Experimento para se sentir vivo (2): vestindo o corpo dos outros

por Gustavo Gitti 10 janeiro 2010 36 comentários

bond-of-union-escher
M.C. Escher, “Bond of Union” (1956)

Ao ver os primeiros posts do Alex Castro (“Dar-se conta” e “Ver”) em sua série de exercícios práticos de empatia, lembrei de um texto que escrevi em setembro para a campanha “Estenda a mão”, da ABTO, divulgando o Dia Nacional da Doação de Órgãos e Tecidos (27/9). Como ele também é um dos meus “Experimentos para se sentir vivo” (leia o primeiro sobre energia autônoma usando um iPod), resolvi publicá-lo aqui também, pois foi “doado” originalmente para o blog da querida Renata Simões (Multishow).

Ver alguém falando de empatia é algo raro, especialmente se for para mostrar como a capacidade empática pode ser treinada, assim como um músculo. Para quem não sabe, o instituto Mind & Life, criado por Francisco Varela e Sua Santidade o Dalai Lama, sempre aborda esse tema de modo interdisciplinar. A empatia é explorada por biólogos, psicólogos, meditantes… Eis a descrição do programa de um de seus cursos:

“Empathy Skills Training – Empathy training will be designed to teach subjects three different aspects of empathic awareness: 1) sensitivity to another’s affect; 2) sensitivity to one’s own affect; and 3) development of compassion for oneself and others.”

Recomendo também dois longos textos do Evan Thompson (um gênio que fala de ciências cognitivas, budismo e filosofia com os pés nas costas): “Empathy and consciousness” e “Primates, monks and the mind: The case of empathy”.

Enfim, deixo abaixo o texto original que fiz para estimular a doação de órgãos. O experimento em si está no meio. Complementei o texto com um trecho da palestra “A visão de Buda em meio ao mundo”, do Lama Padma Samten, que filmei semana passada. ;-) Enjoy.

Doação de órgãos e experimento de percepção empática

“O outro é você mesmo em um mundo diferente.”
–Lama Padma Samten

Os ensinamentos budistas e mais recentemente as ciências cognitivas questionam a existência de uma identidade sólida, um self central único, a alma essencial que acreditamos ser.

Francisco Varela (biólogo, no genial A Mente Incorporada), Marvin Minsky (especialista em inteligência artificial), Daniel Dennett (filósofo), Eleanor Rosch (psicóloga), Sua Santidade o Dalai Lama (meditante profissional)… Todos aplicam a frase do sociólogo Zygmunt Bauman ao corpo humano: “A cabine do piloto está vazia”.

Nós temos a sensação de estar localizados dentro da cabeça, logo atrás de nossos olhos. É dessa perspectiva que andamos no mundo. É isso o que queremos dizer com a palavra “eu”. No entanto, quem estuda a mente e o cérebro (biólogos, neurocientistas, matemáticos, psicólogos, meditantes) rapidamente percebe que o “eu” é difícil de ser encontrado.

Não estou nas sinapses disparadas em meu cérebro, não estou no meu coração (que aliás pode ser trocado sem que eu perca minha identidade), não estou nos meus membros, não sou meus pensamentos, emoções ou memórias (que mudam e até podem ser apagadas sem que eu me perca)… Não estou em lugar algum!

Percepção assombrosa: ainda que eu não esteja em lugar algum, eu nitidamente estou aqui! Embora eu não saiba o que sou, eu tenho certeza que sou.

Os mestres zen aproveitam tal paradoxo para se divertir com seus alunos. Diante de uma carreta, perguntam: “As rodas são a carreta?”. Todos respondem que não. “Os assentos são a carreta?”. Claro que não. E eles seguem apontando para todas as outras partes. No entanto, se tiramos as rodas e os assentos, a carreta ainda existe? Não, óbvio. A carreta não é nenhuma de suas partes e, ao mesmo tempo, não é nada sem elas.


Lama Padma Samten fala sobre esse exemplo da carreta (a partir de 3:35)

Assim parece funcionar o corpo humano. A lembrança da noite de ontem não se reduz a uma sequência de sinapses, assim como o amor não é apenas uma combinação de explosões químicas. Ainda assim, não é possível pensar sem neurônios ou sentir sem ser percorrido por hormônios e outras substâncias. Não nos relacionamentos com cérebros e pulmões, mas com outras vidas, mentes, histórias, sonhos, desejos. No entanto, retire cérebros e pulmões, o que sobra? Nada.

Quando isso acontecer comigo, quando meus órgãos não mais estiverem sustentando essa vida por trás dos olhos, sonho ou amor algum, quero que meu coração seja usado para fazer fluir outro sangue, outra vida. Quero que sonhos outros sejam continuados. Outro olho por trás de minha córnea, outro toque em minha pele, outro jeito de puxar oxigênio pra dentro dos meus pulmões.

Mas muitas pessoas talvez impeçam isso, no meu caso e em outros. Para meus familiares e todos aqueles que se opõem à doação de órgãos, sugiro um experimento de percepção:

1. Você pode fazer na rua, mas o ideal é que seja em um local com bastante gente parada: livraria, vagão de metrô e restaurante são ótimas opções.

2. Comece com uma pessoa mais distante, para não levantar suspeitas. Contemple cada gesto dela com atenção, observe, se demore, realmente olhe o outro sem julgamento algum, como se estivesse admirando um leão ou um pássaro.

3. Olhe ao redor dela e imagine o que ela está vendo de sua perspectiva. Se ela está olhando para um livro cujas páginas estão ocultas a você, imagine o conteúdo dessas páginas. Se ela está olhando por uma janela, imagine o que ela vê a partir de sua perspectiva. Se ela olha para o chão, esqueça a sua própria visão de uma pessoa lá longe olhando o chão – em vez disso, construa em sua mente o que ela está vendo.

4. Depois de brincar com a visão, prossiga com a audição (imagine que ela está ouvindo), gustação (se ela estiver comendo, imagine o gosto daquilo) e olfato (imagine o que ela está cheirando).

5. Agora a parte mais interessante: o tato e a sensação de ser outro corpo. Se ela estiver com fones de ouvido, lembre como é ter um fone no ouvido e deixe a sensação crescer, ficar nítida. Se ela estiver com uma blusa pesada, imagine esse peso. Se a pessoa estiver com muito gel no cabelo, lembre como é ter gel no cabelo e sinta o molhado. Se ela estiver com menos roupa no frio, imagine-se vestindo o mesmo que ela. Se ela for bem mais velha, tiver cabelo mais longo e estiver de óculos e brincos, imagine-se mais velho, com cabelos longos, óculos tocando o nariz, brincos pesando na orelha.

6. Torne-se a outra pessoa, veja o mundo que ela vê, encarne seus gestos, suas memórias, sua respiração… Vista o corpo dela e simule seu universo. Tudo isso usando a imaginação, claro, sem se mover, apenas brincando com sua mente.

7. Escolha outra pessoa e repita o experimento.

Eu já fiz isso diversas vezes no metrô e às vezes faço rapidamente com mendigos deitados na calçada. Depois de um tempo, você percebe que todo o processo que ocorre com você (se sentir alguém por trás dos olhos, ter pensamentos, ver um mundo aparentemente sólido ao redor, possuir manias e trejeitos, piscar, salivar, sorrir) também acontece igualzinho com todas as outras pessoas.

Você se assusta com o fato de que passou a vida inteira olhando o mundo a partir de sua perspectiva! Parece óbvio, mas não é uma percepção que sustentamos no cotidiano enquanto nos relacionamos com os outros.

E então você olha para seu passado e observa que a sua própria perspectiva também mudou. De fato, nada se manteve – certezas e células, sonhos e cortes de cabelo, tudo se transformou desde que você era bebê. Com o tempo a gente acaba virando outro para si mesmo, como se o passado fosse um filme cujo personagem principal é outra pessoa.

A única coisa permanente que continuou é esse brilho nos olhos, essa sensação de estar desperto com um mundo colorido em alta resolução ao redor, essa capacidade de desejar, sonhar, ter prazer e dor.

A única coisa que continua na sua vida é exatamente aquilo que todos os outros seres compartilham.

Trejeitos, identidades e memórias mudam, seja comparando você criança e você idoso, seja comparando você e um nigeriano. Mas o brilho nos olhos é apenas um, que se estende de pessoa em pessoa.

A sensação de estar vivo, amar e fazer alguém feliz, ela é única em todos os corpos do mundo. Ou seja, aquilo que temos de melhor (não nossos hábitos, crenças, opiniões, mas nossa lucidez) é justamente o que não se perde com nossa morte.

Quando sua vida parecer acabar, apenas estenda a mão e siga.

Você já fez algo assim?

Se você costuma praticar algo parecido, deixe um comentário contando seu “procedimento”, o que já sentiu, quais insights surgiram, como sua capacidade empática se desenvolveu…

Se nunca fez nada assim e experimentar, relate aqui depois.

http://www.mindandlife.org/ceb.program.html
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Para transformar nossas relações

Há algum tempo parei de escrever no Não2Não1 e comecei a agir de modo mais coletivo, visando transformações mais efetivas e mais a longo prazo. Para aprofundar nosso desenvolvimento em qualquer âmbito da vida (corpo, mente, relacionamentos, trabalho...), abrimos um espaço que oferece artigos de visão, práticas e treinamentos sugeridos, encontros presenciais e um fórum online com conversas diárias. Você está convidado.



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36 comentários »

  • Acaz

    Ou seja, aquilo que temos de melhor é justamente o que não se perde com nossa morte.

    Parabéns!

  • gilmar

    já fiz isso com árvores, mas o que eu queria sentir era harmonia, além da simplicidade de se ser uma árvore, sem questionar sua natureza, dando frutos, também é muito bom.

  • Jason

    Ja fiz algo parecido, não com a finalidade de ficar na perspectiva do outro, mas num sentido de brincadeira que — analisando melhor agora — acaba se tornando esse ver através do outro.

    Quando estou num lugar fechado, com gente parada, como um ônibus, eu imagino um desastre e as conseqüências. No ônibus eu imagino que um grande vórtice do tempo nos sugará e nos levará a uma ilha deserta (ahahahaha), ou algo do tipo. A partir daí, olhando para cada pessoa, eu tento adivinhar o que elas fariam. Quem iria chorar copiosamente? Quem iria se preocupar com a sobrevivência? Quem iria se isolar? Quem iria se tornar o “lider”? O mais engraçado é que as vezes penso em como EU iria reagir, como se eu fosse um estranho, não fosse mais esse ser atrás dos olhos.

    Agora percebo que quando faço esse jogo eu meio que procuro ser o outro para entende-lo. Aprendi algo com isso. Antes eu via as pessoas como sendo simplesmente vultos, imagens que ficam na retina ou coisa do tipo. Mas quando eu passei a “brincar” (bem divertida por sinal =P) eu percebo agora pessoas como pessoas. Não mais vultos, mas cores. Não mais imagens, mas filmes. Elas passaram a ter mais profundidade.

    E sabe de uma coisa? Quando você passa a pensar dessa forma, a ver dessa forma, dá vontade de ter mais amigos e de “estender a mão” para qualquer um.

  • Rita

    Senhor Sorridente, bom texto.. nao é melhor que a parte um, que gostei mais, é mais fluida e inspiradora. Realmente a empatia, a tolerancia ou a preparacao para qualquer atividade da vida pode ser exercitada, auto-sugestionada, e infelizmente as pessoas falam pouco sobre isso.
    Mas atente pra uma observação: a roda é a carreta, o assento é a carreta. Separar os elementos de algo pode parecer uma falácia pra se entender o imaterial (como a maioria das religiões faz, simplesmente pra sopitar a grande ansiedade humana do “término”), alem de ir contra o que é obvio: tudo é conjunto, nao adianta ver as coisas separadamente.

    Enfim, se voce usa esse blogue pra se afirmar para o mundo mostrando o quanto evoluido voce é, contanto o faça de uma forma positiva para as pessoas, como nesse texto, que faz pensar. parabens por isso.

  • victor

    É sem dúvidas um ótimo exercício. Se torna muito mais fácil perceber quais as necessidades dos outros.

  • Paula

    Acho que já fiz algo parecido, mas não exatamente trabalhando todos esses sentidos. De vez em quando, no ônibus, indo para a faculdade, fico a observar as pessoas. Engarrafamentos sem mp3 pode dar nisso. Já cheguei um dia a contar parafusos de postes, mas o mais incrível é perceber as pessoas. Olhá-las e sentir que por trás daqueles corpos alheios há tanta história, vida, famílias, sonhos. Isso me ajuda a mudar o foco de mim para outros como eu.

    Uma vez fiz isso durante uma dicussão acalourada dentro do ônibus lotado. Eu apenas via e ouvia a briga, que envolveu algumas pessoas no ônibus, embora todas estivessem participando nem que fosse com os ouvidos. E então pensei que era ainda sábado de manhã e que eu não queria estragar meu dia. Então olhei as pessoas apenas como elas podem ser: oscilantes e contraditórias. Quem não é, afinal? Tudo isso me fez sorrir por dentro. Naquele momento me senti segura, como se, mesmo que um tapa ou palavrão me atingisse sem intenção, eu continuaria bem o resto do dia. Sem raiva. Apenas com uma calma insana de saber que entre risos ou porradas somos todos semelhantes e, em matéria de humanidade, iguais.

    É como se esses momentos espandissem nosso alcance para uma vida maior. Como uma fusão sem perder a noção de si mesmo.

    É… até que ficou meio grande para um primeiro comentário por aqui. Gostei disso, me fez bem.

    Parabéns pelo blog.

  • RafaelMR

    É incrível esse experimento. Passei minha vida inteira fechado em meu próprio mundo, aí comecei a ler esse blog, a meditar, a participar da Cabana… e as coisas começaram a mudar.

    O que eu percebi é que, já que eu posso me colocar na perspectiva do outra, ou “entrar” no corpo do outro, eu não sou o meu corpo.

    Mas, ao mesmo tempo em que eu não sou o meu corpo, eu não posso sair dele e dependo dele para interagir com o mundo. Logo, eu sou e não sou o meu corpo. :)

    Ótimo post Gitti.

  • Jonas

    Gustavo Gitti Racional Vol. 2 (tchê, tu tá parecido com o Tim Maia Racional nesses textos…)

  • Zombie

    Salve gitti!

    Esse experimento é realmente muito bom. Irei fazê-lo.
    Porém, desde que quando eu me conheço por gente (Ou quando interpretava outra personagem no passado, em outro filme, em outra época…) eu cultivei empatia.

    Hoje eu cheguei num ponto que dependendo da situação, até parece que eu leio a mente da pessoa que está sofrendo.
    Isso é muito gratificante, pois dessa forma, posso ajudá-la a sair da aflição.

    E digo mais. Acho que esse sentimento, é o que falta para as pessoas de hoje em dia, no geral. È tudo eu eu eu, e nada do outro.
    As vezes, quando eu falo que pensei no outro ao fazer x coisa, sou tachado de louco.
    Mas mesmo assim, eu faço, porque no final… O mais beneficiado será ambos.

    E não fazer o mal também é fazer o bem, não é mesmo?

    O que impede as pessoas de praticarem empatia?
    Na minha opinião, o medo de não serem valorizados, não é nem porque não sabem.
    E nessas horas eu vejo que todos somos realmente muito fragéis!
    A ponto de nos fecharmos num casulo e esquecermos do mundo.

    E isso me lembra que eu preciso meditar ahahahahah

    Abraço!

  • Edwirgens

    Nossa… Era exatamente isso que eu precisava ler pra me convencer disso.

    Ainda sentia uma dúvida pairar sobre mim.
    Uma vez cheguei a conclusão de que a morte não é o fim da existência de alguém. ( http://maiahloren.wordpress.com/2008/12/24/livro-louco-livro-breve/). Essa existência se faz na memória de quem fica. Mas não tinha aplicado isso a mim mesma. Agora faz mais sentido ainda pra mim. Não existe “eu” no corpo que acaba, talvez o meu “eu”, por exemplo, esteja presente mais nos outros do que em mim mesma.

    Muito bom. O texto me levou a uma reflexão e tanto.

  • Edwirgens

    A Rita comentou algo que eu também cheguei a pensar enquanto lia. E que tá me fazendo pensar em mil outras coisas.. rs

    Mas discordando um pouco dela, acho que realmente as partes menores de nós não podem ser chamadas de “eu”. Mas não pelo mesmo motivo que não se chama um lobo, de alcatéia por exemplo, e sim porque o “eu” não é o corpo.
    Segundo esse meu raciocínio (que acabei de desenvolver.. rs), o “eu” não é a estrutura física (exatamente por deixar de ser o que era com o passar do tempo, como você comentou). O “eu” nesse caso é algo abstrato. É uma ideia que reside na própria mente do indivíduo e na mente dos outros também sobre a sua existência. Só.

    O que caracteriza o “eu” como algo imortal até(como eu cheguei a falar no comentário anterior).
    Teu corpo, segundo esse meu raciocínio doidão, seria só uma das “casinhas” onde teu “eu” mora!
    E aí, comparações com carretas, serviriam pra mostrar que isto é um conceito concreto ao contrário do “eu” que é totalmente abstrato (visto que a carreta sim é um conjunto de peças que a constitui).

    Meio louco ficar pensando nessas coisas né? Mas é legal, por isso que eu venho aqui. rs

  • Helga Maria

    Sim, faço isso. Principalmente em uma discussão eu me coloco no lugar dela. Porém a recíproca quase nunca se dá. Então eu vejo os dois lados da questão mas a pessoa tá fechada na visão dela. Geralmente eu me ferro, principalmetne porque ao ver a visão dela eu não consigo mais brigar. Poxa, a pessoa tá ali defendendo o ponto dela e eu entendo. Só discordo, mas entendo o porque dela pensar assim.

    Depois que passei a fazer isso passei a entender cada pessoa individualmente, como um terrorista ou pessoas com loucura (e nessa loucura matam um, se flagelam etc). Há lógica no pensamento daquela pessoa em seu próprio mundo.

  • Big Brother Brasil 10 e House S06E11: o que é mais real? | Papo de Homem – Lifestyle Magazine

    [...] ele parecem artificiais na medida em que não se movem por conta própria. Humanos tem a capacidade empática de reconhecer intencionalidade no outro e por isso imediatamente desconfiamos da humanidade de um [...]

  • Dani *

    “mudar o mundo é mudar o olhar”.

  • Lívia

    quanto tempo q nao comento aqui…
    só pra dizer que vi sua participação na matéria do Globo sobre o ponto G…
    apesar de terem te chamado de Guilherme Gitti, te reconheci!
    nao lembro muito bem o que voce disse, mas tenho a sensacao de nao ter concordado.. hahaha.. novidade!!!
    bjos!!!

  • Guilherme

    Muito bom o texto Gitti !

    Realmente quando vc para e tenta enxergar o lado do outro, saber as suas necessidades, seu jeito de ser, é uma coisa muito grandiosa pra que qualquer um possa compreender melhor o mundo, e pessoas que praticam tal atitude, acabam se tornando muito agradáveis de se conviver e de se admirar.

    Sou a favor da doação de órgãos e de qualquer outro tipo de ajuda humanitária.

    E acredito, do ponto de vista do Cristianismo, que a morte não finaliza o ciclo da vida, apenas é um período de “descanso”.

    Uma ótima tarde a todos !

  • Mariana

    Engraçado, faço com animais. Pássaros e gatos são os meus favoritos.
    Um dia, li um texto de Clarice Lispector onde ela relata que fazia também. Dizia mais ou menos assim : “eu não sou dessas pessoas que humanizam os animais, pelo contrário,eu frequentemente me animalizo para estar junto deles”. Li algo semelhante de Lygia Fagundes Telles, conto “Lua crescente em Amsterdã”, aliás, recomendo…
    Com pessoas já fiz tentando observar com os olhos do outro, nunca sentir tão completamente como a sua experiência descreve. Interessante.

  • XXXX

    Volta e meia faço isso e quando realmente me concentro no outro eh assustador! E acho mais interessante ainda quando faco isso com alguem que conheco com intimidade (meu namorado ou minha irma por ex.). Quando tenho muita intimidade acho que conheco TUDO daquela pessoa e quando paro para tentar ver o que eles veem, sentir o que eles sentem, eh me dou conta das diferencas.Que dois nunca vao ser um.

  • Elzi

    Olá Gustavo!

    Ontem acessei pela primeira vez seu blog, e ainda que outra matéria direcionou até aqui, não vou comentar a matéria acima (mesmo achando ótima), mas comentar um acontecimento que achei engraçado.
    Depois de ler algumas matérias de seu blog, achei sensacional, conclui que penso e procuro agir bem parecido com a escrita de vocês (você e sua esposa). Com isso resolvi encaminhar o link do blog para uma amiga que curtiu muito, inclusive essa é a parte engraçada da história, ela veio me perguntar se eu lia seu blog e ia conversar com ela…hahahahahaha…perguntei porquê ela chegou a pensar isso – disse que era praticamente “eu conversando com ela, o jeito que pensava e agia…rs”.
    Bom, é isso!

    Muitos acessos pra vcs sempre, continuarei passando por aqui e lendo seus textos.

    Sucesso!

    Elzi

  • Paula

    Já fiz algo parecido diversas vezes.
    Observo as pessoas e imagino sua história, o que ela fez antes de chegar ali, para onde ela estará indo.

    Costumo andar de ônibus e olhar para as janelas das casas/apartamentos, ver suas tv’s ligadas e imaginar como são as famílias que vivem naquelas casas… quantos são? serão felizes? estarão sofrendo? Achava doideira da minha cabeça e nem conheci ninguém que fizesse algo parecido… até agora!

    O difícil de fazer essa projeção sugerida no texto é que por mais que imaginemos como o outro sentiria/reagiria/ouviria, estaremos sempre fazendo isso segundo nossa própria percepção de mundo. Da cor, do som, do cheiro…

    Então, de fato, não estaríamos experimentando o outro, na verdade estaríamos simulando um outro eu físico, só isso.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Paula, muito bom seu comentário.

    Discordo do seguinte:

    “Então, de fato, não estaríamos experimentando o outro, na verdade estaríamos simulando um outro eu físico, só isso.”

    O que é ser alguém? Qual a diferença de simular ser alguém? Nós mesmos não somos uma simulação?

    Ora, a experiência que eu tenho de mim mesmo é apenas uma experiência possível que crio na relação que estabeleço comigo mesmo. Outros tem outras experiências de quem é Gustavo Gitti pois estabelecem outras relações. Não dá pra dizer o que é mais real.

    Se alguém não tem consciência do próprio corpo (como 99% das pessoas) e é abordado por alguém que diz “Ei, você está com os ombros tensos”, quem tinha mais consciência ali? O dono dos ombros ou o outro cara?

    Nossa mente é mais ampla do que nossa pessoalidade e corporalidade. Tanto é que às vezes não achamos graça num filme, mas, por capacidade empática, dizemos: “Nossa, ontem vi um filme que ia te fazer morrer de rir”. Ou seja, temos acesso às mentes dos outros. Temos acesso ao corpo dos outros. Isso não é simulação, isso é apenas o efeito de sermos um ser plástico que pode se alongar para além de nossa mente-corpo pessoal.

    É por isso que nós mesmos mudamos de tempos em tempos. É por isso que com alguma convivência passamos a pensar igual a algum amigo, a falar as mesmas expressões que a namorada, a fazer expressões faciais parecidas… Enfim, nos tornamos o outro em alguma medida O TEMPO TODO. E isso não é simulação, a menos que digamos que tudo é simulação. ;-)

    Beijo.

  • Paula-rj

    Concordo que a percepção que temos de nós é pessoal e intransferível, e distinta da que outros têm de nós. Mas acho que não me fiz entender no primeiro post…
    Uma coisa é a imagem que você passa aos outros e a imagem que tem de si mesmo. Outra coisa bem diferente é a sua maneira de ver o mundo, seus valores, suas experiências, seus conceitos… tudo isso está em você e por mais empírico que se tente ser, no final das contas você irá aplicar a sua visão de mundo para perceber esse mundo, é involuntário. Essa visão de mundo, porém, não é imutável… e é aí que entra a interação social que você citou no comentário acima.

    Se a intenção do experimento proposto no texto é sentir o outro, experimentarei o outro segundo minha percepção de mundo. Ainda que outra pessoa me diga pra notar a tensão em meus ombros (seguindo sua metáfora), ainda assim não sentirei ombros tensos porque pra mim, aquela sensação não quer dizer ‘ombros tensos’, talvez não esteja tendo sensação alguma. Aí é ‘o outro’ aplicando a visão de mundo ‘dele’ aos meus ombros (que pra ele estão tensos). Ou seja, ele mesmo está se projetando no meu eu físico, apenas isso. Como no caso do experimento proposto no texto.

    O que eu discordo no teu comentário é o seguinte: Você pode não gostar de um filme e ainda assim indicá-lo a um amigo, isso porque você interpreta a imagem que ele te passa e se coloca temporariamente no lugar dele. Ótimo. Você talvez até possa se projetar para o corpo de um amigo para tentar sentir o que ele estará sentindo naquele momento. Primeiro porque você conhece essa pessoa; segundo, de modo geral (não exclusivo), nossos amigos são escolhidos for afinidade, ou seja, são pessoas com a visão de mundo mais ou menos semelhante à nossa (o que facilita a projeção). Porém, no experimento do texto se propõe que isto seja feito com alguém completamente desconhecido… cito: “Comece com uma pessoa mais distante, para não levantar suspeitas.”

    Então a questão da convivência e mimetismo não se aplica. Segundo o experimento nós devemos, sem informações adicionais, sentir o que a pessoa estará sentindo ao ouvir uma música, por exemplo. Ou o incômodo que ela sente na chuva, ou no calor… E repito, por mais que tentemos nos imaginar naquela situação, naquele ângulo, ouvindo aquela música, nós sempre vamos interpretar essas sensações segundo nossa visão de mundo.

    O real? É difícil definir. Mas se a sua realidade, a sua sensação for diferente da sensação da pessoa naquele momento, você não conseguiu de fato experimentar o outro, né? você não sente o que ele sente, você sente o que sentiria se estivesse na posição dele (coisas mto difernetes). E acredito ainda que não se pode jamais experimentar a existência do outro, pois… cito novamente:

    “Ora, a experiência que eu tenho de mim mesmo é apenas uma experiência possível que crio na relação que estabeleço comigo mesmo.”

    E o outro? Que experiência tem de si? Somente aquela que estabelece consigo, certo?

    Bjos

  • Gustavo Gitti (autor)

    Paula, sem dúvidas, mas o ponto não é se tornar o outro ou ter certeza que está simulando corretamente, apenas abrir a mente. É um meio hábil pra gerar empatia e visão ampla pra além de nossa perspectiva pessoal.

    Podemos fazer isso olhando no olho de nosso parceiro também. Ontem mesmo falei isso pra minha namorada e deu aquele medo. Quando percebemos que o outro é um serzinho IGUAL a nós, que tem uma mentezinha atrás dos olhos e vê o mundo de um jeito, bem, a nossa mente dá uma quebrada pois está MUITO acostumada em achar que só nós temos essa mentezinha por trás dos olhos. ;-)

    Beijo.

  • Lívia Borges

    Como dizia Anais Nin, “Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos.”

  • Lucrecia

    Belo tema! Como sempre escolhendo otimos temas, com muito potencial. Afinal se colocar no lugar do outro é o melhor exercicio pra entender a verdade universal de que tudo esta ligado e o ego só atrapalha. Assim como “fazer ao outro o que gostaria que fosse feito a voce mesmo” é a base das melhores religiões.

    Mas, na minha idiossincrática opinião, tem alguns vacilos esse texto. Como por exemplo a sofismática parabola da carreta. Tudo é o conjunto, alem de que tudo ta conectado, afinal nao é essa a idéia central do texto? Achei desnecessária, o link com o budismo poderia vir a esse texto de uma forma mais coerente e profunda.

    Que bonito sua filantropia de incentivar a doaçao de orgaos de uma forma romantica. O importante é que funcione, tudo bem, mas nao exagere: dizer que se coloca direto no lugar dos mendigos (pessoas no geral perdidas, drogadas e com problemas psicologicos) como se fosse uma coisa linda e leve foi exagero.

  • Andrey Ximenez

    Nunca comentei aqui antes, mas ja venho lendo seus textos a algum tempo, Gitti.
    -
    Ja faz algum tempo que as vezes me concentro tentando ver o mundo pelos olhos dos outros. Tentar sentir o que a pessoa sentia, ver o que ela via e esse tipo de coisa.
    -
    Lendo esse texto, porém, dei-me conta que o buraco é muito mais embaixo. Talvez a possibilidade de poder incorporar tudo isso seja muito mais forte e instrutivo que jamais pensei. As coisas mudam de sentido ao se analisar dessa maneira a empatia.
    -
    Enfim, pelo texto.

  • Deijanete Lôbo

    pASSAMOS UMA VIDA INTEIRA OLHANDO PARA OS OUTROS DE FORMA EXTERIOR. nÃO CRIAMOS EMPATIA.NÃO FIXAMOS UM OLHAR SENTINDO O QUE O OUTRO SENTE. FICAMOS SEMPRE DESCONECTADO AOS PROBLEMAS DOS OUTROS. ACHAMOS QUE IRMÃO SOMENTE É BIOLOGICAMENTE. PRECISAMOS ENTRAR NO MOMENTO SENTIMENTAL DO OUTRO SEM SE TORNAR INVASOR DE FORMA A QUERER AJUDAR. OLHAR O OUTRO COM O OLHAR DELE PARA SI MESMO.

  • Jajmel

    Algumas vezes me pego fazendo isso, tentando imaginar quem são aquelas pessoas que observo, quais são os seus sonhos, o que as atormenta, o que pensam sobre elas mesmas…

    Mas percebo que tenho dificuldade quando estou diante de uma pessoa que me dá a impressão de estar feliz, desperta, inteira. Destas eu acabo me sentindo obrigada a desviar o olhar…sei lá, parece que me sinto no direito, ou até mesmo na obrigação de não ser indiferente à dor do outro, mas por outro lado, a alegria é dele e a gente não tem o direito de mexer nas coisas alheias sem autorização. Não me sinto no direito de viver a felicidade do outro, nessas horas, estes sentimentos bons me parecem inacessíveis, sinto inveja e a minha depressão aumenta. Daí me pergunto, será que me permito sentir a dor do outro porque assim me distraio da minha? A felicidade do outro me faz parecer ainda mais desprovida, distante e incapaz, pois a minha dor, despertada nesse momento que eu enxergo o que me falta, parece que me paralisa e diz que “aquilo” não é para mim.

    Acho que o meu maior desafio é me entregar ao prazer, ao que vem para mim e ao que é compartilhado, aos físicos e metafísicos. Não aprendi essa lição ainda..

    Alguém já se sentiu assim? Sabem de algum meio hábil para ultrapassar essa barreira??

  • Gustavo Gitti (autor)

    Jajmel,

    Se você só sentir a dor do outro e se paralisar, não adianta, você nem será capaz de ajudá-lo, você é fisgado pelo mesmo padrão do qual o outro é refém.

    O segredo é sentir aquilo dentro de um espaço maior, sem perder sua estabilidade e se relacionando com essa mesma natureza cheia de liberdade e espacialidade que sempre existe nos outros, não importa a condição.

    Do mesmo modo, com o prazer, é preciso abrir espaço, caso contrário não vamos nos entregar e não vamos sentir prazer, seja ele sexual ou mais no sentido de êxtase, contentamento, bliss, joy. O segredo não está no conteúdo do lance, mas na abertura, na espacialidade que sustentamos internamente.

    Abração!

  • Alice Lima

    Farei e direi como foi

  • vera bicalho

    com certeza…quem pratica este tipo de exercício,é bem mais tolerante com as falhas alheias.pois se vê em situações,que não são suas.

  • Vilma Weber

    Nunca tinha lido algo que explicasse o que já aconteceu comigo,certa vez fiz a experiência olhando para o meu marido e percebi que fiquei diferente, foi engraçado, mas agora que descobri estes textos vou me inteirar e praticar. Parabéns pelos textos gostei muito. Obrigada por enviar-me

  • Experimento radical de empatia no TED | Papo de Homem – Lifestyle Magazine

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  • Izabela

    Olá,

    Eu fiquei espantada… hahaha
    Eu adoro fazer isso ..
    Não sabia que era um exercício de percepção…não tinha olhado com esses olhos filosóficos…
    A primeira vez que tive a ideia foi quando vi minha prima coçando o rosto…
    Não sei por que mais senti a sensação de coceira e comecei a me imaginar como o outro.. que pensei que a sensação que ela sentiu eu ja havia sentido..
    Eu notei que as sensações são as mesmas em todos…
    Foi bacana .. você soube expressar… uma brincadeira que faço comigo mesma a anos… hahaha Fantastico…

    Parabens pelo texto…
    Abraços

  • Rose Medina

    Sem palavras, achei simplesmente lindo.

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