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	<title>Não Dois, Não Um &#187; Destaques</title>
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	<description>Um blog sobre relacionamentos lúcidos</description>
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		<title>A eletricidade natural de estar vivo (parte 1)</title>
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		<pubDate>Thu, 05 May 2011 10:11:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>Os pelos do braço se arrepiam. Nenhuma explicação científica diminui meu encanto por esse fenômeno. Não apenas pela beleza do colo, da nuca, do peito de uma mulher arrepiada, mas pela eletricidade que acontece sem controle, especialmente quando a causa não é frio, tesão, medo ou alguma emoção específica. (No último treinamento de Taketina, aconteceu algumas vezes enquanto tocava&#8230;</p>


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			<content:encoded><![CDATA[<p><img title="peloarrepiado" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2011/05/peloarrepiado.jpg" alt="" width="589" height="250" /></p>
<p>Os pelos do braço se arrepiam. Nenhuma explicação científica diminui meu encanto por esse fenômeno. Não apenas pela beleza do colo, da nuca, do peito de uma mulher arrepiada, mas pela eletricidade que acontece sem controle, especialmente quando a causa não é frio, tesão, medo ou alguma emoção específica. (No último treinamento de <a href="http://taketina.com" target="_blank">Taketina</a>, aconteceu algumas vezes enquanto tocava berimbau e espiralava ao redor do surdo. Ou durante o dia, do nada. Aprendi como falar isso em inglês: <em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Goose_bumps" target="_blank">goose bumps</a></em>.)</p>
<p>O arrepio é uma das maiores evidências de que há algo vivo em nós. Quando perguntamos &#8220;Como você está?&#8221;, a pessoa pode até pensar nos fatos da vida, mas <a href="http://papodehomem.com.br/uma-mente-distraida-e-uma-mente-infeliz/" target="_blank">acontecimentos e situações não tem nada a ver com felicidade ou sofrimento</a>. O que vai definir a resposta positiva é o calor no peito, o brilho nos olhos, a respiração profunda, o sorriso silencioso, a <a href="http://papodehomem.com.br/o-que-tanto-buscamos-em-noitadas-bebidas-mulheres-trabalhos-e-viagens/" target="_blank">experiência de energia fluindo</a>, prazer, leveza, horizonte aberto, presença lúdica, espaço para ação, lucidez e criação de sentido. A resposta negativa virá com respiração ansiosa, confusão, contração, incapacidade de atribuir sentidos, seriedade, olhos opacos, peso, dor, fechamento, poucas opções de reação, energia interrompida, oscilante ou dispersa.</p>
<p>É por isso que nesse texto vou colocar no centro aquilo que consideramos mais periférico. Trocar efeito e causa. Inverter a visão que atribui nossa felicidade ou sofrimento a determinados acontecimentos que supostamente diminuem ou aumentam nossa experiência de bem-estar. Se nossa oscilação emocional é sempre tratada como objeto passivo, como poderemos cultivar autonomia de energia? Em vez de deixar o bem-estar no final da frase, vamos colocá-lo logo de cara como sujeito: é a eletricidade que define se surge felicidade ou sofrimento, não importa em qual experiência.</p>
<p>Em vez de olhar para as mil situações, cenários e configurações da vida, vamos respirar e sentir como nosso pulmão muda. É com o pulmão que sofremos e é com o pulmão que podemos ter alguma chance de encontrar liberdade e felicidade nas relações.</p>
<h1>O sequestro de nossa eletricidade</h1>
<p>A dinâmica é sabida. O bandido captura a pessoa, joga dentro de um cubículo e diz: &#8220;Agora você vai operar sua mente, sua energia, seu corpo dentro desse quarto. Você vai continuar respirando, sentindo, pensando, tudo igual, mas agora você está participando desse jogo chamado sequestro, então vai respirar, sentir, pensar como alguém sequestrado. Tudo bem?&#8221;. Ele não diz bem isso, mas é isso o que ele diz.</p>
<p>Todos os jogos, histórias, mundos, realidades, filmes que construímos em nossa vida são sequestros sutis. Ao colocar o anel, o recém-marido diz: &#8220;Agora você vai operar sua mente, sua energia, seu corpo dentro dessa relação. Você vai continuar respirando, sentindo, pensando, tudo igual, mas agora você está participando desse jogo chamado casamento, então vai respirar, sentir, pensar como alguém casado. Tudo bem?&#8221;. A chefe, o professor, a amiga, o sócio&#8230; todos com a mesma fala.</p>
<p>Uma vez dentro de alguns mundos, incorporando algumas identidades, o brilho no olho, o sorriso aberto, a respiração profunda, o calor no peito passam a surgir sob condições. A eletricidade natural agora é a eletricidade de um personagem específico.</p>
<p>É como se transplantássemos nosso coração em um bonequinho 2D que vive na tela do videogame. Diante da possibilidade de controlá-lo e principalmente de usá-lo para controlar seu mundo, deixamos que ele nos controle. Enquanto os movimentos desses pixels nos alegram, tudo ok. O problema começa quando o mundo se desintegra, o bonequinho morre ou apenas perdemos o nível de controle esperado.</p>
<p>Nosso coração sabia bater sozinho, mas passou tempo demais sendo comandado por um coração virtual. Sabíamos respirar, mas passamos tempo demais respirando em função de nossa namorada. Tínhamos eletricidade, mas a vinculamos à identidade de marido. Agora, para ativar a energia, precisamos mover o marido. E quando a relação acaba? Ao tentar reconquistar a esposa, tudo o que ele deseja é voltar a ser marido.</p>
<h1>Sofrimentos virtuais</h1>
<p>Assim que começamos a respirar mal, comer e dormir pouco (ou demais!), assim que perdemos eletricidade e brilho no olho, sentimos uma necessidade urgente de consertar o jogo, ressuscitar o personagem, remontar o mundo. A última coisa em nossa lista de prioridades é resgatar a capacidade de respirar, voltar a sentir nossa eletricidade natural, deixar o olho brilhar sem depender de nenhuma visão especial, desentortar o corpo, liberar a mente das condições que a asfixiaram – ironicamente, como já escrevi, é essa <a href="http://nao2nao1.com.br/resposta-padrao-para-qualquer-problema-de-relacionamento-amoroso/" target="_blank">a melhor saída para qualquer sofrimento</a>.</p>
<p>Quanto mais dor, mais colocamos nosso foco no personagem, mais tentamos controlar. O casamento que começou como uma brincadeira, uma fantasia, um faz-de-conta, virou realidade sólida, séria, inescapável. A identidade que começou como encenação virou nossa essência. É assim que o sofrimento virtual de um personagem vira dor no peito, falta de ar, vontade de se matar. A confusão se torna cada vez mais real a ponto de transbordar para outros corpos e mentes ao nosso redor.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-1341" title="velacopo" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2011/05/velacopo.jpg" alt="" align="left" />Tudo acontece como se tivéssemos uma vela queimando dentro de um copo em nossa mão. Sem perceber os limites do copo, com foco excessivo no fogo, sem espaço para nos mover, ficamos com o dedo muito próximo, queimando, doendo. Alucinamos: a casa inteira está pegando fogo! Saímos correndo, nos debatemos, deixamos cair o copo&#8230; e aí sim a casa inteira pega fogo.</p>
<p>Em pouco tempo a alucinação vira realidade, basta um pouco de insistência, hábito, compulsão em acreditar na concretude das coisas como elas nos aparecem. Os sofrimentos se tornam reais na exata medida em que não desconfiamos de sua virtualidade.</p>
<h1>A base das inteligências</h1>
<p>Ora, o aparente sequestro não tem nada de negativo. Na verdade, não é sequer um aprisionamento. Só podemos respirar, sentir, pensar como namorado, pai, irmão, filho, sócio, amigo, chefe, aluno e professor, durante um só dia, porque nossa mente e nosso corpo são livres para operar dentro de universos diferentes.</p>
<p>Ao contrário do que muitos dizem, a melhor definição etimológica da palavra inteligência não é &#8220;escolher entre&#8221;, mas &#8220;ler dentro&#8221;. Quando chamamos alguém de inteligente, estamos apontando para sua capacidade de entrar em um mundo, se movimentar com alguma coerência (seja respondendo a estímulos ou criando sentidos) e operar sob condições. Exatamente como faz um jogador de futebol, de <em>Super Mario</em>, de peça de teatro, de casamento, de empresa&#8230;</p>
<p>Você está em um show de rock. Depois vai para um jogo de poker. Depois transa com uma garota na bancada do escritório. A mesma mente, o mesmo corpo, operando sob diferentes condições, mundos, horizontes de sentido, lógicas, coerências, estímulos, possibilidades de ação. No show de rock, sequer surge a ideia de um <em>flush</em>. No poker, não faz sentido ficar pulando e balançando a cabeça. No sexo, o objetivo não é bem aumentar o <em>pot</em> e ganhar (ok, às vezes é).</p>
<p>Mente e corpo transitam entre diferentes mundos assim como transitam entre diferentes identidades assim como transitam entre diferentes estímulos sensoriais, emoções, pensamentos, micro fenômenos internos. Ver é operar com olhos e inteligência da visão em um mundo visual. Quando nossa mente opera com ouvido, lidamos com sons. Quando opera com conceitos, pensamos. Quando opera com ciúme, surge um horizonte de novos números no celular, emails e passados alternativos. Quando opera como <em>Super Mario</em>, aparecem canos de teletransporte, flores de fogo e a motivação de salvar uma princesa.</p>
<p>A base de todas as infinitas inteligências é pura e simplesmente a capacidade de ser inteligente. Nossa mente parece ter essa sabedoria natural de entrar, iluminar, conhecer, abrir espaço, dar sentido, se mover. Quando fazemos isso à luz de velas em um barzinho de jazz com uma morena de cabelo cacheado, dizem que estamos seduzindo. Quando nossa mente opera suada algum tempo depois, dizem que estamos transando. Quando nossa mente opera sob o domínio da raiva, dizem que estamos brigando. Em todos os momentos, estamos com a mesma mente, usufruindo de sua infinita plasticidade, de sua natureza livre, de sua habilidade cognoscente que detecta, se agarra, se identifica e age com padrões, caminhos, linguagens&#8230;</p>
<p>É por isso que brilho no olho, calor no peito e eletricidade têm sempre a mesma qualidade, não importa em quais mundos ou com quais identidades e inteligências estamos operando. Na verdade, o brilho no olho é igualzinho em todas as pessoas.</p>
<p>Ao reconhecer o mesmo tesão de estar vivo em qualquer pessoa feliz e o mesmo pulmão desesperado em qualquer pessoa aflita, começamos a nos relacionar de modo impessoal com a eletricidade natural: ela não é nossa, ela não é de ninguém, não está dentro ou fora de nós. Com essa dúvida, podemos explorar os limbos entre os vários mundos e identidades.</p>
<p>Quando paramos e cortamos boa parte dos estímulos mais comuns que nos entretêm e movem nossa energia, o que sobra? Quando ficamos sozinhos, sem relação alguma para nos definir, quem nós somos?</p>
<p><em>Continua&#8230;</em></p>


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		<title>Como parar o mundo</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Dec 2010 16:18:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>Você já quis parar o mundo? Pois saiba que o melhor momento para aprender a pausar a vida é ironicamente aquele em que mais você quer seguir vivendo.</p>
<p>Durante o sexo ou no meio de uma briga, às vezes desejamos interromper o fluxo dos fenômenos. Enfiar a cabeça no chão, nos momentos ruins, ou congelar a cena para a&#8230;</p>


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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-1293" title="parar-o-mundo" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/12/parar-o-mundo.jpg" alt="" width="589" height="380" /></p>
<p><em>Você já quis parar o mundo? Pois saiba que o melhor momento para aprender a pausar a vida é ironicamente aquele em que mais você quer seguir vivendo.</em></p>
<p><strong>Durante o sexo ou no meio de uma briga</strong>, às vezes desejamos interromper o fluxo dos fenômenos. Enfiar a cabeça no chão, nos momentos ruins, ou congelar a cena para a eternidade, nos bons. Tentativas sempre frustradas por uma espécie de ansiedade, uma urgência de abocanhar o prazer ou de tentar resolver uma situação dolorida. Ironicamente, mesmo quando tudo o que queremos é apertar <em>pause</em>, colocamos ainda mais força no botão de <em>play</em>.</p>
<p>Em vez de &#8220;descer do trem&#8221; do sofrimento ou eternizar alguma felicidade, parar o mundo pode ser entendido com outras imagens. Acariciar um leão que deita no chão pela primeira vez. Pousar a dois centímetros das nuvens. Ficar dentro da água e, por alguns segundos, relaxar como se você nunca mais precisasse puxar ou soltar o ar. Em vez de tentar pausar, retardar ou acelerar, jogar fora o controle. Descobrir que a cobra assustadora era apenas uma mangueira. Não ser atingido pelas balas depois de enxergar sua verdadeira substância de nuvem, sonho.</p>
<blockquote><p>&#8220;O mundo é assim e assado, e tal e tal, só porque nos dizemos que é dessa maneira. Se pararmos de nos dizer que o mundo é tal e tal, o mundo deixará de ser tal e tal. Neste momento, não creio que você esteja pronto para esse golpe monumental, e, portanto, deve começar lentamente a desfazer o mundo.&#8221;<br />
–Don Juan, em <em>Portas para o Infinito</em>, de Carlos Castaneda.</p></blockquote>
<p>Castaneda conta que o índio Don Juan o ensinou a parar o diálogo interno e a ver além dos fluxos convencionais de interpretação, além da descrição do mundo, além do que tentamos nos convencer, segundo a segundo, sobre o que é a realidade. Ele chamava esse processo de &#8220;não fazer&#8221; – <strong>não fazer aquilo que estamos acostumados e sabemos fazer</strong>. Diante de uma árvore, por exemplo, não fazer pode ser focar nas sombras de suas folhas até que paremos de chamá-la de árvore, até que a árvore surja para além de nossa descrição de árvore.</p>
<p>O mundo para naturalmente quando nós paramos.</p>
<p>Claro, parar não  é fácil. Além dos tiques corporais como roer a unha ou mover o pé freneticamente (que  parecem estar naturalizados em nossa cultura), nossa mente tem mil vezes mais tiques e compulsões sutis. Se continuarmos tão distraídos, a arte de parar o mundo talvez seja esquecida. É por isso que compartilho agora algumas possibilidades.</p>
<h1>Como parar o mundo durante o sexo</h1>
<p>O andamento da noite foi acelerado. Eles saíram atrasados para o Forró in the Dark, dançaram até pingar, comeram pouco antes de fecharem o restaurante e foram para casa transar, um pouco ansiosos, distraídos, apressados. Enquanto ele metia de lado, por mais gostoso que fosse, ambos sabiam o que estavam fazendo, já haviam passado por isso incontáveis vezes, já podiam antecipar o desfecho.</p>
<p><img title="neo" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/12/neo.jpg" alt="" width="300" height="204" align="left" />Sem que ela entendesse, ele parou. Agarrado, ainda dentro, como que travando qualquer outro movimento. Antes de conseguir perguntar &#8220;O que foi?&#8221;, sua mente foi catapultada para onde a mente dele já estava. Ele a pegou pelo pescoço e virou. Ficaram se olhando e se cheirando enquanto se lembravam de si mesmos, do quanto não entendiam nada do que estava acontecendo, do quanto já estavam ali, felizes, colados e relaxados, mesmo antes enquanto estavam dispersos no carro.</p>
<p>Sem que ninguém falasse, o que se ouviu foi uma mistura de &#8220;Eu estou aqui&#8221;, &#8220;Quem é mesmo você?&#8221; e <strong>&#8220;Eu te amo a ponto de não saber o que isso significa&#8221;</strong>.</p>
<p>Depois aprenderam a parar o mundo sem necessariamente parar o corpo. Para ele, a catapulta começava com os olhos. Não piscava, quase desfocava, alternando entre se fixar nos olhos e atravessá-la, como se mirasse uma paisagem a 9 quilômetros exatamente atrás de sua nuca. Para ela, a catapulta era sentir a extensão quase infinita do próprio corpo e das sensações como se habitasse o corpo de outra pessoa, como uma simulação. Ao tentar se afastar, ela acessava ainda mais diretamente a realidade.</p>
<h1>Durante uma briga</h1>
<blockquote><p>&#8220;Sempre que o diálogo interno pára, o mundo entra em colapso, e facetas extraordinárias de nossos seres emergem, como se tivessem sido mantidas numa guarda severa por nossas palavras. Você é o que é porque diz a si mesmo que é assim.&#8221; –Don Juan, em Portas para o Infinito, de Carlos Castaneda.</p></blockquote>
<p><strong>Às vezes é impossível brigar em apenas um cômodo da casa</strong>. Impossível olhar nos olhos do outro. Ela começa a se aprontar e vai freneticamente do banheiro para a lavandeira, do quarto para a sala. Ele finge ignorar a briga e fica respondendo da cozinha, enquanto bebe água sem estar com sede, e depois da sala, enquanto liga o computador sem saber por quê.</p>
<p>Não importa o que se diga, as falas dificilmente surgem além do horizonte de significação do problema, do mundo particular que reduz o foco dos olhos e sequestra pulmões. A briga acontece sempre com algum nível de alucinação, como se estivéssemos em um estado especial de REM. Ainda assim, é possível abrir a janela e repousar os olhos revirados no céu. Lembrar que estaremos todos mortos daqui a pouco. Admitir que nosso marido ou esposa não são nosso marido ou esposa; são apenas alguém que decidiu brincar um tempo conosco.</p>
<p><img title="corredor" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/12/corredor.jpg" alt="" width="300" height="400" align="left" />De um cômodo a outro, há uma espécie de bardo, limbo, entre-mundo: <strong>o corredor</strong>. Se a cozinha serve para algumas ações, se o escritório define o que podemos ali fazer, o corredor é o cômodo por excelência do não-fazer.</p>
<p>É ali que podemos descobrir que o melhor jeito de resolver uma briga é não resolver nada, mas olhar o mundo no qual a briga acontece como se déssemos <em>zoom out</em> na própria casa. Ao fazer isso descobrimos a liberdade de criar mundos, nos divertimos com as dinâmicas possíveis da relação e nos relacionamos com a liberdade do outro, com aquilo nele que pode brincar de ser esposa e marido e de se perder nos conflitos entre tais personagens.</p>
<p>Com o mundo parado, podemos até voltar para a briga, mas agora estaremos com os dois pés no chão, não mais dentro de nossas cabeças.</p>
<h1>Durante uma dança</h1>
<blockquote><p>&#8220;As possibilidades do homem são tão vastas e misteriosas que os  guerreiros, em vez de pensar sobre elas, escolhem explorá-las, sem  esperança de jamais chegar a entendê-las.&#8221; –Don Juan, em Portas para o Infinito, de Carlos Castaneda.</p></blockquote>
<p>Olhar um vídeo de um casal dançando (ou de si mesmo com alguém) não diz muita coisa sobre o que é dançar junto. Há toda uma dinâmica interna ao corpo, uma misteriosa relação com o outro e com a música. Talvez a dança de salão seja um dos raros modos de relação que se aproximem do sexo na possibilidade de movimentar a energia, a respiração, a emoção do outro. É por isso que às vezes conseguimos parar o mundo no fim do facão, no samba de gafieira, entre qualquer passo de tango ou mesmo em alguma travada do forró.</p>
<p>Se bem conduzida, se o casal congela precisamente junto com uma pausa da música (no meio ou no fim), o contraste com a agitação anterior abre os sentidos e cria a sensação de completa <strong>expansão temporal e espacial</strong>. Quando voltamos a conversar com os amigos ao redor, parece que acabamos de sair de outro universo. De fato, não estávamos dançando. Deve existir outro verbo pra isso.</p>
<h1>Durante a meditação</h1>
<p>A cada momento, não importa em qual experiência, nosso impulso mais básico é o de se mover para buscar ou sustentar prazer e felicidade, ao mesmo tempo em que evitamos dor e sofrimento. Sentado na cadeira do escritório ou no zafu da sala de meditação, <strong>tendemos a nos ajeitar sempre que algo dói</strong>. É exatamente esse o padrão que conduz nossa ação nos relacionamentos e na vida em geral: nos esforçamos para sustentar confortos e resolver desconfortos, seja atrasos do namorado ou traições da namorada, assim como mexemos a perna na meditação.</p>
<p>Num âmbito ainda mais sutil, como uma vez ouvi do Lama Padma Samten, o próprio ato de respirar manifesta nossa insatisfação constante. Puxamos o ar, mas isso não dura, não é suficiente, logo se torna insustentável. A satisfação inicial vira urgência de soltar o ar. Relaxamos brevemente até sermos obrigados a puxar o ar novamente.</p>
<p>Portanto, um dos jeitos de parar o mundo enquanto estamos sentados em silêncio é inspirar e naturalmente contemplar a urgência de expirar; soltar o ar e observar calmamente o impulso de tragá-lo de volta. Enquanto observamos toda essa dinâmica que não precisa de esforço para seguir, o espaço entre cada movimento aumenta e de repente surge um vasto oceano de imobilidade e estabilidade. Essa percepção fica ainda mais nítida quando nos demoramos um pouco mais para voltar à respiração e percebemos que estamos há um bom tempo sem piscar.</p>
<p><strong>O mundo parou.</strong> E isso chega a ser engraçado quando nos damos conta de que ele continua parado mesmo enquanto tudo se move.</p>
<h1>Promoção: My Little Secret + Não2Não1</h1>
<p><a href="http://www.mylittlesecret.com.br/?utm_source=banner%2Binstitucional&amp;utm_medium=nao2nao1&amp;utm_campaign=banner%2Binstitucional" target="_blank"><img class="alignnone size-full wp-image-1294" title="mylittle" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/12/mylittlesecret-loja.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Sempre tive uma certa aversão a sites de lojas de sexo. A grande maioria é vulgar, brega, tosca demais. Tanto que já neguei diversas propostas comerciais para o Não2Não1. Não queria banners assim aqui e não queria que tais empresas apoiassem meus textos (meu jeito de trabalhar com publieditoriais é escrever como escrevo qualquer outro texto, sem nenhuma ideia comprada).</p>
<p>Essa imagem mudou quando conheci o trabalho do pessoal do <a href="http://www.mylittlesecret.com.br/?utm_source=banner%2Binstitucional&amp;utm_medium=nao2nao1&amp;utm_campaign=banner%2Binstitucional" target="_blank">My Little Secret</a> com uma visão bem ampla de sensualidade e prazer feminino. A identidade visual, criada pela <a href="http://www.listocomunicacao.com.br/" target="_blank">Listo Comunicação</a>, ficou muito diferente do que vemos em outros sites. O banner deles já está rodando na sidebar do Não2Não1 desde sexta e agora anuncio <strong>uma promoção que eu sugeri e eles toparam</strong>.</p>
<p>Em vez de nós definirmos os prêmios, você entra no <a href="http://www.mlsecret.com.br/?utm_source=banner%2Bcategorias&amp;utm_medium=nao2nao1&amp;utm_campaign=banner%2Bcategorias" target="_blank">My Little Secret</a>, escolhe o que deseja ganhar (ou dar de presente) e coloca os links aqui nos comentários. Simples assim. Um produto para cada categoria:</p>
<ul>
<li>Fantasia de sua escolha (<a href="http://www.mlsecret.com.br/secao/56849/Fantasias" target="_blank">selecione aqui</a>).</li>
<li>Lingerie de sua escolha: <a href="http://www.mlsecret.com.br/secao/44436/Forum%20Lingerie" target="_blank">Forum Lingerie</a>, <a href="http://www.mlsecret.com.br/secao/44437/Rosa%20Ch%C3%83%C2%A1" target="_blank">Rosa Chá</a> ou <a href="http://www.mlsecret.com.br/secao/830176/Miz%20Couture" target="_blank">Miz Couture</a>.</li>
<li>Óleo de massagem de sua escolha (<a href="http://www.mlsecret.com.br/secao/48006/Cosmeticos" target="_blank">selecione aqui</a>).</li>
</ul>
<p><strong>Atualização:</strong> a mulherada pediu e o pessoal da My Little Secret liberou. Se preferir, pode trocar os 3 presentes pelo <strong>vibrador</strong> de sua escolha. <a href="http://www.mlsecret.com.br/secao/44444/Massageadores" target="_blank">Tem vários modelos lá</a>. Para concorrer é só colocar o link nos comentários.</p>
<p>Para concorrer, basta comentar algo sobre o texto e deixar os links dos 3 produtos escolhidos.<strong> </strong>Na segunda, dia 20/12, sortearei dois comentários via random.org. <strong>Um leitor e uma leitora ganharão o que escolherem. </strong></p>
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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Vídeos da entrevista para o Casal Sem Vergonha</title>
		<link>http://nao2nao1.com.br/videos-da-entrevista-para-o-casal-sem-vergonha/</link>
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		<pubDate>Tue, 26 Oct 2010 00:55:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes e vídeos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexo]]></category>
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		<category><![CDATA[erros]]></category>
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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>É sempre bom ter algum trabalho que dá vergonha, especialmente para pessoas orgulhosas. No meu caso, o embaraço vem de falar sobre relacionamentos. Quando algum leitor escreve agradecendo é ótimo, claro. O problema é aquele diálogo chato num jantar com o sogro, com seu avô, com a americana de 60 anos que faz Taketina ou mesmo com aquele amigo&#8230;</p>


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-1250" title="casalsemvergonha" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/10/casalsemvergonha.jpg" alt="" width="589" height="250" /></p>
<p>É sempre bom ter algum trabalho que dá vergonha, especialmente para pessoas orgulhosas. No meu caso, o embaraço vem de falar sobre relacionamentos. Quando algum leitor escreve agradecendo é ótimo, claro. O problema é aquele diálogo chato num jantar com o sogro, com seu avô, com a americana de 60 anos que faz Taketina ou mesmo com aquele amigo mais sincero:</p>
<blockquote><p>&#8220;Escreve sobre relacionamentos? Sério? E ganha dinheiro com isso? Você? Mas você tira conselho de algum livro, é isso?&#8221;</p></blockquote>
<p>Quando descobrem que escrevo sobre sexo ou, pior, chegam a começar a leitura de algum texto específico, pronto, a vergonha é ainda maior. Como explicar para uma mulher de respeito que você faz aquilo com a filhinha dela&#8230; Vira aquela coisa que ninguém mais comenta depois de algum tempo. Por respeito, bons modos, etiqueta.</p>
<p>O fato é que eu também me vejo de fora e tenho<strong> vergonha alheia de mim mesmo</strong>, especialmente quando tem um vídeo para facilitar.</p>
<p>Recebi o convite da Jaque e do Eme, que estão com o projeto <a href="http://casalsemvergonha.wordpress.com/" target="_blank">Casal Sem Vergonha</a>, fui com minha namorada para o parque na frente da MTV, sentei num banco, passei o microfone por baixo da camiseta e comecei a falar. Em uma hora e meia de papo, confirmei: perdi a noção, o bom senso, a vergonha. Espero retomá-la em breve, claro. E meu tratamento inclui mostrar esse vídeo para vocês, ainda que muita coisa tenha sido cortada na edição – para o bem mais do que para o mal.</p>
<h1>Parte 1: sobre relacionamentos</h1>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="560" height="340" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/gW44mntxBm4?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="560" height="340" src="http://www.youtube.com/v/gW44mntxBm4?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<a href="http://www.youtube.com/watch?v=gW44mntxBm4" target="_blank"><em> Link YouTube </em></a></p>
<p>Principais temas:</p>
<ul>
<li>Amor como presença e ação, não como sentimento.</li>
<li>Crítica às noções de sinceridade e confiança.</li>
<li>Traição e sofrimento.</li>
<li>Impermanência e relações duradouras.</li>
<li>Sobre a resposta padrão para qualquer problema de relacionamento.</li>
</ul>
<h1>Parte 2: sobre sexo</h1>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="560" height="340" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/u95jdiuaF10?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="560" height="340" src="http://www.youtube.com/v/u95jdiuaF10?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<a href="http://www.youtube.com/watch?v=u95jdiuaF10" target="_blank"><em>Link YouTube</em></a></p>
<p>Principais temas:</p>
<ul>
<li>Blog pra comer mulher.</li>
<li>Prazer impessoal (como um rio).</li>
<li>Níveis de orgasmo.</li>
<li>Crítica à noção de posição sexual.</li>
<li>Masculino e feminino.</li>
<li>Etiqueta para o sexo anal.</li>
</ul>
<p>O Casal Sem Vergonha tem outros vídeos no <a href="http://www.youtube.com/user/casalsemvergonha" target="_blank">YouTube</a>. E o Twitter deles é <a href="http://twitter.com/ksalsemvergonha" target="_blank">@ksalsemvergonha</a>. Agradeço pelo convite!</p>
<p><strong>P.S.:</strong> Como os textos do Não2Não1 demandam muito tempo, tenho escrito coisas mais curtas em outros sites. Coisas que me dão menos vergonha&#8230; ;-)<br />
• <a href="http://papodehomem.com.br/o-que-o-samba-de-gafieira-nos-ensina-sobre-o-tal-do-homem-perfeito/" target="_blank">O que o samba de gafieira nos ensina sobre o tal do “homem perfeito”</a><br />
• <a href="http://papodehomem.com.br/por-que-as-mulheres-estao-cada-vez-mais-se-exibindo/" target="_blank">Por que as mulheres estão cada vez mais se exibindo?</a><br />
• <a href="http://papodehomem.com.br/brilho-nos-olhos-malicia-espiritual-e-furia-mansa/" target="_blank">Brilho nos olhos, malícia espiritual e fúria mansa</a><br />
• <a href="http://malvadas.org/2010/10/posicoes-ou-posturas-sexuais/" target="_blank">Posições ou posturas sexuais? </a><br />
• <a href="http://papodehomem.com.br/o-boquete-que-ninguem-ve/" target="_blank">O boquete que ninguêm vê</a><br />
• <a href="http://papodehomem.com.br/pagar-a-conta-manual-de-conduta-com-amigos-e-mulheres/" target="_blank">Pagar a conta: manual de conduta com amigos e mulheres</a><br />
• <a href="http://papodehomem.com.br/as-8-preocupacoes-mundanas/" target="_blank">As 8 preocupações mundanas</a><br />
• <a href="http://papodehomem.com.br/um-experimento-de-percepcao-para-explodir-sua-cabeca/" target="_blank">Um experimento de percepção para explodir sua cabeça</a><br />
• <a href="http://formspring.me/gustavogitti" target="_blank">Respostas no Formspring</a>.</p>


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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>A trilha sonora inaudível dos relacionamentos</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Aug 2010 12:36:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<category><![CDATA[Filmes e vídeos]]></category>
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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>Chico Buarque, John Mayer, Aimee Mann, Marisa Monte&#8230; É longa a playlist por trás de nossa vida amorosa. Já sugeri algumas, aliás (&#8220;11 canções para amar mais&#8221;), mas agora me interessa a trilha sonora que não ouvimos.</p>
<p>O caminho para esse silêncio se faz pelo próprio som: para esclarecer o que estou chamando de &#8220;trilha sonora inaudível&#8221;, vamos analisar&#8230;</p>


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<li><a href='http://nao2nao1.com.br/tudo-aquilo-que-voce-nao-queria-ouvir-sobre-relacionamentos/' rel='bookmark' title='Tudo aquilo que você não queria ouvir sobre relacionamentos'>Tudo aquilo que você não queria ouvir sobre relacionamentos</a></li>
<li><a href='http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-a-mente-ou-retiro-de-meditacao/' rel='bookmark' title='Meu corpo sobre a mente (ou Retiro de meditação)'>Meu corpo sobre a mente (ou Retiro de meditação)</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-1204" href="http://nao2nao1.com.br/a-trilha-sonora-inaudivel-dos-relacionamentos/trilha-sonora/"><img class="alignnone size-full wp-image-1204" title="trilha-sonora" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/08/trilha-sonora.jpg" alt="" width="589" height="250" /></a></p>
<p>Chico Buarque, John Mayer, Aimee Mann, Marisa Monte&#8230; É longa a <em>playlist</em> por trás de nossa vida amorosa. Já sugeri algumas, aliás (<a href="http://blog.ianblack.com.br/2009/09/07/11-cancoes-para-amar-mais/" target="_blank">&#8220;11 canções para amar mais&#8221;</a>), mas agora me interessa a trilha sonora que <strong>não</strong> ouvimos.</p>
<p>O caminho para esse silêncio se faz pelo próprio som: para esclarecer o que estou chamando de &#8220;trilha sonora inaudível&#8221;, vamos analisar a influência da música em uma experiência. Já adianto que meu foco está nas outras estruturas que atuam sobre nós de modo bastante similar ao som.</p>
<h1>Trailer de <em>Dumb &amp; Dumber</em> com trilha de <em>Inception</em></h1>
<p>Hans Zimmer construiu uma obra-prima para a trilha sonora de <a href="http://www.imdb.com/title/tt1375666/" target="_blank"><em>Inception</em></a> (aqui &#8220;A origem&#8221;), responsável por boa parte da experiência proposta por Christopher Nolan. Um bando de gênios com tempo livre logo reconheceu a qualidade da trilha e criou <em>mashups</em> de todos os tipos. Para você ter uma ideia, o <a href="http://www.youtube.com/watch?v=WxzYNbYHT8s" target="_blank">fim de <em>Lost</em> reeditado</a> com a música do fim de <em>Inception</em> talvez tenha ficado melhor que o original. ;-)</p>
<p>Em uma dessas brincadeiras, pegaram o áudio do trailer de <em>Inception</em> e montaram um trailer para o filme <em>Dumb &amp; Dumber</em> (&#8220;Débi &amp; Lóide&#8221;). O resultado: <strong>todas as cenas são ressignificadas</strong>. Se não conhecêssemos o original, nunca desconfiaríamos que trata-de de uma comédia.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="356" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/zLDx-BPgxxA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="356" src="http://www.youtube.com/v/zLDx-BPgxxA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=zLDx-BPgxxA" target="_blank">Link YouTube</a> | Mesmo conhecendo o filme e o truque, vemos as cenas mudando de textura, pra valer.<br />
</em></p>
<h1>Música, essa regente de mentes</h1>
<p>Antes de sair do âmbito do som, vamos detalhar um pouco mais o que acontece no cinema.</p>
<p>Depois dos créditos iniciais, ainda nos sentimos sentados na poltrona, sem grandes alterações. À medida que o filme avança, um mundo vai sendo criado. A missão do diretor é nos arremessar para dentro dessa realidade, até que nosso coração, nosso pulmão, nossas <strong>glândulas lacrimais</strong> estejam reagindo a cada <em>frame</em>. Sabemos de todo o truque, o que por muitas vezes não nos impede de cair no sonho proposto, de ter nossa mente conduzida.</p>
<p>Claro, apenas imagens não são suficientes para nos fisgar. É a música que direciona o olhar, que situa, que define a textura de cada imagem. Quando a trilha sonora funciona, ela não é percebida como um som específico, como música vinda de instrumentos. Nada disso. Na cena que nos envolve, a música age por trás do olho, como se carregasse no corpo. Se tal processo lhe parece óbvio, me antecipo: comece a pensar em como outras estruturas fazem a mesma coisa conosco fora do cinema, sem precisar de música alguma.</p>
<p>A mesma cena pode ser de terror, suspense, ação, comédia, drama&#8230; Para cada cena definida, temos incontáveis trilhas possíveis, ou seja, incontáveis experiências, universos de significação. Se a cena pré-existisse com algum sentido inerente e tivesse a música como complemento, isso não aconteceria. O caso é que a cena já surge com a trilha e assim construímos nossa experiência, já direcionados pela música, quase incapazes de sequer imaginar como seria a mesma cena de outro modo, sob o efeito de outra trilha sonora.</p>
<p>Para enfatizar essa percepção, basta <a href="http://nao2nao1.com.br/experimentos-para-se-sentir-vivo-1-ipod-e-energia-autonoma/" target="_blank">colocar duas músicas no iPod</a> e sair para andar na Avenida Paulista. Pode ser &#8220;Gold dust&#8221;, da Tori Amos, e depois &#8220;Love generation&#8221;, do Bob Sinclair. Ou alguma da trilha de <em>Into the wild</em> seguida de outra da trilha de <em>Where the wild things are</em>. Qual das duas cenas é a verdadeira? <strong>As pessoas estão andando rápido mesmo ou é apenas a sensação da música?</strong> Elas parecem estranhas e distantes? Próximas e amigas?</p>
<p>Ou você pega um conflito e tenta extrair visões a partir de músicas, não de letras, mas da ambiência criada por cada música, dos olhares que elas proporcionam. Ouve uma e sente compaixão, redenção, compreensão do mundo do outro. Chora. Ouve outra e sente ódio, raiva, indignação. Uma música desenha um monstro. Outra revela um herói ferido.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="466" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/IdeG1rSzqLk?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="466" src="http://www.youtube.com/v/IdeG1rSzqLk?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=IdeG1rSzqLk" target="_blank">Link YouTube</a> | Bobby McFerrin fazendo milagre com a ária mais bonita de Bach.</em></p>
<p>E então você enfim chega à pergunta essencial desse percurso que descrevo: <strong>&#8220;Qual música já estava tocando bem antes de eu colocar os fones?&#8221;.</strong> Ou: &#8220;Se eu conseguisse aumentar o volume da minha mente, que tipo de música eu ouviria?&#8221;.</p>
<h1>Melodias internas que não ouvimos</h1>
<p>A trilha sonora sempre existe, com ou sem música de fundo. É como se estivéssemos colorindo as cenas da vida o tempo todo com nossos instrumentos musicais invisíveis e nossa tendência a diretor, compositor, cineasta. Estamos dirigindo, filmando, posicionando câmeras, editando, roteirizando, decupando, perfumando, prestando atenção na continuidade e, claro, ajustando a trilha sonora, quadro a quadro.</p>
<p>Isso tudo fora o personagem. Além de viver, envolvemos o vivido em um mundo de sentido, em uma história que inventamos o tempo todo sem saber.</p>
<p>Mais do que uma metáfora, é precisamente esse o nosso funcionamento! A cada momento, encaramos as coisas com algum pré-roteiro, alguma predisposição melódica, uma ou outra preferência estética. <strong>As músicas, essas de som, só aumentam o volume das trilhas inaudíveis</strong>, mas elas sempre  estão presentes, caso contrário as músicas nesse post não fariam  absolutamente nada com sua mente.</p>
<h1>Cena: uma namorada e um cara tomando banho</h1>
<p><strong>A namorada sobe. </strong>Ele está no banho, atrasado. Saiu apenas para abrir a porta e logo voltou. Se esse será um filme pornô ou um drama existencial, bem, não está na cena a definição, mas na trilha sonora.</p>
<p>Ela pode passar por esse momento já imaginando como seria entrar no banho. Ou esperar pelo namorado <strong>nua na cama</strong>. Da ideia à prática é um pulo. Ela também pode viver essa mesma experiência, sem objetivamente mudar nada, como uma aflição, irritada porque ele está demorando de novo, não se aprontou antes de novo, não a valoriza mais&#8230; Esse outro filme continua com ela sentada no sofá, impaciente, <strong>emburrada</strong> quando ele sai do banheiro.</p>
<p>Se analisarmos apenas o banho desse cara, não há diferença entre as duas cenas. Não há nada no banho dele que ative uma ou outra resposta em sua namorada. É o modo com que ela olha para o banho que constrói o filme todo. A posição da câmera, o foco na edição, o ritmo da trilha que ela não ouve, mas que não cessa de movê-la. Até mesmo sua experiência de tempo (o banho vai durar minutos ou décadas?) é definida por essa trilha oculta.</p>
<p>Mais ainda, uma vez que ele fecha a porta e religa o chuveiro para terminar o banho, a experiência explode com tudo, deixando inacessíveis todas as outras possibilidades: trilhas, edições, ângulos que ela não escolheu. É por isso que, sob a perspectiva da namorada, parece que o banho é aquilo mesmo que lhe parece, do jeito que surge, com a textura ali manifesta. Se ela está irritada, tem toda razão: ele, de fato, deveria ter se arrumado antes. Se está excitada, perfeito: ele vai sair do banho louco para comê-la antes de se vestir.</p>
<p>Nossa tragédia começa no ocultamento dos filmes que deixamos de viver por causa das trilhas que continuamente tocamos, das edições instantâneas, ângulos de cada olhar, <strong>roteiros que seguramos debaixo do braço</strong>. O filme que surge parece o único possível, como se viesse pronto, lá de fora, como se não tivesse o nosso nome nos créditos.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="466" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/nvs7ogxkOIA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="466" src="http://www.youtube.com/v/nvs7ogxkOIA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=nvs7ogxkOIA" target="_blank">Link YouTube</a> | Esse cara pegou a melhor música da trilha de &#8220;The straight story&#8221; (do mestre Angelo Badalamenti) e botou em cima de cenas de seu bairro. Olha o resultado, dá até vontade de ir lá conhecer. Aliás, é assim que a gente se apaixona: colocamos pra tocar a nossa melhor música em cima de alguém, que por acaso ficou algum tempo por perto. A paixão é essa aura. Como é nossa melhor música, vemos o melhor do outro e acabamos expondo o nosso melhor. Quer dizer, até outras trilhas começarem a tocar o terror&#8230;<br />
</em></p>
<h1>Brincando de cineasta</h1>
<p>Não há nada de errado nesse processo de construção cinematográfica da vida (e me refiro à própria percepção de cada fenômeno, não a alguma espécie de romantização posterior). O problema está na cegueira, no fato de não sabermos que estamos agindo assim, não exatamente no sofrimento que alguns filmes mais duros despejam sobre nós.</p>
<p>Ora, já que a trilha sonora está aí, já que todo momento já surge condicionado, já que nunca temos acesso às infinitas possibilidades, só nos resta olhar para o modo <strong>como estamos trazendo os eventos à tona</strong>, como estamos construindo a vida que parece nos acontecer, que parece vir de fora. A cada momento, somos obrigados a pisar numa direção ou em outra sem antes saber qual terra é melhor. Pisamos e só depois dizemos: &#8220;Ah, aqui é fofo&#8221;. A cada passo, uma desconfiança, mesmo em terras boas: &#8220;E se lá for melhor?&#8221;. Ou: &#8220;E se a terra boa acabar no próximo passo?&#8221;.</p>
<p>Nossa situação atual, seja qual for, agora mesmo, não é positiva ou negativa em si mesma. Há alguma trilha sonora interna atuando sem cessar para que ela nos apareça de um certo jeito, para que a vivamos como uma experiência específica. Em vez de se preocupar em dar o próximo passo, torcendo para que ele nos leve a uma situação melhor, podemos simplesmente mudar a trilha sonora e ver no que dá, ver como isso altera a experiência toda, mais até do que se mudássemos a situação diretamente.</p>
<p>Voltando à cena do homem no banho, agora vemos a namorada sorrindo para sua própria dinâmica, ouvindo a trilha sonora que colocou, sem saber, na cena. Ela pode ficar emburrada ou pode tirar a roupa. A situação não está definida; o que vale é a<em> experiência</em> dessa situação. Na verdade, o que chamamos de situação é tão somente nossa experiência. <strong>Não há situação em si</strong>, independente de nossa edição, roteiro, fotografia, iluminação&#8230;</p>
<p>O banho do cara demora o suficiente para ela avançar um pouco mais. Agora ela simula os dois filmes em <em>fast-forward</em> e observa como ficar emburrada não é necessariamente pior do que tirar a roupa, pois talvez ela tire a roupa, ele broche e os dois briguem. Talvez ela fique emburrada, ele fique nervoso e eles acabem com as frescuras se acabando no chão, o que por sua vez não é necessariamente melhor ou pior do que brigar&#8230; ;-) Basta um outro <em>fast-forward</em> para comprovar a infinita abertura e flexibilidade dos eventos.</p>
<p>Ela continua até se dar conta de que o que importa não é seguir em uma ou em outra direção, mas seguir com olhos abertos para a liberdade sempre presente, para a insubstancialidade de cada momento, <strong>como se tudo pudesse virar lixo ou ouro</strong>, a cada segundo, como se nada nunca se definisse e se fechasse completamente.</p>
<p>Sua escolha, então, não é entre o sofá e a cama, a cara emburrada e a perna esticada, entre uma situação e outra, mas entre viver o filme como cineasta e viver o filme como um ator com amnésia.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="466" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/aBALudMfBBM?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="466" src="http://www.youtube.com/v/aBALudMfBBM?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=aBALudMfBBM" target="_blank">Link YouTube</a> | Ouça lembrando da vida inteira ou de uma história amorosa. O que sai?</em></p>
<h1>Silêncio</h1>
<p>Ouvir a trilha sonora pela qual atuamos e poder transformá-la. Trocar <em>olvido</em> por ouvido. <strong>Liberdade não é só isso.</strong></p>
<p>Se o cara ficasse um pouco mais no banho, a namorada certamente questionaria até mesmo sua necessidade de mexer na trilha sonora para ter outras experiências de uma mesma cena. Ela olharia com calma para essa capacidade de mudar a trilha, de trocar de roteiro, de ajustar ângulos&#8230; e desconfiaria de uma liberdade anterior: a de criar filmes e trilhas.</p>
<p>Brincar de cineasta é excelente, claro. Mas como é possível que uma cena que hoje nos aflige (a ponto de cortar nossa fome) amanhã seja motivo de risadas soltas e despreocupadas? O que faz com que os filmes e trilhas se alterem tanto e tão rápido?</p>
<p>Mais do que culminar em uma resposta, essa pergunta direciona nosso olho para uma dimensão além de qualquer trilha sonora, algo como o que imaginamos quando ouvimos a palavra &#8220;silêncio&#8221;.</p>
<p>Repousando nesse silêncio, e não em filmes específicos e suas possíveis edições e refilmagens, entendemos que não precisamos criar um filme a partir de outro, resolvendo algo, trocando algum personagem, mudando a trilha ou a fotografia. <strong>Dá para criar um filme a partir da própria liberdade de criar filmes</strong>, do zero – o que não significa alguma espécie de fascinação pela morte ou aversão à continuidade, pois uma das coisas mais divertidas é criar, do zero, a mesmíssima realidade que existia anteontem. Não é isso o que uma garota faz quando atende o telefone com um &#8220;Oi, amor&#8230;&#8221;?</p>
<p>Pois bem, é claro que o homem de nossa cena saiu do banheiro depois de todo esse tempo. Sua paciente namorada talvez esteja na cama, talvez no sofá ou até já tenha ido embora. O importante é que ele também tenha percebido algumas coisas enquanto a água corria&#8230;</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="589" height="466" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/DO2a2KSwLg4?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="589" height="466" src="http://www.youtube.com/v/DO2a2KSwLg4?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;hd=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=DO2a2KSwLg4" target="_blank">Link YouTube</a> | Um dos melhores temas de &#8220;Lost&#8221;, de Michael Giacchino (italiano, pra variar).</em></p>


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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Entrevista sobre o Não2Não1 (e relacionamentos, pra variar)</title>
		<link>http://nao2nao1.com.br/entrevista-sobre-o-nao2nao1-e-relacionamentos-pra-variar/</link>
		<comments>http://nao2nao1.com.br/entrevista-sobre-o-nao2nao1-e-relacionamentos-pra-variar/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 28 Jul 2010 22:52:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Para homens]]></category>

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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>A Aline Molica me entrevistou para o site Plano Feminino. Respondi com prazer, ainda que sem entender qual é o plano delas. ;-)</p>
<p>Como o site é em flash e o design não facilita a participação nos comentários (eu gosto das conversas que surgem), publico também aqui minhas respostas.</p>
<p>Aproveitei e complementei alguns trechos. Corrijam eventuais besteiras nos comentários.&#8230;</p>


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-large wp-image-1158" title="planofeminino" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/07/planofeminino-589x193.jpg" alt="" width="589" height="193" /></p>
<p>A <a href="http://twitter.com/alinemolica" target="_blank">Aline Molica</a> me entrevistou para o site <a href="http://www.planofeminino.com.br/home/oqueelespensam.php?mat_cod=66755" target="_blank"><em>Plano Feminino</em></a>. Respondi com prazer, ainda que sem entender qual é o plano delas. ;-)</p>
<p>Como o site é em flash e o design não facilita a participação nos comentários (eu gosto das conversas que surgem), publico também aqui minhas respostas.</p>
<p>Aproveitei e complementei alguns trechos. Corrijam eventuais besteiras nos comentários. Eu agradeço.</p>
<h1>1. Como você define um relacionamento lúcido?</h1>
<p>Eu evito essa definição porque nossa reação imediata é tentar viver de acordo com modelos e ideais. Mesmo quando são boas referências, essa tendência de comparar o que surge com um modelo de sucesso só traz confusão e sofrimento. Por outro lado, não ter referenciais é igualmente frustrante, especialmente hoje, num momento em que os casais em evidência não oferecem grandes exemplos do que pode ser um relacionamento profundo.</p>
<p>Com isso em mente, podemos descrever algumas <strong>qualidades possíveis para qualquer casal</strong> incorporar em sua própria história, no encaixe que der, do jeito que der tesão para ambos.</p>
<p>Uma dessas qualidades é a generosidade, no espaço ocupado normalmente pela carência. Em vez de exigir, esperar, cobrar ou pedir (seja no começo, no meio, no fim ou após o fim da relação), oferecer. Em vez de olhar como o outro pode nos fazer feliz, descobrir como podemos fazê-lo feliz e sentir como isso nos deixa muito bem, como isso dá sentido para nossa vida, dá brilho no olho, energia, potência.</p>
<p>Outra qualidade de um relacionamento exemplar (que inspira outros casais) é a <strong>ludicidade</strong>, a capacidade de enxergar todas as coisas como construções, encenações, sonhos, filmes. Tirar a solidez daquela situação angustiante, se fazer de palhaço no meio de uma briga seríssima, beijar do nada, sorrir para os problemas, inventar mitologias, surrealidades próprias, e sempre lembrar que o casamento, por mais sólido que seja, é apenas uma aura projetada, um filme que criamos e decidimos seguir vivendo, não uma realidade imutável.</p>
<p>O outro é sempre livre e mantém uma vida pulsante e misteriosa para além das identidades construídas em sua relação conosco. <strong>A mulher é sempre maior que a esposa.</strong> O homem pode deixar de ser o marido a qualquer momento.</p>
<p>Perceber isso antes que a identidade se dissolva, antes da crise, antes do fim, perceber isso durante a encenação é o que confere essa qualidade lúdica e mágica para a relação se aprofundar e para ambos sempre se surpreenderem com essa loucura que se apresenta como o cotidiano natural, essa alucinação que parece muito real, como um jogo delicioso de criança.</p>
<p>Um terceiro aspecto é a abertura, no sentido de não criar regras e não se afastar do outro, mesmo quando estamos distantes. Ou seja, manter o espaço aberto, manter a comunicação mesmo quando dói, mesmo quando tudo nos leva à defesa, ao fechamento. Isso é crucial e raríssimo nos casais. Por exemplo, quando surge ciúme, essa aflição atua como um <strong>agente infiltrado que joga um contra o outro</strong>: um enxerga o outro como inimigo, como sendo o responsável pelo problema, pelas emoções, pensamentos e sensações negativas que surgem.</p>
<p>Alguns pensam que comunicação é &#8220;DR&#8221; (discutir a relação), mas na maioria dessas conversas só apontamos um para o outro, não para os verdadeiros obstáculos. Manter a comunicação quando tudo vai mal é saber ficar junto no meio da dor, da confusão, da incerteza, da insatisfação. Poucos são os casais que exploram esses terrenos mais escuros. A maioria espana nessa hora – ou, pior, aguenta encarando tudo como um peso, não como um desafio.</p>
<p>Quando há abertura, o ciúme não tem paredes para se esconder, então ambos olham o verdadeiro inimigo: a aflição, o ciúme. E eles se unem ainda mais para superá-lo. É como detectar um câncer na relação. O que é melhor: <strong>tratar o câncer brigando ou se cuidando?</strong> É assim que poderíamos nos relacionar com todos os obstáculos que surgem na relação, venha de onde vier, não importa: do banco, da família, da garagem, da UTI, da pia da cozinha, do homem, da mulher, de um terceiro, de um quarto&#8230; ;-)</p>
<h1>2. Seu blog “Não Um, Não Dois” está se tornando um livro? Ele será um compilado do blog? Se não, qual será a abordagem?</h1>
<p>Sim, já estou em negociação com uma grande editora.</p>
<p>Ele trará textos do site www.nao2nao1.com.br, artigos e práticas da Cabana PapodeHomem e material inédito. A abordagem é a mesma do site, ou seja, ensaios que abordam todos os momentos e todos os aspectos de um relacionamento amoroso, com a motivação de ajudar as pessoas a cultivarem mais liberdade, presença, ludicidade, potência, generosidade, destemor em suas relações.</p>
<p>A linguagem vai misturar ensaios mais longos e críticos com dicas simples, meios hábeis, ideias práticas, possibilidades.</p>
<h1>3. Você acredita em fórmulas para que uma relação dê certo? Comente um pouco sobre estas “regras” das quais muitos falam sobre o que fazer e o que não fazer&#8230;</h1>
<p>Não acredito em fórmulas e não faço desse ceticismo outra fórmula. É por isso que, mesmo sem acreditar em fórmulas, eu ofereço o que as pessoas chamam de &#8220;dicas&#8221; ou &#8220;conselhos&#8221;, mas que sempre vejo como possibilidades. É simples: se vemos um casal amigo fazer ou se vemos algo legal num filme, pronto, aquele universo se abre, aquilo se torna possível. <strong>Não são fórmulas, mas mundos possíveis.</strong></p>
<p>Quanto maior o nosso mundo, maiores as possibilidades de encaixe, mais pessoas podemos amar, mais pessoas se apaixonam por nós, mais presentes temos a oferecer, mais possibilidades temos na cama e na vida. Temos flexibilidade para ser vários e então não ficamos carentes, esperando que alguém apareça e se encaixe em nós.</p>
<p>Se é para falar em regra, deixo uma: <strong>não tente controlar e não lute com o que aparece pela frente.</strong> Nosso maior sofrimento nas relações vem de tentarmos controlar as situações e controlar o outro, seja durante a conquista (mexendo na cabeça do outro para que se apaixone por nós) ou no meio do relacionamento, evitando situações que gerem ciúme (em nós ou no outro), raiva, medo, culpa&#8230; Tentamos controlar, mas nunca dá certo. Quando surge o que não esperávamos ou não queríamos, lutamos contra a vida, nos debatemos em vez de lidar com o que se fez presente, assim como veio. O problema não é tanto o fracasso, mas a energia que gastamos nesse processo e a ansiedade que cultivamos, antes e depois de cada fenômeno.</p>
<p>Quanto mais tentamos controlar as situações ou diretamente o outro, <strong>mais nos fechamos à vida que surge.</strong> Ficamos mais mimados, precisamos que as coisas sejam de tal e tal modo para sermos felizes ou para sentirmos prazer no sexo ou para sorrirmos. Resultado: nossa capacidade de amar diminui, somos menos felizes, nos perturbamos mais facilmente.</p>
<p>Quando nosso amor diminui, a sensação de ser amado diminui. Na verdade, a sensação de ser amado não depende de quanto o outro nos ama ou demonstra esse amor, mas de quanto nós amamos. Essa sensação que tanto buscamos é efeito de nossa ação, da prática, do oferecimento, do nosso amor. Ela não tem nada a ver com o outro, tampouco com o que chamamos de <strong>&#8220;amor próprio&#8221;</strong> (peço desculpas aos gurus autoajuda que insistem em falar que a pessoa tem de, primeiro, &#8220;amar a si mesma&#8221;&#8230; tsc, tsc).</p>
<p>Tal independência parece ser ruim, mas ela é nossa salvação, fonte de autonomia e liberdade. Seremos felizes na relação se formos capazes de ser feliz sem depender dos movimentos do outro. Curiosamente, é por essa independência de energia que podemos nos conectar ainda mais uns aos outros.</p>
<p>Quando casais me perguntam como melhorar a relação ou como transformar o sexo, eu costumo sugerir que eles esqueçam a relação, o sexo, e procurem melhorar suas próprias vidas, seus <strong>caminhos que não passam pelo namoro ou casamento.</strong> Se eles forem felizes e tiverem energia na vida, pronto, é essa felicidade que eles vão oferecer um ao outro. Caso contrário, eles vão exigir essa felicidade um do outro, vão se culpar, vão se odiar, eventualmente. :-)</p>
<h1>4. Pode-se dizer que se tornou um consultor amoroso? Como é isso para você?</h1>
<p><strong>Não sou um consultor amoroso.</strong> Eu tenho apenas <a href="http://nao2nao1.com.br/resposta-padrao-para-qualquer-problema-de-relacionamento-amoroso/" target="_blank">um conselho para todo e qualquer problema amoroso</a>. É isso. Só isso. É um texto aberto: pedi aos leitores que enviem para amigos necessitados, só mudando os detalhes, e que me avisem se algo não fizer sentido para ajustarmos a resposta padrão.</p>
<p>Nunca encontrei um caso, nunca ouvi uma história para a qual essa resposta não serviu, a começar pelos meus próprios problemas.</p>
<h1>5. Na sua opinião, do que as mulheres gostam?</h1>
<p>Elas gostam de ter o que não conseguem alcançar sozinhas, assim como acontece com os homens. Não tem segredo. É uma questão que se mostra até mesmo na anatomia&#8230; ;-)</p>
<p>A mulher firme e independente gosta de ser mandada, conduzida, rendida, desafiada, desarmada. A mulher carente gosta de descobrir o tesão que é dar, fazer alguém feliz, cuidar. A mulher generosa gosta de se fazer de carente. A mulher orgulhosa gosta de ser entendida e desafiada por um homem orgulhoso do mesmo nível. Ou de aprender com um homem que desconhece o que é orgulho. Essas mulheres todas podem estar na mulher aí do lado&#8230; Mais ainda, elas gostam do homem que sabe penetrar para além dessas características todas.</p>
<p><strong>Penetrar é um verbo mal utilizado.</strong> O sexo é uma parte ínfima de seu verdadeiro significado. E essa penetração verdadeira em todos os níveis, essa capacidade de avançar (sobre uma mulher e sobre a vida), atravessar, adentrar, percorrer, conduzir, sem medo, sem hesitação, sem se perturbar, é isso que excita uma mulher, é pra isso que ela se entrega, é isso que abre uma mulher.</p>
<p>Pense, a característica mais evidente de um pau ereto durante um <strong>boquete</strong> é sua imobilidade e sua potência. Enquanto ela rodopia ao redor, ele fica, impassível, vigoroso, imperturbável. Esse é um bom pau, esse é um bom homem.</p>
<p>Normalmente, ou o homem fica, mas sem potência, ou ele não aguenta e cede. Na vida, nas relações, isso acontece direto. Os homens não aguentam as crises, não aguentam o impacto feminino: brocham (se deprimem) ou ficam meia-boca, sem potência, opacos, mornos, apáticos. Sem falar quando ejaculam logo de cara: surtam, piram, reagem, berram, choram, se movimentam ainda mais que suas parceiras.</p>
<p>Do que elas gostam? Sim. Elas gostam e aproveitam o sexo muito mais do que os homens, certamente, não apenas pelo corpo mais infinito que o nosso, mas pela mente, pelas fantasias e pelo envolvimento todo. Ser penetrada é muito diferente do que penetrar. Muito mais do que um homem imagina. Nós comemos duas mulheres mais ou menos do mesmo jeito, variando um pouco de acordo com a entrega feminina, mas isso nem se compara ao que é, para uma mulher, ir para cama com um homem e depois com outro. São mundos diferentes.</p>
<p>A mulher gosta disso, desse mundo, não exatamente do pênis, <strong>não exatamente nem mesmo do homem</strong>. É o mundo, o modo com que o cara a movimenta dentro e fora, é isso que faz a diferença. Por isso, homens com presença são os melhores. Homens com brilho no olho, energia constante, disponibilidade, direcionamento, estabilidade, sorriso malicioso e uma base misteriosa, algo insondável para a mulher. Isso a mantém fisgada pois o jogo feminino é ser desejada por essa liberdade.</p>
<p>O aspecto insondável de um homem irresistível se dá justamente em manter uma vida na qual ele poderia ter todas (ou seja, ser um homem que faz as pessoas felizes, que enriquece o mundo) e na qual ele escolhe uma mulher para fazer feliz – ou duas, ou três. Durante anos, a cada mínimo olhar desejante que recebe, a mulher se pergunta: &#8220;Por que raios ele está comigo?&#8221;. Ao fazer essa pergunta, ela descobre suas próprias qualidades, ela se torna ainda mais mulher, mais feliz, mais completa. O fato de ser mais feliz ao lado dele só prolonga e aprofunda a relação.</p>
<p>O homem se torna ainda mais magnético porque faz bem para ela, o que também funciona para deixá-lo mais atraído, já que ela não só se torna cada vez mais aberta, feliz, inteligente, bonita e livre, como deixa claro que ele é muito responsável por isso. Na verdade, não é bem ele o responsável, claro, mas o jogo amoroso assim se dá. E nós gostamos.</p>
<h1>6. Quais as dúvidas mais comuns que você encontra na Cabana do Papo de Homem? Fale um pouco deste espaço tão exclusivo para homens&#8230;</h1>
<p>O que posso dizer é que muitos homens estão se transformando e se ajudando mutuamente. Todos nós crescemos juntos e compartilhamos experiências, relatamos o que acontece em uma noite, o que rola em nossas relações, no trabalho, na vida toda. Cada um que entra lá vira mestre e aprendiz, a um só tempo.</p>
<p>Mais do que dúvidas, o que me impressiona lá é a sabedoria que todos já tinham, mas não havia um espaço elevado no qual ela poderia se manifestar, seja dando conselho para um cara mais velho ou mesmo relatando algo de sua própria vida em um contexto além das visões convencionais. Normalmente, em papo de bar com os amigos, isso não acontece.</p>
<p>Por incrível que pareça, <strong>os homens precisam cada vez mais de contato autêntico com outros homens que os desafiem.</strong> Muita gente já não tem isso do pai, nem do avô, muito menos dos amigos que são mais confusos ou, se estão bem, não ligam, de fato, para suas histórias, seus caminhos e obstáculos na vida.</p>
<p>Além do espaço online (com desafios, práticas, artigos, relatos, discussões e indicações), já fizemos um encontro nacional e vários regionais. Em um deles, além de beber e conversar muito, fizemos meditação e eu conduzi um workshop de polirritmia para eles (de TaKeTiNa, uma técnica que usa o ritmo no corpo para desenvolvimento da mente). Minha intenção é que esses encontros se tornem cada vez mais frequentes.</p>


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		<title>A logística do amor</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jul 2010 15:37:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Gitti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>
Os detalhes técnicos da relação são muito mais importantes do que pensamos&#8230;</p>
<p>Ele chegava cansado. Lavava louça enquanto preparava o jantar com ela. Comiam. Ele deitava no sofá para descansar um pouco ou ficava respondendo emails. Ela tomava banho e voltava para beijá-lo. Ele se sentia sujo e não queria nada antes de tomar banho. Ele sempre se demorava&#8230;</p>


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-1094" title="logistica" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/07/logistica.jpg" alt="" width="588" height="250" /><em><br />
Os detalhes técnicos da relação são muito mais importantes do que pensamos&#8230;</em></p>
<p>Ele chegava cansado. Lavava louça enquanto preparava o jantar com ela. Comiam. Ele deitava no sofá para descansar um pouco ou ficava respondendo emails. Ela tomava banho e voltava para beijá-lo. Ele se sentia sujo e não queria nada antes de tomar banho. Ele sempre se demorava e ela dormia antes. Depois de um tempo, isso os destruiu. <strong>Tivesse ele tomado banho antes&#8230;</strong></p>
<p>Parece um detalhe insignificante? Não é.</p>
<h1>A cegueira do amor romântico</h1>
<p>Nossa mania de <a href="http://nao2nao1.com.br/casar-por-amor-e-uma-pessima-ideia/" target="_blank">basear a relação no amor romântico</a>, nos sentimentos, ofusca a importância de outros aspectos mais técnicos, frios, funcionais, como a logística, o workflow, o controle de estoque da coisa. Tendo amor e paixão, de que importam rotinas, hábitos, trabalhos, deslocamentos e os mil processos de nossas vidas? Assim pensamos, iludidos.</p>
<p>Por que você acha que os casamentos arranjados davam certo? Ora, quando a logística é bem estruturada, amor é o de menos. Com o tempo, aprendemos a cuidar, sentir tesão, transar, amar, admirar, se apaixonar. Ao ouvir isso, sentimos uma certa aversão à ideia de &#8220;aprender a sentir tesão&#8221;, não é mesmo? Somos fascinados pela paixão súbita, pela química inexplicável, pelo amor que parece vir de uma vida passada. É o <strong>espírito <em>fast food</em> nos relacionamentos</strong>: queremos tudo pronto, do nada, agora.</p>
<p>Admiro o arquétipo da relação Romeu e Julieta pelo aspecto libertário, mas sempre achei esse modelo adolescente demais, mimado demais. É uma das fundações do amor moderno e se atualiza sempre que uma relação começa com um &#8220;Eu gosto dele, ele me faz bem, eu sinto um frio no peito&#8221; e fica só nisso, sem olhar o mundo inteiro do outro. Se é para fazer amor, vamos dar, penetrar, meter no mundo inteiro um do outro. E muito desse amor se faz com coisas das quais não gostamos.</p>
<p>Nós, Romeus e Julietas, precisamos crescer e aprender a fazer o que precisa ser feito, para além de nossas teimosias, birras e manhas. Aprender a reconhecer e lidar com a logística do amor com a mesma frequência com que olhamos para nossos sentimentos.</p>
<h1>Um homem alérgico a cortinas</h1>
<p>Pensamos que sabemos a origem de nossos problemas, mas não sabemos. Com perturbações fisiológicas, o diagnóstico não é fácil, imagine com as emocionais e relacionais.</p>
<p>Somos como um homem alérgico e <strong>apaixonado por cortinas</strong>. Ele não desconfia de sua alergia, age movido por &#8220;gosto / não gosto&#8221; e sempre compra mais uma cortina, até para onde não tem janela. Como está sempre espirrando, troca todos os móveis, muda de casa, muda de cidade, rejeita amigos e namoradas, briga com a família, mas nunca abandona as cortinas. Ele vai a psicólogos, <strong>cria teorias sobre por que espirra na frente de tal e tal pessoa</strong>, lista os problemas dos outros pelos quais teria aversão, compra livros do tipo &#8220;Como interpretar seus espirros&#8221;&#8230;</p>
<p>Focamos tanto em nossa subjetividade, nas emoções, no amor romântico, na paixão, em nossos desejos e mimos, que esquecemos do mundo, dos processos, das coisas, da logística. Bastaria a esse homem jogar fora as cortinas para ser feliz em qualquer casa.</p>
<p>Se tal metáfora lhe parece muito distante e caricata, imagine uma pessoa que, por algum motivo, para de trabalhar, tem sua carência potencializada pelo tempo livre, e começa a encontrar problemas na relação, se sentir insatisfeita com a ausência do parceiro, reclamar, brigar, até terminar a relação com uma lista de coisas que o outro não faz, que o outro não é. Tivesse ela voltado a trabalhar&#8230;</p>
<h1>Nossa mente é relacional</h1>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-1093" title="james-jean" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/07/james-jean.jpg" alt="" width="300" height="354" align="left" />O que alimenta esse processo é nosso autocentramento e a ilusão de que existe uma mente fechada dentro de nossa cabeça, em vez de pensamentos e emoções que existem de modo impessoal flutuando como possibilidades por aí, que podem ser incorporadas ou apenas passear livres no espaço que somos. Nossa mente é relacional, ela se expande entre as pessoas, para dentro delas, entre locais e objetos.</p>
<p>Quando surge um problema, <strong>temos certeza de que ele é nosso ou do outro, que está dentro de alguma mente</strong>, não no chão, na cortina, no espaço entre pessoas e coisas. Como nos levamos a sério, vivemos emoções de modo pessoal e usamos nossos dramas para dar sentido à vida, é muito difícil admitir que a maioria dos nossos problemas mais sérios e gigantescos são frutos de detalhes (como uma cortina) e poderiam ser transformados com mudanças simples de logística.</p>
<p>Nossa mente não tem nada dentro. Ela é um olho que se posiciona aqui ou ali – aqui, vê uma perspectiva; ali enxerga outro universo. É por isso que uma cortina pode mudar nossa vida.</p>
<p><strong>Entre um mendigo jogado na rua e eu</strong>, a única diferença é de posição, não de conteúdo mental ou &#8220;personalidade&#8221;. Em menos de uma semana passando frio, sem comer, eu teria os mesmíssimos pensamentos, o mesmo mundo emocional, a mesma personalidade. Possivelmente roubaria ou mataria alguém.</p>
<p>A logística de minha vida, minha rotina, meu trabalho, minhas roupas, meu apartamento, meus deslocamentos,<strong> tudo aquilo que penso não ser eu</strong> é muito mais responsável por minhas experiências do que consigo imaginar. Assim como meu namoro, que não é o laço entre duas subjetividades, mas a interface entre céus, chãos, armários, paredes, computadores, trabalhos, camas, agendas, futuros, passados, famílias, restaurantes, sonhos, banheiros, supermercados, carros, trejeitos, vassouras, panelas, livros, manias, escovas de dente&#8230;</p>
<p><em>* Crédito da imagem acima: <a href="http://www.jamesjean.com/work/2009/Wave+II/1" target="_blank">James  Jean, &#8220;Wave II&#8221; (2009)</a>.</em></p>
<h1>Como namorar com pausas de 2 dias por semana</h1>
<p>O casal que já superou a necessidade excessiva por paixão e romantismo pode focar mais livremente nos recursos e nos fluxos que, de fato, possibilitam que a relação avance. Se ambos ainda estão preocupados com &#8220;Você gosta de mim? Você me ama? Você me deseja?&#8221;, uma conversa sobre morar em casas separadas é inviável. A ironia é que justamente essas mudanças logísticas, que podem provocar insegurança, salvam muitas relações – e, a longo prazo, só aumentam a confiança.</p>
<p>No filme <strong><em>Sex and the city 2</em></strong> (que assisti para comprovar uma ideia que publicarei no PapodeHomem), consegui encontrar uma questão interessante: o marido da personagem principal propõe uma pausa semanal no casamento, 2 dias em que eles ficam em apartamentos diferentes, sem se ligar, fazendo o que quiserem – pelo que entendi, eles tem de se manter fieis, mas não vejo problema em adaptar essa regra. ;-)</p>
<p><a rel="attachment wp-att-1092" href="http://nao2nao1.com.br/logistica-do-amor/sex-and-the-city/"><img title="sex-and-the-city" src="http://nao2nao1.com.br/wp-content/uploads/2010/07/sex-and-the-city.jpg" alt="" width="588" height="270" /></a><br />
<em>&#8220;E aí, querida, saiu com alguém ontem? Comprovou que eu sou melhor ou  vai continuar procurando?&#8221;</em></p>
<p>Basta questionar um pouco as convenções naturalizadas, basta quebrar processos automatizados, reconhecer e mexer na logística, para se surpreender com novos fluxos do amor, novos olhares de desejo, interfaces e toques que nunca foram explorados porque não havia suporte, horário, transporte, cama pra isso.</p>
<p><strong>Casar e morar em casas separadas</strong>: &#8220;Você vem jantar e dormir aqui hoje?&#8221;. Ou dormir em quartos diferentes com duas camas de casal, sendo que às vezes uma delas fica vazia à noite toda. Não criar uma conta conjunta. Não casar, apenas morar junto. Casar e ficar solteiro, sem bloquear novas relações. Fazer regras por brincadeira e não fazer disso mais uma regra (nem dessa frase e nem desse parênteses). Ou fazer e esquecer, como dois caretas convencionais, por que não?</p>
<p>Mais do que isso, em cada detalhe, podemos olhar para as questões logísticas da relação, detectar obstruções e brincar de mover o sofá na nossa sala para ver em que parte do chão ainda não transamos. Aliás, isso de mover juntos o sofá é tão importante quanto transar no chão.</p>
<p>Enfim, possibilidades e mais possibilidades para quem não confia no amor e sabe que <strong>o horário do banho pode acabar com um relacionamento.</strong></p>
<h1>Qual sua experiência com essa logística do amor?</h1>
<p>A galera do <a href="http://www.homembemfeito.com.br/" target="_blank">BIC Comfort 3</a> continua questionando o comportamento do <a href="http://www.homembemfeito.com.br/" target="_blank">homem bem-feito</a> em relação a essas questões que levantei acima.</p>
<p>Eu tenho muita <strong>curiosidade</strong> em saber se vocês já viveram isso. Qual foi o seu &#8220;horário do banho&#8221;? Já viveu  um relacionamento que deu muito certo ou muito errado por causa de um simples detalhe logístico? Já fez alguma mudança simples que alterou todo o curso da relação? <strong>Quais &#8220;sofás&#8221; mudou de lugar?</strong></p>
<p>Deixe sua visão, conte sua história e seguimos a conversa nos comentários aqui.</p>
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