“Eu tenho minha opinião, você tem a sua…”

por Gustavo Gitti 9 novembro 2007 13 comentários

“Respeito inibidor” talvez seja um bom nome para uma atitude que vem dominando cada vez mais o pensamento coletivo, um certo imaginário consensual que invade a mente das pessoas. Amizades, relações profissionais e amorosas, todas com respeito inibidor! Podemos reconhecer essa postura toda vez que uma pessoa, em um debate qualquer, diz: “eu tenho a minha opinião, você tem a sua”.

Sem dúvidas, a origem desse pensamento é excelente, nos abre para o relativismo e para a convivência com a alteridade. É também a fonte do respeito, da aceitação, da tolerância. Porém, tal origem foi esquecida; e sua expressão, corrompida. O que era um relativismo compassivo e descentrado – no qual o sujeito abraçava outras visões e podia sair de si – virou um relativismo alienado, totalmente auto-centrado e excludente.

Reconhecer o outro é admitir a existência de outros olhos, de outros mundos e de coisas que até então não existiam em nosso universo. O que acontece hoje, contudo, é uma separação do outro e um afastamento voluntário de qualquer alteridade, de qualquer mudança. De fato, abrir-se para o outro é dissolver a si mesmo, é mudar, transformar, morrer e logo renascer. Mas o desejo de se manter igual, contínuo e imutável acaba envenenando o bom relativismo e impregando nossos atos com esta atitude pobre e absurda de separação: “Cada um, cada um. Eu tenho meu ponto de vista, você pode ter o seu…”. O que no fundo quer dizer: “Eu não mudarei, mesmo sabendo que sua visão é mais abrangente que a minha, mesmo sabendo que sua realidade é mais aberta que a minha. Não! Eu construí minha vida inteira em cima de minhas crenças e não é você que vai destruir tudo”. A pessoa não quer morrer, não quer reconhecer a impermanência e cria fantasias de imortalidade, fazendo de tudo para defendê-las.

No amor acontece o mesmo. O namorado pede a amada que o ame do jeito que ele é. Ele nunca se dispõe a se transformar para melhor satisfazê-la. Ela, por sua vez, quer sempre ficar com aquele que menos a desafiaria a crescer. O que poderia ser um amor arriscado e sublime vira um sentimento compartilhado de conformismo. Para quem adere a essa atitude, não há diálogo, não há intersubjetividade, não há sexo. A mínima abertura pode significar a morte!

O que fazer para viver em uma sociedade em que se valoriza o diálogo? Ora, fingir que conversa, fingir que ouve o outro, simular abertura. Acho muito engraçado observar duas pessoas que mantém uma postura fechada e auto-centrada. Elas podem criar diálogos maravilhosos, mas não há nenhum contato autêntico ali. Eles estão apenas se afirmando perante o outro. Nunca chegam a se encontrar de fato.

Quem ainda não se atolou nessa ilusão pode e deve se intrometer. Se nós também deixarmos todos com suas opiniões, caíremos no mesmo erro. Ao se intrometer, nunca critique o ser, só a postura condicionada (com a motivação de desvincular o sujeito daquele equívoco). Com isso em mente, podemos apontar o erro e esperar que a pessoa aceite morrer. Podemos mostrar que ninguém se mantém o mesmo nem por um minuto. Ajudar o ser a olhar para suas contradições e para os pontos falhos de sua teoria-de-tudo. Afinal, morrer é transcender. Devemos nos intrometer, sim. Não precisamos reificar esse relativismo auto-centrado e egoísta.

Outro problema inerente à visão “Eu tenho a minha opinião, você tem a sua” é a falsa equivalência entre perspectivas. O extremo relativismo concede sobrevida a visões que poderiam facilmente ser aniquilidas por outras mais abrangentes. Em última análise, é precisamente isso que faz um nazista encontrar lugar em nosso mundo. O preconceito se alastra onde não há um efetivo confrontamento de visões, onde não há encontro.

O mundo é um espaço de encontro, de embate de visões e opiniões. Temos sempre a opção de viver ou ler um artigo com a atitude teimosa de “Eu tenho a minha visão, você tem a sua”. Mas por que não nos abrir, encarar a nós mesmos com os olhos do outro e nos deixarmos morrer?

Esses dias encontrei, em meio a um monte de xérox velhos, um texto bastante interessante que também critica essa postura fechada que invadiu nossa mente e corpo. A autora é uma psicanalista e o texto inicialmente falava sobre a educação atual. No meio da argumentação, ela divaga e fala sobre o assunto:

“Nas nossas profissões, chegamos a um tal respeito pelo outro, que não se ousa mais quase tocá-lo. “Respeite-me” transforma-se em “aceite-me como eu sou”, “não me peça nada”, “não me empurre”, “deixe-me onde estou com aqueles que se parecem comigo”, “ame-me, mas como eu sou”. “Você me deve respeito” parece finalmente significar: “Eu sou suficiente, e meu encontro com você não mudará nada do que eu sou”. Se lhe devemos respeito, podemos então exigir dele alguma coisa, impor-lhe o que ele não quer à primeira vista? Se sentimos como violência tudo aquilo que não entra em nosso mundo, e vice-versa, então é o fim do encontro. Mas no fundo o que permite crescer, aprender? É o fato de ser empurrado, desencaminhado, puxado para fora de si mesmo, ser seduzido pelo que não se é? [...]

Tornamo-nos friorentos, tomados de uma lógica de segurança. Mas não existe vida sem risco, vida sem morte, não existe si mesmo sem o outro, não existe paz sem confrontação. Não existe vida sem escuta arriscada, ou seja, uma escuta na qual corremos riscos também, o de nos encontrar outro, que nossa identidade rache. Correr riscos para si é se deixar afetar pelo outro, e não manter distância, protegido por nosso saber.

Somos convidados a mobilizar os contrários, e não querer expulsar um deles em proveito do outro. A partir disso, não podemos nos esquivar nem da escuta, nem do conflito, nem da questão lancinante do “quando somos benéficos, e quando não o somos mais?” Não nos livraremos jamais de tais questões, e felizmente.”

–CIFALI, Mireille. “Educar, uma profissão impossível – dilemas atuais”. In: Estilos da Clínica. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, volume IV, número 7, 1999.


Aqui no blog, minha motivação será de desrespeitar você, leitor. Será preciso entrar no seu mundo para oferecer e compartilhar os meus. Mas peço que me desrespeite também, ok? Nada mais gostoso do que alguém que nos desrespeita. Assim nascem os grandes amores e amizades: quando alguém nos invade sem pedir licença.

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Para transformar nossas relações

Há algum tempo parei de escrever no Não2Não1 e comecei a agir de modo mais coletivo, visando transformações mais efetivas e mais a longo prazo. Para aprofundar nosso desenvolvimento em qualquer âmbito da vida (corpo, mente, relacionamentos, trabalho...), abrimos um espaço que oferece artigos de visão, práticas e treinamentos sugeridos, encontros presenciais e um fórum online com conversas diárias. Você está convidado.



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13 comentários »

  • Lançamento do portal NossaVia | Não Dois, Não Um: Um blog sobre relacionamentos lúcidos

    [...] Imagine um portal feito por gente como você. Sem grandes agências, jornalismo impessoal ou notícias atrasadas. Acreditamos que o poder da nova Internet vem das pessoas, não de tecnologias ou empresas. Somos nós que olhamos os fatos, filtramos visões e compartilhamos conhecimento. Portanto, nada melhor do que reunir as pessoas que mais fazem isso na Internet – blogueiros e blogueiras – e oferecer conteúdos destilados para você. Minha primeira colaboração é um texto sobre o respeito inibidor: “Eu tenho minha opinião, você tem a sua…” [...]

  • Gustavo via Rec6

    “Eu tenho minha opinião, você tem a sua…”…

    Ao discordar de mim, o outro aponta meus limites. Quem tem a coragem de se deixar morrer e renascer ao olhar do outro? Conheça o %Crespeito inibidor%D, um grande veneno nos relacionamentos atuais….

  • Cybele Regina Fiorotti

    Gustavo, seu texto é tão claro que concordar é fácil, o difícil é praticar.O homem esqueceu de coisas simples como ouvir o outro, ficar atento a pequenas atitudes, a simplicidade, o toque. Isto só conseguimos com um olhar no horizonte, longe dos preconceitos e criticas, longe da centralização e do controle. Precisamos de mais conversas como esta, faz um bem danado para a alma.

  • Plinio Marcos Moreira da Rocha

    Bem, não há o que se discutir da eloquencia e coerência apresentada, apenas e tão somente, poderemos mudar referências…, uma vez que ao mudarmos referência o lógico e o palpável passam a ser parte de um TODO MAIOR…

    Embora reconheça que as pessoas tendem a se fechar em seus próprios e imutáveis valores, acredito que isto tem se evidênciado a partir do medo, não o medo de se machucar, mas o medo de perder alguma coisa, mesmo que não lhe seja tangível ou mensurável, pois, vivemos em uma sociedade calcada no TER, e deixar de TER alguma coisa, qualquer coisa é algo que “pertuba o sono” de muitos.
    Se extrtapolarmos esta premissa, veremos que ao nos desnudarmos para alguem, nos tornamos frágeis aos nossos próprios olhos, o que nos leva diretamente a um sentimento de insegurança, opa !, perdi meu “bem mais precioso” que era a minha certeza da segurança de “existir sem ser notado ou ameaçado”, muito embora seja um “existir” probre em essência é o que muitos desejam e buscam.
    Estas considerações basicamente tentam trazer ao contexto, não o óbvio “fechar-se”, mas acima de tudo, o porque de “fechar-se”, uma vez que, muitos “existem” sem a menor preocuação de representarem seus próprios anseios ou necessidades, uma vez que não é raro, encontrarmos exemplos de conflitos em Condomínios, Universidades, Famílias, Associoações de Classe, Sindicatos, ou seja em qualquer aglutinação de representatividade ou grupo social, em que se faz ncessário a presença e PARTICIPAÇÃO através de manifestação própria, onde o maior interessado, apenas e tão somente, se sente representado por outros que nem sempre conhece, muito embora, se arvore ao direito de questionar quaisquer das decisões que, em seu nome, em função da pura ausência de representação própria, o que nos leva a outro comportamento resultante do “medo de perder” (latente e inconsciente) que é o constante questionamento e posicionamento em “hora e lugar” impróprio, isto é, grito e esbravejo com um motorista pela demora do onibus, mas não me mexo para dirigir meu questionamento à Empresa que “presta o serviço”, pode provocar alguma “perda” que me será importante.
    Portanto, a preocupação em se manter igual e imutável esta mais para a idéia de não perder o que tem, mesmo que de fato não se tenha nada, do que a idéia de ser surpreendido com a negação de um dos valores próprios.

  • Plinio Marcos Moreira da Rocha

    , grito e esbravejo com um motorista pela demora do onibus, mas não me mexo para dirigir meu questionamento à Empresa que “presta o serviço”, pode provocar alguma “perda” que me será importante.
    Portanto, a preocupação em se manter igual e imutável esta mais para a idéia de não perder o que tem, mesmo que de fato não se tenha nada, do que a idéia de ser surpreendido com a negação de um dos valores próprios.

  • Plinio Marcos Moreira da Rocha

    Bem, não há o que se discutir da eloquencia e coerência apresentada, apenas e tão somente, poderemos mudar referências…, uma vez que ao mudarmos referência o lógico e o palpável passam a ser parte de um TODO MAIOR…

    Embora reconheça que as pessoas tendem a se fechar em seus próprios e imutáveis valores, acredito que isto tem se evidênciado a partir do medo, não o medo de se machucar, mas o medo de perder alguma coisa, mesmo que não lhe seja tangível ou mensurável, pois, vivemos em uma sociedade calcada no TER, e deixar de TER alguma coisa, qualquer coisa é algo que “pertuba o sono” de muitos.

    Se extrtapolarmos esta premissa, veremos que ao nos desnudarmos para alguem, nos tornamos frágeis aos nossos próprios olhos, o que nos leva diretamente a um sentimento de insegurança, opa !, perdi meu “bem mais precioso” que era a minha certeza da segurança de “existir sem ser notado ou ameaçado”, muito embora seja um “existir” probre em essência é o que muitos desejam e buscam.

    Estas considerações basicamente tentam trazer ao contexto, não o óbvio “fechar-se”, mas acima de tudo, o porque de “fechar-se”, uma vez que, muitos “existem” sem a menor preocuação de representarem seus próprios anseios ou necessidades, uma vez que não é raro, encontrarmos exemplos de conflitos em Condomínios, Universidades, Famílias, Associoações de Classe, Sindicatos, ou seja em qualquer aglutinação de representatividade ou grupo social, em que se faz ncessário a presença e PARTICIPAÇÃO através de manifestação própria, onde o maior interessado, apenas e tão somente, se sente representado por outros que nem sempre conhece, muito embora, se arvore ao direito de questionar quaisquer das decisões que, em seu nome, em função da pura ausência de representação própria, o que nos leva a outro comportamento resultante do “medo de perder” (latente e inconsciente) que é o constante questionamento e posicionamento em “hora e lugar” impróprio, isto é, grito e esbravejo com um motorista pela demora do onibus, mas não me mexo para dirigir meu questionamento à Empresa que “presta o serviço”, pode provocar alguma “perda” que me será importante.

    Portanto, a preocupação em se manter igual e imutável esta mais para a idéia de não perder o que tem, mesmo que de fato não se tenha nada, do que a idéia de ser surpreendido com a negação de um dos valores próprios.

  • Ana Lucia Sorrentino Garé

    Gustavo:
    Antes de qualquer coisa, parabéns pela estréia!

    Depois, achei engraçado que, quando cliquei em cima da chamada para o seu post, já sabia que era seu, porque de tanto ler seus textos no não2não1, já conheço seu estilo! É super importante, além de ter boas idéias, ter estilo também!

    Agora, sobre o tema: intrometer-se, invadir o outro, deixar-se invadir, é amar, não é? Esse “respeito” a que você se refere vem ilhando os seres humanos, que querem tanto ser respeitados, e depois acabam se queixando de solidão.

    Essa semana, você sabe, tentei te invadir um pouquinho. Depois, fiquei achando que fora invasiva. Tive medo de não estar “te respeitando”, de estar “passando dos limites”. Sabe de uma coisa? É uma delícia ousar um pouquinho e demonstrar que a gente tem interesse pelo outro! E quando o outro não tem uma postura de “me respeite”, é uma delícia maior ainda!
    Afinal, o que temos a perder? Essa energia que se cria nessas trocas, é o que há de mais gostoso na vida! Pra mim, é só assim que crescemos, só assim que melhoramos, só assim que podemos dizer que estamos vivendo!
    Boa sorte nesse novo trabalho!

    Beijão!

    Analú

  • Gustavo Gitti (autor)

    Analú, é um prazer receber um comentário seu por aqui também.

    Você acertou em cheio: a postura de “me respeite” é um saco!

    Abs

    Gustavo

  • Alê

    Muito bom Gu.
    Como disse um mestre:
    “Morra antes que você morra”

    bjs

    Alê

  • Leonardo

    Gustavo, concordo com 50% no que voçê argumenta no texto. Pois acredito que essa postura que as pessoas têm tido, cada vez mais acentuada, se deve ao fato de elas não querer perder a sua auto estima, ou seja, toda a vez que nos posicionamos confiantes em um certo assunto é porque temos uma certo conhecimento dele. Então, porque abrir mão da nossa opinião? A nossa opinião pode ser moldada aos poucos e nunca de um momento para o outro. Para muitos é sinal de inseguraça “concordar com tudo o que os outros dizem”. Devemos ser flexíveis, porém não por absoluto. Para mim, quanto maior for a credibilidade naquilo que se argumenta maior será o nivel de personalidade.

  • Diego

    Puxa, se não fosse a indicação do Catatau, eu nunca teria lido este texto, que no entanto foi escrito há quase um ano… Viva Catatau.

    Aliás, seu post me fez lembrar de um ensaio de Hannah Arendt, Verdade e Política (ou algo do gênero). Ela discute justamente a força corrosiva da opinião.

    Abs
    Diego

  • Társis

    interessante…
    incomodamente comum…

    mas jah percebeu o quanto a ideia (talvez, da forma como foi exposta) é perniciosa?

    Quanto de (des)respeito há na coisa da “idéia-mais-abrangente”?

    Suspeeeeeeito, muito suspeeeeeito…

    -.-’

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