Entrevista com Myla Fonseca - Série “Mulheres por elas mesmas” (2)
O que as mulheres desejam? Quais os segredos e mistérios do feminino?
Continuando com as “Mulheres por elas mesmas” (leia a primeira da série), entrevistei Myla Fonseca, bon vivant de Belo Horizonte. A Myla adora vinho e conhece tudo quanto é arte boa, de música a fotografia. Ela me deixou com inveja: encomendou todos os livros do David Deida logo que viu uma citação minha. Os meus livros só chegaram essa semana…
Da aula da Myla, tiro um trechinho como teaser:
“Na maioria das vezes, esse excesso de masculino ou está abusando do feminino ou temendo-o. É raro o masculino que se sente à vontade diante de um feminino bem resolvido.”
Obrigado, Myla! Homens e mulheres, leiam e aprendam…
Se quiser participar ou conhecer alguém interessante, entre em contato comigo para receber orientações (já adianto que o anonimato é possível).
Perfil
Nome: Myla Fonseca
Idade: 29
Cidade: Belo Horizonte - MG
Sobre a entrevista:
Bem, antes de tudo, tenho pressa que saibam: vali-me da mais fina honesteza – única atitude que encontrei à altura desse convite que tanto me alegrou. Sou noviça de coisas assim, acho que é do nosso próprio: ninguém é de ficar se desnudando por aí. Mas… agora, inicio uma exceção. Sejam todos bem-vindos.
Um poeminha, teimoso, do Caeiro, um dos heterônimos do Pessoa, dançou pela minha mente o tempo todo, enquanto respondia às perguntas – possível reverbero de um dos recentes posts do monsieur Gitti.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
E do abraço desses versos surgiu outro; Drummond também lhe deu poesia, mas, antes dele, Pessoa já assim dizia: se “Não sou do tamanho da minha altura, mas da estatura daquilo que posso ver”, a esfera física de onde estou, portanto, pouco importa. Estendo isso a todos.
Entrevista
1. Qual é a personagem (cinema, literatura, música, pintura…) que mais retrata e expressa o feminino para você? E qual a mulher (famosa ou não) que mais encarna a essência feminina?
Engraçado, a personagem é o personagem: trocadilho bobo, mas é isso mesmo. Pra mim, quem mais expressa o feminino é Cyrano de Bergerac, magistralmente vivido na telona por Gérard Departieu, no filme homônimo, de 1990.
Cyrano é completo! Extremamente poético, intuitivo e assombrosamente abnegado – de uma forma muy rara de se ver e sentir. Dono de uma intrepidez fluida, sem titubeios, ele se oferece por inteiro ao outro, seja a quem for: sua amada, o ‘amado’ da amada, os amigos do regimento; enfim, Cyrano doa seu ser e não há nada mais feminino do que isso.
Em vez de deixar-se preencher por aquele nosso tão conhecido turbilhão de sentimentos: gerado ora pela falta ora pela presença do amor que parte do outro – a maior armadilha do feminino –, Cyrano vive além. Colhe em si próprio esse sentimento; põe-lhe pão e corpo, doses de coragem, e o doa. Desconheço outro jeito feminino mais belo de ser.
Na verdade, Cyrano equilibra muito bem as duas essências. Seu masculino não fica atrás. É presença profunda, marcante, preenchedora. Nosso herói sabe muito bem que direção seguir, e assim, lança-se à vida como ninguém. Um exímio espadachim e poeta sensível: masculino e feminino, em Cyrano, caminham de mãos dadas e vão muito além das atitudes mixurucas de amor-boomerang que comumente oferecemos.
Quanto à mulher que mais encarna a essência feminina, no meu dia-a-dia, desconheço. Todas nós andamos meio pernetas. No nosso relacionar com o feminino, somos míopes, principalmente em relação a nós mesmas. Ora na falta, ora no excesso – por isso que o caminho do meio anda mais importante do que nunca!
A mulher ou reprime-e-nega, em grande parte, seu feminino – já pararam pra reparar na ditadura silenciosa das calças jeans; cadê as saias esvoaçantes rodopiando ao gingado feminil? Cadê o cabelo naturalmente solto; o sorriso no rosto; a radiância de ser mulher? O outro extremo acontece quando a nossa essência masculina, que é o que nos dá o direcionamento, fica mergulhada sob o excesso do feminino. Assim, muitas vezes, mesmo sem perceber, a gente perde o rumo e se vicia. Vício este que pode ser em qualquer coisa: paixões, romance, comida, cigarros, ou chocolate. Esse auto-abuso é a nossa maior fragilidade. Se não abrirmos os olhos, fácil, fácil, a gente se vicia em nossos relacionamentos. O preço é muito alto: nossa autonomia desce pelo ralo. E quem puxa a corda somos nós – mas aí falamos que foi o outro.
Já o homem, na carência do feminino, torna-se autoritário ou inflexível ou ditador, ou um pouco de cada. Esquece-se que a vida também tem momentos lúdicos, brincadeiras e poesia – e o mundo, e quem mais estiver próximo, sofre seus abusos. Na maioria das vezes, esse excesso de masculino ou está abusando do feminino ou temendo-o. É raro o masculino que se sente à vontade diante de um feminino bem resolvido – geralmente ele se assusta e se fecha – território insondável mete medo.
Por tudo isso e um bocado mais, que nos é pele-a-pele, que anda tão difícil se relacionar de coração. Além de trocarmos de pele, a gente tem que aprofundar a retina. A esse entendimento de como as essências masculina e feminina entre nós circulam, todo o meu agradecimento vai para David Deida, de quem falo a seguir.
2. Que homem conseguiu entender a alma das mulheres?
David Deida. Descobri-o aqui no Não2não1, em março: um dos muitos presentaços do Gustavo. Sei que é recente, mas nenhum outro autor sobre relacionamento – dos muitos que tive em mãos – foi tão lúcido e direto ao ponto. Já o li suficientemente bem pra saber que sua obra é indispensável. Se ela irá te transformar ou não, aí é com você.
No entanto, por experiência, posso dizer: é aquela leitura que você mastiga pra dentro, cata palavras, revê conceitos e constrói pontes – mesmo que de lágrimas ou de sorrisos. Deida te transforma, se você aceitar o convite.
3. Quais equívocos você vê frequentemente em suas amigas ou em mulheres em geral? Onde elas erram e como poderiam acertar?
Poderia citar vários, mas viver em função do outro, como porteira da vida do namorado/marido, é nosso pior equívoco.
Onde a gente erra? Quando nos vemos como inimigas umas das outras. Hoje em dia, qualquer outra jovem mulher, solteira ou não, já é vista como competição em potencial.
Onde poderíamos acertar? Se não fôssemos tão passivas: a gente hoje não queima mais soutiens… Um professor, certa vez, referindo-se a nós, disse algo que grudou: “mulher, ser historicamente inviável”. Tudo bem, nos anos sessenta conquistamos o direito à independência financeira. No entanto, no fundo, no fundo, acho que ganhamos um metro de autonomia dentro de uma milha das mais diversas sujeições sem sentido – que continuamos aceitando, alimentando e ruminando.
Por que mulher bonita também não pode ser inteligente? Por que mulher madura também não pode ser sexy, tesuda, gostosa? Por que mulher bonita e inteligente assusta os homens e afasta muitas outras mulheres? Sucesso não é sinônimo de família perfeita e nem casamento é à prova de solidão. E nem a maternidade existe pra se preencher algum vazio. Quando que a gente vai entender que o tempo, bem vivido, é nosso bem mais valioso?
4. Quais confusões você observa em seus amigos ou parceiros? Onde eles erram e como poderiam acertar?
O maior erro é o de se fechar quando as coisas vão mal – momento que deveria ser o de maior proximidade, carinho e cuidado para com o outro: o ser amado, e a relação. Aliás, esse erro é muito cometido por ambas as partes.
Pensando melhor, o pior erro do masculino é quando ele se afasta, sem se redefinir na relação. O Gustavo já falou sobre isso, quando comentou um livro. E a frase grudou em mim, o maior erro é quando o homem “leave her alone but married” – deixa a mulher sozinha, mas não define a situação – nem termina e nem retoma, e muitas semanas vão passando. Isso, queridos amigos leitores, para a essência feminina, é uma mão delicadamente apertando um punhado de afiados alfinetes; torturante. Por isso, na maioria das vezes, é a mulher quem põe o ponto final, embora seja o homem, geralmente, quem inicia o namoro.
5. Amor eterno e casamento; amor líquido e morar junto; ou paixão intensa e solteirice sem fim? Com um homem machão e rico; sensível e inteligente; ou profundo e cortante?
Acho muito difícil, hoje em dia, uma mulher ter um único companheiro para toda a vida, como era costume. Acredito que a gente vai cultivando um número bem pequeno, mas de excelentes companheiros ao longo da vida, cada um consoante o momento em que vivemos. Por isso acho que amor líquido e morar junto seria uma boa aposta. Não descarto a possibilidade de ser em casas separadas também, se isso se provar mais benéfico do que morar junto.
Um homem profundo e cortante, dos trinta em diante – e um homem sensível e inteligente, já na velhice.
6. Qual a sua arte? No que você é realmente boa? Se pudesse oferecer algo ao homem de seus sonhos, qual seria seu presente?
Gente. Sou boa com gente. Em lidar, sentir e entender gente.
Iria lhe oferecer toda a minha capacidade de fazer do amor presentes. Faria desse agir uma espécie de laboratório porque se pode sempre amar mais e melhor. JGR já dizia: “É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.”
7. O que faz você gozar? Fale sobre posições, fantasias, pegadas, jeitos, toques e andamentos.
Tudo tá mesmo é na cabeça, do trivial até às nossas fantasias mais íntimas. Portanto, estar no clima, de verdade, é essencial. O pior sexo é mesmo o sexo obrigado. O melhor é aquele que vc nem imagina q vai acontecer.
8. Quais os pequenos detalhes que te fazem mulher? Seus braceletes, sua poesia, seu jeito de se sentar na sala do cinema… o quê?
Hehehe, meu jeito de vestir, que é bem próprio; nota-se: instantâneo, e, por isso, acho que é o que primeiro cativa e ressalta. De dentro, é meu jeito doce de falar, de pôr olhos nas coisas, de agir leve.
9. Qual é a grande história da sua vida? Para além de fatos brutos, em qual enredo mitológico você vive? Você é Cinderela, La Loba, Tara, Lilith, quem? Qual seu mito?
Ichhh, eu já me mudei tanto na vida… Acho que, de início, era Apolo – curiosa, cientista, amante da coisa lógica, das linhas limpas e coordenadas. Pouco satisfeita, procurei pelo profundo e encontrei a poesia: nas letras, na música, na dança, nos números, nas cores, em tantas coisas.
Hoje acho que bandeio mais pro lado de Afrodite, hehehe. Seria uma das três graças, as aias sempre jovens e companheiras da deusa. Delas emana o deleite com a vida e a fruição da arte, música e do amor. Eu poderia ser Eufrosina, que cuida do prazer e alegria.
Sonho seria conseguir juntar Sofia, Afrodite e Dionísio!
10. Descreva o momento de maior abertura, felicidade e transcendência que você já viveu.
Caminhando em volta da lagoa, ouvindo música. De repente, uma sensação sem margem à dúvida de entender meu mundo, a vida, o ser, as coisas. De repente a suspensão-ao-ar de tudo, mas, ao mesmo tempo, a redenção plena de tudo. Já se repetiu algumas outras poucas vezes. É algo que não se mede, não se calcula, não se prevê e que caminha além da lógica.
11. Escreva aqui a pergunta que gostaria de receber e trate de respondê-la! Pode ser algo que sempre desejou que um homem lhe perguntasse ou apenas algo que você queira dizer.
E aí, se a vida é super efêmera e repleta de mudanças, e se a gente, miseravelmente, não tem controle sobre nada, por mais que nos auto-enganemos que sim, onde a gente encontra escolha pra dançar essa dança?
No hoje bem vivido, sem correria, sem esterilidade, mas como um presente a você e ao outro. Entender isso demora um pouco. Viver isso só dá resultados se for prática diária. Mas, antes de tudo, tem que vir de dentro a vontade de transformar a vida numa dança ou numa busca a um tesouro de infância.
Essa é a única atitude em que temos poder de escolha e também a única que cabe a nós. Fora isso, em todo o resto, você se lembra que “a sua idéia do universo é que é uma idéia sua” ? E também que:
“Fora de [você] pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso”???






Achei muito legal ver as mesma perguntas respondidas de maneira tão diferentes. E mesmo quando ela fala do único ponto em comum, que foi a posição sexual preferida, o contexto da fantasia é diferente… risos. Muito legal. Amei. Já vi que virarei fã desta série de entrevistas.
obrigada, B.!!!
éh, essa idéia do Gustavo foi genial. :0)
só fui ler sua entrevista e a dos meninos bem depois, qdo já tinha enviado a minha. foi pra evitar meu lado papagaio, rs!
agora, falando sério, tá difícil d encontrar mulher bem resolvida hoje em dia e vc, definitivamente, é uma. [êêêbaaaaa!!!!!: esses são meus neurônios, em ovação!!!]
gostei demaaaais d “quase sagrado”. muita gente passa a vida inteira sem ter um momento assim. muita gente - o q até mete medo d pensar - nem gosta d sexo, têm o ponto cego no próprio corpo, inteiro. enfim… cada macaco no seu galho…
beijos,
myla
B.; Myla; Gustavo.
Parabens pela série de entrevistas. O maior mérito : mostrar que cada ser humano é absolutamente único. Não há um “time feminino” que pensa exatamente igual e sim pessoas com linguagem, profundidade e experiências de vida que as tornam impares.
Meninas, vcs são ótimas.Duas belas aulas.
Me encontrei com a Myla duas vezes e pouco nos falamos, percebe-se na entrevista as razões ou emoções pra se lembrar sempre dela.
pôxa, João, muito obrigada. lindas essas suas palavras e me tocaram muito!
Luna, sua obs é excelente! - a gente tem q diminuir a fila das marias-vão-com-as-outras, das marias-gasolinas e de tantas outras por aí.
mulher é ser inteligente, q gera e sente - vamos assumir isso!!!
beijos, myla
A cada entrevista uma surpresa.
Essa foi diferente… mostrando como cada mulhere tem suas nuance, seu diferencial.
Muito bacana …Adorei Myla!
;-)
Vim, li e me convenci…
César que me desculpe, mas vitória boa é dar-se a conquistar por umas boas pitadas de tradução do viver. Fino recado, Myla: bordar-se com feminina poesia e leveza tanto quanto lavrar-se no masculino sol-a-sol do viver-mundo… Cyrano, Diadorim: bons espelhos da busca de cada um(a) pelo amalgamar dessa junção-partilha que faz rodar mundo e girar sóis. Feminimasculina, talvez, seja a estrada de fazer bons futuros.
Abraços de um encantado aprendiz desses viveres.
[...] enviado para o nosso canal Via Aberta por Myla Fonseca, “uma moça, entre as montanhas de Minas, que sempre teve curiosidade quanto à coisa humana [...]
muito obrigada, Anderson: too far too kind, my friend! ;0)
beijo, igualmente aprendiz,
myla
[...] enviado para o nosso canal Via Aberta por Myla Fonseca, “uma moça, entre as montanhas de Minas, que sempre teve curiosidade quanto à coisa humana e, [...]
Pronto…
E agora já me perdi todo!
Já não sei mais se sou fã.. ou é paixão !!!
e eu que me achava tão bem resolvido!!!
heheheh
haaha… boa, Max!
[...] Myla me enviou o curta-metragem abaixo e me obrigou a escrever sobre como o amor é ficção. Assista e [...]
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