Bitti de Ibiraçu – ES e onde esta o “Caminho da Sabedoria” como se chama.
para entender melhor o budismo sem olhar teorias mas sim vendo/lendo experiencias , “cai” aqui.. rsrs
bom, precisava entender melhor o budismo para escrever o projeto e mobilizar recurso para faze-lo acontecer – o que ja aconteceu – e acabei nessas minhas andanças descobrindo um rapaz sensivel e com texto arrebatador.
me prende a atençao – msm que nao concorde com varias linhas por vc escritas, e que sinceramente talvez eu realmente acredite que algumas vezes vc esta experimentando sensaçoes para ver se eleas lhe sao familiares – mas isso e o que menos importa. a sua fidelidade ao que escreve e tamanha que quase , num impulso, me forço a concordar com vc..
parabens
ah! em relaçao ao que eu precisava entender/sentir/ouseilaoque acerca do budismo, sua forma de inseri-lo nos textos me ajudou bastante..
bejo
Já vi o site, li varias pessoas falando sobre e fiquei com muita vontade de ir também! É um pouco caro, mas vou tentar, parece valer muito a pena.
Acabei não resistindo e postei algo no meu blog sobre as coisas que li aqui esses tempos, bem simples, espero que nao se encomode ;)
Nossa, daonde eu tirei marcelo? HUAHUAHUAUHA
desculpa.
Precisaria assistir para comentar com alguma clareza.
Vontade deu…ocorre que , neste momento, minhas circunstâncias de vida estão restritivas.
Falando com objetividade: vou ficar só na vontade.
Agora, qualquer movimento na arte contemporânea que consiga tirar a platéia do marasmo pasteurizado reinante é, no mínimo, digno da nossa melhor atenção.
E, se existe, uma maior ousadia na tentativa de acordar sentidos entorpecidos, preciso bater palmas mesmo que não possa assistir.
viagem bruta
Deu uma vontade de ir! eles têm q vir pro Rio.
:S É chato morar longe de tudo, nessas horas é que chamo Barretos de findemundo!
Muita vontade.
Já estava com vontade de ir e depois, motivada pelo seu post, acabei indo mesmo e adorei!
;-)
Adorei, a forma que escreveu! Incrível como vc conseguiu descrever as sensações que “Fuerza Bruta” nos transmite!
Muito bom, parabéns!
Aline
Infelizmente (neste caso é infelizmente), moro em João Pessoa, onde este tipo de espetáculo só acontece por aqui de vez em quando, portanto, tenho que me conformo com o que vi na televisão.
Com já comentaram aí por cima, você soube transmitir muito bem a mensagem que foi passada por eles, parabéns e obrigada por compartilhar conosco.
não li por motivos óbvios. vou assistir e depois eu vejo se comento =P
Estou hiper ansiosa pra sábado a noite (dia 01/11)!!
Depois escreverei contando como foi a minha experiência!
Tentarei fazê-lo com ao menos metade de sua poética!
beijo
post patrocinado?
Não, Lívia. Eu ganhei 2 VIPs e escrevi quando cheguei.
Por quê? Você foi e achou uma merda?
O espetáculo confirmou mais uma vez uma teoria amplamente difundida de que se a expectativa é muitooooo grande… a chance de se frustrar fica latente!
Não, eu não me frustrei, mas esperei mais que recebi! (aliás, faço isso constantemente no amor tb)
Senti diversas sensações novas, vivenciei o espaço, explorei cada detalhe dos corpos se movendo no ar, mas ainda assim não atingi a intensidade e profundidade que esperava de cada movimento, de cada gesto, de cada sentimento provocado!
Deu-me uma sensação de falta…
Talvez porque o texto do Gustavo tenha me trazido imagens e sentimentos bem diferentes do vivenciado na realidade.
Mesmo assim, recomendo pra todos os que quiserem experimentar! Vale a pena se deixar atingir por Fuerza Bruta!
Beijo
Ao menos no quesito Provocação… o texto do Gu ganhou do espetáculo!
Conheci o Fuerza Bruta com esse post. Assisti agora há um trailer. É incrível e perturbador. Parece a tradução perfeita do que é a vida. Ou do que é o homem em relação a ela.
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