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Eu seqüestrei e matei minha ex-noiva

por Gustavo Gitti 20 November 2007 4 comentários



Ontem à tarde liguei a TV e tomei um susto: homem mantém sua ex-noiva refém por 12 horas, atira contra a cabeça dela e se mata logo a seguir. A tragédia aconteceu na Praia Grande, litoral de São Paulo. Há alguns meses ele foi preso por fazer a mesma coisa. Saiu da prisão em um mês para dessa vez conseguir ir até o fim. Os dois morreram.

Problemas sociais são fáceis de apontar. Nosso sistema carcerário é inútil – não pune nem transforma. Não há ninguém prestando atenção nas pessoas que mais precisam de cuidado, afinal Gilmar precisava de um tratamento psiquiátrico. O “jeitinho brasileiro” muitas vezes torna-se um entrave: se a pena para seqüestro ou cárcere privado é de 3 anos, por que ele saiu em um mês? E assim por diante…

Na dimensão subjetiva, contudo, a lógica não é tão simples. Cada um de nós guarda o melhor e o pior da humanidade. Somos Hitler e Gandhi. Temos tudo pronto aqui dentro, sempre disponível. Eu já feri várias pessoas, quis matar outras, agredi, planejei crimes, me confundi, fiz besteira de todo tipo.

Ora, Gilmar sentia o mesmo amor corrompido que conhecemos bem. Ele se revoltou com o término do namoro, assim como já fizemos várias e várias vezes. A partir daí, ele seguiu nossos pensamentos e desejos secretos. Pegou uma algema, uma arma, foi até a farmácia onde a ex-noiva trabalhava, trancou-a, se algemou a ela. Gilmar tentou seqüestrar a felicidade, aprisionar o amor. Será que isso é mesmo tão estranho ou surpreendente?

Após o fim do namoro, lembro de uma noite na qual liguei umas 20 vezes para minha ex. Por educação, ela atendia, ouvia. Eu não tinha nada para falar. Queria o impossível, o retorno de algo que havia morrido. Só faltou coragem para eu seqüestrá-la.

Não só no fim, mas durante o namoro somos também Gilmar e sua algema. Nosso desejo não se contenta com a felicidade do outro. Queremos a felicidade do outro conosco, por nossa causa, ao nosso lado. Você já viu alguém terminar o namoro ao perceber que o outro merece mais? “Ah, eu amo aquela garota, não queria o fim. Mas acabei tudo quando vi que não a estava fazendo tão feliz”. Esse sim seria um fato extraordinário, uma notícia que eu gostaria de ver estampada na TV!

Os tiros de Gilmar são a expressão última de nossos impulsos autocentrados. O estrondo ouvido pelos policiais é o som de nossos desejos no limite. Muitas vezes pensamos: “Se ele não quer ser feliz comigo, então não quero mais saber dele”. É algo tão medíocre que não conseguimos admitir para nós mesmos. Quando reprimido, esse desejo brota como alegria ao ver o outro se dar mal longe de nós. Vemos uma foto recente no Orkut e sorrimos ao ver que ela está mais gorda, mais feia, em uma cidade pior, ganhando menos. Por inúmeras vezes, eu já senti essa satisfação perversa.

Cada um de nós tem a sua própria farmácia, seu modelo sutil de algema, seu revólver invisível. Em nossas ações cotidianas, em nossos pensamentos calados, contribuímos incessantemente para que aconteçam tragédias como a de Gilmar e Evelyn. Eles são o futuro do casal que teimamos em construir em nossas relações. O exemplo perfeito do que acontece quando amor vira apego, quando trancamos o outro para que ele possa enfim nos amar.

Perdi meu tempo.Você tem 12 anos?Tá frio hj, né?Quando sai o livro?Deu uma vontade de fumar... (Gostou do texto?)
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4 comentários »

  • Sarah K disse:

    Todo final de relação é muito doído, muita dor …. A perda é um sentimento dificil de lidar .. mas, enfim, munidos de nosso equilíbrio emocional tentamos seguir em frente, apesar de toda dor. Munidos de nossa força interior choramos sozinhos em nossos quartos … alguém se foi, não nos quer mais … Juntar os caquinhos e nos apegar à nossa dginidade, ao nosso auto-respeito.

    Gilmar é um doente e trouxe a doença para dentro de sua relação … muitos fazem isso? Sim, talvez … mas o desespero fatídico desse ato não vejo como uma coisa comum.

    Triste …

  • Gisele Amaral disse:

    A vida e o amor podem ser cruéis, mas a banalidade com que a imprensa tratou a coisa, pareceu bem pior…
    Ótima avaliação!
    Beijos.
    =*

  • N. disse:

    Uma coisa me chamou mto atenção: os comentários (li os do nossa via também)demonstram exatamente a dificuldade que nós “normais” temos de tirar uma lição disso, já que o sentido literal de assassinato e sequestro é tão forte. Mas acredito, como você (pelo que penso ter entendido do seu texto), que assassinei e sequestrei mtas pessoas ao longo da vida, com sentimentos de posse, de pensar que a forma certa de viver é a que eu acredito. Da mesma que já fui sequestrada dos meus desejos e até da minha essência (um tipo de morte também). Talvez o grande desafio (pra mim) é equilibrar o limite de tentar aprisionar o outro e o relativismo extremo. Ultimamente, eu caio nesse relativismo que da mesma forma desconsidera os nossos desejos, quereres, e às vezes até os valores…
    No mais, adorei o seu texto. Vc é minha leitura diária, que me faz refletir sempre sobre quem eu sou, minhas posturas, o que desejo do outro e de mim mesma. Por isso, só tenho que te agradecer.

  • Gustavo Gitti disse:

    N, eu também me surpreendi pelos comentários!!! Poxa, fico muito feliz em saber que você me lê. Essa rede invisível ainda me é muito misteriosa… Escrevo e não sei o que causo. Muito louco isso. Eu é que tenho a agradecer, acredite.

    Abração!

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