Confissão

por Gustavo Gitti 31 agosto 2006 14 comentários

“Não era ele. Tampouco a mulher que ele fazia surgir em mim. O que eu gostava nele era o mundo. Eu fui iniciada e por isso fiquei com ele. Ele não se apresentou e também não me apresentou a mim mesma. Ele me apresentou um espaço que não apenas nos incluía, mas abraçava tudo o que vive. Um mundo.

Eu podia ficar um mês sem responder aos seus jogos de conquista, podia irritá-lo como quisesse, podia me descontrolar, fazer coisas que o machucavam… Porém, no momento em que ele me encontrava, me tratava como se eu nada tivesse feito. Ele não ligava para mim, não tinha consideração alguma e por isso sua consideração era máxima.

Nada de especial. Ele não tinha absolutamente nada de especial. Era um homem nota 7, sem diferencial algum. Ele não precisava. Andando no meio da rua, ele pegava em minha mão e eu sabia que ele estava ali e que eu era dele. Isso me bastava e eu nunca pedi por mais. Ele estava ali e eu era dele. Eu podia dançar livre em seu espaço. Nenhuma mulher deseja mais do que isso.

Quando me olhava, não me olhava exatamente, não era bem a mim que ele via quando demorava seus olhos sobre meu corpo. Eu não sabia o que ele via e o que ele amava em mim. Eu não sabia com quem ele trepava quando metia em mim. Eu tinha um prazer supremo ao não saber de onde vinha o seu prazer. Talvez ele me usasse – ah, mas então ele sabia (e como!) me usar.

Eu tenho de admitir que eu só fiquei tanto tempo com ele porque eu me deliciava na tentativa de torná-lo meu, tanto quanto eu era dele. Impassível, imóvel e transcendente, ele nunca cedia, o que apenas me fazia brilhar mais. Eu começava tentando conquistá-lo e terminava por fascinar e inebriar qualquer um, qualquer ambiente que adentrasse. Se ele logo tivesse se tornado meu, hoje eu não seria tão bela. Minha impotência se tornou minha graça.

Ele não metia com seu pau. Ele vinha com um mundo pra dentro. Ele quase não existia como uma pessoa. Sua inexistência era seu charme. Seu abismo, seu mistério. Ele metia com mistério e tudo pra dentro. E eu gostava. Meu gozo era ser uma eterna grávida, prenhe de mim mesma.

Eu não o amava. Eu amava a música “Modern Girl”, do Eric Clapton. A melodia era para mim, a letra era totalmente minha, por mim, sobre mim, entre mim, através de mim. Mas esta música era tão dele! Eu só conseguia ouvi-la quando ele estava deitado ao meu lado. Ela só era minha quando eu era dele.

Eu não o amava. Eu amava a Avenida Paulista. Mas a Paulista era dele, era ele. Para andar por ela, eu precisava dele. Mesmo sozinha, eu andava à medida que ela me possuía, que ele me abria. Eu voava a Paulista…

Eu não o amava: eu amava o mundo. E quando desisti de buscar por seu coração, finalmente aprendi a uivar.”

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14 comentários »

  • Ceres

    Como ele sabia amar….e como ele sabia amar! Ser opacidade para que ela brilhe, ser ele e estar ali para permitir que ela busque a si mesma o mais profundo possível.

    Estou emocionada, maravilhada…suas palavras são encantadoras, traduzam o que de melhor o ser humano pode ser e transmitir!!!

    Abraço enorme,

    Ceres.

  • fernanda

    Gustavo, milhões de desculpas a frase é sua sim, e já coloquei os devidos créditos, se é isso que vc passou cobrando.

    Ela se encaxou com o meu momento.

    Paz e luz!

  • fernanda

    Opa! Fiz melhor..Apaguei o texto e concordo com vc sobre colocar os devidos créditos, já-o faço e sempre coloco o meu nome mais embaixo.

    Mais uma vez desculpe.

    Paz e luz!

  • Débora Rangel

    Nossa vida e existência é composta por experiências vividas, assistidas (principalmente vividas)e cada pessoa que por ela passar vai deixar sua parcela de contribuição para o que nós somos hoje.

  • Débora Rangel

    Você andou fazendo um revisão no seu projeto de livro foi?! Se eu não me engano já tinha 73%, qual é Gitti, sai ou não sai?! Brincadeirinha…

  • Para entender as mulheres | Não Dois, Não Um: Um blog sobre relacionamentos lúcidos

    [...] Para entender uma mulher, enfim, você precisa fazê-la suar, digo, fazê-la sua mulher. [...]

  • Erick Patrick

    Olha só, há um tempinho leio esse blog. Nunca parei para comentar, contudo. Hoje decidi fazê-lo, porque fiquei simplesmente enbriado com esse e com o texto “Para entender as mulheres”.

    Belo jogo de palavras, sentimentos e sensações! Uma bela fonte de “aprendizado” e inspirações. Nota 10.
    Abraços!

  • Lucius

    Esse é quem um dia serei…

  • Flávio Souza

    Esse texto foi legal, parabéns.

  • Sabine

    Por ter afastado todas as minhas dúvidas sobre a intensidade e beleza dos amores breves, muito obrigada.

  • Lorena Morais

    Você escreve tão beeem… me deixa fascinada!

  • Paulinha Costa

    Palavras coordenadas perfeitamente provocam sensações conhecidas de quem já viveu dessa forma, sentindo com esta intensidade.
    Suas palavras são repletas de emoções, em outro post vocês escreveu mãos que falam e palavras que tocam, é isso que você faz aqui. Obrigada, querido, te ler é um presente! bjsss

  • Pam

    Nussa!! o texto me deixou sem fôlego.

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