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Microrelacionamento: o detalhe

por Gustavo Gitti 3 August 2006 2 comentários



Charlene - Tattoo(continuação do post “Macrorelacionamento: o mito“)

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

Paulo Leminski

Você já viveu uma noite tão longa que no dia seguinte curiosamente apenas um momento é reencenado ininterruptamente em sua mente? Como se a noite toda estivesse ali, inteira naqueles segundos? Quando tudo o que conseguimos lembrar é aquele sorriso dela após um bom sexo ou aquele gesto dele antes do primeiro beijo da noite?

Estava agora ouvindo Tori Amos. Sua música é uma tapeçaria de detalhes. Como uma boa noite de amor, ela nunca se completa, pois se completa a cada momento. É uma sensação incomparável: não ter de ir a lugar algum, simplesmente ficar ali, respirar ali. A introdução já basta; não há necessidade de se chegar ao refrão, que quando chega não promete nada além dele. A música, sempre inteira, jamais se totaliza.

Nós não percebemos que nunca de fato existiu uma história de amor. Olhe para suas relações passadas e tente lembrá-las com nitidez… O que há é o detalhe, somente ele, no limite do imperceptível, quase não existindo, antes mesmo do real – o detalhe. Ele nunca se mostra totalmente e não conseguimos apontá-lo ou delimitá-lo com certeza. Para os leitores de Borges, uma imagem: coloque dois detalhes lado a lado; se você começar a prestar atenção em um, nunca mais conseguirá olhar para o outro, sequer saberá qual deles você notou primeiro ou que eram originalmente dois.

Quando perguntamos “O que mesmo que eu amo nela?”, muitas vezes tudo o que encontramos ao final de uma longa decupagem é um pescoço, um colo ou uma frase. Não só o pescoço, mas aquele ângulo específico pelo qual o vejo. Não só a frase, mas a frase que é nela mesmo o princípio e o horizonte de meus sentimentos. Às vezes parece que toda a relação se sustenta sobre a asa de uma borboleta: “eu a amo pois todo dia às 7h da manhã ela levanta nua e abre uma fresta da cortina, e então eu ainda sonolento não resisto ao encanto daquela luz específica batendo sobre sua pele… ainda se eu estivesse de pé, teria alguma chance… porém eu a vejo por baixo, esticado na cama”. É claro que as causas e as razões do amor não são a pele sob a luz, mas, sem aquela pele sob aquela luz sob aquele ângulo, não há razões nem causas para o amor!

Lembro-me do psicólogo do filme Gênio Indomável contando sobre sua mulher e sobre como ele adorava cada detalhe dela. Ou Tomas, em A Insustentável Leveza do Ser, que se apaixona por aquela mulher doente dormindo em seu apartamento. Pode ser o cabelo dela, e como ele se movimenta quando ela olha para você. Pode ser aquele sorriso específico que ele dá nos raros momentos em que fica envergonhado. Pode ser o modo como ela mexe na comida quando não mais está com fome. Ou seu jeito de se vestir, ou as idéias loucas dele sobre os filmes do Cronenberg, ou a voz dela quando está gripada, ou o modo como ela tira o shampoo do olho durante o banho.

Ainda que tudo esteja corrompido em sua relação, há sempre o detalhe. Vocês podem não mais sustentar aquela concordância gostosa em filosofia e religião, não mais trocar aquele carinho, vocês podem até mesmo estar em uma fase de brigas. Nada está perdido quando há pelo menos um detalhe.

Assim como o casal supremo, Shakti e Shiva, não consegue se expressar senão por meio de infinitos casais mortais, nosso amor ficaria preso e estéril se não explodisse em detalhes – os mais específicos, o mais particulares e idiossincráticos detalhes.

É no detalhe, e não só no mito, que percebemos a impessoalidade das relações autênticas, a impessoalidade do próprio amor. Seja no mito subjacente (na sua parceira que é Lóri ou Cinderela), seja no detalhe que nos arrebata (aquela curva da mão, a pele dela no inverno), nunca encontramos algo pessoal, algo concreto que nos diferencie, que consolide nossa identidade, nossa individualidade, nossa particularidade. O detalhe, inseparável do mito, é sempre universal, aberto para além de qualquer identidade. Ele tangencia e transpassa as pessoas, os casais, os locais, as histórias, mas nunca se fixa a elas. O detalhe nos ensina o amor sem fixações, o amor que não ama uma pessoa, o amor que sequer vem de nós. O detalhe nos ensina a amar o além do outro e a libertá-lo de si mesmo. Esse amor não vai até o outro tampouco: ele faz o outro brotar de dentro dele.

Aquele pescoço, aquele jeito, aquela virada, aquele som naquela tarde, “basta um instante”… O mito não é nada sem o detalhe. É o detalhe que constitui o mito, que o acende, que o alimenta. É somente o detalhe que transcende a si mesmo ao encarnar, a um só tempo, todo o sutil enredo mitológico e toda a realidade cotidiana do casal.

Perdi meu tempo.Você tem 12 anos?Tá frio hj, né?Quando sai o livro?Deu uma vontade de fumar... (2 votos | gostou do post?)
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2 comentários »

  • Vanessa disse:

    Você deveria me pagar direitos autorais… ;-)

  • Gustavo Gitti disse:

    Eu já estou pagando de outras formas… Quer namorar comigo? ;-)

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