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	<title>Não Dois, Não Um &#187; Músicas</title>
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	<description>Um blog sobre relacionamentos lúcidos</description>
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		<title>A trilha sonora inaudível dos relacionamentos</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Aug 2010 12:36:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>Chico Buarque, John Mayer, Aimee Mann, Marisa Monte&#8230; É longa a playlist por trás de nossa vida amorosa. Já sugeri algumas, aliás (&#8220;11 canções para amar mais&#8221;), mas agora me interessa a trilha sonora que não ouvimos.</p>
<p>O caminho para esse silêncio se faz pelo próprio som: para esclarecer o que estou chamando de &#8220;trilha sonora inaudível&#8221;, vamos analisar&#8230;</p>


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-1204" href="http://nao2nao1.com.br/a-trilha-sonora-inaudivel-dos-relacionamentos/trilha-sonora/"><img class="alignnone size-full wp-image-1204" title="trilha-sonora" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/08/trilha-sonora.jpg" alt="" width="589" height="250" /></a></p>
<p>Chico Buarque, John Mayer, Aimee Mann, Marisa Monte&#8230; É longa a <em>playlist</em> por trás de nossa vida amorosa. Já sugeri algumas, aliás (<a href="http://blog.ianblack.com.br/2009/09/07/11-cancoes-para-amar-mais/" target="_blank">&#8220;11 canções para amar mais&#8221;</a>), mas agora me interessa a trilha sonora que <strong>não</strong> ouvimos.</p>
<p>O caminho para esse silêncio se faz pelo próprio som: para esclarecer o que estou chamando de &#8220;trilha sonora inaudível&#8221;, vamos analisar a influência da música em uma experiência. Já adianto que meu foco está nas outras estruturas que atuam sobre nós de modo bastante similar ao som.</p>
<h1>Trailer de <em>Dumb &amp; Dumber</em> com trilha de <em>Inception</em></h1>
<p>Hans Zimmer construiu uma obra-prima para a trilha sonora de <a href="http://www.imdb.com/title/tt1375666/" target="_blank"><em>Inception</em></a> (aqui &#8220;A origem&#8221;), responsável por boa parte da experiência proposta por Christopher Nolan. Um bando de gênios com tempo livre logo reconheceu a qualidade da trilha e criou <em>mashups</em> de todos os tipos. Para você ter uma ideia, o <a href="http://www.youtube.com/watch?v=WxzYNbYHT8s" target="_blank">fim de <em>Lost</em> reeditado</a> com a música do fim de <em>Inception</em> talvez tenha ficado melhor que o original. ;-)</p>
<p>Em uma dessas brincadeiras, pegaram o áudio do trailer de <em>Inception</em> e montaram um trailer para o filme <em>Dumb &amp; Dumber</em> (&#8220;Débi &amp; Lóide&#8221;). O resultado: <strong>todas as cenas são ressignificadas</strong>. Se não conhecêssemos o original, nunca desconfiaríamos que trata-de de uma comédia.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="356" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/zLDx-BPgxxA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="356" src="http://www.youtube.com/v/zLDx-BPgxxA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=zLDx-BPgxxA" target="_blank">Link YouTube</a> | Mesmo conhecendo o filme e o truque, vemos as cenas mudando de textura, pra valer.<br />
</em></p>
<h1>Música, essa regente de mentes</h1>
<p>Antes de sair do âmbito do som, vamos detalhar um pouco mais o que acontece no cinema.</p>
<p>Depois dos créditos iniciais, ainda nos sentimos sentados na poltrona, sem grandes alterações. À medida que o filme avança, um mundo vai sendo criado. A missão do diretor é nos arremessar para dentro dessa realidade, até que nosso coração, nosso pulmão, nossas <strong>glândulas lacrimais</strong> estejam reagindo a cada <em>frame</em>. Sabemos de todo o truque, o que por muitas vezes não nos impede de cair no sonho proposto, de ter nossa mente conduzida.</p>
<p>Claro, apenas imagens não são suficientes para nos fisgar. É a música que direciona o olhar, que situa, que define a textura de cada imagem. Quando a trilha sonora funciona, ela não é percebida como um som específico, como música vinda de instrumentos. Nada disso. Na cena que nos envolve, a música age por trás do olho, como se carregasse no corpo. Se tal processo lhe parece óbvio, me antecipo: comece a pensar em como outras estruturas fazem a mesma coisa conosco fora do cinema, sem precisar de música alguma.</p>
<p>A mesma cena pode ser de terror, suspense, ação, comédia, drama&#8230; Para cada cena definida, temos incontáveis trilhas possíveis, ou seja, incontáveis experiências, universos de significação. Se a cena pré-existisse com algum sentido inerente e tivesse a música como complemento, isso não aconteceria. O caso é que a cena já surge com a trilha e assim construímos nossa experiência, já direcionados pela música, quase incapazes de sequer imaginar como seria a mesma cena de outro modo, sob o efeito de outra trilha sonora.</p>
<p>Para enfatizar essa percepção, basta <a href="http://nao2nao1.com.br/experimentos-para-se-sentir-vivo-1-ipod-e-energia-autonoma/" target="_blank">colocar duas músicas no iPod</a> e sair para andar na Avenida Paulista. Pode ser &#8220;Gold dust&#8221;, da Tori Amos, e depois &#8220;Love generation&#8221;, do Bob Sinclair. Ou alguma da trilha de <em>Into the wild</em> seguida de outra da trilha de <em>Where the wild things are</em>. Qual das duas cenas é a verdadeira? <strong>As pessoas estão andando rápido mesmo ou é apenas a sensação da música?</strong> Elas parecem estranhas e distantes? Próximas e amigas?</p>
<p>Ou você pega um conflito e tenta extrair visões a partir de músicas, não de letras, mas da ambiência criada por cada música, dos olhares que elas proporcionam. Ouve uma e sente compaixão, redenção, compreensão do mundo do outro. Chora. Ouve outra e sente ódio, raiva, indignação. Uma música desenha um monstro. Outra revela um herói ferido.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="466" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/IdeG1rSzqLk?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="466" src="http://www.youtube.com/v/IdeG1rSzqLk?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=IdeG1rSzqLk" target="_blank">Link YouTube</a> | Bobby McFerrin fazendo milagre com a ária mais bonita de Bach.</em></p>
<p>E então você enfim chega à pergunta essencial desse percurso que descrevo: <strong>&#8220;Qual música já estava tocando bem antes de eu colocar os fones?&#8221;.</strong> Ou: &#8220;Se eu conseguisse aumentar o volume da minha mente, que tipo de música eu ouviria?&#8221;.</p>
<h1>Melodias internas que não ouvimos</h1>
<p>A trilha sonora sempre existe, com ou sem música de fundo. É como se estivéssemos colorindo as cenas da vida o tempo todo com nossos instrumentos musicais invisíveis e nossa tendência a diretor, compositor, cineasta. Estamos dirigindo, filmando, posicionando câmeras, editando, roteirizando, decupando, perfumando, prestando atenção na continuidade e, claro, ajustando a trilha sonora, quadro a quadro.</p>
<p>Isso tudo fora o personagem. Além de viver, envolvemos o vivido em um mundo de sentido, em uma história que inventamos o tempo todo sem saber.</p>
<p>Mais do que uma metáfora, é precisamente esse o nosso funcionamento! A cada momento, encaramos as coisas com algum pré-roteiro, alguma predisposição melódica, uma ou outra preferência estética. <strong>As músicas, essas de som, só aumentam o volume das trilhas inaudíveis</strong>, mas elas sempre  estão presentes, caso contrário as músicas nesse post não fariam  absolutamente nada com sua mente.</p>
<h1>Cena: uma namorada e um cara tomando banho</h1>
<p><strong>A namorada sobe. </strong>Ele está no banho, atrasado. Saiu apenas para abrir a porta e logo voltou. Se esse será um filme pornô ou um drama existencial, bem, não está na cena a definição, mas na trilha sonora.</p>
<p>Ela pode passar por esse momento já imaginando como seria entrar no banho. Ou esperar pelo namorado <strong>nua na cama</strong>. Da ideia à prática é um pulo. Ela também pode viver essa mesma experiência, sem objetivamente mudar nada, como uma aflição, irritada porque ele está demorando de novo, não se aprontou antes de novo, não a valoriza mais&#8230; Esse outro filme continua com ela sentada no sofá, impaciente, <strong>emburrada</strong> quando ele sai do banheiro.</p>
<p>Se analisarmos apenas o banho desse cara, não há diferença entre as duas cenas. Não há nada no banho dele que ative uma ou outra resposta em sua namorada. É o modo com que ela olha para o banho que constrói o filme todo. A posição da câmera, o foco na edição, o ritmo da trilha que ela não ouve, mas que não cessa de movê-la. Até mesmo sua experiência de tempo (o banho vai durar minutos ou décadas?) é definida por essa trilha oculta.</p>
<p>Mais ainda, uma vez que ele fecha a porta e religa o chuveiro para terminar o banho, a experiência explode com tudo, deixando inacessíveis todas as outras possibilidades: trilhas, edições, ângulos que ela não escolheu. É por isso que, sob a perspectiva da namorada, parece que o banho é aquilo mesmo que lhe parece, do jeito que surge, com a textura ali manifesta. Se ela está irritada, tem toda razão: ele, de fato, deveria ter se arrumado antes. Se está excitada, perfeito: ele vai sair do banho louco para comê-la antes de se vestir.</p>
<p>Nossa tragédia começa no ocultamento dos filmes que deixamos de viver por causa das trilhas que continuamente tocamos, das edições instantâneas, ângulos de cada olhar, <strong>roteiros que seguramos debaixo do braço</strong>. O filme que surge parece o único possível, como se viesse pronto, lá de fora, como se não tivesse o nosso nome nos créditos.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="466" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/nvs7ogxkOIA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="466" src="http://www.youtube.com/v/nvs7ogxkOIA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=nvs7ogxkOIA" target="_blank">Link YouTube</a> | Esse cara pegou a melhor música da trilha de &#8220;The straight story&#8221; (do mestre Angelo Badalamenti) e botou em cima de cenas de seu bairro. Olha o resultado, dá até vontade de ir lá conhecer. Aliás, é assim que a gente se apaixona: colocamos pra tocar a nossa melhor música em cima de alguém, que por acaso ficou algum tempo por perto. A paixão é essa aura. Como é nossa melhor música, vemos o melhor do outro e acabamos expondo o nosso melhor. Quer dizer, até outras trilhas começarem a tocar o terror&#8230;<br />
</em></p>
<h1>Brincando de cineasta</h1>
<p>Não há nada de errado nesse processo de construção cinematográfica da vida (e me refiro à própria percepção de cada fenômeno, não a alguma espécie de romantização posterior). O problema está na cegueira, no fato de não sabermos que estamos agindo assim, não exatamente no sofrimento que alguns filmes mais duros despejam sobre nós.</p>
<p>Ora, já que a trilha sonora está aí, já que todo momento já surge condicionado, já que nunca temos acesso às infinitas possibilidades, só nos resta olhar para o modo <strong>como estamos trazendo os eventos à tona</strong>, como estamos construindo a vida que parece nos acontecer, que parece vir de fora. A cada momento, somos obrigados a pisar numa direção ou em outra sem antes saber qual terra é melhor. Pisamos e só depois dizemos: &#8220;Ah, aqui é fofo&#8221;. A cada passo, uma desconfiança, mesmo em terras boas: &#8220;E se lá for melhor?&#8221;. Ou: &#8220;E se a terra boa acabar no próximo passo?&#8221;.</p>
<p>Nossa situação atual, seja qual for, agora mesmo, não é positiva ou negativa em si mesma. Há alguma trilha sonora interna atuando sem cessar para que ela nos apareça de um certo jeito, para que a vivamos como uma experiência específica. Em vez de se preocupar em dar o próximo passo, torcendo para que ele nos leve a uma situação melhor, podemos simplesmente mudar a trilha sonora e ver no que dá, ver como isso altera a experiência toda, mais até do que se mudássemos a situação diretamente.</p>
<p>Voltando à cena do homem no banho, agora vemos a namorada sorrindo para sua própria dinâmica, ouvindo a trilha sonora que colocou, sem saber, na cena. Ela pode ficar emburrada ou pode tirar a roupa. A situação não está definida; o que vale é a<em> experiência</em> dessa situação. Na verdade, o que chamamos de situação é tão somente nossa experiência. <strong>Não há situação em si</strong>, independente de nossa edição, roteiro, fotografia, iluminação&#8230;</p>
<p>O banho do cara demora o suficiente para ela avançar um pouco mais. Agora ela simula os dois filmes em <em>fast-forward</em> e observa como ficar emburrada não é necessariamente pior do que tirar a roupa, pois talvez ela tire a roupa, ele broche e os dois briguem. Talvez ela fique emburrada, ele fique nervoso e eles acabem com as frescuras se acabando no chão, o que por sua vez não é necessariamente melhor ou pior do que brigar&#8230; ;-) Basta um outro <em>fast-forward</em> para comprovar a infinita abertura e flexibilidade dos eventos.</p>
<p>Ela continua até se dar conta de que o que importa não é seguir em uma ou em outra direção, mas seguir com olhos abertos para a liberdade sempre presente, para a insubstancialidade de cada momento, <strong>como se tudo pudesse virar lixo ou ouro</strong>, a cada segundo, como se nada nunca se definisse e se fechasse completamente.</p>
<p>Sua escolha, então, não é entre o sofá e a cama, a cara emburrada e a perna esticada, entre uma situação e outra, mas entre viver o filme como cineasta e viver o filme como um ator com amnésia.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="466" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/aBALudMfBBM?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="466" src="http://www.youtube.com/v/aBALudMfBBM?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=aBALudMfBBM" target="_blank">Link YouTube</a> | Ouça lembrando da vida inteira ou de uma história amorosa. O que sai?</em></p>
<h1>Silêncio</h1>
<p>Ouvir a trilha sonora pela qual atuamos e poder transformá-la. Trocar <em>olvido</em> por ouvido. <strong>Liberdade não é só isso.</strong></p>
<p>Se o cara ficasse um pouco mais no banho, a namorada certamente questionaria até mesmo sua necessidade de mexer na trilha sonora para ter outras experiências de uma mesma cena. Ela olharia com calma para essa capacidade de mudar a trilha, de trocar de roteiro, de ajustar ângulos&#8230; e desconfiaria de uma liberdade anterior: a de criar filmes e trilhas.</p>
<p>Brincar de cineasta é excelente, claro. Mas como é possível que uma cena que hoje nos aflige (a ponto de cortar nossa fome) amanhã seja motivo de risadas soltas e despreocupadas? O que faz com que os filmes e trilhas se alterem tanto e tão rápido?</p>
<p>Mais do que culminar em uma resposta, essa pergunta direciona nosso olho para uma dimensão além de qualquer trilha sonora, algo como o que imaginamos quando ouvimos a palavra &#8220;silêncio&#8221;.</p>
<p>Repousando nesse silêncio, e não em filmes específicos e suas possíveis edições e refilmagens, entendemos que não precisamos criar um filme a partir de outro, resolvendo algo, trocando algum personagem, mudando a trilha ou a fotografia. <strong>Dá para criar um filme a partir da própria liberdade de criar filmes</strong>, do zero – o que não significa alguma espécie de fascinação pela morte ou aversão à continuidade, pois uma das coisas mais divertidas é criar, do zero, a mesmíssima realidade que existia anteontem. Não é isso o que uma garota faz quando atende o telefone com um &#8220;Oi, amor&#8230;&#8221;?</p>
<p>Pois bem, é claro que o homem de nossa cena saiu do banheiro depois de todo esse tempo. Sua paciente namorada talvez esteja na cama, talvez no sofá ou até já tenha ido embora. O importante é que ele também tenha percebido algumas coisas enquanto a água corria&#8230;</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="466" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/DO2a2KSwLg4?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="466" src="http://www.youtube.com/v/DO2a2KSwLg4?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=DO2a2KSwLg4" target="_blank">Link YouTube</a> | Um dos melhores temas de &#8220;Lost&#8221;, de Michael Giacchino (italiano, pra variar).</em></p>


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		<title>&#8220;I&#8217;ll be there for you&#8230;&#8221; Alguém ainda acredita no Bon Jovi?</title>
		<link>http://nao2nao1.com.br/ill-be-there-for-you-alguem-ainda-acredita-no-bon-jovi/</link>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 09:51:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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Para quem não quer ler ao som de Bon Jovi, deixo outras opções com &#8220;I&#8217;ll be there&#8221;, tem pra todos os gostos: Elvis Presley, Megadeth, Jackson 5, Mariah Carey ou Stunt.</p>
<p>A abundância de letras com essa expressão (&#8220;Eu estarei lá&#8221;) revela nossa necessidade de acreditar em uma mentira. Cantamos repetidamente em várias melodias para esquecer de que o&#8230;</p>


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			<content:encoded><![CDATA[<p><!--noadsense--><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/mh8MIp2FOhc&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/mh8MIp2FOhc&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;rel=0" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em>Para quem não quer ler ao som de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=mh8MIp2FOhc" target="_blank">Bon Jovi</a>, deixo outras opções com &#8220;I&#8217;ll be there&#8221;, tem pra todos os gostos: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=LJW7O8aYt5g" target="_blank">Elvis Presley</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=-hGHAbb3kUc" target="_blank">Megadeth</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Q6bARIaMhCM" target="_blank">Jackson 5</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=52d20PK_Kyk" target="_blank">Mariah Carey</a> ou <a href="http://www.youtube.com/watch?v=CuWx8rZojPQ" target="_blank">Stunt</a>.</em></p>
<p>A abundância de letras com essa expressão (&#8220;Eu estarei lá&#8221;) revela nossa necessidade de <strong>acreditar em uma mentira</strong>. Cantamos repetidamente em várias melodias para esquecer de que o outro não estará lá para nós.</p>
<h1>A lógica ilusória do &#8220;Você me deve uma&#8221;</h1>
<p>Temos várias dinâmicas internas que nos passam despercebidas, mas são a própria lógica pela qual operamos, base para muitos pensamentos e ações. Uma delas se encontra em amigos e parceiros de negócio. Sempre que alguém faz um favor, sua generosidade despretensiosa é trocada por um favor futuro. Deixamos de ser generosos para ser espertos. Podemos não cobrá-lo de imediato, mas a relação se estabelece dentro de uma estrutura viciada, a ponto do outro se adiantar: <strong>&#8220;Valeu mesmo, cara, fico te devendo essa&#8221;</strong>.</p>
<p>Ironicamente, tal cobrança muitas vezes é muito mais lúdica do que real. Por ser verbalizada, ela acaba sendo espontaneamente transgredida. A cerveja que pagamos é rapidamente esquecida, o favor entre empresas fica como cortesia, a amizade ou a parceria se aprofunda com base na própria generosidade, que a princípio parecia descartada.</p>
<p>Em um casal, muitas vezes esse filme tem outro desfecho. O altruísmo interesseiro que declaramos sem vergonha a outras pessoas é mascarado por uma suposta generosidade desinteressada. Ajudamos o outro, estamos lá durante as mortes na família, investimos tempo, ouvimos, abraçamos, vamos de um lugar a outro, oferecemos, oferecemos, oferecemos. Temos vergonha de admitir, mas ao fazer tudo isso esperamos, sim, algo em troca. Até mesmo o sacralizado amor materno sofre desse mal.</p>
<p>Seria melhor dizermos logo de cara – ludicamente – &#8220;Você me deve uma&#8221; do que nos fingirmos de sábios e acabarmos como bebês carentes cobrando o outro por tudo aquilo que <strong>nós oferecemos tão bem e ele não</strong>.</p>
<p>Sempre que construímos algo sem perceber, ou seja, sempre que <a href="http://nao2nao1.com.br/lost-fim-da-4a-temporada-ou-como-acabar-com-qualquer-briga-de-casal/" target="_blank">entramos num filme sem perceber que é um filme</a>, nos tornamos vítimas fáceis do sofrimento. Cobrar sem saber que está cobrando é como sair de casa e deixar dentro um macaco histérico: ele vai bagunçar tudo. É por isso que construir <strong>ludicamente</strong> é melhor, mesmo quando parece algo menos amoroso ou sábio. A gente cobra e vê que está cobrando. Levamos o macaco nos ombros e brincamos com ele.</p>
<p>Jogar limpo, sem vergonha de nosso espírito interesseiro, é o melhor caminho para explicitar a verdade e deixá-la brilhando na porta da geladeira, como um lembrete diário. Experimente afirmar em voz alta: &#8220;Ei, você me deve muita coisa!&#8221;. A frase já sai ridícula, patética, forçada, sem sentido algum. E é essa piada que nos comanda silenciosamente por dentro.</p>
<p>Evitamos falar para não ouvir, evitamos cobrar para não perceber o óbvio: por mais que você tenha feito de tudo para seu parceiro, <strong>ele nunca deve nada para você</strong>.</p>
<h1>O outro não vai estar lá para você</h1>
<blockquote><p>&#8220;Whenever you need me, I&#8217;ll be there<br />
I&#8217;ll be there to protect you, with an unselfish love that respects you<br />
Just call my name and I&#8217;ll be there&#8221;</p></blockquote>
<p>Piada ou não, o fato é que nós não resistimos e eventualmente abrimos a boca, esquecemos da pose generosa e, pronto, despejamos nossas expectativas, cobranças e interesses em cima do outro. É como se tivéssemos <strong>uma planilha de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Retorno_sobre_investimento" target="_blank">ROI</a></strong>. Secreta, pra piorar. O outro sequer sabe do que está sendo cobrado!</p>
<p>É bonito de se ver. A gente pode espernear, exigir, cobrar, mas nosso parceiro é livre, anda com os próprios pés, tem uma vida própria. Perceber essa autonomia e liberdade é justamente o que nos enche de tesão ao nos sentirmos desejados pelo outro (que <a href="http://nao2nao1.com.br/dinheiro-beleza-inteligencia-o-que-faz-um-homem-atraente-para-as-mulheres/" target="_blank">poderia estar com outra pessoa</a>, mas nos escolheu) e também o que nos deprime quando a coisa se inverte, quando seu desejo aponta em outra direção.</p>
<p>&#8220;Vamos viajar esse fim de semana?&#8221; ou &#8220;Pensei em deixar nossos filhos com meu irmão e ficarmos com a casa só para nós&#8221;, ela diz. E ele: &#8220;Não rola, preciso resolver umas coisas&#8221;. Ela pode pensar que ele não mais a deseja, mas o fato é que ele está em outro lugar. Nada demais, ou melhor, o suficiente para um grande incêndio.</p>
<p>Aquela semana que ela mais precisa dele é exatamente a semana em que ele não está focando nela.</p>
<p>Ele olha para sua planilha de grandes feitos e pensa:<strong> &#8220;Já passei dias no hospital com o tio dela</strong>, paguei as últimas quatro viagens inteiras, fui o último a dar presente, ajudei nisso, fiz aquilo, bom, tenho créditos para alguns meses ainda&#8221;. E então se dedica mais para seus projetos, esperando alguns meses de compreensão de sua mulher.</p>
<p>Ela olha para sua planilha de ROI e conclui: &#8220;Eu fiz muito mais do que ele, eu me dedico muito mais, só Deus sabe o quanto de amor e carinho já investi nessa relação&#8230; E agora ele fica distante assim? E ainda quer que eu entenda? Entenda como, me diz?&#8221;.</p>
<p>São diversas cenas possíveis. A mulher fica grávida, o sexo diminui e o marido acaba transando com outra. O cara passa por um período de confusão, <strong>perde energia e libido</strong>, então a mulher reclama para um amigo que termina jogando-a contra parede e fazendo tudo o que o marido está incapaz de fazer. A namorada se deprime, o cara não aguenta mais e fica agressivo no momento em que ela mais precisa de cuidado. Exemplos e mais exemplos diários de homens e mulheres que <em>não estão lá</em>.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/Q6bARIaMhCM&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/Q6bARIaMhCM&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;rel=0" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<h1>O desafio de andar junto</h1>
<p>No começo, tudo o que desejamos é andar <strong>em direção ao outro</strong>. Em suas primeiras noitadas, o casal mal consegue andar na rua. Demoram vários minutos para percorrer o mesmo trecho que anos depois vão cruzar em segundos. Ficam se abraçando, com vontade mesmo de ir um contra o outro. No dia seguinte, não importa por onde o outro andou, mas o quanto ele quer vir em nossa direção e o quanto queremos ir até lá.</p>
<p>A paixão funciona como <strong>uma noite de sexo que dura meses</strong> (às vezes anos)&#8230; até que chega a manhã seguinte.</p>
<p>Ela sai mais cedo porque tem uma reunião decisiva. Ele sai um pouco depois para mais um dia de trabalho. Ela está indecisa em relação ao tema do mestrado. Ele se preparando para uma viagem que vai mudar sua vida. Passa o dia e tudo o que fizeram foi andar, não mais em direção ao outro, mas com seus próprios direcionamentos. No lugar de uma lua romântica em comum, dois horizontes distintos.</p>
<p>O casal, então, descobre esse prazer maior de seguir junto, de avançar como um casal. Eles aprendem a andar de mãos dadas mesmo à distância. Compartilham mapas, mundos, signos, brincadeiras, olhares, pedrinhas no chão. Tudo aquilo que servirá como <strong>bússola</strong> para não se perderem um do outro na manhã seguinte.</p>
<p>E até que isso dá certo, às vezes por um longo tempo. Quanto mais mapas e mundos, olhares e pedrinhas, melhor. Nada impede, contudo, as névoas e neblinas vindas sei lá de onde. E nem todas as manhãs são precedidas por uma noite de aparelhos GPS piscando no mesmo local, de entrelaçamento, de <strong>pé com pé</strong>. E tem também o nosso andar caótico pra complicar. Não temos um só horizonte, temos dezoito.</p>
<p>Outra cena bonita de se ver. Quando percebemos o outro se distanciando <strong>2 centímetros</strong>, às vezes agimos como pedintes, às vezes gritamos ou baixamos a energia, nos distanciando ainda mais. Só que o outro não achou que estava longe, mas agora vê nosso distanciamento (ou nossa cobrança ou nossos berros) e reage da mesma forma, se afastando. E então comprovamos: ele realmente não quer mais nada conosco!</p>
<p><strong>É assim que um namoro acaba mesmo quando os dois querem continuar.</strong> Eles estão no mesmo lugar, mas se veem à distância. Ou acham que estão no mesmo lugar e quase morrem quando pegam o GPS e passam dias dando <em>zoom out </em>até aparecerem os dois pontinhos&#8230; Tão logo conseguem se aproximar, se agarram e fazem juras de nunca mais se afastarem.</p>
<p>Mas a manhã seguinte sempre chega. E os dezoito horizontes, o andar cambiante, a bússola desregulada. E a névoa e a neblina. Cheguei a mencionar o ex-namorado?</p>
<h1>Como fazer o impossível</h1>
<p><img title="wall-e" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/03/wall-e.jpg" alt="wall-e" width="588" height="245" /><br />
<em>Cena de <a href="http://www.imdb.com/title/tt0910970/" target="_blank">Wall-E</a>, que já recomendei aqui</em></p>
<p>Andar junto é como andar vendado no meio do deserto. Ou nadar de olhos fechados. Nunca sabemos se o outro está mesmo ao nosso lado.</p>
<p>Por medo de ver, neste exato momento, que o outro não está tão perto assim, fechamos bem os olhos e confiamos em nossos instrumentos de medição, como o sonar de um submarino. A incerteza da distância é mais confortável do que a visão da localização exata. É de olhos fechados que ouvimos e dizemos: &#8220;I&#8217;ll be there&#8221;. O outro nunca esteve aqui, nós nunca estivemos lá, por isso sempre conjugamos o verbo no futuro. <strong>Nossa presença é promessa.</strong></p>
<p>Um pouco de coragem e abrimos os olhos. Enxergamos, sem tanto desespero, que às vezes o outro se distancia muito. E que, na verdade, às vezes somos nós que nos afastamos. Ora, afinal quem define qual é o percurso do casal? Como pode apenas um se afastar?</p>
<p>De olhos abertos, o outro não parece capaz de nos salvar. Vemos seu andar meio torto. E suas fraquezas. Nós também não parecemos capazes de realmente estar lá pelo outro. Mal estamos lá por nós mesmos!</p>
<p>De olhos abertos, vemos que todos são como nós. <strong>Não há ninguém preparado para nos <a href="http://nao2nao1.com.br/a-arte-de-pisar-em-nuvens/" target="_blank">segurar</a>.</strong> Ninguém para nos proteger e cuidar verdadeiramente. O fim dessa ilusão nos abre para a <a href="http://nao2nao1.com.br/coisa-alguma/" target="_blank">experiência da solidão</a>, cuja tristeza tem a mesma medida da alegria em compartilhar a mesma solidão com os outros. O amor aumenta junto com a solidão. Cada um se sente <a href="http://nao2nao1.com.br/por-uma-vida-encarnada-breve-critica-aos-relacionamentos-sem-corpo/" target="_blank">mais presente</a>, menos lá, mais aqui, e portanto mais irremediavelmente separado um do outro. Nascemos e morremos assim. Não daria para amar diferente.</p>
<p>Reconhecer a liberdade do outro (e a nossa) de ir embora a qualquer momento, amplificar e se comunicar com sua solidão, saber que nunca conseguiremos realmente estar lá; <strong><em>isso</em> é estar lá.</strong></p>
<blockquote><p>&#8220;I don’t think anybody can fall in love unless they feel lonely. So I think in love it is the desolateness that inspires the warmth. The more you feel a sense of desolation, the more warmth you feel at the same time. You can’t feel the warmth of the house unless it’s cold outside. The colder it is outside, the cozier it is at home.</p>
<p>When you experience the true sense of aloneness, you discover that the entire cosmos, the universe, is absolutely empty. It doesn’t help you or keep you company. Such utter loneliness becomes companionship.&#8221; –<a href="http://www.chronicleproject.com/stories_68.html" target="_blank">Chogyam Trungpa</a></p></blockquote>


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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>11 canções para amar mais</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Sep 2008 03:49:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Músicas]]></category>
		<category><![CDATA[Para homens]]></category>
		<category><![CDATA[Para mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoal]]></category>
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<p>O título deste post foi inspirado pelo belíssimo projeto da Miranda July (Learning To Love You More), mulher que sabe como poucas explorar humanismo e existencialismo em todas as artes, do cinema à literatura. Qualidade que aqui no Brasil tenho a sorte de ver de perto, em ação, nos bastidores e sob os holofotes, no trabalho incessante do Ian&#8230;</p>


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<li><a href='http://nao2nao1.com.br/para-entender-as-mulheres/' rel='bookmark' title='Para entender as mulheres'>Para entender as mulheres</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!--noadsense--><img src="http://nao2nao1.com.br/img/11_cancoes_amar_mais.jpg" alt="11 músicas para amar mais e melhor" width="588" height="353" /></p>
<p>O título deste post foi inspirado pelo belíssimo projeto da <a href="http://nao2nao1.com.br/serie-mulheres-que-me-dao-tesao-1-miranda-july/" target="_blank">Miranda July </a>(<a href="http://www.learningtoloveyoumore.com/" target="_blank">Learning To Love You More</a>), mulher que sabe como poucas explorar humanismo e existencialismo em todas as artes, do cinema à literatura. Qualidade que aqui no Brasil tenho a sorte de ver de perto, em ação, nos bastidores e sob os holofotes, no trabalho incessante do <a href="http://www.ianblack.com.br/" target="_blank">Ian Black</a>. Em vez das artes, contudo, ele usa e abusa do universo da internet e dos meios digitais de conexão humana.</p>
<p><img class="alignleft" style="float: left;" src="http://nao2nao1.com.br/img/ian_black_2008.jpg" alt="Ian Black" width="250" height="333" />Foi ele quem, em uma dessas conversas de finais de dia, surgiu com o seguinte diálogo (nestas exatas palavras, pois meu Gtalk não mente):</p>
<blockquote><p><strong>Ian: </strong>to aqui pensando numa coisa, vamos ver o que você acha. que tal um post intitulado &#8220;10 Canções para auxiliar na conquista&#8221; (ou algum outro nome mais adequado). e dai elencamos, tu 5, eu 5.</p>
<p><strong>Gustavo: </strong>fechou!</p>
<p><strong>Ian: </strong>explicando o contexto da música e em que situações elas se encaixariam.  com um detalhe&#8230;</p>
<p><strong>Gustavo: </strong>hum</p>
<p><strong>Ian: </strong>as minhas canções aparecem no teu blog e as tuas no meu. um crossover blogueiro.</p></blockquote>
<p>A idéia inicial se ampliou para dar conta de todo o percurso de um casal (de modo caricato, claro) e decidimos por 11 categorias para as quais escolheríamos e comentaríamos apenas uma música. Muitas categorias ficaram de fora (&#8220;música para fazer as pazes&#8221;, por exemplo) e a grande maioria delas aparecerá em uma segunda rodada de posts dedicada apenas aos problemas de uma relação a dois: brigas, traições, separações, divórcios e mortes.</p>
<p>Não há parceiro melhor para compartilhar tal projeto. Ian, assim como eu, é fascinado pelas conexões humanas: como as pessoas se esbarram, como se olham, se enredam, se apaixonam, se juntam e se separam. O antes, o início, o meio, o fim e o depois de cada toque. Os <em>holy moments</em>, as declarações inusitadas, sonoridades, locações e cheiros. Os percursos, as distâncias, os extremos e as intensidades.</p>
<p>Em sua seleção, Ian não evita clichês. Vai de Guilherme Arantes a Roberto Carlos, sem embaraço algum. Se você discorda, escute novamente, lembrando que o mesmo ouvido também escolheu Ben Folds, Josh Rouse e Devendra Banhart. Ele ainda comenta os trechos preferidos de cada música.</p>
<p>De modo evidente ou implícito, vi muita coisa parecida com o que escrevi e acho que foi um exercício riquíssimo para nós dois. Espero que seja para você também. Afinal, sem que percebamos, músicas e letras (para não falar de filmes) compõe nosso repertório amoroso – gama de possibilidades e histórias, modos de ser e tocar, olhar e conquistar. Sem as músicas que nos habitam, seria muito difícil dar sentido e viver tudo o que nos acontece enquanto amamos alguém.</p>
<p>Após a leitura (com trilha sonora na íntegra de todas as canções), <a title="11 canções para amar mais e melhor" href="http://blog.ianblack.com.br/2009/09/07/11-cancoes-para-amar-mais/" target="_blank">confira a minha seleção no blog do Ian</a>. Mas, agora, passo-lhe a palavra, a guitarra e o microfone&#8230;</p>
<h3>11 MÚSICAS PARA AMAR MELHOR<br />
Por Ian Black | <a href="http://www.ianblack.com.br/" target="_blank">www.ianblack.com.br</a></h3>
<p>Você pode baixar cada uma das músicas no antes de começar a ler (<a href="http://nao2nao1.com.br/img/11_cancoes_amar_mais_letras_ian_black.pdf" target="_blank">letras e traduções aqui</a>).</p>
<p><strong><br />
01. MÚSICA PARA UM PRIMEIRO ENCONTRO<br />
<em>Hands Down</em> &#8211; Michael Stipe &amp; Dashboard Confessionals</strong></p>
<p>Nâo é engraçado quando você sai com alguém pela primeira vez e já sente prazer só de saber que estão compartilhando o mesmo ar? E a partir daí, tudo é um grande suspense sobre como a história vai desenrolar. Você deseja um beijo e também deseja saber se a pessoa deseja o mesmo. E se o beijo acontece, não resta dúvidas de que aquele foi o melhor primeiro encontro de todos os tempos.</p>
<p><em>Trecho preferido:</em><strong> </strong>&#8220;My hopes are so high that your kiss might kill me / So won&#8217;t you kill me?  / So I die happy&#8221; | Não há como negar que esta ansiedade que precede o primeiro beijo é também dos prazeres mais gostosos num primeiro encontro.</p>
<p><strong><br />
02. MÚSICA PARA SE DECLARAR<br />
<em>Feeling No Pain</em> &#8211; Josh Rouse</strong></p>
<p>Esta não é uma canção qualquer sobre uma declaração amorosa. É uma canção em que o declarante volta a se apaixonar depois de ter o coração partido nalgum outro episódio. É quando encontramos uma pessoa interessante e vamos nos permitindo o envolvimento que surge aos poucos, cheio daquelas dúvidas gostosas que nos impomos para nos flagrarmos com o coração escancarado.</p>
<p><em>Trecho preferido:</em> &#8220;Lately I&#8217;ve been feeling no pain / My heart is wide open  / and somehow everything  / falls into place / and it&#8217;s love…&#8221; | Eu prefiro esta parte traduzida, acho bem foda declarar-se de coração escancarado, e perceber que de alguma maneira tudo se encaixa.</p>
<p><strong><br />
03. MÚSICA PARA STRIPTEASE<br />
<em>Do You See the Light</em> &#8211; Spain</strong></p>
<p>A safadeza desta canção está na conjugação perfeita da letra com a voz, embalada pela guitarra que parece ser tocada com um cuidado dispensado somente às mulheres que queremos comer muito todo dia. À mulher, chapada de languidez, basta seguir o conselho e a ordem do refrão.</p>
<p><em>Trecho preferido:</em> &#8220;Just kiss me girl and hold me tight&#8221; | O “Just do it” da putaria.</p>
<p><strong><br />
04. FUCK MUSIC<br />
<em>Like A Child Again</em> &#8211; The Mission U.K.</strong> <strong><br />
</strong></p>
<p>O Sexo consegue mudar drasticamente o humor das pessoas. Através dele nos tornamos deuses, conscientes dos corpos envolvidos no ato e da energia que eles emanam. Descobrimos novos ritmos, assimilamos as mais diversas personalidades, nos comunicamos por uma língua distinta. Repare bem que a batida da música denota uma trepada frenética, e os violinos representam claramente os gemidos. É uma música que te faz querer vestir-se com a alma do outro.</p>
<p><em>Trecho preferido: </em>&#8220;And I’m breathing you in / Just like the morning air / And I’m wrapping you around / Just like a skin to wear&#8221; | É simplesmente o trecho que me faz querer estar completamente dentro de uma mulher.</p>
<p><strong><br />
05. PÓS-FUCK MUSIC<br />
<em>The Body Breaks</em> &#8211; Devendra Banhart</strong></p>
<p>Imagine as sensações descritas e proporcionadas pela canção anterior. Embora elas nos despertem desejos de invencibilidade, invariavelmente caímos suados e felizes, dormindo sem culpa e desprezando qualquer possibilidade do mundo acabar. Pois bem, imagine a sensação de acordar e relembrar aos poucos o que viveram e sentiram há pouco. Então você descobre uma nova forma de prazer.</p>
<p><em>Trecho preferido:</em> &#8220;The body burns / Yeah, the body burns strong / Until mine is with yours / Then mine will burn on&#8221; | É o momento em que você sente que o calor dos seus corpos ainda se mantêm.</p>
<p><strong><br />
06. AMOR NO CASAMENTO<br />
<em>O Mundo Anda tão Complicado</em> &#8211; Legião Urbana</strong></p>
<p>Desde adolescente eu sempre sonhei em ter um amor com o qual eu pudesse viver cada verso desta canção, que apresenta o cotidiano de duas pessoas que acabaram de casar e que estão descobrindo e se deliciando com o valor de cada detalhe dessa vida comunzinha. Depois que cresci e casei, a música passou a fazer ainda mais sentido, pois ela consegue resumir boa parte da minha vida com a minha esposa.</p>
<p><em>Trecho preferido: &#8220;</em>Temos a semana inteira pela frente / Você me conta como foi seu dia / E a gente diz um p&#8217;ro outro: / &#8211; Estou com sono / vamos dormir!&#8221; | Existem poucas coisas no mundo que proporcionam tamanho prazer quanto conversar com a pessoa que ama e ainda dormir junto com ela.</p>
<p><strong><br />
07. MÚSICA PARA DANÇAR<br />
<em>The Luckiest</em> &#8211; Ben Folds</strong></p>
<p>Prepare o jantar, e depois de satisfeitos, mantenha a luz baixa, ponha esta música para tocar e proponha uma dança. Peça para que a outra pessoa deixe-se levar e apenas preste atenção na letra. Ela vai se sentir a pessoa mais importante do mundo sabendo que você se considera a pessoa mais sortuda do mundo porque todas as merdas que já te aconteceram fez você estar, vivendo esse momento ao lado dela.</p>
<p><em>Trecho preferido:</em> &#8220;Now I know all the wrong turns, the stumbles and falls / Brought me here&#8221; / Pra quem, assim como eu, gosta de brincar de teoria do caos do amor.</p>
<p><strong><br />
08. MÚSICA PARA VIAGEM A DOIS<br />
<em>Baby I Need Your Lovin&#8217;</em> &#8211; Carl Carlton</strong></p>
<p>Desde a primeira vez que eu ouvi esta canção, no distante 1985, a minha vontade era de pegar a estrada rumo à uma praia deserta num dia quente. Não tardou para que eu soubesse da necessidade de uma mulher nesta minha vontade. A batida, a voz, o refrão, tudo parece celebrar o verão e a paixão inerente a ele.</p>
<p><em>Trecho preferido:</em> &#8220;Some say it&#8217;s a sign of weakness / For a man to cry / Then weak I&#8217;d rather be / If it means havin&#8217; you to keep / &#8217;cause lately I&#8217;ve been losin&#8217; sleep&#8221; | Porque é sempre muito bom poder declarer-se sem preocupações, em voz alta, pra todo mundo ouvir.</p>
<p><strong><br />
09.  AMOR À DISTÂNCIA<br />
<em>Loucas Horas</em> &#8211; Guilherme Arantes</strong></p>
<p>Quem já namorou à distância sabe como os momentos juntos são tratados como sagrados, históricos e épicos. E quando separados, fazemos da nossa vida a mais sofrida, mas inabalável. Contamos cada dia para um novo encontro, esculpindo o amor distante em qualquer rosto ou objeto  à nossa frente.</p>
<p><em>Trecho preferido: &#8220;</em>Te quero / o mundo fica perfeito contigo / nas poucas / as loucas horas com você&#8221; | É um dos poucos versos que resumem o que é viver sob encontros em doses homeopáticas.</p>
<p><strong><br />
10. MÚSICA PARA ONE NIGHT STAND<br />
<em>Quick Before It Melts</em> &#8211; Cinerama</strong></p>
<p>O sexo é das poucas coisas que nos faz perder qualquer traço de sanidade. E se o caso é como nesta canção, em que uma mulher deliciosa diz não estar usando nada sob o vestido, e implorando para que tudo aconteça rápido antes que derreta, não há tempo hábil para definirmos o que é certo ou errado. O importante é vivermos a história.</p>
<p><em>Trecho preferido:</em> &#8220;You put your hand onto the very place my girlfriend&#8217;s hand should be&#8221; | Uma forma sutil de narrar uma situação que nos coloca em uma situação que permite as mais diversas interpretações.</p>
<p><strong><br />
11. MÚSICA PARA EX-NAMORADOS<br />
<em>Detalhes</em> &#8211; Roberto Carlos</strong></p>
<p>É sempre assim: quando um relacionamento chega ao fim, vislumbramos todas as possibilidades amorosas da outra pessoa, e desejamos tão secretamente que nosso amor não seja superado pelo futuro que muitas vezes acabamos acreditando nessa improvável invencibilidade, fabulando a nossa presença em cada detalhe do amor alheio.</p>
<p><em>Trecho preferido: &#8220;</em>Mas quase também é mais um detalhe / um grande amor não vai morrer assim / por isso, de vez em quando você vai, vai lembrar de mim&#8221; | É como se exultássemos à resposta de que a chance de reconciliação fosse uma em um milhão.</p>
<p>&#8230;</p>
<p><strong>Letras e traduções: </strong>Baixe o <a href="http://nao2nao1.com.br/img/11_cancoes_amar_mais_letras_ian_black.pdf" target="_blank">PDF com todas as letras e traduções</a> das canções acima.</p>
<p>Veja a <a title="11 canções para amar mais e melhor" href="http://blog.ianblack.com.br/2009/09/07/11-cancoes-para-amar-mais/" target="_blank">minha seleção de 11 músicas</a> no blog do Ian Black e deixe seu comentário (aqui ou lá) sobre suas preferências.</p>
<p>Vamos cantar, tocar e dançar uns aos outros até o fim do amor&#8230;</p>


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		<title>Experimentos para se sentir vivo (1) &#8211; iPod e energia autônoma</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Aug 2008 10:37:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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<p>A maioria dos casais que entram em crises graves, não importam os conteúdos, manifesta uma espécie de sonolência ou apatia. Antes de qualquer outro problema, a relação se empalidece, os corpos se anestesiam. Antes de qualquer desentendimento grave, a preguiça avança sobre a generosidade. Talvez a falta de energia seja o princípio de todas as rupturas, assim como as&#8230;</p>


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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-276" title="Fone de ouvido" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2008/08/earphone2.jpg" alt="" /><!--adsensestart--></p>
<p>A maioria dos casais que entram em crises graves, não importam os conteúdos, manifesta uma espécie de <strong>sonolência</strong> ou apatia. Antes de qualquer outro problema, a relação se empalidece, os corpos se anestesiam. Antes de qualquer desentendimento grave, a preguiça avança sobre a generosidade. Talvez a falta de energia seja o princípio de todas as rupturas, assim como as conexões se iniciam pela abundante movimentação de energia (aparentemente causada pelo outro) e por aquela disposição que sempre nos surpreende.</p>
<p>Com base em tal hipótese, abro a série <strong>&#8220;Experimentos para se sentir vivo&#8221;</strong>, pela qual pretendo sugerir práticas que nos livrem do entorpecimento e nos despertem para a alegria de se relacionar com o outro. Começo com uma prática para testar o quanto somos movidos por configurações externas e o quanto (ou não) somos responsáveis por toda a circulação de energia em nós. Com ela, talvez seja possível avançar na <a href="http://nao2nao1.com.br/a-dor-que-geramos-no-meio-do-prazer/" target="_blank">reflexão que iniciei aqui sobre a possibilidade de uma paixão autônoma</a> como saída para o insatisfatório padrão atual. Ou seja, se é verdade que podemos mover nossa própria energia, é possível construirmos uma paixão sem que o outro seja o responsável pela circulação de nosso sangue. O que descrevo abaixo é uma das práticas que venho fazendo antes de escrever o texto <strong>&#8220;Para além da química: é possível construir uma paixão?&#8221;</strong>.</p>
<p>A primeira vez foi espontânea. No início do ano, ainda me sentindo atropelado pelo fim de uma relação de 5 anos, voltei a usar um velho MP3 player que ignorei por meses. Fui de metrô fazer exame admissional e saí ouvindo mais do que os sons da cidade. Do nada, comecei a perceber que eu mudava o olhar, a postura e a energia de acordo com cada música. Estava com o peito aberto, olhos<em> wide open</em>, em contato com os outros, com o mundo. Diferentes histórias passando ao meu redor, melodias e letras correndo dentro, vários ânimos se alternando.</p>
<p>Assim que entrava <a href="http://br.youtube.com/watch?v=wpxuMNfyzXw" target="_blank">&#8220;Nude&#8221;</a> ou <a href="http://br.youtube.com/watch?v=8OS1U8LjjZw" target="_blank">&#8220;Reckoner&#8221;</a> (Radiohead, álbum <em>In Rainbows</em>), meu corpo se enrijecia, os olhos perdiam o foco, nenhum pensamento se sustentava, a boca se abria, quase babando, como se eu fosse um louco paralisado. Peito vazio, ar frio, pés ausentes. Vontade de <strong>vomitar seco</strong>. A música não só me arrastava internamente como também configurava o universo inteiro ao meu redor: falta de sentido, pessoas caóticas, &#8220;Por que existem exames admissionais?&#8221;, &#8220;Será que este médico vai perguntar se quero morrer (essa é a única pergunta que poderia avaliar minha sanidade)&#8221;, &#8220;Como essa rua é triste!&#8221;, &#8220;Onde mesmo está o céu?&#8221;. Eu havia me esquecido que Radiohead remove o céu acima de nós.</p>
<p>A playlist seguia e Jonny Lang soltava os acordes poderosos de <a href="http://www.imeem.com/people/-sU9vV/music/zt-nKahN/jonny_lang_still_rainin/" target="_blank">&#8220;Still Raining&#8221;</a> (álbum <em>Wander this World</em>). Meu peito se enchia de calor, as mãos seguravam baquetas imaginárias, o bumbo me devolvia os pés, o chimbal movia meus olhos, as viradas da caixa (antes do refrão) balançavam minha cabeça. Minha boca pronunciava alguma coisa entre os sons da bateria e a letra da música. Havia uma certa revolta, mas agora com muita energia. O que era depressão em Radiohead virava excitação na voz de Lang. As pessoas voltavam a ter radiância nos olhos, exames admissionais até que tinham algum sentido, a rua me impelia a percorrê-la. O céu, para minha surpresa, estava lá.</p>
<p>Mariana Aydar cantava o samba que me lembrava dos passos da gafieira. <a href="http://br.youtube.com/watch?v=L9L3s5g7Jmc" target="_blank">&#8220;Na Gangora&#8221;</a> ativava um olhar malicioso e fazia surgir mulheres gostosas à minha frente. O tamborim e as porradas nos pratos de &#8220;Menino das Laranjas&#8221; impediam qualquer tristeza. Meu pescoço se soltava enquanto percebia que eu havia passado o dia inteiro com os ombros tensionados. Com o corpo relaxado, o sorriso era natural. Sorriso que não era meu, mas da música, da própria Mariana.</p>
<p>Com Norah Jones, vinha repouso e paz – eu podia sentir o gosto do vinho. Com Tom Petty, virava moleque e tirava sarro de mim mesmo. Com Bach, eu enxergava as equações matemáticas e os algoritmos que estavam por trás do universo. Tori Amos me amansava ao mostrar o tamanho da dor de cada pessoa sentada no metrô, o quanto cada uma ali já chorou e desaguaria se ouvisse o que eu estava ouvindo. A <a href="http://br.youtube.com/watch?v=gKlGKFX-mQA" target="_blank">salsa senegalesa de Toure Kunda</a> transformava o mundo em uma festa: todos estavam prestes a levantar e dançar, ou melhor, seus pés já se moviam com o piano. <strong>Para cada música, um olho específico, uma postura corporal, um mundo construído.</strong></p>
<p>Já quase em casa, pensei: &#8220;Se essa música me traz a energia da alegria e seu mundo correspondente, então eu tenho como acessar tudo isso diretamente de algum modo que agora me parece impossível&#8221;. O mesmo para a angústia de outra música, sensação de deslumbramento contemplativo de outra, malícia e energia sexual de outra (tinha uns sambas que me deixam no ponto!), raiva e medo, carência, orgulho e assim por diante. Corpo, pensamento, ânimos, visões e relações: somos essa plasticidade pronta para se alternar entre infinitas configurações. Temos tudo aqui, completamente disponível, só que não nos damos conta. Somos dependentes de elementos externos. Precisamos que algo ative aquilo que não conseguimos trazer à vida por nós mesmos.</p>
<p>Continuei: &#8220;Quando me relaciono com uma outra pessoa, acontece precisamente a mesma coisa. Ela ativa certos mundos que poderiam ser incorporados de modo autônomo&#8221;. Porque não conseguimos despertar algumas energias em nós, desenvolvemos apegos e fixações: <strong>&#8220;Sem ele, não consigo sentir isso&#8221;</strong>. É como se precisássemos ouvir Radiohead para sentir angústia ou Aerosmith para cultivar alegria. E de fato fazemos isso o tempo todo, afinal quem nunca colocou música para expandir e potencializar aquilo que estava sentindo ou querendo sentir?</p>
<p>Na maioria do tempo, entretanto, não nos comportamos como o menino maluco batucando no metrô e entrando em depressão minutos depois, ao sabor das músicas. <strong>Ignoramos grande parte dos estímulos que não se adequam a nossos estados internos.</strong> Se a música é depressiva e estamos bem, a música perde, ela não nos fisga. Se o som é alegre e estamos mal, a música não tem chance alguma. Somos, portanto, mais reféns de nossos impulsos e ânimos do que de elementos externos.</p>
<p>Porém, quando a música se encaixa com nosso estado interno, aí sim! Temos certas predisposições para algumas energias e mundos correspondentes, que são fortalecidos quando encontramos a música certa, o cheiro, a temperatura, o poema, ou a pessoa certa para eles. Os ânimos precisam de suportes corporais também, já que é muito difícil sentir raiva em postura de lótus ou estabilizar a mente em postura fetal, enrolado na cama. Ou seja, quando desejamos sentir tristeza, nós não só colocamos músicas tristes para tocar como também nos deitamos tortos no sofá. Infelizmente, o mesmo se dá com sensações e emoções positivas: buscamos suportes, já que não nos achamos capazes de sentir tudo de modo autônomo.</p>
<p><strong>Para nossa sorte, existem as crises. </strong>São elas que nos salvam desse processo infindável de deitar no sofá para chorar e chamar a ex-namorada para gozar.<strong> </strong>Vivemos no esforço de estabilizar algum estado interno prazeroso e chamamos de &#8220;crise&#8221; aqueles momentos em que não conseguimos. O que é uma crise senão a impossibilidade de estabilizar qualquer estado mental? Caos total, surto de TPM, alternância de pensamentos contraditórios, ânimos extremos e oscilantes. Ao contrário do que pensamos, é nesse momento que estamos mais livres. Quando estamos estáveis e confortáveis no prazer, ainda que exista um sorriso aberto, estamos completamente presos (toda fixação é uma delícia!).</p>
<p>A crise é um excelente momento para colocarmos uma série de músicas bem diferentes em sequência, vivenciarmos cada uma delas no limite e observarmos como nossa mente funciona. Por não conseguirmos parar, as músicas guiam nossa respiração mais facilmente. Enquanto rodopiamos, estamos mais abertos do que quando nos fixamos em algum ponto. Por isso, penso que a loucura esconde uma espécie de docilidade que raramente manifestamos quando estamos estáveis. A crise é o movimento desenfreado no espaço livre, no lugar mesmo onde em breve vamos dançar. Podemos então aproveitar o caos que já existe em vez de nos apressarmos para algum tipo de estabilização.</p>
<p>Treinar uma outra relação com as músicas de um iPod é muito mais fácil do que praticar liberdade com alguém. Mesmo assim, nossa mente cria um observador e termina por investigar a dinâmica entre prisão e liberdade nas relações amorosas. A alternância das faixas rapidamente revela nossa capacidade de posicionar mente e corpo em qualquer ponto, gerando mundos, identidades e histórias, algo que fazemos o tempo todo (sozinhos ou acompanhados), sem perceber.</p>
<p>O experimento que venho praticando talvez explicite também a <strong>impessoalidade das emoções</strong> (&#8220;a raiva que sinto não é minha, o sorriso é da Mariana Aydar, tudo passa por mim, eu sou o espaço no qual escorre minha vida&#8221;), a <strong>insubstancialidade dos mundos</strong> (&#8220;há minutos eu queria me matar e agora estou pensando em como abordar essa garota linda, como isso é possível?&#8221;) e <strong>nossa liberdade</strong> de nos colocarmos onde quisermos. Se vou ali, o mundo fica cinza e quero me esconder. Se me movo mais um pouco, vejo cores e quero abraçar qualquer um. Já venho fazendo isso, involuntariamente, por décadas&#8230; Que tal se agora eu começar a conduzir esses movimentos?</p>
<p>Por que esperar o iPod estacionar em <em>In Rainbows</em>, se posso mover minha mente livremente para regiões de desespero? Por que esperar algo dos outros, se posso cultivar alegria e energia estáveis e autônomas? Por que ser vítima das incontáveis playlists que se desdobram ao meu redor? E se, em vez disso, eu experimentar fazer um som?</p>
<p>Para seguir a prática depois de retirar os fones do ouvido, vou procurar por uma tradição contemplativa cuja instrução principal não seja &#8220;faça o bem, evite o mal&#8221; e sim <strong>&#8220;dirija a própria mente&#8221;</strong>. Será que existe?</p>
<p><em>* Dedico esta prática a todos os casais que passam por dificuldades e estão, neste exato momento, anestesiados, preguiçosos e sonolentos.</em></p>
<p><em><strong>P.S.: </strong>Se você, homem ou mulher, quiser enriquecer o próximo texto sobre o assunto &#8220;paixão autônoma&#8221;, por favor <a href="http://nao2nao1.com.br/contato/" target="_blank">envie seu relato</a>, caso já tenha conseguido se apaixonar por alguém que nunca o tenha fisgado (alguém pelo qual você não sentia atração alguma). Isto é, se alterou seu olhar e ofereceu paixão ao outro, em vez de ter sido vítima da química ou daquela conexão que parece vir de vidas passadas.</em></p>


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		<title>Homem de cuíca: o ronco, a raiva e a fome (para homens)</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Jul 2008 13:46:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Diante de uma mulher, você tem fome e raiva? Como você se aproxima de sua parceira? Homens são conhecidos pelo ronco de sono, porém nós somos capazes de outros 3 tipos de roncos muito mais importantes.</p>
<p>Cuíca, raiva e fome, isso sim é coisa de homem.</p>
<p></p>
<p>Roncou, roncou
Roncou de raiva a cuíca
Roncou de fome
Alguém mandou
Mandou&#8230;</p>


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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Diante de uma mulher, você tem fome e raiva? </strong>Como você se aproxima de sua parceira? Homens são conhecidos pelo ronco de sono, porém nós somos capazes de outros 3 tipos de roncos muito mais importantes.</p>
<p>Cuíca, raiva e fome, isso sim é coisa de homem.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="560" height="449" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="wmode" value="transparent" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/2XwMPIqobag&amp;hl=en" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="560" height="449" src="http://www.youtube.com/v/2XwMPIqobag&amp;hl=en" wmode="transparent"></embed></object></p>
<blockquote><p>Roncou, roncou<br />
Roncou de raiva a cuíca<br />
Roncou de fome<br />
Alguém mandou<br />
Mandou parar a cuíca, é coisa dos home</p>
<p>A raiva dá pra parar, pra interromper<br />
A fome não dá pra interromper<br />
A raiva e a fome é coisas dos home</p>
<p>A fome tem que ter raiva pra interromper<br />
A raiva é a fome de interromper<br />
A fome e a raiva é coisas dos home</p>
<p>&#8220;O ronco da cuíca&#8221;, de João Bosco (dê play acima e ouça a versão da cantora CéU)</p></blockquote>
<h1>Roncar de fome</h1>
<p>É muito fácil encontrar homens que se entopem de <strong>filmes pornôs</strong>, amigas chatas, conversas de IM, música ou drogas para depois reclamar de seu fracasso com mulheres. Quando nos relacionamos com o feminino de outros modos, longe da presença de uma mulher de verdade, é preciso tomar cuidado para não exagerar e ficar satisfeito. O outro extremo também é perigoso, afinal como se deliciar com uma mulher se há tempos você não pára e aprecia uma boa comida, vinho e música?</p>
<p>Todos nós nos abrimos quando sentimos que podemos oferecer algo. Quer deixar alguém confortável em um grupo? Peça que ele ajude em algo, contribua com habilidades que só ele tenha. Do mesmo modo, uma mulher se abre quando sente que pode oferecer sua energia feminina. Você precisa, então, estar preparado para isso, ter espaço para recebê-la. Não basta desejá-la, tem de ter <strong>fome de mulher</strong>.<!--adsensestart--></p>
<p>Um mulher é capaz de sentir quando um homem está com fome, quando está prestes a devorá-la, ou melhor, quando come e se delicia com ela a cada gesto. Ela sente-se desejada e então passa desejar também. <strong>Sua fome ativa a sede dela. </strong>Sede pela sua energia masculina, sede de homem.</p>
<p>Saber disso não adianta. A transformação se dá pelo corpo. De tempos em tempos, <strong>faça jejum</strong>: desligue a TV, tire o computador da tomada, coma só o necessário, corte a música e esqueça que você é capaz de ejacular. Não desperdice energia. Não se distraia. Quando sua potência de vida aumentar (depois de um fim de semana percorrendo trilhas em uma montanha ou em retiro de meditação, por exemplo), naturalmente surgirá fome de vida, isto é, uma vontade de penetrar o mundo, agarrar uma mulher e comê-la viva. É como se você treinasse um olhar profundo e depois desejasse objetos, paisagens e bailarinas para contemplar e atravessar com os olhos.</p>
<h1>Roncar de raiva</h1>
<p>Sabe aquele homem que não consegue se impor a sua parceira? Ela faz tudo errado, solta mil venenos e ele lá, quietinho, incapaz de tomar alguma atitude. Ela o humilha e rebaixa, ele aceita e se controla para não esmurrá-la.</p>
<p>Existem padrões negativos que machucam não só o parceiro, mas a própria pessoa que os manifesta. <strong>Às vezes, ser sensível e compreensivo significa ser negligente.</strong> Situação que só piora com quem tenta ser &#8220;espiritual&#8221; e reprimir qualquer impulso obscuro e violento.</p>
<p>Não abaixe a cabeça para os obstáculos de sua mulher. Elogie-a e corteje-a, claro, mas saiba cortar e <strong>interromper</strong> qualquer negatividade que ela possa apresentar. Ao fazê-lo, aja como um pai que impede a filha de sair com um traficante: ela chora e esperneia, mas ele sabe que aquilo é benéfico para todos. Não a afronte, lute ou vá contra ela; aja a favor dela, calmo e preciso.</p>
<p>Além desse aspecto de compaixão irada, a raiva serve também para ampliar nossa energia masculina. Se liberada como raiva, por ignorância, ela é prejudicial. Mas se movida com sabedoria, a energia da raiva cria uma <strong>atitude passional</strong>. Nós avançamos sobre nossa mulher com uma fúria mansa. Sem esse poder, é muito difícil rendê-la, domá-la e penetrá-la totalmente. É essa raiva amorosa que explode na cama: você a puxa para cá, joga para lá e bate na cara dela. Você leva seu respeito por ela para além do que ela pode conceber. Você a desrespeita.</p>
<h1>O ronco da cuíca</h1>
<p><img title="cuica" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2008/07/cuica.jpg" alt="cuica" width="200" height="203" align="left" />Cuíca não se toca batendo. Cuíca faz som por <strong>fricção</strong>. Uma mão esfrega por dentro, a outra coloca pressão por fora na pele. O som é uma espécie de fala cheia de grunhidos e soluços.</p>
<p>Mulher é coisa parecida. Como a cuíca, ela não tem um som próprio definido. É pele e se solta por fricção. Mulher se toca explorando, uma mão dentro, outra fora, descobrindo o som que pulsa a dois. Diferente do instrumento, porém, uma mulher dança ao som que sai de si mesma. Ela se surpreende quando sua própria fala vira poesia, quando seu som torna-se música gostosa.</p>
<p>Para se tocar uma cuíca, é preciso malícia, algo que não é muito diferente de poesia. Falar uma coisa já falando outra. Portanto, homens, para mover uma mulher basta chegar com <strong><a href="http://youtube.com/watch?v=nDxTLUmsR-s" target="_blank">malemolência</a></strong>, sem pedir permissão. Abra-a e deixe que ela se extasie com o próprio cheiro, plena de si mesma. Chegue com gingado e ela já vai saber que é hora de dançar. Roncou?</p>


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		<title>Linguagens do amor (1) &#8211; O toque passional</title>
		<link>http://nao2nao1.com.br/linguagens-do-amor-1-o-toque-passional/</link>
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		<pubDate>Thu, 19 Jun 2008 00:09:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Linguagens e toques do amor]]></category>
		<category><![CDATA[Músicas]]></category>
		<category><![CDATA[Para homens]]></category>
		<category><![CDATA[Para mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[paixão]]></category>
		<category><![CDATA[sedução]]></category>

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		<description><![CDATA[Envolver e excitar: a paixão como uma forma de amor


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<li><a href='http://nao2nao1.com.br/casar-por-amor-e-uma-pessima-ideia-parte-3/' rel='bookmark' title='Casar por amor é uma péssima idéia! &#8211; Parte 3'>Casar por amor é uma péssima idéia! &#8211; Parte 3</a></li>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img title="Mão da paixão" src="http://nao2nao1.com.br/img/mao_passional_afresco.jpg" alt="Toque passional" width="588" height="264" /></p>
<p><em>No primeiro post dessa série, <a href="http://nao2nao1.com.br/posso-pedir-sua-mao-para-mulheres/" target="_blank">expliquei a abordagem, listei as várias linguagens e pedi a mão das mulheres</a>. Ainda não recebi fotos para todos os tipos de toques. Meninas, colaborem (<a href="http://nao2nao1.com.br/posso-pedir-sua-mao-para-mulheres/" target="_blank">instruções aqui</a>)! A imagem acima foi gentilmente enviada por uma das leitoras do </em><em>Não2Não1.</em></p>
<p>Grandes histórias de amor começam com o toque passional, que depois dá espaço a todos os outros. Então é por ele que vamos começar. Antes de ler, abra outra aba e deixei rolando isso aqui: <a href="http://youtube.com/watch?v=C8iF_GS1Bow" target="_blank">Tori Amos &#8211; Sweet the Sting</a>.</p>
<h1>A ação passional do amor</h1>
<blockquote><p>Durante a paixão, acompanhamos, atentos, cada gesto do outro. Sentimos a respiração, antecipamos movimentos, perguntamos, olhamos. Há um genuíno interesse, uma espécie de curiosidade que se empalidece com o tempo. Sem falar na generosidade… Somos capazes de ouvir histórias que duram horas, ir buscá-la em outra cidade, esperar. Tudo sem hesitação, com toda a energia e estabilidade do mundo. A paixão nos deixa vivos, nos acorda, faz brotar o melhor de nós.</p>
<p>Ultimamente venho pensando se a paixão não nos ensina mais sobre o amor incondicional do que o chamado “amor puro”. A paixão nos tira de nós mesmos, quebra nossa rotina, direciona nossa energia à felicidade do outro e ainda nos deixa com todo o ânimo do mundo. Se liberada do apego, ela não seria o melhor que o amor pode ser?</p>
<p>(Trecho de <a href="http://nao2nao1.com.br/feast-of-love-o-fim-ja-esta-desde-sempre-no-principio/" target="_blank">&#8220;Feast of Love: o fim já está desde sempre no começo&#8221;</a>)</p></blockquote>
<p><strong>A paixão é uma das linguagens do amor. </strong>Ela não é algo diferente, conforme dita nosso imaginário coletivo; pelo contrário, ela <em>expressa</em> o amor. Alguns mestres budistas definem o amor como a capacidade de ver qualidades positivas nos outros e agir para elas floresçam. Não vejo diferença para a concepção de Espinosa, para citar só um exemplo da filosofia ocidental, que vê no amor a ação que aumenta a potência vital do outro, que o faz <em>ser</em> mais. Ora, <strong>o que é a paixão senão a encenação que nos leva a ir aos extremos do amor?</strong> Movidos por uma paixão, vemos não só qualidades positivas, mas até mesmo o que o outro ainda não é. O outro brilha para nós, fica mais bonito a cada dia que o conhecemos, revela gestos e ângulos que nos fascinam. Através de nossos olhos, ele nasce para si mesmo, novo, fresco, como nunca foi.</p>
<p>O problema não está propriamente na paixão tanto quanto no fato desse processo acontecer sem <strong>autonomia</strong>, sem que lucidamente nos vejamos como construtores, em vez de vítimas, do envolvimento. Por não sabermos a origem (&#8220;Que delícia! Do nada, rolou química e agora estou louco por ele!&#8221;), não sabemos o fim (&#8220;Ele tem uns hábitos que me irritam, não consigo mais ficar perto dele&#8221;). Sem saber, no início, nossos olhos focaram qualidades positivas e construíram um princípe, uma deusa. Igualmente sem saber, não demorou para que nossos olhos, de modo ativo, iluminassem características negativas, criando um monstro à nossa frente.</p>
<p>Se a paixão for vista como uma linguagem do amor, como um dos modos de expandir o corpo e a mente do outro, será mais fácil entendermos que podemos construi-la, em vez de deixá-la na mão da &#8220;química&#8221;. Por que isso é tão importante? Dou um exemplo: em um relacionamento de 6 anos, com seus hábitos e vícios, se nenhum dos amantes souber usar o toque passional, será bastante arriscado depender do retorno da insondável &#8220;química&#8221;.</p>
<p>Você não sabe por que e não lembra quando deixou de gostar dele. Isso não deveria ser surpresa, afinal você sabe por que ou se lembra quando começou a gostar de pizza de palmito? Tudo aquilo que não construímos de modo autônomo (da paixão com uma mulher a nossos projetos profissionais) vai se virar contra nós em algum momento ou, sem aviso, nos abandonar. Ainda que essa seja nossa sensação, eis o que de fato acontece: <strong>somos o tempo todo livres e nunca paramos de construir mundos</strong>, mas, como não sabemos disso, construímos experiências positivas (que parecem vir do nada, a tal da &#8220;química&#8221;) e, do nada, passamos a construir experiências negativas e extremamente dolorosas.</p>
<p>Somente se a paixão for uma ação do amor, livre de carência ou desejo de poder, é que teremos alguma chance de construir relacionamentos lúcidos. Daí a importância de aprender essa linguagem e saber movimentar nossa mão de modo autônomo. <a href="http://nao2nao1.com.br/amor-e-coisa-que-nao-se-recebe/" target="_blank">Realmente tocar, em vez de só ser tocado</a>.</p>
<h1>Envolver e excitar: os dois toques da paixão</h1>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-259 alignleft" style="float: left;" title="Toque paixão, mão, mulher na calça, barriga" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2008/07/toque_paixao.jpg" alt="Linguagem passional" width="250" height="265" />Você deixa um sabonete de chocolate com maracujá no banheiro dela. Envia músicas e poemas por email, SMS de madrugada, flores para o escritório onde ela trabalha. Você limpa a sala, acende velas, coloca Norah Jones para tocar. Cria todo um ambiente amoroso em torno da vida do outro, expande sua presença, tinge momentos e paredes. O toque passional <strong>envolve</strong> o outro.</p>
<p>Dentro do ambiente que você criou, o outro relaxa. Vocês dançam, se abraçam e outro toque começa a dominar. Sua língua percorre o queixo, o pescoço, o colo. Sua boca assume diversas posições. A mão não pára. Os dentes, os olhos, as pernas&#8230; Você testa pressões, movimentos, circulações, respirações. Puxa, arrasta, desliza, esconde, resvala, treme, esfrega, arranha o outro. O toque passional <strong>excita</strong>.</p>
<p>Enquanto a excitação é o estímulo de um ponto específico (seja o clitóris ou a glande, a orelha ou a parte atrás dos joelhos), a sedução se dá pelo envolvimento de todos os pontos da realidade do outro. Sem envolvimento, a excitação machuca, vira estupro. Sem excitação, o envolvimento perde o sentido, nunca se completa – desejo sem gozo. A paixão se faz quando os dois toques se unem, quando você dá um tapa na cara à luz de velas.</p>
<h1>Trilha sonora</h1>
<p>Observando letra e melodia, escolhi 3 músicas que expressam a linguagem passional. Cada uma delas ativa nosso corpo na direção da paixão. Assim que sentimos a batida, relaxamos o abdômen, encaixamos o quadril, dobramos levemente os joelhos, soltamos os ombros e abrimos a mão. Faça o teste. Elas nos tiram a rigidez e injetam malícia. São um longo carinho, toque contínuo, ora sacana e excitante, ora profundo e envolvente. Uma ótima trilha sonora para noites de sexo irrestrito.</p>
<ul>
<li><strong><a href="http://youtube.com/watch?v=o-CGhosoaHY" target="_blank">Lenda</a></strong> &#8211; Céu [<a href="http://letras.terra.com.br/ceu/504435/" target="_blank">letra</a>]</li>
<li><a href="http://www.youtube.com/watch?v=3s-EdEDhm5Q" target="_blank"><strong>Sweet the Sting</strong></a> &#8211; Tori Amos [<a href="http://letras.terra.com.br/tori-amos/121872/" target="_blank">letra</a> | <a href="http://letras.terra.com.br/tori-amos/845810/" target="_blank">tradução</a>]</li>
<li><strong><a href="http://www.dailymotion.com/video/x1yrxk_dave-matthews-band-crush_music" target="_blank">Crush</a></strong> &#8211; Dave Matthews Band [<a href="http://letras.terra.com.br/dave-matthews-band/9943/" target="_blank">letra</a> | <a href="http://letras.terra.com.br/dave-matthews-band/100268/" target="_blank">tradução</a>]</li>
</ul>
<h1>Para uma massagem passional</h1>
<p><em>Estou usando aqui uma concepção mais ampla de &#8220;massagem&#8221;. Quando eu tratar de &#8220;massagem lúdica&#8221;, por exemplo, ficará claro que me refiro ao modo pelo qual surgimos ao outro, ao jeito que o tocamos com todas as nossas ações, à textura de nossa pele, interface da relação.</em></p>
<p>Refletir sobre o toque pode levar a percepções inusitadas. O que diferencia o toque de um e de outro? A mão pode ser parecida, mesma textura e temperatura, o movimento também, o ritmo&#8230; Tem algo, contudo, que sempre é diferente. É como se o outro não nos tocasse com a pele, mas com todo o seu mundo, suas visões, emoções e experiências passadas. É ele inteiro que nos toca. Em relações desgastadas, por exemplo, ambos ficam anestesiados e nenhum toque consegue provocar algo. Isto porque o toque nada tem a ver com mãos e peles.</p>
<p>Desse modo, em vez de listar técnicas de imposição das mãos, óleos de massagem ou artimanhas de sedução, prefiro tratar da postura, do posicionamento corporal que dá vazão à paixão. Em uma relação longa, por exemplo, para envolver e excitar, é preciso, no mínimo, cultivar curiosidade, generosidade e malícia:</p>
<p><strong>Curiosidade: </strong>Recentemente, conheci uma pessoa que sempre tem uma história para contar sobre qualquer assunto imaginável. Viagens, noitadas, família, amores&#8230; Ela se delicia falando de si mesma. No entanto, não demonstra interesse algum pela minha vida. Sou só eu quem faz as perguntas, não há troca. Recomenda mil músicas, mas as que eu indico ela não ouve. Infelizmente muitas vezes somos assim com quem amamos. Após alguns anos (ou meses) de relação, é natural que o outro comece a habitar locais que desconhecemos, a incorporar identidades que ainda não tocamos. Para evitar que ele suma completamente, ouça as músicas que ele ouve. A curiosidade tem de ser prática diária. É preciso olhar com interesse para cada cantinho escondido nas vidas ao nosso redor. Ir atrás dos outros.</p>
<p><strong>Generosidade:</strong> Com a prática da curiosidade, chegamos até o outro, vemos onde ele mora. E então podemos talvez pintar uma parede, trocar o CD e pedir uma pizza. De dentro da casa do outro, vamos oferecer experiências, sensações e sabores. Descobrimos onde é o banheiro e deixamos ali o tal do sabonete de chocolate com maracujá. Vamos envolvê-lo. A generosidade surge naturalmente quando vemos que proporcionar alegria aos outros é o modo mais inteligente de ser feliz.</p>
<p><strong>Malícia:</strong> Deixar o sabonete no banheiro não basta: o outro vai gostar, mas depois de uma semana seu banho voltará ao normal. Para continuar a abri-lo, para deixá-lo vivo, vamos ter de ser mais ousados. Vamos abrir a porta do banheiro e surpreendê-lo. Muitas vezes precisamos quebrar coerências, transgredir regras, desrespeitar os outros. <strong>Nosso objetivo é abri-los, não agradá-los</strong>. Tal liberdade é um dos aspectos do que chamamos de malícia. O outro é a leveza: não dar solidez às coisas, não levar nada muito a sério, ser flexível em relação a todas as significações e contextos. Quando ela diz &#8220;Não faça isso, não quero, não gosto&#8221;, ele a desrespeita e faz com toda a intensidade até que ela admita: &#8220;Eu nunca vivi isso antes&#8230; Sempre quis algo assim&#8221;. A sensibilidade dele supera até mesmo o entendimento que ela tem de si mesma.</p>
<p>Malícia é plasticidade. <a href="http://nao2nao1.com.br/sobre-homens-que-as-fazem-rir/" target="_blank">Como já escrevi antes</a>, eis por que as mulheres adoram homens que as fazem rir. Da primeira gargalhada até o orgasmo, o processo é o mesmo. A malícia faz o trabalho completo: envolve e excita.</p>
<p><em>* Dedicado aos casais que há tempos não se olham com curiosidade, generosidade ou malícia. Àqueles que se esqueceram de se envolver e excitar. Que todos possamos perceber que o outro não precisa despertar paixão em nós. Basta irmos atrás dele e criarmos paixão com nossos dedos.</em></p>


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