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Analise-me, veja algo oculto e me leve para a cama

por Gustavo Gitti 9 December 2007 19 comentários



“Gustavo, saquei você logo de cara. Fica usando o blog para fazer autoterapia, não é? Sofre, vai lá, escreve um post e espera que os comentários aliviem sua dor. Você acha mesmo que uma página na Internet vai esconder sua mediocridade?”

“Gustavo, Gustavo… Sei você de cor. Menino antisocial, tímido e filósofo. Quer dizer que está dançando? Impossível, eu duvido!”

“Gu, você é orgulhoso, né? Senti no primeiro dia que nos conhecemos. Metido, se achando superior, querendo sempre aparecer de algum jeito sutil… Mas não como rockstar, não sei explicar… Você manipula a mente das pessoas, tenta controlar a imagem que elas fazem de você. Não é isso? Você não me engana, garoto. Hum… Mas e aí? Quando vai me levar para ver aquele filme?”

CartomanteSeja para fincar distância ou para criar intimidade, adoramos reduzir os outros a scripts e personagens fáceis de mapear e prever. Uma das maiores táticas de sedução e conquista é exatamente isso: descubra um ponto intocado no outro, faça-o perceber que você viu e se relacione com esse ponto (envie uma música certeira, dê algum presente relacionado, chame e converse com o oculto).

No colegial, eu analisava as garotas e as conquistava dentro do script predominante em suas vidas. Com meninas carentes, eu era presente. Com as que terminaram o namoro com um homem grosso, eu era sensível. Além disso, eu as descrevia e mostrava que só eu sabia como elas eram de fato. Dava muito certo!

Essas descrições possuem o mesmo funcionamento das adivinhações de uma cartomante. Se ela for inteligente, você se identifica na hora: “Aqui diz que você espera por um momento de grande felicidade, que virá em breve… Sente uma angústia que não sabe explicar, não é?”. Com as mulheres também. Se a descrição for boa, serve para qualquer uma. “Ei, no fundo, você deseja que um homem veja em você toda a beleza que você vê no mundo, não é mesmo?”. E ela: “Nossa, você acertou em cheio!”.

No entanto, isso só funciona com quem não consegue fazer tais descrições sozinho. O outro surge como um desbravador, profeta e guru – e nós nos apaixonamos. O fato dele ver algo oculto concede passe livre para todo o resto que escondemos. O sexo é conseqüência imediata: nos entregamos porque sentimos que o outro já nos possui. A entrega é natural, como se ela já tivesse existido, como se não fosse a primeira vez.

Passada a ingenuidade inicial, a abordagem de ver o oculto não mais funciona. Ninguém quer ser analisado ou definido. Homens, para conquistar mulheres que valem a pena, vocês terão de buscar alternativas à técnica da cartomante. Caso contrário, passarão o resto da vida com mulheres encaixotadas, daquelas que vem com código de barras.

As mulheres também fazem isso. É parte do jogo amoroso da conquista. Perguntas sobre o outro, pedidos de descrição (“Fale sobre mim”), desejo de renascer aos olhos do outro. O problema é que não sabemos bem como jogar e depois nos frustramos sem saber que os erros começaram nos primeiros olhares. Se o cara vê algo oculto e você já se entrega, não reclame depois quando ele mal olhar para você. Você cedeu por muito pouco e ajudou a formar um cara imbecil uma espécie de cegueira.

O script é previsível, daí seu fascínio. É mais fácil conquistar aquilo que pode ser capturado. Se seduzimos scripts, é isso que ganharemos na relação – os mesmos que depois se tornam insuportáveis e causam a separação.

Se eu não mapear, como vou saber por onde me aproximar? Se eu não enquadrar, como poderei me relacionar? Como olhar além dos scripts que o outro manifesta? Faça como eu no início desse post: descreva a si mesmo sob perspectivas múltiplas. Você é mesmo alguma dessas descrições?

O não vem pelo sim. Por sermos tudo isso e mais um pouco, isso não nos define. Se fôssemos algo definido, carta de Tarot, a abordagem da cartomante faria sentido, mas não… Sou orgulhoso, tímido e medíocre em minha autoterapia blogueira. Sou nojento, preguiçoso, manipulador barato. Sou tudo o que passou e tudo o que virá por mim. Sou o espaço no qual aconteço. E por isso estou, desde sempre, livre de mim mesmo.

E o outro. Oculto? É a liberdade que ele tem de ser um ou outro. Descrição? Qualquer uma que o projete na direção de sua felicidade. Conquista? O ato de abrir espaço para que ele seja o que deseja dentro de você. Sedução? A forma como você conduz o outro para fora dos limites de seus scripts. Intimidade? A ação de ser você dentro do outro.

Fica o desafio para o homem de plantão: sem usar sequer uma análise, leve-a para cama. E para a mulher desavisada: entregue-se apenas àquele cujo amor a transforme para além de suas autodescrições.

Perdi meu tempo.Você tem 12 anos?Tá frio hj, né?Quando sai o livro?Deu uma vontade de fumar... (Gostou do texto?)
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19 comentários »

  • B. - A Vida Secreta disse:

    Poxa Gu, passei dez dias em Sampa e nesse meio tempo não consegui parar para ler teu blog uma vez sequer. Mas de volta à cidade maravilhosa…

    Ótimo texto, não sei se te vejo assim, ou assado, não sei se vc me vê desta ou daquela forma, mas acho que isso é por um motivo simples, meu interesse em vc é pelos seus deliciosos e lúcidos textos sobre relacionamento e o seu por mim, é de vez em quando dar uma espiada em minha vida secreta. Ponto.

    Eu já reparei que complicações do tipo “decifra-me ou te devovoro” é mais voltado para relações onde o desejo e o erotismo estão implicitamente embutidos. Te achei uma graça de menino, velho demais pra idade que tem, bom ouvinte… Gostei. Mas só! Nada de maiores achismos.

    Sobre o texto ainda, já fui “analizada” à partir do meu blog, e carentona e patinha, me envolvi numa historinha bem louca daquelas que só eu sei me envolver. Se blog serve pra comer ou pra dar, eu não sei, mas que facilita a vida de quem é observador e perspicaz… Ah, facilita…

    Beijocas.

    B.

  • cybele disse:

    Bom, concordo com uma expressão citada aqui no blog - Pensar Enlouquece. Será que nos tornamos tão zen assim, tão bonzinhos e nos olhamos no espelho?Não consigo ver tanta transparência , o jogo ainda é uma arma de sedução, e vamos ser honestos, o povo gosta. Seria muito bom se homens e mulheres deixassem de lado os “ismos” e aceitassem a liberdade de amar/gostar com mais naturalidade, sem tanto porque.Afinal, viemos fazer o que neste planeta?Ser Feliz!!!!!!!

  • myla disse:

    meu querido amigo: uma pequena parte do q vc disse aqui entrou em mim d um jeito (senti como se fosse um raio) q sei q vou me lembrar disso por muito, muito, tempo.

    o feminino vai estar sempre testando, o tempo todo, o masculino. e, ao contrário do que pode parecer, isso nunca é movido pela competição.

    no fundo, no fundo, toda mulher deseja q seu homem saiba viver bem: resoluto, íntegro, dono d seu próprio nariz, independente do q lhe acontece ao redor, e, principalmente, independente do aval dela - ou de qqr outra pessoa q seja.

    e, vc está certo, um feminino sábio nunca deveria se contentar com o q ele já vê, sente e sabe sobre si mesmo e o mundo, e muito menos com os tais scripts q vc cita aqui.

    concordo mil porcento: uma entrega só vale a pena a quem nos transforme p além do q já somos (coisa q serve pra ambos, masc e feminino).

    muito obrigada, Gu.

  • cybele disse:

    As meninas foram tão doces nos comentários que senti vontade de assinar embaixo o que elas disseram. No entanto, continuo acreditando que a simplicidade , a naturalidade ainda é a melhor forma de expressar emoções.

  • cybele disse:

    ops….são…

  • Laís disse:

    Gustavo, concordo com essa exposição a qual vc faz referencia nesse texto
    mas acho q p/ isso requer pessoas que possuem alguma sensibilidade, e ou percepção
    enfim, gostei deveras, e voltarei aqui.

  • Gustavo Gitti disse:

    Laís, esse blog é justamente para ajudar a formar pessoas com sensibilidade. Mas não faço essa restrição que você faz, não. TODOS, absolutamente TODOS, têm esse potencial de liberdade e profundidade.

    Cybele, não entendi esse “no entanto”. ;-) Ele apenas reafirma, não há a contraposição do “no entanto”.

    Abração!!!

  • cybele disse:

    Concordo Gustavo, eu viajei..rsrrs

  • J@de disse:

    Durante muito tempo eu gostava de descobrir as pessoas aos poucos, principalmente num envolvimento amoroso, curtir cada descoberta e ir me apaixonando aos poucos… depois de algumas desilusões passei a padronizar (esse é encostado, esse é carente, esse é imaturo) e passei a colocar os dois pés atrás.
    Seu texto vai me ajudar a reaprender.
    Beijos!!

  • isma... disse:

    É engraçado que a grande maioria dos fenomenos naturais podem ser modelados matematicamente, e com isso fazer uma previsão deste com um certo grau de certeza(visão de um físico..rsrs). Com o ser humano não conseguimos prever com tanta certeza, mas pela intuição, conseguimos entender como foi a vida daquela pessoa, quais gostos e objetivos.
    Muito bom esse post, confesso que vou tentar o desafio.

  • Urban disse:

    Essa frase resume a essência de todo o post: “No entanto, isso só funciona com quem não consegue fazer tais descrições sozinho”
    E às vezes até sabemos tudo, mas movidos por carências, queremos ouvir de outras bocas, sentir em outros olhos.
    Porque somos assim tão reféns da sedução?

    Ótimo texto Gustavo!
    ;-)

  • Gustavo Gitti disse:

    Isma e Urban, estamos todos tentando o desafio, penso. Mesmos os mais “desavisados” desejam isso, na verdade. Mesmo aquele que age errado deseja isso.

    Lendo agora de novo, penso que a idéia principal desse post truncado é isso: “nos entregamos porque sentimos que o outro já nos possui”. Esse é o erro que motiva a sedução pelo script e a separação depois de um tempo.

    Possuir o outro não é defini-lo e enquadrá-lo, mas liberá-lo para que ele possa ser mais do que é. O problema é que amamos justamente aquele que nos define (”ah, você é assim”) de um jeito que gostamos no início, mas que em pouco tempo veremos como prisão.

    Abração para vocês!!!

  • Thiago disse:

    nem toda sedução por script termina em separação.

    há mulheres que só se deixam ser seduzidas dessa maneira, abolindo qualquer outra tentativa.

    excelente texto. excelente mesmo. posso enxergar a maioria de minhas amigas e ex-ficantes no texto. hahahahaahaha.

    talvez eu esteja com as companhias erradas.

  • Gustavo Gitti disse:

    Oi Thiago,

    Ah, claro. Com certeza. Ali é um exemplo, o script que inicialmente gostamos é exatamente do mesmo tipo do que nos faz odiar a pessoa depois. ;-)

    O “foda” é que mesmo as companhias erradas guardam tesouros, cara. Estamos todos no mesmo barco… ;-)

    Valeu pelo apoio!!!

    Abração!!!!

  • Sarah K disse:

    “Possuir o outro não é defini-lo e enquadrá-lo, mas liberá-lo para que ele possa ser mais do que é.”

    Gustavo, só hoje em dia depois de tomar muito na cara, sofrer muito e lógico ser feliz tb, aprender muito com meus erros inclusive, é que sei o quanto essa tua frase aí de cima é válida.

    ;-)
    bjs

  • Biessa disse:

    Entendo completamente… A última que eu ouvi no meu blog foi que eu “tenho sérios problemas de relacionamento e um distúrbio de soberba”.

    Não sei pq gasto tanto em psicoterapia. Podia ser analisada via blog e gastar esse dinheiro todo em bala ou Kerastase!!! hehehehe

    Quando li seu elogio a meu blog no post acima, pensei “Como assim??? Um cara desses que diz que é meu fã! Quero ser como ele qdo crescer po!”

    ahahahaha Beijos!!

  • Alessandra disse:

    Vivendo e aprendendo………..
    Hummm….. despertando…. Reconhecendo…

  • Betha disse:

    Mininu….voce vai encima do “pobrema”… Nossa ansiedade nos remete a transformar pessoas em Cartas de Tarot… ah meus Deus… como a gente perde tempo ne?
    bjao

  • Aquela disse:

    É.. acho que passei neste desafio.
    Ou melhor.. passamos.

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