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	<title>Não Dois, Não Um &#187; Amores possíveis</title>
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	<description>Um blog sobre relacionamentos lúcidos</description>
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		<title>Dia dos namorados: os beijos que ninguém mostra</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Jun 2009 01:47:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amores possíveis]]></category>
		<category><![CDATA[Promoções]]></category>
		<category><![CDATA[Sexo]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>
Le baiser volé (“O beijo roubado”), de Jean-Honoré Fragonard</p>
<p>Em desfechos de comédias românticas ou em comerciais de TV para o dia dos namorados, a cena mais explorada é a de um casal, com roupas claras e esterilizadas, se beijando. O que raramente se mostra, porém, são os outros beijos que tecem uma relação. Se pudéssemos acompanhar casais de&#8230;</p>


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!--noadsense--><img class="alignnone size-full wp-image-440" title="fragonard_stolen_kiss" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2009/06/fragonard_stolen_kiss.jpg" alt="" /><br />
<em>Le baiser volé </em>(“O beijo roubado”), de Jean-Honoré Fragonard</p>
<p>Em desfechos de comédias românticas ou em comerciais de TV para o dia dos namorados, a cena mais explorada é a de um casal, com roupas claras e esterilizadas, se beijando. O que raramente se mostra, porém, são os outros beijos que tecem uma relação. Se pudéssemos acompanhar casais de verdade, não idealizados, e <a href="http://nao2nao1.com.br/pelas-frestas-conexoes-humanas-e-suas-microhistorias-parte-1/" target="_blank">espreitar</a> por trás do beijo cinematográfico, quais outros encaixes de boca encontraríamos?</p>
<h1>Sal na boca</h1>
<p>Depois do fim, a distância. Sete meses e dois bairros de distância. Ela cortada por culpa, ele atrofiado pela mágoa. Na última conversa, toda frase precisou de mais uma explicação, e toda explicação precisou de mais uma frase. Antes de seguir, queriam acessar o que um guardava do outro no peito e dizer algo definitivo e pacificador, só não sabiam o quê. Agradecer ou xingar, nada parecia finalizar o quebra-cabeça com 9 anos de história.</p>
<p>Agora, no aniversário dele, ela aparece na portaria do prédio com um presente. Não, não voltar, mas tirar a culpa. Sobe. Entra. Ele se lembra do fracasso das palavras: em vez de &#8220;Oi&#8221;, cola a boca. Mas o beijo salgado precisa de mais um beijo, e o beijo, este segundo, mais salgado, precisa de mais um beijo para também falhar em resolver a situação antes de ela ir embora do mesmo jeito que entrou, um pouco mais descabelada, e só.</p>
<h1>Pequenas bocas abertas</h1>
<blockquote><p>&#8220;O que deixa bonita e irresistível cada parte do corpo do outro não são apenas seus próprios traços ou seu entorno, mas o modo como ela se oferece a nós. A boca, bonita nela mesma, fica ainda mais bonita se vista em relação ao queixo, nariz, bochechas, pescoço e os fios de cabelo que invadem os lábios; e totalmente bela quando pede por nosso toque, se abre e chama nossa própria boca.&#8221; (trecho do texto <a href="http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-a-beleza-ou-breve-ensaio-sobre-a-estetica-nos-relacionamentos-parte-2/" target="_blank">&#8220;Meu corpo sobre a beleza&#8221;</a>)</p></blockquote>
<p>Pés juntinhos, joelhos de costas, bunda para o alto. Cada curva que se insinua recebe um beijo. Poro que se oferece, beijo. Fio de cabelo saliente, beijo. Ombro que se desalinha, beijo. Uma sucessão de pequenas bocas abertas gemendo silenciosamente só para ele.</p>
<h1>Na palma da mão</h1>
<p>Colégio Monsenhor Alexandre Arminas. Cinco meninas da oitava série encantadas com dois meninos da sexta. Aconteceu de verdade: eu era um dos sortudos. Lembro bem do &#8220;Congresso do Jovem Cientista&#8221; daquele ano. Uma semana sem aula vendo o trabalho de todas as classes no auditório. A gente se cumprimentava com selinho, para inveja do pessoal da minha classe. Fizemos o trabalho juntos, visitamos consulados (a primeira vez que andei de metrô e pisei na Avenida Paulista), apresentamos e ganhamos.</p>
<p>Em um dos dias, antes da primeira apresentação, sentados no auditório, uma das garotas pegou minha mão e despretensiosamente começou a beijá-la com língua, com dentes, com tudo. Ela não sabe, mas é bem possível que aquele foi meu primeiro orgasmo a dois.</p>
<h1>Mais do que saliva</h1>
<p>Ele segura o cabelo dela. Quer ver o que ela está fazendo com a boca. Por alguns instantes, tem certeza que é o cara mais feliz do mundo. Então ela se levanta e vem com mais do que saliva para um beijo. Não é mais o gosto dela, não é mais o gosto dele. É a invenção do sabor do casal.</p>
<h1>Amantes impossíveis</h1>
<p>Eles se conheceram e se apaixonaram pela Internet. Ela passava o dia checando emails, ele não via a hora de chegar em casa para ligar o Skype. Um dia não aguentaram mais e decidiram ignorar a existência do marido, da esposa e dos filhos. Marcaram numa livraria. A conversa só engatou quando já estavam a caminho do motel.</p>
<p>Mais do que sexo, fizeram planos. Enquanto sonhavam juntos, perceberam que havia um problema. Se realizassem seus desejos, morreriam um para o outro como amantes e nasceriam como o marido e a mulher de quem eles tanto reclamavam. Adeus à ansiedade em checar emails e abrir o Skype. Adeus ao conforto em fantasiar encontros cinematográficos e descrever sonhos sem nunca ter de pagar o preço de realizá-los.</p>
<p>Na saída do motel, não trocaram telefones. Melhor assim. Hoje você entra no MSN? Entro, linda. Adorei aquele poema do Leminski, manda mais? Não se despediram. Beijaram-se no rosto e deram partida.</p>
<h1>Enquanto ela dorme</h1>
<p>&#8220;Há muito desisti de perguntar como tudo isso é possível e qual a sequência de eventos que fez você parar quietinha na minha cama. Logo você, sempre mexendo pés e mãos, agora imóvel, meditante profissional, estirada, dona do travesseiro que pensava ser meu.</p>
<p>Você é tão bonita que eu tenho medo de admitir isso até para mim mesmo. Só quando você dorme, incapaz de reagir, é que posso falar aquilo que você pede para ouvir acordada. De olhos abertos, você sorri, retribui, me abraça, me deixa orgulhoso, e acaba distorcendo a generosidade silenciosa que agora consigo expressar.</p>
<p>É isso. Digo antes mesmo de dizer. E você finge que não sabe que eu finjo quando olho e não digo. Mas é que, entenda, antes preciso te trazer pra cama, te cansar e te fazer dormir. Aí eu te beijo e falo. Sempre falo.&#8221;</p>
<h1>22h22 é a hora do beijo</h1>
<p><a href="http://internet.boticario.com.br/Internet/staticFiles/Hora_do_Beijo/default.htm"><img class="alignnone size-full wp-image-439 alignright" style="float: right;" title="hora-do-beijo" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2009/06/horadobeijo_logotipo.jpg" alt="" width="250" height="250" /></a>Para celebrar estes e outros beijos que a gente acaba inventando, O Boticário criou a <strong><a href="http://internet.boticario.com.br/Internet/staticFiles/Hora_do_Beijo/default.htm" target="_blank">Hora do Beijo</a></strong>. A idéia é que todo mundo beije além que ama – do jeito que der, nem que for a mão de uma amiga – às 22h22 do Dia dos Namorados.</p>
<p>Para divulgar a hora do beijo, vários casais ficaram se agarrando na Avenida Paulista (<a href="http://internet.boticario.com.br/Internet/staticFiles/Hora_do_Beijo/default.htm" target="_blank">veja fotos e vídeos!</a>), liderados pelos bonitões Danielle Winits e Cássio Reis.</p>
<p>Além disso, dia 12 de junho, das 22h às 23h, <a href="http://internet.boticario.com.br/Internet/staticFiles/Hora_do_Beijo/default.htm" target="_blank">no site da campanha</a>, haverá uma transmissão ao vivo em vídeo de um bate-papo entre blogueiros sobre beijo. Você pode participar via chat. Um é o Guilherme do <em><a href="http://papodehomem.com.br/" target="_blank">Papo de Homem</a></em>. Devem chamar algumas meninas lindas (nada divulgado por enquanto).</p>
<p>Eu fui convidado, mas estarei em retiro. Prometo que beijo a parede, ok?</p>


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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pelas frestas: conexões humanas e suas microhistórias &#8211; Parte 2</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Sep 2008 16:13:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amores possíveis]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaios]]></category>

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		<description><![CDATA[Ouça enquanto lê: Dave Matthews Band - Grace is Gone.

Se pudéssemos espreitar por entre as frestas de um relacionamento, sem acesso à ampla história, com olhares microscópicos, em uma escala reduzida de tempo e espaço, o que encontraríamos?

Na primeira parte, observamos um abraço, um olhar e dez dedos de movendo. Abaixo, continuamos nossa exploração…


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-306" title="Ela espelho" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2008/09/ela_espelho.jpg" alt="Eu espelho" /></p>
<p><em>Ouça enquanto lê: <a href="http://br.youtube.com/watch?v=UsZXolHTcqo" target="_blank">Dave Matthews Band &#8211; Grace is Gone</a>.</em></p>
<p>Se pudéssemos espreitar por entre as frestas de um relacionamento, sem acesso à ampla história, com <strong>olhares microscópicos</strong>, em uma escala reduzida de tempo e espaço, o que encontraríamos?</p>
<p>Na primeira parte, observamos <a href="http://nao2nao1.com.br/pelas-frestas-conexoes-humanas-e-suas-microhistorias-parte-1/" target="_blank">um abraço, um olhar e dez dedos se movendo</a>. Abaixo, continuamos nossa exploração&#8230;</p>
<h1>Uma respiração</h1>
<p>Ela já tinha notado, à distância, a respiração dele. Não chegava a ser profunda ou forçada demais, nada que se destacasse. Notou um desvio no septo e até uma dificuldade em puxar o ar. A boca aberta, mais do que o normal, deveria estar inspirando aquilo que as narinas não conseguiam.<!--adsensestart--></p>
<p>Assim que começaram a conversar, a respiração seguia, leve e densa. Às vezes ele se reclinava para trás na cadeira e sorria inspirando&#8230; ar? Era isso: sua profundidade existia pelo jeito que ele respirava, não pela quantidade de tempo e ar em cada tragada de vida.</p>
<p>Agora, noite de terceiro encontro, ela ainda está um pouco intrigada, sem entender bem por que prestou tanta atenção à respiração dele nos primeiros encontros. Ele a enlouqueceu, não no sentido sexual, mas porque a fez realmente considerar a hipótese de que é possível respirar com os olhos.</p>
<p>A conversa, porém, ignora qualquer hipótese e vai ganhando aquela aura de primeiro beijo. Ele se aproxima, olhos no olhos, sorrisos contidos e só: fica ali, a exatos 1,2 centímetros do rosto dela, por exatos 3,7 segundos, imóvel. Ela, cheia de graças e movimentos a noite toda, pára, congelada. Ele inspira forte e profundo, ela acha que ele está sentindo seu perfume, ele sequer nota o perfume, ela se preocupa se está com um cheiro gostoso, ele se preocupa em continuar inspirando. Um pensamento a invade: &#8220;Talvez ele não esteja respirando ar algum, talvez ele esteja <em>me</em> respirando&#8221;. Ela se atrapalha e não percebe seu corpo desrespeitando os exatos 1,2 centímetros.</p>
<p>Beijo.</p>
<p>Enquanto move cabeça, lábios e língua, imagina a respiração dele percorrendo-a inteira, dos pés à nuca. E conclui enfim que ele nunca tinha beijado, olhado ou conversado com ela: apenas a respirara para dentro.</p>
<h1>Um espelho</h1>
<p>Os elogios eram parte de uma prática espiritual. Sua motivação era olhar o outro de um modo elevado, focando as qualidades positivas e encarando as negatividades como obstáculos à liberdade do outro, não como algo inerente a ele. Mas ele dificilmente fazia isso sem orgulho ou acreditando mesmo nas palavras que dizia.</p>
<p>O fato era que, ao elogiá-la naquele domingo, ele acreditou e não se orgulhou. Por um momento, teve a certeza de que os elogios não vinham dele, apenas refletiam as qualidades dela. Ele ofereceu de presente aquilo que ela já tinha. E essa alegria improvável o fez continuar. Pela primeira vez, se aproximou de uma mulher sem tentar oferecer nada. Não levou filosofias, ingressos para peça ou show, vinho ou passos de dança&#8230; Ele estava vazio.</p>
<p>Para sua surpresa, ela agia como se estivesse, de fato, recebendo algum presente que ele não conseguia enxergar. Porque ele não trazia nada, ela vinha com tudo. Ao apenas ficar, ele deixava que ela falasse, desfalasse e se enrolasse toda. Ela se complicava, se embaraçava&#8230; e ele se deliciava com ângulos de reflexão, com jeitos de projetar sua luz em várias direções. Sem querer e sem nada afirmar, ele a apresentou para si mesma.</p>
<p><em>Continua&#8230;</em></p>


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		<title>Pelas frestas: conexões humanas e suas microhistórias &#8211; Parte 1</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Sep 2008 13:50:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amores possíveis]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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		<category><![CDATA[sedução]]></category>

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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-293" title="maos_detalhes" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2008/09/maos_detalhes.jpg" alt="Mãos" /></p>
<p><em>Ouça enquanto lê: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=-kXM8o0FGQQ" target="_blank">Josh Rouse &#8211; Streelights</a>.</em></p>
<p>Se pudéssemos espreitar por entre as frestas de um relacionamento, sem acesso à ampla história, com <strong>olhares microscópicos</strong>, em uma escala reduzida de tempo e espaço, o que encontraríamos?</p>
<h1>Um abraço</h1>
<blockquote><p>&#8220;Cada uma de nós podia sentir o cheiro do xampu da outra e os sabões em pó que tínhamos escolhido, e eu senti pelo cheiro que ela não tinha fumado, mas alguém que ela amava tinha, e ela pôde sentir que eu era grande, mas não geneticamente, não em parmanência, só até que encontrasse de novo meu caminho. As asperezas de nossos jeans se prenderam uma à outra e nossos peitos trocaram suas histórias cansadas, lendas sobre serem super ou subutilizados, abundância e escassez e deixa pra lá, vamos em frente. [...] Era romance. Não do tipo de se apaixonar, mas a troca de ar entre nossos ombros e peitos e coxas.&#8221; –<strong>Miranda July</strong>, em <a href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=21368548&amp;franq=254430" target="_blank">É Claro que Você Sabe do que Estou Falando</a></p></blockquote>
<p>Há abraços inesquecíveis por serem detalhadamente lembrados, como esse da Miranda, e existem também os abraços inesquecíveis por serem totalmente impossíveis de lembrar. Não porque eles não acontecem ou são ruins de algum modo, mas justamente porque são excessivamente aguardados e então interrompem nossa consciência enquanto ficamos suspensos e projetados ao corpo do outro.</p>
<p>&#8220;Qual era mesmo o cheiro dela? Será que ela encostou a mão na minha nuca? Chegou a me beijar o rosto? Eu passei os braços por cima ou por baixo? Quanto tempo durou? Por que parece que não chegou a acontecer?&#8221;</p>
<p>Passaram a noite toda juntos. Esperar pelo filme, ver o filme, comentar o filme, andar pela rua, entrar em um café, sair do café, entrar no metrô. E o abraço. Rápido, repetido sem jeito, passageiro, vagão. Mas ao contrário de um transporte, não foi um abraço de passagem, não levaria a outro movimento – nem beijo, nem despedida. Sem segundas intenções, os dois só queriam repousar um no outro. Era abraço de destino.</p>
<p>Quando o poeta diz abraço, não é mais do abraço que ele está falando. Do mesmo modo, como uma obra de arte, aquele abraço era falta, lacuna, espacialidade vazia que logo preencheriam com seus desejos e imaginações. O abraço não foi para que todo o resto pudesse ser.</p>
<h1>Um olhar</h1>
<p>Enquanto ela brinca de armário, escolhendo vestidos, lenços, colares, brincos e arrumações de cabelo, ele fica ali, deitado na cama, olhando, enquanto finge uma leitura filosófica. Não é qualquer olhar, porém. É assombroso e contemplativo, perigoso e doce. Às vezes ela espia de canto de olho e se surpreende com a enorme curiosidade que vem dele. Aquilo não é humano, ou melhor, pelo jeito que olha, ele deve estar pensando que ela não é humana! Os ensinamentos budistas dizem que não somos humanos, que somos a liberdade de ser humano. Talvez ele seja budista, talvez ela. Ou talvez os budistas estejam corretos e eles não precisam praticar meditação para serem humanos além do humano.</p>
<p>Ela observa no espelho se a roupa está bonita, se as cores combinam, se o colar se adequa à blusa. Ele olha para a curva do quadril que aquela blusa revela, para o colo que o lenço esconde e ele deseja, para a cara linda que ela faz enquanto fica na ponta dos pés simulando um salto alto. Ela sabe que está sendo olhada. Ele sabe que ela sabe que está sendo olhada. Ela sabe que ele sabe que ela sabe que está sendo olhada. Os meta-prazeres não tem fim&#8230; E eles também sabem disso.</p>
<h1>Dedos</h1>
<p>Ele era louco e ela não sabia. Sua química cerebral se assemelhava a de uma pessoa saudável, exceto quando decidia explorar novas formas de conexão humana. Depois do primeiro encontro, ele notou que mal lembrava das mãos dela. Dedos que movimentavam o hashi, levantavam o copo de sakê, afastavam os fios de cabelo que lhe invadiam o rosto. O tempo todo à mostra, invisíveis. Dedos que passaram despercebidos, sem história para contar. Imaginou então que, se ela chegasse perguntando com as mãos para trás &#8220;E meus dedos? Como são?&#8221;, ele não passaria no teste. Não saberia o que falar.</p>
<p>No segundo encontro, ele se propôs a focar os dedos dela, como se ela fosse só dedos flutuando no espaço, vendo um filme, comendo um kebab, tomando um suco. Logo essa imagem lhe pareceu um pouco desconfortável e ele preferiu manter o corpo todo, mas em relação aos dedos: em vez de flutuarem no espaço, agora eles tocavam sua coxa no cinema, deslizavam pelo corrimão, orelha e boca, entravam e saiam de uma bolsa gigante, fugiam do ar frio dentro do cachecol e, poucas vezes, encostavam no braço dele.</p>
<p>Ela achava que ele estava um pouco distraído à mesa. Mente esvoaçante, talvez. Ele se esforçava para que ela não percebesse sua tara inventada do dia pra noite. O treino do olhar deu certo: os mesmos olhos cirúrgicos que apontavam para os dedos passaram também, sem querer, por todas as partes do corpo. Ele queria menos, mas a levou inteira para casa, com dedos e tudo. Da próxima vez, não será necessário direcionar o olhar. Tal intencionalidade vai para os próprios dedos, dele.</p>
<p>Depois de abrir bem os olhos, será inevitável fechá-los.</p>


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		<title>&#8220;Transamos na janela, devagar, em meio aos sons&#8230;&#8221;</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jul 2008 15:36:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amores possíveis]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>

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		<description><![CDATA[Não quero mil posições ou apetrechos de sex shop. Só gozar de vagar.


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			<content:encoded><![CDATA[<p><!--noadsense--><img class="alignnone size-full wp-image-256" title="Noite com ela" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2008/07/noite_com_ela1.jpg" alt="Vinho e sexo" /></p>
<blockquote><p>&#8220;Passamos a noite de janelas abertas. Tínhamos levado uma garrafa de Brunello para o quarto, e foi difícil dormir, talvez por causa do vinho. Transamos na janela, devagar, em meio aos sons, ao cheiro e à vista da noite nos vales.&#8221;<br />
–<strong>Contardo Calligaris</strong>, em <a title="Contardo Calligaris - O Conto do Amor" href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=21355465&amp;franq=254430" target="_blank"><em>O Conto do Amor</em></a></p></blockquote>
<p>Eu não quero nada mais. A gente mal se conhece, eu sei. Nosso breve contato, porém, já foi suficiente para me lembrar que às terças você sai do vôlei às nove. O suficiente para saber esperar, recebê-la com um beijo e andar até o seu apartamento, sempre do lado da rua.</p>
<p>Você não quer, mas você sabe que eu vou subir. Aquilo que você não disse, já ouvi. É estranho abrir a porta assim, para um estranho, né? Não, não perca tempo fazendo comida. O vinho aberto na geladeira já nos basta. <em>Miolo Seleção</em> (Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir). A música, coloque uma que fale por nós e não se sobreponha ao silêncio. Me diz, a quadra do SESC Pompéia é boa?</p>
<p>Venha e não me lembre que dia é hoje. Não me lembre que as pessoas passam oito horas por dia fazendo coisas que não levam a lugar algum. Não me lembre de quem sou, não fale de você. Eu já sei, você é essa que surge a minha frente, você é essa que está onde a vejo. Depois teremos tempo para contar histórias, agora é hora de fazê-las.</p>
<p>Não apague as luzes, não esconda o que você acha feio. Se vim parar aqui, é por que já amo cada defeito seu, cada imperfeição. Aquele dente torto que você passou anos tentando endireitar, eu o adoro. Suas costas enviesadas, foco diário de sua fisioterapeuta, eu me deslizo aí. Desculpe-me, eu não respeito a visão que você tem de si mesma.</p>
<p>Sua varanda é uma coisa. Por que ainda não colocou rede aqui? O pessoal todo aí fora, enlouquecido, só corre assim porque não sente esse vento. A noite respira. Lembra ontem quando nos perdemos na Augusta? Eu quero mais disso contigo. Não ter compromisso, não ter hora, me perder na cidade, não saber para onde ir, desplanejar. Quero transgredir, infringir alguma lei desconhecida. Quero segurança também. Ser careta. Quero clareza, saber onde ir, planejar, sonhar.</p>
<p>Nem segurança, nem incerteza, mas o prazer de ambas, uma de cada vez, cada qual com o sabor que lhe é próprio. Passar por todas as experiências, não pelo mérito delas em si mesmas, mas pela liberdade. Gozar de vagar.</p>
<p>Não quero mil posições, superorgasmos ou apetrechos de sex shop. Não quero provar nada, não quero ser nada demais. O que quero já tenho quando desisto de querer. Simplicidade da qual não precisamos falar. A rede que ainda não há, duas taças de Miolo Seleção, a respiração da noite, suas costas e eu. Viver, assim, de janelas abertas, sabe?</p>
<p><em>* Dedicado a você, garota-do-vôlei-que-nunca-me-leu.</em></p>


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		<title>Amores possíveis</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Jan 2008 00:15:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amores possíveis]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaios]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>&#8220;The greatest thing / You&#8217;ll ever learn is / Just to love / and be loved in return&#8221;
–Eden Ahbez, Nature Boy (ouça enquanto lê, na voz de Nat King Cole)</p>
<p>&#8220;Eu havia comprado e embrulhado aqueles dois livros para ela. No dia seguinte, encontrei outra. Garota com piercing no nariz, tatuagem na nuca, corpo leve, pernas frenéticas. Impossível me&#8230;</p>


No related posts.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;The greatest thing / You&#8217;ll ever learn is / Just to love / and be loved in return&#8221;<br />
–<strong>Eden Ahbez</strong>, <em>Nature Boy </em><a href="http://youtube.com/watch?v=yRcn2YXaHoo" target="_blank">(ouça enquanto lê, na voz de Nat King Cole)</a></em></p>
<p><img class="alignleft" style="float: left;" title="Learning To Love You More" src="http://nao2nao1.com.br/img/learningtoloveyoumore.jpg" alt="Learning To Love You More" width="242" height="303" />&#8220;Eu havia comprado e embrulhado aqueles dois livros para ela. No dia seguinte, encontrei outra. Garota com piercing no nariz, tatuagem na nuca, corpo leve, pernas frenéticas. Impossível me lembrar dela em apenas um quadro. Era filme a menina. Assistiu à palestra sob meus olhos. Assim que acabou, fui atrás. Qual seu nome? Carolina. É você mesmo, então. <strong>Mandaram entregar, toma.</strong> O que é isso? Dois livros, mas se não gostar passe adiante, dê para um estranho. Ela gostou e uma semana depois trocamos mais alguns presentes.&#8221;</p>
<p>&#8220;O nome dela eu nunca lembrava. A cada manhã de domingo, a mesma pergunta incômoda. Meu esquecimento nunca deixou existir o primeiro encontro. Na sala de meditação, ela sentava em silêncio e me ouvia falar sobre filosofias estranhas. Sem conhecer os dramas um do outro, conversávamos abertamente sobre a natureza das emoções, a qualidade onírica da realidade e outras coisas assim, desnecessárias. Naquele domingo, ao fim da prática, ela se aproximou. Onde você vai almoçar? Não, hoje pretendo não almoçar. Suspeitando da mentira, insistiu. <strong>Eu só quero ficar perto de você.</strong> Saímos em silêncio. Eu não tinha o que falar. Ela estava cansada de escutar. Sentamos, comemos, olhamos, bebemos. Tudo em silêncio. O espaço às vezes ficava confortável, silêncio de amor. Às vezes incomodava e se parecia com aqueles momentos antes do sexo. Ao fim, nos agradecemos timidamente e fomos para casa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Peito sufocado, doendo. Não conseguia comer nem dormir. Para onde fugir? 3h51 da manhã: a cidade inteira dormia dentro da minha solidão.  Eu me sentia abandonado, incapaz de construir qualquer outra relação. Estávamos eu e a Tori Amos na sala. Fechei os olhos e comecei a acariciar a parede. Com dedos, braços, com o peito todo. Pernas, cabelo, pés. A textura, os mínimos relevos. Superfície expandida, interior totalmente exteriorizado. <strong>A parede era minha. </strong>O carinho, o amor, a capacidade de arrepiar pelos e conduzir sensações em qualquer mulher. Estava tudo ainda em mim. A pele do mundo, alma do avesso. Naquela noite, eu tive todas as mulheres do mundo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ela não sabia dançar, não se sentia mulher e tempo era o que não havia para perder. Já no segundo email, deixou o convite. <strong>Invada meus mundos, sem pudor, invada meus mundos. </strong>Minha resposta foi um simples OK. Passamos a madrugada de sexta vendo 3 filmes na Paulista. Sábado foi salsa e domingo tango em casa. Não eram os passos, o sexo ou os elogios e carinhos. Não era nada do que eu fazia. Era ela mesma aprendendo a se dançar.&#8221;</p>
<p><em>P.S. 1: A foto acima é de <a href="http://www.learningtoloveyoumore.com/reports/30/tharpe_jimmy.php" target="_blank">Jimmy Tharpe</a>, que seguiu a tarefa &#8220;Tire uma foto de estranhos segurandos as mãos&#8221;, proposta por Miranda July no seu <strong><a href="http://www.learningtoloveyoumore.com" target="_blank">Learning To Love You More</a></strong>. É um amor possível&#8230; vai saber no que isso deu? Antes do amor, somos todos estranhos.</em></p>
<p><em>P.S. 2: Sexta fui ver <strong><a href="http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/subindex.cfm?ParamEnd=1&amp;IDCategoria=5364" target="_blank">Amores Surdos</a></strong> no Sesc Av. Paulista. Fica em cartaz até  24/02. Vale a pena! Se for com sua mulher, planeje algo para depois: a peça é curta e não tem nada de romântica. </em></p>
<p><em>P.S. 3: Se você é músico, tem post novo meu no <strong><a href="http://www.takadime.com" target="_blank">Takadime.com</a></strong>.</em></p>
<p><em>P.S. 4: <strong>Somente uma das histórias acima aconteceu por completo. </strong>As outras três foram quase&#8230; Inventei alguns detalhes não vividos. Amores possíveis de fato (nenhuma ficção). Quem acertar primeiro ganha um livro sobre relacionamentos (escolherei a dedo e mandarei entregar na sua casa). Sério, basta comentar abaixo. Por favor, justifique seu palpite, ok? Assim fica mais interessante.</em></p>


<p>No related posts.</p>]]></content:encoded>
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