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	<title>Não Dois, Não Um &#187; Filosofia com corpo</title>
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	<description>Um blog sobre relacionamentos lúcidos</description>
	<lastBuildDate>Fri, 17 Jun 2011 05:10:16 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Meu corpo sobre a beleza (ou breve ensaio sobre a estética nos relacionamentos) &#8211; Parte 2</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Oct 2008 12:50:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Continuação da primeira parte, na qual critiquei a supremacia da visão na estética dos relacionamentos.</p>
<p>E se, em vez de pensar ou teorizar, deitássemos nosso corpo sobre a beleza e os cinco sentidos? Além de reflexão ou idéia, como seria esse toque? Melhor do que uma abordagem intelectual, que tal uma encoxada na estética dos relacionamentos?</p>
<p></p>
O mito da<p>&#8230;</p>


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Continuação da <a href="http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-a-beleza-ou-breve-ensaio-sobre-a-estetica-nos-relacionamentos-parte-1/" target="_blank">primeira parte</a>, na qual critiquei a supremacia da visão na estética dos relacionamentos.</p>
<p><em>E se, em vez de pensar ou teorizar, <a href="http://nao2nao1.com.br/category/filosofia-com-corpo/" target="_blank">deitássemos nosso corpo</a> sobre a beleza e os cinco sentidos? Além de reflexão ou idéia, como seria esse toque? Melhor do que uma abordagem intelectual, que tal uma encoxada na estética dos relacionamentos?</em></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-312" title="olhos_fechados2" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2008/10/olhos_fechados2.jpg" alt="Olhos fechados" /></p>
<h1>O mito da beleza interior</h1>
<blockquote><p>“O mais profundo é a pele”<br />
–Paul Valéry</p></blockquote>
<p>Na adolescência, me orgulhava por dissociar beleza interna e beleza externa. Eu pensava que poderia ter nascido com qualquer rosto, que minha mente era uma coisa separada e que estava acoplada ao meu corpo por puro acaso. Eu mal prestava atenção à minha corporalidade e, por efeito, olhava os outros como <em>tendo</em> um corpo, não como <em>sendo</em> um corpo. Eu não me sentia um corpo e por isso buscava abstrações e sentimentos etéreos nos outros. &#8220;Beleza interior&#8221; era um tema recorrente, principalmente nas minhas tentativas de conquista. Nada melhor do que valorizar a beleza interior diante de uma menina absurdamente linda, não é mesmo?<!--adsensestart--></p>
<p>Depois de muito tempo, paralelamente ao meu retorno ao corpo por meio da polirritmia, um insight veio à tona: <strong>beleza é sempre exterior</strong>. Não, eu não poderia ter outra face, outra voz ou outro jeito de andar. À medida que mudo, minha voz muda, meus traços se alteram, meus trejeitos manifestam minha mente. Experimente olhar para qualquer pessoa e perguntar: &#8220;Ela poderia ter outra voz que não essa? Outra cara que não essa?&#8221;. Quanto mais conhecemos alguém, mais respondemos com um objetivo &#8220;Não&#8221;.</p>
<p>Ainda que a beleza provenha de qualidades subjetivas, tal interior não só é exterior a nós como se exterioza no corpo do outro em gestos, palavras, faces e olhares. Dada uma certa configuração cognitiva e emocional (um mundo interior), não é qualquer corpo que vai surgir. É como se não houvesse sequer uma união entre corpo e mente, como se de fato nunca tivesse existido separação alguma. Um só ser que se expressa e com o qual nos relacionamos em diferentes linguagens: sons da voz, redes de pensamentos, fluxos emocionais, toques da pele, luminescências da imagem. Corpo e mente não são duas substâncias e tampouco uma. Não dois, não um.</p>
<p>Eis a razão para a completa integração dos cinco sentidos, como se eles fossem um só órgão perceptivo que usasse várias membranas para captar diferentes camadas de estímulos e vibrações: ouvido para som, olhos para luz e assim por diante. O filósofo Maurice Merleau-Ponty, que estudou detalhadamente o fênomeno da percepção, afirmou: &#8220;Nenhuma experiência humana se limita a um dos cinco sentidos. Os sentidos se decifram uns aos outros&#8221;.</p>
<p>Em nosso cotidiano, não vemos o corpo com atenção. Ignoramos a corporeidade e ultrapassamos a pele, o que é fácil. Bundas perfeitas, ombros delineados, costas que atestam virilidade, bocas que nos provocam&#8230; Cada parte do corpo é vista tal qual um objeto inerte, como se a alma estivesse em outro lugar. Mais ainda, cada parte do corpo nos leva para fora, para nosso desejo ou para a investigação da mente ali escondida: &#8220;Quem é ele?&#8221;. Justamente devido a esse equívoco, perdemos acesso ao próprio corpo e ganhamos apenas superfícies artificiais em nosso campo sensorial. Não haverá diferença entre a bunda da revista e aquela da mulher na nossa frente enquanto buscarmos pela alma em outro lugar, enquanto pensarmos que o espírito está escondido.</p>
<p><strong>Ficar no nível da pele é que é raro. </strong>Não precisar tirar os olhos das pernas para ver a alma. Lembrar, a cada instante, que uma pessoa não tem um corpo, <em>é</em> um corpo; que a mente não fica dentro da cabeça, mas na barriga, no pescoço, mãos e tornozelos. Saber que todos estamos nus, completamente acessíveis o tempo todo. Criar relações com os poros, sem precisar ir para outro lugar. Ver a face do outro como necessária, não contingente (&#8220;não poderia ser de outro modo&#8221;), faz com que comecemos a amá-la, assim como ficamos felizes quando percebemos que nosso passado não poderia ter sido diferente, caso contrário não seríamos o que somos – experiência que Nietzsche chamou de <a href="http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-o-arrependimento/" target="_blank"><em>amor fati</em></a>.</p>
<p>Aquele que é considerado &#8220;feio&#8221; muitas vezes toma como refúgio a noção de beleza interior sem saber que ela é uma armadilha que consolida e toma como natural sua suposta falta de beleza. Ora, nada falta ao cego pois é de sua natureza não ter olhos! O feio assim nos parece porque estamos procurando algo que não é dele, como se tentássemos, sem sucesso, projetar nossos desejos de beleza em seu rosto, quando deveríamos apenas olhar e receber o que ele tem a oferecer.</p>
<p>As conexões humanas acontecem de acordo com nossos condicionamentos: alguns seres causam aversão em uns e apego em outros. Aquele que nos parece horroroso é desejado por outra pessoa. Um homem aborígene não é nojento em si mesmo pois se o fosse não seria procurado por uma mulher de sua comunidade para uma noite de sexo.</p>
<p>Sem a noção de beleza interior, a natural beleza de todas as aparências é revelada. A profunda alma do mundo está na superfície: tudo é luminoso, nítido, vivo.</p>
<h1>A estética como cura da anestesia</h1>
<blockquote><p>&#8220;Nothing can cure the soul but the senses&#8221;<br />
–Oscar Wilde</p></blockquote>
<p>Em uma palestra sobre a percepção estética e sobre como nos relacionamos com as obras de arte, o crítico e professor Jorge Coli falou sobre <strong><em>écfrase</em></strong>, a atitude de &#8220;deixar a obra de arte falar&#8221;, enxergá-la e descrevê-la como ela surge, sem significações adicionais, opiniões ou o clássico &#8220;gosto / não gosto&#8221;. Segundo ele, com essa prática, a obra nos revela muito mais do que poderíamos suspeitar a princípio, e transborda significados muito mais profundos do que aqueles que rapidamente nela projetaríamos. Em vez de entrar para nossa coleção de objetos, encaixotada em nosso espaço interior, a obra de arte <em>abre</em> nosso corpo, expande nosso mundo.</p>
<p>Cada vez que Jorge Coli pronunciava &#8220;obra de arte&#8221;, eu ouvia &#8220;pessoa&#8221; (confesso que a palavra exata era &#8220;mulher&#8221;) e imaginava como seria uma relação de écfrase mútua. Na verdade, isso é bastante simples. Por generosidade, chegamos ao outro e dizemos: &#8220;Não vou sair daqui nas próximas horas, me mostre seu melhor&#8221;. Porque essa frase nunca de fato sai em palavras, ela não tem a pressão que aparenta carregar. Qualquer pessoa adora quando tem espaço para se mostrar, para exercitar suas qualidades, jogar seu charme, ter sua beleza admirada. O outro quer ser usufruído, quer se oferecer inteiro.</p>
<p>O que deixa bonita e irresistível cada parte do corpo do outro não são apenas seus próprios traços ou seu entorno, mas <strong>o modo como ela se oferece a nós</strong>. A boca, bonita nela mesma, fica ainda mais bonita se vista em relação ao queixo, nariz, bochechas, pescoço e os fios de cabelo que invadem os lábios; e totalmente bela quando pede por nosso toque, se abre e chama nossa própria boca.</p>
<p>Para liberar a beleza do outro, não basta saber olhar, ouvir, cheirar, tocar ou lamber. É preciso abrir espaço e convidá-lo a se oferecer a nós. Você se lembra da felicidade e do prazer que sentiu quando enfim conseguiu soltar suas qualidades diante de alguém? Ora, quer presente melhor do que deixar seu parceiro sentir o mesmo? Muito melhor do que oferecer é possibilitar o espaço para que o outro ofereça. Eis a generosidade insuperável: deixar que o outro seja generoso. Desse modo, ainda que ambos recebam, o foco, a energia e a felicidade estão em <a href="http://nao2nao1.com.br/oferecer-para-homens/" target="_blank">oferecer</a>.</p>
<p>Na verdade, o que acontece por trás da generosidade é um processo de abertura e descentramento. Quando o foco está em receber, ironicamente nosso corpo se fecha e continuamos insatisfeitos – nunca conseguimos receber o suficiente. Onde não há generosidade, brota carência. No corpo que se fecha, as experiências dos cinco sentidos se empalidecem. Anestesiados, somos capazes até de matar pois quando não sentimos aumentamos o contato com o outro até o machucarmos. Por não vivenciarmos dor em nosso corpo, causamos dor aos outros.</p>
<p>O sintoma mais comum de um casal em crise é a <strong>anestesia mútua</strong>. Cada parceiro se torna incapaz de realmente se abrir e sentir o outro. Além disso, fica quase impossível olhar o outro em traços puros, sem que cada gesto ou olhar nos remeta a incontáveis lembranças e sensações aflitivas. A ausência de écfrase é inseparável do esquecimento da generosidade: perdemos a disposição em dar crédito, dar tempo, dar espaço, dar respeito, dar nascimento ao outro. Na falta de generosidade, nenhuma beleza é possível. Aquele ser bonito que nos atraía se transforma em um monstro que agora nos causa nojo e aversão.</p>
<p>Sem que precisemos analisar e reconfigurar o conteúdo da crise, sem resolver os vários problemas que causaram a apatia, podemos atacar diretamente a anestesia. Em vez de pensar ou conversar (como pode existir diálogo sem abertura?), usamos o corpo. Anestesia é falta de estesia. Simples assim. No entanto, o que sentiria um corpo doente se lhe retirassem os anestésicos? O maior impedimento à abertura é o fato de que ela inicialmente será uma <strong>abertura à dor</strong>. Fruir uma obra de arte é fácil, mas ninguém quer ter uma sensação estética da dor. Por isso, à medida que a crise piora, aumentamos a dose de morfina, sem saber que estamos nos distanciando ainda mais da solução.</p>
<p>Sofrer, contudo, não libera o sofrimento. Vamos sentir nossa própria dor apenas para que possamos sentir a dor do outro. De fato, elas são uma e mesma coisa. Ao focar em como liberar a dor do outro, já estamos operando com generosidade. Já estamos abertos e alegres pelas pequenas alegrias que causamos. Com esse espaço, ele novamente solta suas qualidades, seu charme. Não é por acaso que o outro volta a ficar bonito e a nos atrair. Generosidade dá tesão&#8230; Ignoramos as demandas de nosso autocentramento e simplesmente nos abrimos. Caso contrário, vamos perder muito tempo pedindo e buscando por aquilo que nossa contração nos faz desejar. Muito mais fácil se conseguirmos dissolver o autocentramento, raiz de nossos problemas.</p>
<p>E então, durante a crise, sem respeitar regras e coerências, empurramos o outro para baixo do chuveiro. Em meio a brigas constantes, desânimo e intolerância, nenhum dos dois toparia tomar banho juntos, assim, do nada. Mas nosso corpo, por mais que relute, deseja o toque. Com a água correndo, deixamos que a mão, não a mente, faça o trabalho. E confiamos na sabedoria natural do outro corpo para expor sua dor. De novo, o mesmo processo: ele vai soltar o que tiver e nós abraçamos o que vier. Até que a dor cesse e ele siga oferecendo sua arte, que é o que sabemos fazer melhor.</p>


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		<title>Meu corpo sobre a beleza (ou breve ensaio sobre a estética nos relacionamentos) &#8211; Parte 1</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Oct 2008 01:28:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>E se, em vez de pensar ou teorizar, deitássemos nosso corpo sobre a beleza e os cinco sentidos? Além de reflexão ou idéia, como seria esse toque? Melhor do que uma abordagem intelectual, que tal uma encoxada na estética dos relacionamentos?
</p>
Crítica à supremacia da visão
<p>Vivemos imersos em uma cultura da visualidade. É o excesso do sentido&#8230;</p>


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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-313" title="olhos_fechados" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2008/10/olhos_fechados.jpg" alt="Olhos bem fechados" /></p>
<p><em>E se, em vez de pensar ou teorizar, <a href="http://nao2nao1.com.br/category/filosofia-com-corpo/" target="_blank">deitássemos nosso corpo</a> sobre a beleza e os cinco sentidos? Além de reflexão ou idéia, como seria esse toque? Melhor do que uma abordagem intelectual, que tal uma encoxada na estética dos relacionamentos?<br />
</em></p>
<h1>Crítica à supremacia da visão</h1>
<p>Vivemos imersos em uma cultura da visualidade. É o excesso do sentido da visão, mais do que qualquer outro, que define a relação de nosso corpo com o mundo. Se uma empresa quer fazer aparecer seu produto (ainda que ele seja direcionado ao nosso paladar, como um chocolate), ela prepara um comercial na TV para ser <em>visto</em> – não ouvido, cheirado, tocado ou degustado. Publicitários sabem que é a força da imagem que movimenta nosso desejo.</p>
<p>Por tal supervalorização, a visão é nosso sentido mais desenvolvido e aquele que retiraria de nós a maior porção de mundo em caso de perda. Sem qual sentido você viveria melhor? Visão ou olfato? Em qual dos cinco sentidos sua namorada é mais presente para você? Por qual sentido seu marido a ama mais? Quando você lembra de alguém, qual o sentido predominante?</p>
<p>Em um treinamento do SESC SP, o professor Norval Baitello (doutor em comunicação e semiótica pela Universidade de Berlim) falou de outras culturas em que o sentido predominante não é a visão. Em uma delas, o cumprimento &#8220;Tudo bem com você?&#8221; significa algo assim: &#8220;Como está seu cheiro hoje?&#8221;. Para ele, <strong>visão e audição são os sentidos da distância</strong>, enquanto tato, gustação e olfato são os sentidos da proximidade, da intimidade.</p>
<p>De fato, para um relacionamento, cheirar é muito mais importante do que ver, pois podemos ver qualquer um, mas cheirar apenas aquele que nos é próximo. A visão não define amor algum: vemos bundas na <em>Playboy</em>, decotes à distância, mulheres na webcam, homens estranhos ao redor. Se a visão predomina, é porque não há relação íntima. A audição também: conversamos por telefone ou Skype, ouvimos milhares de vozes estranhas em um bar&#8230; Nossa visão e audição são preenchidas por muitos com os quais não temos quase nenhuma relação.</p>
<p>Com nosso parceiro amoroso, no entanto, a visão e audição perdem poder. <strong>O outro está perto demais para ser visto</strong>, silencioso demais para ser ouvido. Antes ela era um quadril perfeito, costas lindas, ombros, colo e cabelos inebriantes. Sua beleza estava nos traços. Agora, no escuro do quarto, seus limites se misturam e é precisamente isto que a faz bonita. Seu quadril não é mais visto. É tocado, cheirado, empurrado, puxado, lambido, mordido. Antes ele se destacava por estar separado, pela impositiva linguagem visual, das costas e das pernas. Agora, o quadril se desdobra e nos leva às pernas e às costas. Ele é um prolongamento do prolongamento. Antes, o corpo tinha começo e fim, dos pés à cabeça, distinto do chão e do local onde se movia. Agora, o corpo é infinito: assim que o entendemos, assim que o capturamos 100%, ele muda de posição e logo o perdemos novamente. Sua mulher se estende diagonalmente na cama, você se deita em cima, tenta envolvê-la com seu corpo e descobre que, sem a visão, é impossível tocar de uma só vez a extensão completa de seu corpo. Na verdade, nem a visão consegue isso, já que é impossível ter uma perspectiva de 360º.</p>
<p>No dia seguinte, ela não nos parecerá bela por imagens na memória. <strong>Sua beleza estará no cheiro dos dedos e unhas</strong> (aquele que o sabonete parece ignorar e você quer que ele continue ignorando), no relevo da língua, no gosto alterado da saliva, na lembrança de como o corpo dela deslizava pelo seu – sabe aquela aura que o outro deixa a um centímetro de nossa pele?</p>
<p>Se nós, como sociedade, escolhemos colocar o sentido da visão acima de todos os outros, não deveríamos reclamar da falta de profundidade e criatividade em incontáveis relacionamentos. Ora, o sentido que mais estimulamos, a capacidade que mais treinamos, é justamente aquela que usamos apenas até o ponto em que tocamos nosso parceiro, até o ponto em que a relação começa.</p>
<p>Mais ainda, a visão é sentido da dualidade: sujeito aqui, objeto lá; olhos de um lado, paisagem de outra. Em todos os outros, objeto e sujeito se confundem. Onde está mesmo o som dessa música? Aqui dentro ou fora? Enquanto você coloca sua mão em mim, que parte do toque é sua e que parte é minha? Com um morango na boca, sou capaz de saber o que é morango, o que é língua e o que é gosto de morango? Seu cheiro é isso que vem de você ou isso que parece que brota de dentro de mim? Na verdade, a visão também funciona de modo não-dual, mas por ela é muito mais complicado vivenciar a não-dualidade. Sua ilusão de dualidade (a sensação de que o mundo está lá fora), é tão persistente que nos leva a acreditar que a cor, por exemplo, é uma propriedade dos objetos.</p>
<p>A visão é também o sentido pelo qual medimos a beleza: o outro é belo ou não na medida em que sua imagem é bela. Nossa experiência estética do mundo, originalmente ampla e proporcionada por cinco vias, se restringiu de tal forma que <strong>atualmente sequer usamos nariz, pele, ouvido e língua</strong> para responder à pergunta &#8220;E aí? Bonito ele?&#8221;. Usamos apenas os olhos! Esquecemos que aquele homem que parece belo aos nossos olhos talvez nos pareça horrível pelo nariz, pele, ouvido e língua. E aquela mulher que nos excita pela visão talvez não seja aprovada por nossa pele.</p>
<h1>Uma venda vermelha</h1>
<p>De olhos bem fechados. Para as melhores sensações da vida, cerramos as pálpebras, puxamos o ar e abrimos os poros. Não sei se isso vale para uma viagem ao templo Angkor Wat, mas para a beleza do amor a visão é secundária. Se pudéssemos guardar algo de nosso parceiro, escolheríamos um cheiro, toque ou gosto, não algo que pudesse estar disponível no Flickr ou no YouTube.</p>
<p>No meio de um bar, de olhos abertos, tudo o que você vê é um bar. De olhos fechados, pode imaginar o céu acima, a rua que leva para a casa dela, a casa dela, o perfume dela, ela sem perfume, a textura da pele, o gosto da brisa do céu acima da casa dela&#8230; De olhos fechados, você não tem só um bar, você tem o mundo.</p>
<p>No canto da cama, de olhos abertos, você vê a boca dela vindo até a sua, armários ao fundo, teto, luminária, paredes e um quadro. De olhos bem fechados, o quarto inteiro é a boca dela, o mundo são lábios que o envolvem por completo. Você esquece que tem pés e pernas. Você não vê uma cama em um quarto em uma cidade em um país em um planeta&#8230; De olhos fechados, só há o beijo. Eis por que o amor é cego (uma venda vermelha, mais precisamente) e não deveria ser de outra forma.</p>
<p><em>Continua&#8230;</em></p>
<p><em>P.S.: Se quiser contribuir para a construção de uma sociedade menos imagética, ame alguém. Você naturalmente será menos refém de sua visão e vai treinar muito mais os outros quatro sentidos. O mundo se expande e as imagens se empalidecem diante das belezas cheiradas, tocadas, degustadas e ouvidas.<br />
</em></p>


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		<title>Por uma vida encarnada: breve crítica aos relacionamentos sem corpo</title>
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		<pubDate>Mon, 19 May 2008 06:53:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://nao2nao1.com.br/img/angelina_jolie_boca.jpg" alt="Angelina Jolie - Boca" width="588" height="164" /></p>
<blockquote><p>&#8220;Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.&#8221;<br />
–<strong><a href="http://www.releituras.com/manoeldebarros_nada.asp" target="blank">Manoel de Barros</a></strong>, em <a href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=39270&amp;franq=254430" target="_blank"><em>O Livro sobre o Nada</em></a></p></blockquote>
<p>A primeira parte desse texto serve apenas para contextualizar as duas seguintes. Os apressados pragmáticos podem seguir diretamente ao que interessa.</p>
<h1>A mente é o corpo pensando</h1>
<p>Nos últimos tempos, estou sentindo aversão a discursos românticos, interpretações filosóficas, teorias sobre relacionamentos e tudo aquilo que se adiciona ao <strong>fato cru do simples viver</strong>. Textos maravilhosos não me movem, <a href="http://nao2nao1.com.br/sitemap/" target="_blank">meus posts antigos</a> soam artificiais, livros não passam de jogos semânticos estéreis. Quero distância de sentimentalismos, bla-bla-blás, explicações de qualquer tipo. Caminho pelo outro lado da poesia: às vezes uma árvore é apenas uma árvore. Novamente, o gênio <a href="http://www.secrel.com.br/jpoesia/manu.html#seis" target="_blank">Manoel Barros</a>:</p>
<blockquote><p>Que a palavra parede não seja símbolo<br />
de obstáculos à liberdade<br />
nem de desejos reprimidos<br />
nem de proibições na infância,<br />
etc. (essas coisas que acham os<br />
reveladores de arcanos mentais)<br />
Não.<br />
Parede que me seduz é de tijolo, adobe<br />
preposto ao abdomen de uma casa.</p></blockquote>
<p>Toda boa crítica mira, antes de tudo, o passado daquele que a desfere. Sempre que encontrar alguém dilacerando uma certa idéia, tenha certeza de que ele já foi um forte defensor da mesmíssima visão atacada. Ou, pior, ele inconscientemente ainda a mantém e a reprime por meio do discurso público sobre quem gostaria de ser (na esperança de que <strong>exaltar o ideal desvie os olhares do real</strong>). Ora, a crítica se faz completa e detalhada justamente por isso: ninguém melhor para falar do pecado do que o próprio pecador. Desconfiem, portanto, desse texto. Eu pertenço ao segundo tipo de críticos. ;-)</p>
<p>Durante toda a minha vida, vivi mais o mito que o fato, mais a poesia do dia seguinte e menos o tesão do momento. Só recentemente peguei gosto pelos gingados do corpo&#8230; E então descobri o <strong>toque</strong> como o mais sofisticado dos conselhos, a conexão espiritual que vem do <strong>cheiro</strong>, a racionalidade pós-kantiana do <strong>instinto</strong>. Somos muito mais animais do que pensamos ser. Daí meu interesse em escrever sobre como meu corpo se move sobre a <a href="http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-a-inveja/" target="_blank">inveja</a>, <a href="http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-o-arrependimento/" target="_blank">arrependimento</a> ou sobre a própria <a href="http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-a-mente-ou-retiro-de-meditacao/" target="_blank">mente</a>, em vez de descrever meus pensamentos e filosofias sobre tais questões.</p>
<p>Tal inversão ganhou reconhecimento mundial somente nas últimas décadas – ainda que seja a continuidade natural do pensamento de Espinosa, Nietzsche e Merleau-Ponty – com o trabalho do biólogo <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Francisco_Varela" target="_blank">Francisco Varela</a> e seus parceiros (dos quais destaco <a href="http://individual.utoronto.ca/evant/" target="_blank">Evan Thompson</a>). Livros como <a href="http://www.amazon.com/Knowing-Bodies-Moving-Minds-Landscapes/dp/1402020228/ref=sr_1_6?ie=UTF8&amp;s=books&amp;qid=1211159615&amp;sr=8-6" target="_blank"><em>Knowing Bodies, Moving Minds</em></a> (&#8220;Corpos que conhecem, mentes que se movem&#8221;), <a href="http://www.amazon.com/Philosophy-Flesh-Embodied-Challenge-Western/dp/0465056741/ref=pd_bbs_sr_2?ie=UTF8&amp;s=books&amp;qid=1211159615&amp;sr=8-2" target="_blank"><em>Philosophy in the Flesh</em></a> (&#8220;Filosofia na carne&#8221;) e <a href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=189726&amp;franq=254430" target="_blank"><em>A Mente Incorporada</em></a> sustentam, a começar pelos títulos, as idéias de que <strong>a mente é uma ação corporal</strong>, a cognição se dá pelo corpo e o conhecimento humano só faz sentido se for incorporado.</p>
<p>E não só na filosofia ou na ciência. Se procurarmos pelo estado mental mais elevado, descobriremos que até mesmo o auge da prática espiritual não tem nada a ver com almas ou espíritos. No Budismo Vajrayana, o fenômeno da liberação de todos os condicionamentos é conhecido como <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Rainbow_body" target="_blank"><strong>corpo de arco-íris</strong> (<em>jalü</em> ou <em>rainbow body</em>)</a>. Todos os elementos impermanentes são dissolvidos na base última e atravessados pela luz que não é senão sua própria substância. Isso não é raro; isso é muito raro! Nos poucos casos ocorridos (eu sou cético, só acreditarei com mais evidências), diz-se que o meditante pede para ser deixado a sós em um casebre e dias depois as pessoas ao redor são surpreendidas por uma explosão luminosa dentro do local, que solta fachos de luz por todas as frestas. Ao abrir a porta, encontram apenas roupas, dentes e cabelos.</p>
<p>Ainda que saibam que o treinamento espiritual começa e termina no corpo, alguns espiritualistas <em>new age</em> insistem em ignorar sua importância. Inscrevem-se para workshops e ficam horas sentados vendo slides sobre samadhi, animais de poder e psicologia transpessoal. As apostilas e certificados infelizmente não impedem que o organismo continue engordando e se arrastando rumo a uma suposta iluminação além do corpo. Não é por acaso que uma das práticas que mais fazem sucesso atualmente é chamada de <strong>&#8220;experiência fora do corpo&#8221;</strong> (<em>out-of-body experience</em>, OBE ou projeção/viagem astral), que nada mais é do que uma interpretação espiritualóide para um fenômeno bastante natural do próprio corpo: o <strong><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Lucid_dreaming" target="_blank">sonho lúcido</a></strong>.</p>
<p>Da sensação mais grosseira ao sentimento mais etéreo e transcendental, absolutamente <strong>tudo se passa e se expressa no corpo</strong>. Não há como escapar disso. Ou melhor, é justamente por ignorarmos a corporeidade que <em>sub-vivemos</em>, que não conseguimos avançar na própria racionalidade ou na espiritualidade – vista, como uma miragem, em uma alma além do corpo. Espiritualidade desencarnada, filosofia desincorporada, pensamento sem tesão, palavra sem carne&#8230; Eis alguns nomes para a doença que, quando contraída a dois, degenera grande parte dos relacionamentos amorosos.</p>
<h1>Relacionamentos sem corpo</h1>
<p>O que na filosofia ganha efeitos meramente acadêmicos, nos relacionamentos pode resultar em muito sofrimento ou várias brochadas (i.e., o que poderia mas não acontece). <strong>Pior que amor não vivido é aquele mal vivido.</strong></p>
<p>Ele passa a noite toda hesitando em dançar. Ela percebe seu desconforto e pára de insistir. No dia seguinte, ele envia um email carinhoso descrevendo seus sentimentos por ela. Um texto que reencena poeticamente o melhor beijo da noite e, ao fazê-lo, tira o foco do fato cru: <strong>ele não conseguiu expressar todo esse amor <em>durante</em> a noite</strong>.</p>
<p>Ele lê Vinícius e Whitman para ela ao telefone. Seu desejo vira flores, jantares e SMS de madrugada. Ela se envolve e se entrega, até que enfim tira a roupa. O menino poeta agora não mais tem palavras em mãos. Ele tem as próprias mãos. Com pé, boca e pele, qual poema sai? Frustrado, descobre que não sabe bem como conduzir o quadril dela do mesmo modo que movia seus pensamentos à distância.</p>
<p>Uma relação pode até começar com uma metáfora, mas o amor não se vive como metáfora. Uma história a dois se inicia quando ambos compartilham sonhos, quando a aventura mitológica de um encontra espaço no caminho poético do outro. Porém, enquanto o prelúdio amoroso é<strong> conotativo</strong> (&#8220;Você é como uma&#8230;&#8221;; &#8220;Quando digo isso, quero dizer&#8230;&#8221;; &#8220;Esse CD simboliza aquela noite&#8230;&#8221;), a vida da relação é <strong>denotativa</strong>: &#8220;Quando eu beijo você, isso significa que eu beijo você&#8221;. Durante a conquista, podemos penetrar o outro com palavras. Isto porque o ato de sedução é uma espécie de promessa de relacionamento. No meio do namoro, entretanto, para penetrar o outro é preciso realmente penetrar o outro. Só o corpo é capaz da verdadeira poesia: <strong>dizer aquilo que de fato se quer dizer. </strong></p>
<p>Entre o <a href="http://nao2nao1.com.br/macrorelacionamento-o-mito/" target="_blank">macrorelacionamento do mito</a> e o <a href="http://nao2nao1.com.br/microrelacionamento-o-detalhe/" target="_blank">microrelacionamento do detalhe</a>, mais importa o segundo, a expressão, a explosão viva do que adormecia no potencial dos arquétipos. Seu amor por ela não está no sonho que vocês constróem há anos, na conversa após a briga ou na história que você conta a si mesmo. Seu amor por ela inexiste na memória. Ele está sempre naquilo que você faz <strong>agora</strong>, só aparece quando exercido e praticado. Amor é ação. Presença.</p>
<p>Energia sem nome, força sem rosto. Vida crua, livre de discursos, adornos, memórias ou associações. Vontade avassaladora, direta, anterior às metáforas e significações. Fato vivido, que dispensa emails posteriores. <strong>Prosa deitada</strong>, sem poesia.</p>
<p>Quando não nos relacionamos com o corpo, deixamos desejos perdidos em sublimações desencarnadas. Gastamos energia, nos esforçamos e ainda assim deixamos de viver tudo o que podemos. Afinal, <strong>declamar poema nunca engravidou ninguém</strong>. Além de não viver, abrimos espaço para a dor. O que é brigar senão perder o contato com os próprios pés? Observe um casal em discussão e veja como ambos parecem pairar sobre suas cabeças, um tentando voar mais que o outro. Atente para si mesmo durante uma briga e sinta como você perde completamente o contato com o próprio corpo. Eis o outro lado do romantismo desincorporado.</p>
<h1>Para uma relação encarnada</h1>
<p>Não aceite sentimento algum (seu ou do outro) que não seja uma sensação corporal. Desconfie de visões espirituais que não surjam acompanhadas de percepções sensoriais. Ignore pensamentos que não impliquem em posturas e posições do corpo. Abandone conversas em que ninguém esteja dançando. <strong>Evite compensações e substituições para seus desejos amorosos </strong>– seu impulso de invadi-la, desrespeitá-la, penetrá-la de todos os modos; sua vontade de ser perscrutada, rendida, atravessada.</p>
<p>Por meio de práticas corporais (ioga, tai chi, kung fu, esportes, meditação, artes), aprofunde sua relação com o corpo. Sinta não apenas seu corpo, mas a corporeidade dos outros. Toque o corpo do mundo. Aprenda novos movimentos, gestos, olhares. Jeitos de pegar e conduzir; modos de se soltar e se entregar. Experimente segurar um pouco mais forte. Entorte, desentorte, se demore mais.</p>
<p>Use seus dedos para dançar com a mão dela. Esfregue seus pés nele. Faça massagem de perna com perna, braço no braço. <strong>Delicie-se com o colo</strong>, aquele universo imenso que existe entre o pescoço e os seios dela.</p>
<p><strong>Use todas as emoções negativas como meios hábeis para abrir e amar o outro.</strong> Se ela o deixou nervoso por não ter conversado com seus amigos bêbados e fumantes, não discuta, não apele para a mente. Respire sua raiva e deixe que ela mova seu corpo em direção ao dela. Pressione o peito dela contra o seu, mostre que você a ama, que <em>ela pode se soltar nas mais desconfortáveis situações</em> porque você está ali, presente, com ela. Leve para cama sua decepção com o mundo, seu fracasso. Engula e transforme seu dia inteiro na fúria mansa que vai entrar no corpo dela. Use sua vida para amplificar o amor que você esfregará naquelas curvas.</p>
<p>Se ele se distraiu, errou e decepcionou você e sua família, não inicie uma luta de argumentos, não use a mente. <strong>Coloque sua raiva nas mãos e bata nele</strong>. Dê um tapa na cara, tire-o dessa sonolência, libere seu torpor. Use seu corpo para ativar o corpo dele. Deixe-o vivo. Esfregue-se até que ele abra os olhos, peça desculpas e saiba o que fazer, até que ele retome seu direcionamento. Vá para a cama com suas dúvidas e contrações. Deixe que ele a veja assim, cheia de você mesmo, e sinta uma vontade irresistível de percorrê-la inteira.</p>
<p>Uma história de amor talvez seja a tentativa – sempre fracassada – de viver com o corpo aquilo que certa vez fantasiou a alma. Mas não precisa ser assim. Aquilo que o próprio corpo fantasia parece bem mais rico. E possível.</p>
<p><strong>O que não sei lhe fazer com o corpo, guardo em minha mente. </strong>O que não sei tocar, lamber ou deslizar, <em>penso</em>. Com isso, ora vou disparar bla-bla-blás românticos, ora vou brigar em argumentos infindáveis. Mas e se eu conseguir falar com os lábios? E se lhe pedir para me escutar apenas com sua boca?</p>


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		<title>Meu corpo sobre a mente (ou Retiro de meditação)</title>
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		<pubDate>Sat, 10 May 2008 00:46:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img align="left" title="zafu_meditacao" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2008/05/zafu_meditacao.jpg" alt="zafu_meditacao" width="250" height="173" /><em style="font-style: italic;">Esta é uma continuação da série &#8220;Filosofia com o corpo&#8221; (leia <a href="http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-a-inveja/" target="_blank">&#8220;Meu corpo sobre a inveja&#8221;</a> e <a href="http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-o-arrependimento/" target="_blank">&#8220;Meu corpo obre o arrependimento&#8221;</a>). </em></p>
<p><em style="font-style: italic;">Dedico cada palavra ao <a href="http://www.cebb.org.br/lamasamten/biografia" target="_blank">Lama Padma Samten</a> e a todos que também estavam nesse retiro aberto de 4 dias no coração de São Paulo.<br />
</em></p>
<p><strong style="font-weight: bold;">5h30. </strong>Joelhos lacrimejam. Sono. Muito sono. Torpor. Mais de 30 pessoas na sala. Não há música new age de fundo, não há mantras. Nem incenso nem movimentos tântricos. Há o <strong style="font-weight: bold;">tédio supremo</strong> (com trilha sonora do trânsito de São Paulo). No folder de divulgação não me lembro de ter visto alguma promessa de diversão ou garantia de transformação. Pelos menos não fui enganado.</p>
<p><strong style="font-weight: bold;">Por que mesmo estou aqui? </strong>Porque eu tenho um blog de relacionamentos e seria bom eu saber, pelo menos um pouco, do que estou falando&#8230; Não. Porque eu tenho a motivação de trazer benefícios aos seres&#8230; Não. O que mesmo são &#8220;os seres&#8221;? Eu só conheço a Paula, o Bruno, a Fernanda, a Malu, a Juliana, a Mariana e mais alguns poucos. O que mesmo são benefícios? Eu só tento compartilhar o silêncio, comprar verduras, pagar as contas, tirar o lixo, não ser tão orgulhoso, invejoso, preguiçoso e, de novo, silenciar junto. Eu só sei fazer isso, não faço idéia do que sejam &#8220;benefícios&#8221;.</p>
<p>Por que mesmo estou aqui? Ah, sim, porque eu sofro e me debato contra a vida, <strong style="font-weight: bold;">porque muitas vezes quero outra coisa que não o presente</strong>, porque acho que algumas coisas são de fato permanentes e porque alguns de meus movimentos na vida machucam pessoas queridas. Estou aqui porque faço gente sofrer, mesmo (ou principalmente) quando não quero.</p>
<p>OK, vamos seguir as instruções. Focar na respiração e lentamente focar a energia do corpo. Quando fico torto e quase dormindo, quando me alinho e fico excitado, quando surge raiva ou ansiedade. Todas as variações de ânimo, de ventos internos. Porém, eu sequer sei o que é essa tal &#8220;energia&#8221;. Eu sequer tenho consciência dessas variações sutis internas. Em vez de movê-las, sou arrastado por elas, sou refém, presa fácil. É aí que estou: no ponto de perceber que não consigo nem seguir a instrução de meditar, no ponto de olhar em detalhe <strong style="font-weight: bold;">minha cegueira em relação a tudo o que vive dentro de mim</strong>.</p>
<p>E pensar que essa é só a primeira instrução! A segunda abandona o foco e se abre aos estímulos sensoriais, <em style="font-style: italic;">wide open</em>, 360 graus. Outra, mais adiante, repousa na base não-construída dos fenômenos. Até que a meditação final vê cada detalhe como a perfeita manifestação da realidade última, além de vida e morte, além de espaço e tempo. É dessa visão que surgem os hai-kais:</p>
<blockquote><p>silencioso lago<br />
o sapo salta<br />
tchá</p>
<p>(<a href="http://www.kakinet.com/caqui/furuike.shtml" target="_blank">Carlos Verçosa</a>, em <em style="font-style: italic;">Oku: viajando com Bashô</em>)</p></blockquote>
<p>Os olhos tem de ficar semi-cerrados ou abertos. Estou de olhos abertos agora. Estou vendo as costas desta mulher, ela não é bonita, eu acho que já a vi em outra ocasião, será que eu lembro o nome dela? Não lembro, mas a do lado, que eu não vejo, é a Luciana. Eu consigo sentir seu perfume, minha irmã usava a mesma marca, eu lembro bem daquele dia quando nós&#8230; <strong style="font-weight: bold;">Eu ainda estou de olhos abertos? </strong>Não sei,  vou tentar abrir os olhos: se conseguir, é porque não estava. É, eu abri e agora é nítido. Estava sonhando.</p>
<p>Incrível. Não só que meus olhos se fechem sem que eu perceba, mas que minha mente siga vendo coisas exteriores <strong style="font-weight: bold;">como se estivessem lá fora</strong>. Minha mente segue reagindo a impulsos e pensamentos, eu sigo pulando de um mundo a outro, igual faço com sites na Internet, com abas no Firefox, com emails. Eu sou levado, eu não tenho controle algum de meu destino. Será que é por isso que, sem querer, muitas vezes acabo chutando e pisando nos outros? Talvez seja esse mesmo automatismo que muitas vezes me leve para locais onde eu não queria ir.</p>
<p>O sono é denso e todo-abrangente. Eu não consigo me livrar. Arranho minha própria mão, finco as unhas no braço, abro bem os olhos. Tudo para não dormir. Meu corpo treme, meu metabolismo diminui, sinto frio, choques e um calor que parece que pesa. Tudo em vão, quando me dou conta, abro os olhos: dormi de novo. Dessa vez, acordo com a certeza de que <strong style="font-weight: bold;">os últimos 3 meses de minha vida foram idênticos a essa longa piscada</strong>. Eu fiquei dormindo, sonolento, dormente. Eu não lembro de ter respirado, de ter sorrido abertamente, de ter olhado fundo nos olhos de alguém. Sim, a meditação apenas explicita – por condensar e intensificar – um movimento que acontece a todo tempo em meu cotidiano.<!--adsensestart--></p>
<p>O sono é sólido, concreto. A dor arrebata e me envolve até transformar a sala inteira em um grande incômodo. A pedra no sapato se torna 100% da realidade. O mundo inteiro não passa de um joelho latejante. É inescapável. Até que lembro de minha própria morte ou me vem à mente cenas da última noite de sexo ou o lama fala &#8220;Meditar é praticar liberdade&#8221; e eu me alinho inteiro. Cadê o sono e a dor? Cadê aquilo que era tão concreto, existente, real? O que mesmo estava me aprisionando? <strong style="font-weight: bold;">Não pode ter sido só uma nuvem onírica! </strong>Não é possível que eu tenha passado alguns bons minutos sofrendo só por causa de uma maldita névoa. De novo, não foi só agora. Venho fazendo isso a vida inteira. Os minutos são meses, anos. Dou solidez ao que surge e então, de uma hora para outra, não vejo mais saídas. A claustrofobia do sofrimento quase sempre me faz pensar em me matar. E sigo na montanha-russa, do êxtase ao suicídio, da abertura ao fechamento total, da leveza ao peso insustentável.</p>
<p>Um passarinho canta ao longe, sorrio por dentro. A caixa de som pega interferência de uma rádio, me irrito, me debato, quero levantar e ir embora. Olho a gostosa do outro lado da sala, me encho de tesão. Ouço o gordo de trás espirrar, fico preocupado com a situação de minha blusa. Lembro da última briga, entro em depressão. <strong style="font-weight: bold;">Objetos, seres e situações exteriores movem minha energia interior. </strong>Sou refém de tudo e de todos.</p>
<p>Fico com o outro porque ele me faz sentir de um jeito que me sinto só com ele. E então o abraço e não quero soltar, não quero parar de sentir essa coisa gostosa que vem não sei de onde. Preciso de pessoas e objetos, preciso de sites, livros, chocolates, filmes, músicas, dinheiro, sexo, olhares, festas, momentos, férias, trabalho, elogios, sorrisos. Para cada um de meus 8.457 estados de felicidade, preciso de um elemento exterior correspondente. Meu coração só bate quando ativado, fisgado por alguém. Meu pulmão só funciona quando inflado por uma bomba. <strong style="font-weight: bold;">Só ando quando me carregam.</strong></p>
<p>Sofro porque sou incapaz de direcionar minha própria energia, de construir meus estados de ânimos, de reconhecer que sou o criador de tudo o que surge dentro de mim. Depois de analisar todos os estados da alma, é isso que Espinosa conclui na quinta parte de sua <em style="font-style: italic;">Ética</em>. O tema é justamente esse: a liberdade humana. Assim como Nietzsche ou qualquer mestre budista, <strong style="font-weight: bold;">Espinosa não vê a liberdade como a cessação do desejo</strong>. Para ele, o controle dos desejos não produz liberdade. Pelo contrário, é a liberdade que leva à capacidade de responder ou não ao que surge, de direcionar a ação de modo autônomo. Ora, a potência de viver é justamente aquilo que não consegue se expandir plenamente no processo reativo condicionado. A alegria, o regozijo, o desejo vivido, só é possível na liberdade, na ação. Meditantes, em vez de apáticos e desconectados, tendem a ser mais desejantes, vivos e apaixonados por tudo e por todos.</p>
<p>Embora eu não acredite em preces, começo a rezar para que o lama toque logo o sino e ponha fim na minha tortura. Será que já se passaram os malditos 30 minutos? Comecei na respiração, dentro e fora, enchendo e esvaziando, só observando, sem forçar, e agora estou ofegante, cansado, pensando nos postulados espinosanos, nas aulas de filosofia e no texto que vou produzir para o blog. Ainda não sei se meus olhos estão fechados. Tomara que isso acabe logo.</p>
<p><strong style="font-weight: bold;">5h31.</strong></p>


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		<title>Posso pedir sua mão? (para mulheres)</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Mar 2008 05:43:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia com corpo]]></category>
		<category><![CDATA[Linguagens e toques do amor]]></category>
		<category><![CDATA[Para mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Rapidinhas]]></category>

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<p>Estou preparando uma série de posts chamada &#8220;As linguagens e toques do amor&#8221;, que descreverá interfaces e modos vários de tocar e se relacionar com o outro. Cada toque será representado por uma mão: a que excita, a que cura, etc.</p>
<p>A idéia é nos&#8230;</p>


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a title="Crédito da imagem: visite o Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/dhammza/492882480/" target="_blank"><img class="alignleft" style="float: left;" title="Pedir mão de mulher em casamento" src="http://nao2nao1.com.br/img/me_de_sua_mao.jpg" alt="Pedir mão de mulher em casamento" width="250" height="174" /></a>Não, não é para casamento e também não é para dançar salsa ou gafieira&#8230; ;-)</p>
<p>Estou preparando uma série de posts chamada <strong>&#8220;As linguagens e toques do amor&#8221;</strong>, que descreverá interfaces e modos vários de tocar e se relacionar com o outro. Cada toque será representado por uma mão: a que excita, a que cura, etc.</p>
<p>A idéia é nos lembrar de que possuímos todas essas capacidades e temos a flexibilidade de alternar entre um e outro toque – algo que freqüentemente esquecemos de fazer (chegamos a passar anos sem usufruir de uma linguagem, sem explorar alguns toques).</p>
<p>Pretendo ilustrar os posts com fotos das mãos de mulheres leitoras do <em>Não2Não1</em>. <strong>Aceita o convite?</strong></p>
<p>A idéia é simples. Escolha um (ou mais) tipo de toque e tente representá-lo com suas próprias mãos. Os toques-linguagens são os seguintes (indico as qualidades principais para facilitar a &#8220;pose&#8221; da foto):</p>
<ul>
<li><em>Passional</em> &#8211; A mão que envolve, seduz e excita. Qualidades: beleza e movimento.</li>
<li><em>Terapêutico</em> &#8211; A mão que cura e pacifica. Qualidades: harmonia e calor.</li>
<li><em>Lúdico</em> &#8211; A mão que brinca. Qualidades: leveza e espontaneidade.</li>
<li> <em>Acolhedor </em>- A mão que abraça. Qualidades: espacialidade e imparcialidade.</li>
<li><em>Irado</em> &#8211; A mão que doma e corta. Qualidades: precisão e vigor.</li>
<li><em>Construtivo</em> &#8211; A mão que sustenta, apóia e carrega. Qualidades: estabilidade e profundidade.</li>
<li><em>Mágico</em> &#8211; A mão que transfigura. Qualidades: poder e criatividade.</li>
<li><em>Transcendente</em> &#8211; A mão que libera. Qualidades: sabedoria e liberdade.</li>
<li><em>Carente</em> &#8211; A mão que se dá ao toque do outro. Qualidades: abertura e entrega.</li>
</ul>
<p>Algumas orientações:</p>
<ul>
<li>Você pode escolher manter o anonimato, revelar apenas um nome/apelido ou até o contato (no caso das leitoras que desejam conhecer leitores deste blog rs&#8230;).</li>
<li>A foto pode ser de uma ou das duas mãos juntas e tem de estar em boa qualidade (não aceitarei fotos pequenas, menores que 600px).</li>
<li>Envie várias para eu ter mais opção (indique sua favorita, claro). Se escolher fotografar mais de um tipo de toque, indique no nome do arquivo.</li>
<li>Meu email:<br />
<img src="http://nao2nao1.com.br/img/email.png" alt="" width="184" height="21" /></li>
</ul>
<p>Se tiver dúvidas, use o espaço de comentários, assim esclareço para todo mundo. Se pensou em um toque diferente (que não foi contemplado pela minha lista), sugira. Eu agradeço!</p>
<p>O primeiro post sai assim que eu receber a primeira mão. Sem foto, sem post. Se ninguém retratar sua mão fazendo o toque &#8220;transcendente&#8221;, por exemplo, não escreverei sobre ele. ;-)</p>


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		<title>Meu corpo sobre a inveja</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Nov 2007 04:02:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia com corpo]]></category>
		<category><![CDATA[dança]]></category>
		<category><![CDATA[emoções]]></category>
		<category><![CDATA[prisões]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ele faz facão duplo, sai em peão contínuo e conduz um elástico. Eu não.</p>
<p>Filosofia com corpo. Expliquei e iniciei essa proposta nesse post sobre arrependimento. Na verdade, estou seguindo uma tradição que começa em Espinosa, passa por Nietzsche e atravessa Merleau-Ponty, Reich, Lowen, até dar nascimento a esse texto delicioso de Francisco Varela, no qual ele descreve sua experiência&#8230;</p>


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" style="float: left;" title="Dança de Salão - Dance comigo - Richard Gere - Jennifer Lopez" src="http://nao2nao1.com.br/img/danca_salao.jpg" alt="Dança de Salão - Dance comigo - Richard Gere - Jennifer Lopez" width="250" height="268" /><em>Ele faz facão duplo, sai em peão contínuo e conduz um elástico. Eu não.</em></p>
<p>Filosofia com corpo. Expliquei e iniciei essa proposta <a href="http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-o-arrependimento/" target="_blank">nesse post sobre arrependimento</a>. Na verdade, estou seguindo uma tradição que começa em Espinosa, passa por Nietzsche e atravessa Merleau-Ponty, Reich, Lowen, até dar nascimento a esse texto delicioso de Francisco Varela, no qual ele descreve sua experiência ao receber um fígado: &#8220;<a href="http://www.oikos.org/varelafragments.htm" target="_blank">Intimate Distances: Fragments for a Phenomenology of Organ Transplantation</a>&#8220;. Em 2001, Varela morreu de hepatite C.</p>
<p>Mas não é do Varela nem do Richard Gere que eu sinto inveja. Na <strong>academia de dança de salão</strong>, somos em 10 bolsistas, 5 homens e 5 mulheres. Cada um passa cerca de 11 horas semanais auxiliando e aprendendo nas aulas. O ambiente solto faz com que esses momentos sejam divertidíssimos. Estou lá desde o início de 2006 e virei bolsista no fim do mesmo ano. Semanas antes dessa convocação, entraram dois caras que só sabiam forró. Tinham facilidade para aprender e logo foram chamados também.</p>
<p>Com um deles, a relação é ótima. Ele dança muito mais que eu, só que não o invejo <span style="text-decoration: line-through;">tanto</span>. O outro, por algum motivo que até hoje me é desconhecido, deixou de falar comigo. Se me aproximo, ele se vai. Se tento cumprimentar, ele desvia o olho e apenas estende a mão. Sua namorada atual é uma garota com quem eu já tinha me envolvido. Mas sabe quando você não faz idéia do que fez, tenta perguntar, se humilha um pouco para resolver, e nada? Pois bem, deve ter sido uma cagada homérica a minha!</p>
<p>Justo esse cara é o aluno number one de toda a academia. Além de nossa coreografia de tango, ele vai apresentar uma outra de salsa no fim do ano. Domina gafieira como nenhum outro bolsista, sabe os passos de dama também, pergunta, fica no pé dos professores. Nos intervalos, ele aproveita para aprender um passo novo. Eu fico de canto, deixando crescer inveja, raiva e impotência. São três movimentos bem específicos e destacados. Não sei se já ocorreu com algum de vocês&#8230; Eu me sentia incapaz disso. Orgulho e preguiça, sim. Inveja, nunca!</p>
<p>A <strong>inveja</strong> sobe, meu corpo se inclina em direção à cena, os pensamentos se resumem a &#8220;Eu queria ser esse cara!&#8221;. A <strong>raiva</strong> vem a seguir e me domina. O corpo se enrijece. Ora se posiciona para bater em um invisível outro, ora desfere ataques contra si mesmo. Os pensamentos planejam uma vingança sutil, uma manifestação de revolta, uma conversa com o dono da academia, um email, uma vontade de desabafar que logo se reprime: &#8220;Não, nada disso&#8230; Inveja, eu? Nunca!&#8221;.</p>
<p>Assim que a raiva perde o vigor, a energia em baixa torna-se o espaço perfeito para o crescimento da <strong>impotência</strong> – se é que podemos chamar de crescimento. O resto de energia, que poderia ser usada para algum aprendizado naquela direção, se volta contra meu corpo e o empurra para baixo. O pensamento, quase inexistente, é assim balbuciado: &#8220;Eu nunca conseguirei ser aquele cara&#8221;.</p>
<p>Eu me inclino em desejo, me debato em indignação e enfim me encolho em depressão. É assim que o corpo soletra a palavra <em>inveja</em>.</p>
<p>Depois de mais uma noite de dança, chego em casa irritado. Uma simples inveja desalinha tudo. Qual o sentido em jantar? Para que atualizar o blog, fazer algum site ou responder emails? Não, eu não quero ver mais um filme. Não, hoje eu não vou meditar. Sexo? Que graça tem? A saída imediata, claro, é dormir. Essa tem sido minha escolha, afinal amanhã é outro dia e somos todos humanos mesmo!</p>
<p>O problema é que eu fui fisgado, assim como <strong>Truman</strong> pelos olhos da única figurante que não encenava. Como Neo, por Trinity e Morpheus. Ser fisgado por algum tipo de sabedoria significa nunca mais poder dormir tranqüilo. Nunca mais esperar pelo amanhã que é outro dia, aguardar o tempo que cura ou apelar para os pecados da humanidade. Agora não me sobra alternativa senão avançar sobre meu cadáver, dobrar meus limites, ir até o fim da inveja. Até onde ela nos leva?</p>
<p>Dou continuidade aos três movimentos. A inveja inicial me coloca dentro da cena, aprendendo um novo passo no intervalo das aulas. Melhor participar do que observar. Já a raiva simula todos os possíveis cenários. Eu brigo com ele, me revolto na frente de todos, converso com o dono, abandono a academia. A melhor alternativa é a mais óbvia: aprender. A impotência revela um pensamento que substitui a desistência: &#8220;E daí se eu nunca conseguir?&#8221;.</p>
<p>A mesma impotência que doía, agora como abandono, nos libera do medo do fracasso. Eu era impotente porque orgulhoso: &#8220;Se não for para ser perfeito, melhor nem começar&#8221;. Ora, toda inveja esconde uma falta de coragem. É mais cômodo desejar do que mudar. Haveria algo mais precioso do que nossos medos?</p>
<p>Meu corpo brinca um pouco mais com os pensamentos. Sou o dono da academia. Agora sei muito mais do que aquele que invejo. Posso sentir sua curvatura, a plasticidade, a sustentação lúcida de cada movimento. No pouco tempo que passo sendo esse outro corpo, me surpreendo com a ausência das coisas que antes eram naturais. Sinto falta de amar, de respirar fundo, de sentir ritmos, cadências, padrões de pulsação que sempre fluíam aqui dentro. Esse corpo não toca bateria! Mesmo sendo o objeto de minha inveja, continuo com a mesma ansiedade, a mesma contração de antes. Então eu passo a desejar meu corpo anterior&#8230;</p>
<p>No excelente <a href="http://www.submarino.com.br/imports_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=9&amp;ProdId=351099&amp;franq=254430" target="_blank"><em>Blue Truth</em></a>, David Deida ensina: <strong>&#8220;Jealousy points to your false hopes of fulfillment&#8221;</strong> (a inveja aponta para suas falsas esperanças de satisfação). Cada vez que invejo meu amigo, sustento a crença de que dançar muito bem me fará feliz e completo. No dia em que eu for o mestre da dança de salão, aí sim vou ganhar muito dinheiro, poderei conquistar qualquer mulher, serei famoso, reconhecido, amado. Aí sim serei livre! Deida nos instrui a usar a inveja como um lembrete de nossas fixações, um diagnóstico preciso dos locais onde nos refugiamos, oásis imaginários para onde se projetam nossos corpos.</p>
<p>A inveja não precisa ser curada por depuração terapêutica (&#8220;Por que você acha que sente inveja dele?&#8221;). Podemos usar sua energia do jeito que vem e conduzi-la em outra direção. O antídoto para o corpo que inveja é uma alegria especial cuja única causa é a alegria dos outros. O outro lado da inveja é a ação de <strong>alegrar-se com o outro</strong>.</p>
<blockquote><p>&#8220;Ao contrário da sabedoria popular, que afirma como verdadeiros amigos aqueles que se mostram presentes na hora da necessidade e na da dor, é muito mais difícil ficar do lado de quem está comemorando uma vitória do que daquele que precisa da nossa ajuda. É o que sugere Nietzsche no parágrafo 499 de <em>Humano, Demasiadamente Humano</em> (1878) ao associar amizade não à capacidade de &#8220;sofrer com&#8221; (<em>Mitleid</em>), mas sim de &#8220;alegrar-se com&#8221; (<em>Mitfreude</em>). Para Nietzsche, a compaixão esconde um excessivo enamoramento de si mesmo, como se só fosse possível confirmar a própria força diante de alguém que está frágil e dependente. A compaixão é parente da inveja.&#8221; –<a href="http://zoiorama.blogspot.com/2007/05/alegria-dos-outros.html">Charles Feitosa</a></p></blockquote>
<p>Você perde, o outro vence. Ele não é outra coisa senão você mesmo passando pela experiência de vencer. Você não é nada além do que ele mesmo vivenciando a derrota. Ambas as sensações são impessoais. O corpo dos vencedores se excita do mesmo modo. Os gestos de todos os perdedores formam uma única coreografia. Entretanto, você perde esse espetáculo no instante em que se fecha e voluntariamente sai do palco. A inveja é essa observação à distância.</p>
<p>Não é maravilhoso que pelo menos alguém esteja ganhando? Atente para o fato de que pelo menos um humano nesse momento está tendo um orgasmo, surfando em Bora Bora ou sorrindo com o fechamento da Bolsa de Tóquio. Vocês conseguem senti-los? Diante da morte, tudo surge como um milagre. Vocês não ficam felizes ao saber que todas essas experiências vão seguir nos corpos e mentes de desconhecidos outros?</p>
<p>Alegrar-se com a alegria dos outros não é algo apenas para iluminados. É a única atitude que responde uma pergunta essencial: <strong>&#8220;Como nos manter abertos, felizes e alegres se não temos absolutamente nenhum controle sobre o que nos acontece?&#8221;</strong>. Se depender de sucessos pessoais, nossa alegria flutuará junto com a Bolsa ou com os ânimos de uma mulher em TPM. No entanto, se nossa alegria estiver conectada com todos os seres, ela será estável.</p>
<p>Sempre há alguém feliz e alegre. A simples percepção disso nos traz uma paz imperturbável. E mais: aumentamos a alegria do outro toda vez que dela gozamos com ele. A lógica é a mesma daquela que atua quando oferecemos um presente e ficamos muito felizes. Se tomamos as alegrias como presentes dos outros para nós, ampliamos as experiências originais que as motivaram. Para nos abraçar, a vitória do outro cresce – e com ela sua alegria.</p>
<p>Quando alguém comemora uma promoção no trabalho, lá estamos nós no mesmo palco. Quando alguém se desespera com uma doença, continuamos no palco. Habilidades e sucessos, erros e fracassos. Nada pertence a ninguém. Somos todos atores vestidos com roupas velhas que estavam amontoadas no porão daquele teatro de escola. Algumas são peças de empregada, outras lembram a moda da elite. Boas ou ruins, elas serão devolvidas, usadas por outros, queimadas eventualmente.</p>
<p>Da academia, de todos os bolsistas e alunos, invejas e ciúmes, incluindo o Richard Gere e a Jennifer Lopez, só a dança sobreviverá, como um convite para que o próximo homem ouse reabrir o salão.</p>


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