A trilha sonora inaudível dos relacionamentos

por Gustavo Gitti 14 August 2010 48 comentários

Chico Buarque, John Mayer, Aimee Mann, Marisa Monte… É longa a playlist por trás de nossa vida amorosa. Já sugeri algumas, aliás (“11 canções para amar mais”), mas agora me interessa a trilha sonora que não ouvimos.

O caminho para esse silêncio se faz pelo próprio som: para esclarecer o que estou chamando de “trilha sonora inaudível”, vamos analisar a influência da música em uma experiência. Já adianto que meu foco está nas outras estruturas que atuam sobre nós de modo bastante similar ao som.

Trailer de Dumb & Dumber com trilha de Inception

Hans Zimmer construiu uma obra-prima para a trilha sonora de Inception (aqui “A origem”), responsável por boa parte da experiência proposta por Christopher Nolan. Um bando de gênios com tempo livre logo reconheceu a qualidade da trilha e criou mashups de todos os tipos. Para você ter uma ideia, o fim de Lost reeditado com a música do fim de Inception talvez tenha ficado melhor que o original. ;-)

Em uma dessas brincadeiras, pegaram o áudio do trailer de Inception e montaram um trailer para o filme Dumb & Dumber (“Débi & Lóide”). O resultado: todas as cenas são ressignificadas. Se não conhecêssemos o original, nunca desconfiaríamos que trata-de de uma comédia.


Link YouTube | Mesmo conhecendo o filme e o truque, vemos as cenas mudando de textura, pra valer.

Música, essa regente de mentes

Antes de sair do âmbito do som, vamos detalhar um pouco mais o que acontece no cinema.

Depois dos créditos iniciais, ainda nos sentimos sentados na poltrona, sem grandes alterações. À medida que o filme avança, um mundo vai sendo criado. A missão do diretor é nos arremessar para dentro dessa realidade, até que nosso coração, nosso pulmão, nossas glândulas lacrimais estejam reagindo a cada frame. Sabemos de todo o truque, o que por muitas vezes não nos impede de cair no sonho proposto, de ter nossa mente conduzida.

Claro, apenas imagens não são suficientes para nos fisgar. É a música que direciona o olhar, que situa, que define a textura de cada imagem. Quando a trilha sonora funciona, ela não é percebida como um som específico, como música vinda de instrumentos. Nada disso. Na cena que nos envolve, a música age por trás do olho, como se carregasse no corpo. Se tal processo lhe parece óbvio, me antecipo: comece a pensar em como outras estruturas fazem a mesma coisa conosco fora do cinema, sem precisar de música alguma.

A mesma cena pode ser de terror, suspense, ação, comédia, drama… Para cada cena definida, temos incontáveis trilhas possíveis, ou seja, incontáveis experiências, universos de significação. Se a cena pré-existisse com algum sentido inerente e tivesse a música como complemento, isso não aconteceria. O caso é que a cena já surge com a trilha e assim construímos nossa experiência, já direcionados pela música, quase incapazes de sequer imaginar como seria a mesma cena de outro modo, sob o efeito de outra trilha sonora.

Para enfatizar essa percepção, basta colocar duas músicas no iPod e sair para andar na Avenida Paulista. Pode ser “Gold dust”, da Tori Amos, e depois “Love generation”, do Bob Sinclair. Ou alguma da trilha de Into the wild seguida de outra da trilha de Where the wild things are. Qual das duas cenas é a verdadeira? As pessoas estão andando rápido mesmo ou é apenas a sensação da música? Elas parecem estranhas e distantes? Próximas e amigas?

Ou você pega um conflito e tenta extrair visões a partir de músicas, não de letras, mas da ambiência criada por cada música, dos olhares que elas proporcionam. Ouve uma e sente compaixão, redenção, compreensão do mundo do outro. Chora. Ouve outra e sente ódio, raiva, indignação. Uma música desenha um monstro. Outra revela um herói ferido.


Link YouTube | Bobby McFerrin fazendo milagre com a ária mais bonita de Bach.

E então você enfim chega à pergunta essencial desse percurso que descrevo: “Qual música já estava tocando bem antes de eu colocar os fones?”. Ou: “Se eu conseguisse aumentar o volume da minha mente, que tipo de música eu ouviria?”.

Melodias internas que não ouvimos

A trilha sonora sempre existe, com ou sem música de fundo. É como se estivéssemos colorindo as cenas da vida o tempo todo com nossos instrumentos musicais invisíveis e nossa tendência a diretor, compositor, cineasta. Estamos dirigindo, filmando, posicionando câmeras, editando, roteirizando, decupando, perfumando, prestando atenção na continuidade e, claro, ajustando a trilha sonora, quadro a quadro.

Isso tudo fora o personagem. Além de viver, envolvemos o vivido em um mundo de sentido, em uma história que inventamos o tempo todo sem saber.

Mais do que uma metáfora, é precisamente esse o nosso funcionamento! A cada momento, encaramos as coisas com algum pré-roteiro, alguma predisposição melódica, uma ou outra preferência estética. As músicas, essas de som, só aumentam o volume das trilhas inaudíveis, mas elas sempre estão presentes, caso contrário as músicas nesse post não fariam absolutamente nada com sua mente.

Cena: uma namorada e um cara tomando banho

A namorada sobe. Ele está no banho, atrasado. Saiu apenas para abrir a porta e logo voltou. Se esse será um filme pornô ou um drama existencial, bem, não está na cena a definição, mas na trilha sonora.

Ela pode passar por esse momento já imaginando como seria entrar no banho. Ou esperar pelo namorado nua na cama. Da ideia à prática é um pulo. Ela também pode viver essa mesma experiência, sem objetivamente mudar nada, como uma aflição, irritada porque ele está demorando de novo, não se aprontou antes de novo, não a valoriza mais… Esse outro filme continua com ela sentada no sofá, impaciente, emburrada quando ele sai do banheiro.

Se analisarmos apenas o banho desse cara, não há diferença entre as duas cenas. Não há nada no banho dele que ative uma ou outra resposta em sua namorada. É o modo com que ela olha para o banho que constrói o filme todo. A posição da câmera, o foco na edição, o ritmo da trilha que ela não ouve, mas que não cessa de movê-la. Até mesmo sua experiência de tempo (o banho vai durar minutos ou décadas?) é definida por essa trilha oculta.

Mais ainda, uma vez que ele fecha a porta e religa o chuveiro para terminar o banho, a experiência explode com tudo, deixando inacessíveis todas as outras possibilidades: trilhas, edições, ângulos que ela não escolheu. É por isso que, sob a perspectiva da namorada, parece que o banho é aquilo mesmo que lhe parece, do jeito que surge, com a textura ali manifesta. Se ela está irritada, tem toda razão: ele, de fato, deveria ter se arrumado antes. Se está excitada, perfeito: ele vai sair do banho louco para comê-la antes de se vestir.

Nossa tragédia começa no ocultamento dos filmes que deixamos de viver por causa das trilhas que continuamente tocamos, das edições instantâneas, ângulos de cada olhar, roteiros que seguramos debaixo do braço. O filme que surge parece o único possível, como se viesse pronto, lá de fora, como se não tivesse o nosso nome nos créditos.


Link YouTube | Esse cara pegou a melhor música da trilha de “The straight story” (do mestre Angelo Badalamenti) e botou em cima de cenas de seu bairro. Olha o resultado, dá até vontade de ir lá conhecer. Aliás, é assim que a gente se apaixona: colocamos pra tocar a nossa melhor música em cima de alguém, que por acaso ficou algum tempo por perto. A paixão é essa aura. Como é nossa melhor música, vemos o melhor do outro e acabamos expondo o nosso melhor. Quer dizer, até outras trilhas começarem a tocar o terror…

Brincando de cineasta

Não há nada de errado nesse processo de construção cinematográfica da vida (e me refiro à própria percepção de cada fenômeno, não a alguma espécie de romantização posterior). O problema está na cegueira, no fato de não sabermos que estamos agindo assim, não exatamente no sofrimento que alguns filmes mais duros despejam sobre nós.

Ora, já que a trilha sonora está aí, já que todo momento já surge condicionado, já que nunca temos acesso às infinitas possibilidades, só nos resta olhar para o modo como estamos trazendo os eventos à tona, como estamos construindo a vida que parece nos acontecer, que parece vir de fora. A cada momento, somos obrigados a pisar numa direção ou em outra sem antes saber qual terra é melhor. Pisamos e só depois dizemos: “Ah, aqui é fofo”. A cada passo, uma desconfiança, mesmo em terras boas: “E se lá for melhor?”. Ou: “E se a terra boa acabar no próximo passo?”.

Nossa situação atual, seja qual for, agora mesmo, não é positiva ou negativa em si mesma. Há alguma trilha sonora interna atuando sem cessar para que ela nos apareça de um certo jeito, para que a vivamos como uma experiência específica. Em vez de se preocupar em dar o próximo passo, torcendo para que ele nos leve a uma situação melhor, podemos simplesmente mudar a trilha sonora e ver no que dá, ver como isso altera a experiência toda, mais até do que se mudássemos a situação diretamente.

Voltando à cena do homem no banho, agora vemos a namorada sorrindo para sua própria dinâmica, ouvindo a trilha sonora que colocou, sem saber, na cena. Ela pode ficar emburrada ou pode tirar a roupa. A situação não está definida; o que vale é a experiência dessa situação. Na verdade, o que chamamos de situação é tão somente nossa experiência. Não há situação em si, independente de nossa edição, roteiro, fotografia, iluminação…

O banho do cara demora o suficiente para ela avançar um pouco mais. Agora ela simula os dois filmes em fast-forward e observa como ficar emburrada não é necessariamente pior do que tirar a roupa, pois talvez ela tire a roupa, ele broche e os dois briguem. Talvez ela fique emburrada, ele fique nervoso e eles acabem com as frescuras se acabando no chão, o que por sua vez não é necessariamente melhor ou pior do que brigar… ;-) Basta um outro fast-forward para comprovar a infinita abertura e flexibilidade dos eventos.

Ela continua até se dar conta de que o que importa não é seguir em uma ou em outra direção, mas seguir com olhos abertos para a liberdade sempre presente, para a insubstancialidade de cada momento, como se tudo pudesse virar lixo ou ouro, a cada segundo, como se nada nunca se definisse e se fechasse completamente.

Sua escolha, então, não é entre o sofá e a cama, a cara emburrada e a perna esticada, entre uma situação e outra, mas entre viver o filme como cineasta e viver o filme como um ator com amnésia.


Link YouTube | Ouça lembrando da vida inteira ou de uma história amorosa. O que sai?

Silêncio

Ouvir a trilha sonora pela qual atuamos e poder transformá-la. Trocar olvido por ouvido. Liberdade não é só isso.

Se o cara ficasse um pouco mais no banho, a namorada certamente questionaria até mesmo sua necessidade de mexer na trilha sonora para ter outras experiências de uma mesma cena. Ela olharia com calma para essa capacidade de mudar a trilha, de trocar de roteiro, de ajustar ângulos… e desconfiaria de uma liberdade anterior: a de criar filmes e trilhas.

Brincar de cineasta é excelente, claro. Mas como é possível que uma cena que hoje nos aflige (a ponto de cortar nossa fome) amanhã seja motivo de risadas soltas e despreocupadas? O que faz com que os filmes e trilhas se alterem tanto e tão rápido?

Mais do que culminar em uma resposta, essa pergunta direciona nosso olho para uma dimensão além de qualquer trilha sonora, algo como o que imaginamos quando ouvimos a palavra “silêncio”.

Repousando nesse silêncio, e não em filmes específicos e suas possíveis edições e refilmagens, entendemos que não precisamos criar um filme a partir de outro, resolvendo algo, trocando algum personagem, mudando a trilha ou a fotografia. Dá para criar um filme a partir da própria liberdade de criar filmes, do zero – o que não significa alguma espécie de fascinação pela morte ou aversão à continuidade, pois uma das coisas mais divertidas é criar, do zero, a mesmíssima realidade que existia anteontem. Não é isso o que uma garota faz quando atende o telefone com um “Oi, amor…”?

Pois bem, é claro que o homem de nossa cena saiu do banheiro depois de todo esse tempo. Sua paciente namorada talvez esteja na cama, talvez no sofá ou até já tenha ido embora. O importante é que ele também tenha percebido algumas coisas enquanto a água corria…


Link YouTube | Um dos melhores temas de “Lost”, de Michael Giacchino (italiano, pra variar).

Blog Widget by LinkWithin

Para transformar nossas relações

Há algum tempo parei de escrever no Não2Não1 e comecei a agir de modo mais coletivo, visando transformações mais efetivas e mais a longo prazo. Para aprofundar nosso desenvolvimento em qualquer âmbito da vida (corpo, mente, relacionamentos, trabalho...), abrimos um espaço que oferece artigos de visão, práticas e treinamentos sugeridos, encontros presenciais e um fórum online com conversas diárias. Você está convidado.



Receba o próximo texto

48 comentários »

  • Isabella

    Engraçado, sempre que vejo um filme de terror penso que, com outra trilha e outro ângulo do diretor, aquilo ali se transformaria numa comédia.

    E uma comédia romântica? Naquela hora em que a mocinha chora exageradamente com um pote de sorvete nas mãos? Aquilo foi colocado como engraçado, mas poderia ser um super drama existencial. A personagem certamente não vê graça em seu sofrimento, mas a gente vê porque… Aquilo foi colocado assim!

    Sempre pensei sobre isso, mas você traduziu tudo neste texto… Só preciso lembrar que é tudo um filme, é tudo uma brincadeira, é tudo um sonho…

    ;)

  • André Pina

    Magistral, Gitti!

    Você não poderia ter usado exemplos melhores. Aliás, você já nos presenteou com essa experiência em alguns textos. Colocava um link do youtube com uma música e nos estimulava a ler e vivenciar exatamente a experiência que você tentava passar. Na verdade, acho que cada um dos seus textos deveriam ser reeditados para uma versão ‘multimídia’. Cada um com uma trilha sonora musical, que tal? Eu lembro que li um texto ao som da Tori Amos, aqui no seu site. Fantástico! Excelente maneira de digerir seus textos, cara!

    Grande abraço e sucesso!

  • Davi

    Realmente Gitti, a “trilha” faz a diferença. Seja no amor, seja em uma caminhada, seja no modo como vemos e percebemos as coisas à nossa volta. Quanto maior for nossa playlist, mais liberdade temos pra por os melhores sons pra tocar.

    Grande abraço Gitti, sempre foda os ensaios!

  • Gustavo Gitti (autor)

    Fala Davi!

    “Quanto maior for nossa playlist, mais liberdade temos pra por os melhores sons pra tocar.”

    Cara, desconfio que isso não seja um bom referencial de liberdade.

    É importante esse “repertório” para termos a habilidade de ressignificar fenômenos, emoções, pessoas, situações, sim. Mas isso não é bem liberdade.

    Quando temos essa habilidade, acabamos levando a vida tentando manipular as situações para que, de algum modo, fiquem positivas, nos deixem bem.

    Colocado de modo mais bruto, isso às vezes é descrito como uma prisão de plumas, ou uma prisão que é uma mansão gigante. Uma prisão que não parece prisão.

    Acho que a liberdade está mais ligada ao silêncio, à capacidade de ficar em meio a uma situação negativa, por exemplo, sem a necessidade de ressignificá-la como uma Poliana, vendo o lado bom das coisas.

    Desse modo, a liberdade não viria propriamente do repertório amplo, mas do espaço por trás de cada “trilha sonora”, do silêncio mesmo. É por causa desse silêncio que vamos de uma música a outra. O ponto não é a mudança de trilha sonora, mas aquilo que torna possível essa mudança.

    Essa é uma boa base, diferente da necessidade de manipular as coisas numa direção favorável a nós, algo que nunca traz felicidade, só mais necessidade de controle e manutenção.

    O que acha?

    Abraço.

  • Davi

    Você pôs as coisas de um modo que minha personalidade entende muito bem. Sempre tive esse hábito controlador do qual tento ser um pouco mais livre, então consegui entender o que dissesses.

    De fato, eu tinha posto as coisas somente de um modo abrangente, não livre. Percebo que devo ser assim em muitas coisas ainda.

    Obrigado pelo esclarecimento Gitti, vou tomar como base pra outras ações certamente!

    Abraços cara.

  • Carlos Braghini

    Gitti, você sempre vem com um soco no estômago da minha percepção. E me faz sair do meu estado inicial e me transporta além. Brilhante! Um forte abraço.

  • Helga Maria

    Gitti,

    Há também outro exemplo que acho simpático, o recente Três vezes amor/Definitely, Maybe. Bem no início personagem está no clima de percorrer as ruas de NY com um fundo musical (e a escolha é realmente boa).

    Tenho uma seleção de músicas (deprês, animadas, dançantes, divertidas), um que reflete cada momento pra mim.

    Adorei a versão dark do Débi & Lóide.

    E sim, sempre que vejo um filme não hollywoodiano sinto falta da trilha sonora. Mas igualmente acho que algumas extrapolam e deixam as cenas forçadas. É mais difícil do que parece. Ah, outro bom filme é o O amor não tira férias.

    Enfins, há diálogos que, pra mim, realmente parecem melodia.

  • gilmar

    Começar tudo do zero. O zero aqui me parece um lugar, então depois de criados os filmes , o melhor seria guardá-los nesse lugar, certo?

  • Gustavo Gitti (autor)

    “O zero aqui me parece um lugar, então depois de criados os filmes , o melhor seria guardá-los nesse lugar, certo?”

    Na minha viagem nesse texto, o zero não é um lugar, mas a liberdade de não ter predisposições ou referências fixas. Começar do zero seria agir, agora, sem que isso seja uma reação a algo passado, uma expectativa em relação ao futuro ou uma resposta automática diante de algo que a vida parece nos impor.

    Ou seja, quase nunca agimos “do zero”, com autêntica liberdade. Para não dizer nunca. Isso sendo BEM otimista.

    Nossa situação é MUITO, mas muito mesmo, pior do que a gente imagina.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Oi Helga,

    Vou baixar esses dois. Não tinha dado muito crédito pra eles.

    E isso, Débi & Lóide. Escrevi errado no post. Vou acertar.

    Beijo.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Braghini,

    É sempre uma honra ter o médico de minha namorada como leitor. ;-)

    Não tinha pensado nesse texto como um soco. Se foi soco, foi leve, vai! hahaha

    Abração.

  • Fernando Andrade

    Bom, pelo que percebi Gitti, a ideia aqui é igual aquela que você passou em outro post, de como a musica pode mexer com nossa percepção do mundo, uma música triste nos deixa pra baixo, se colocarmos outra mais agitada pra tocar, nós nos agitamos com ela. E assim como podemos escolher a música pra ser nosso “fundo musical” nós podemos escolher como vivenciar cada momento, bom ou ruim da nossa vida. Igual a garota que você deu como exemplo, ela poderia está esperando o namorado nua na cama ou podia simplesmente ir embora… ela que escolheria a música pra tocar. ;]

  • Taiguara

    Mais um texto fantástico, Gitti. Saímos ganhando com vc.

    E concordo com quem falou que todos os seus textos deveriam ser passados para versões multimídias com músicas escolhidas por vc.

    Obrigado por mais esse.

  • Thais

    Oi Gitti!!!
    Mais uma vez parabéns pelo post…
    A carga emocional que colocamos nas situações nos limita a visão fazendo com que a gente faça coisas que com distanciamento/consciência não fariamos… alcançar essa consciencia/liberdade e conseguir encontrar os silêncios necessários para poder escolher a trilha sonora faz mesmo TODA A DIFERENÇA!

    PS.Fui assistir Inception no dia da estréia graças a um “aviso” seu no twitter… e definitivamente “é um experimento de percepção”, como vc disse. Simplismente ENVOLVENTE!

  • Carlos Braghini

    Ah ah ah… Médico virtual, você quer dizer.

    O soco foi pelo fato da música acessar recônditos cerebrais e da alma insuspeitados.

    E estou convicto de que a sugestão de ter seus posts em multimídia é brilhante.

    Abraço.

  • Lara

    Minha nossa! Eu NUNCA tinha pensado nisso, dessa forma.
    Muito bom o paralelo que vc fez sobre as trilhas dos filmes e a nossa postura (reações, sentimentos etc) na vida.
    Mas não entendi a parte final:

    “Repousando nesse silêncio, e não em filmes específicos e suas possíveis edições e refilmagens, entendemos que não precisamos criar um filme a partir de outro, resolvendo algo, trocando algum personagem, mudando a trilha ou a fotografia. Dá para criar um filme a partir da própria liberdade de criar filmes, do zero – o que não significa alguma espécie de fascinação pela morte ou aversão à continuidade…”

    Talvez tenha a ver com a dificuldade de se criar significações “livres” já que estamos sempre imersos em tantos condicionamentos…? Podemos até achar que estamos dirigindo super bem nossas peças diárias mas, no fundo, só reproduzimos roteiros com os quais já no identificamos de alguma forma. A todo momento sentimos que “já vimos esse filme” e isso nos deixa seguros para escolher a trilha. É por aí?

    Como ter em mãos essa folha totalmente branca de roteiro, límpida de tudo.. acho que só se esvaziando por inteiro né.. Foda!
    As vezes eu até “me lembro” que “as coisas são como são” e nada tem siginificado intrínseco, que nada existe com o objetivo de me dedar os olhos ou de me emocionar, ou de me emputecer .. mas geralmente isso já aconteceu antes mesmo da segunda respiração…rs

    valeu Gustavo, este foi um excelente ensaio. Tipo de coisa para se ler várias vezes!

  • Gustavo Gitti (autor)

    Oi Lara,

    Eu também não entendi muito bem. Na verdade, comecei a escrever sem saber o que falar ao fim. E também vejo essa dificuldade num estudo que conduzo sobre esse tema às quintas aqui em Sampa.

    A sorte é que tem uma prática de contemplação (pra qualquer experiência, situação, emoção, relação) específica pra isso. Pena que não dá pra falar dessas coisas aqui.

    Em relação ao post, teoricamente seria assim: você não precisa apagar tudo, não precisar destruir tudo e ficar com uma folha branca.

    A ideia é que, em qualquer filme, em qualquer experiência na vida, por mais complexa e intrincada, a folha branca já está lá, a todo momento, por trás do roteiro, sustentado o roteiro. E cada ação já é expressão da liberdade que temos. Nosso único problema é que ela não é reconhecida, então parece que temos apenas duas ou três opções a cada momento.

    É igual quando vemos uma pessoa, sei lá, muito chata. Ela obviamente não tem uma natureza de chata. Vemos alguém chato porque é assim que a experiência se dá, é assim que a relação está sendo construída, pela chatice. Ou seja, a qualidade que vemos “lá fora” é um processo de relação, está “entre” e “dentro” também.

    Portanto, a pessoa chata já é, em si mesma, não-chata, pois tem essa liberdade por trás da chatice, presente mesmo quando é chata. Para liberar a chatice, sorrir pra ela, não precisamos nem mesmo erradicá-la, apenas perceber essa liberdade e se relacionar com ela no outro, sorrindo pra o que vier daí, mesmo se for mais chatice.

    Se pudéssemos reconhecer essa liberdade sempre presente, não precisaríamos mudar nada na situação, apenas sustentar esse reconhecimento. Isso não significa ser passivo e aceitar tudo. Pelo contrário, a partir daí, aliás, é muito mais fácil fazer uma mudança radical, pois não estaríamos mais reféns dos nossos condicionamentos, visões restritas e energias de hábito.

    É por isso que, a partir de qualquer ponto em qualquer filme, dá pra criar outro filme NADA a ver com o atual, basta lidar com a folha, com a tela, com o vazio, com o espaço, em vez de focar no roteiro, no conteúdo, nos fenômenos. De fato, é daí que todos os momentos surgem, mas achamos que eles surgem de outros momentos, temos essa ilusão de continuidade.

    E o que eu disse é que lidar com o espaço por trás é importante até mesmo pra darmos continuidade às coisas. A uma relação, por exemplo. Pois aí a continuidade não cria um torpor, uma opacidade, uma falta de vivacidade, essa que conhecemos bem. Ela continua sendo fruto de nossa liberdade, ela continua sendo fresca, viva.

    E também é essencial lidar diretamente com esse espaço para dar fim às coisas sem sofrer tanto e quase se matar. Pois é desse espaço que renascemos depois que uma identidade nossa morre.

    Teoricamente é até fácil de entender. Não tem nada de misticismo. Mas na prática a coisa aperta pois nossos filmes realmente nos envolvem, damos solidez, não conseguimos ver os limites de nossos mundos… Mas pode comprovar: depois que saímos de certo mundo, olhamos pra trás e pensamos “Porra, como eu pude sofrer (ou me empolgar ou perder tempo ou me distrair) por tanto tempo! Aquilo era só um mundinho, o limite está aqui, agora eu vejo”.

    Mas antes o mundinho era seu mundo inteiro e o limite era visto como um horizonte sempre em expansão, ou seja, a prisão se mostrava como espaço livre e 100% completo. ;-)

    É essa a brincadeira que fisga absolutamente todos os seres vivos.

    Abração.

  • Guilherme

    Muito bom o texto!

    Sempre me interessei pela maneira como a música “involuntariamente” pode acabar influenciando nosso comportamento.

    Inclusive comecei a ler um livro interessantíssimo chamado “A música no seu cérebro” que fala exatamente disso do ponto de vista da neurociência e psicologia.

    Outro exemplo de trailer reeditado que já vi é um do filme Office Space, que é uma comédia e tranformaram em drama, tem no Youtube.

    Abs

  • Gustavo Gitti (autor)

    Thaís,

    Eu não acho que a carga emocional seja um problema, mas a cegueira mesmo. Dá pra ter muita emoção e liberdade, muita energia e liberdade. O problema não é a emoção, a saída não é necessariamente um afastamento da experiência.

    Como se diz em algumas tradições e ouvi também do criador da Taketina, o silêncio está presente até mesmo quando o som ocorre. Não precisamos fazer os sons cessarem para encontrarmos o silêncio. Se esse for o nosso silêncio, então vamos perdê-lo sempre que algum som surgir. ;-)

    E a vida, bem, “a vida é cheia de som e fúria”.

  • Lis

    Otimo!! Quando uma cena de filme me causa sentimentos que não desejo no momento não tapo os olhos, nem mudo de canal, apenas tiro o som. E assim é na vida tbm.

  • May

    Nossa Lis, engraçado, faço exatamente a mesma coisa. Quando estou assistindo um filme de terror, por exemplo, e começo a ficar com medo, eu não tapo os olhos e sim os ouvidos…E o medo passa.

  • Hemílio

    Ótimo texto Gitti!!

    Esta discussão sobre o quanto podemos ressingnificar as circunstâncias, como as nossas vivências são fruto da nossa melodia interna, me remete ao Mito da Caverna de Platão. Acho que é o mesmo sentido. Arriscando-me a distorcer o pensamento do filósofo.

    Nós pensamos que o mundo que vivenciamos é essencialmente como o vivenciamos, mas na realidade nossa vivência é fruto das diversas lentes através das quais vemos o mundo, algumas se devem ao nosso estado de espírito, outras à forma como fomos criados, ao que consideramos certo e errado…

    Enquanto estamos presos a uma melodia/vivência das situações pelas quais passamos, como se fossemos passivos neste processo, ficamos distantes da realidade.

    Quando nos libertamos deste estado podemos ver as situações como elas realmente são: contruções que fazemos a partir de vivências passadas, convicções que carregamos conosco, expectativas que temos para o futuro… Reconhecendo este caráter subjetivo da realidade podemos escolher como vamos construir nossa vivência em cada situação, escolher que trilha sonora tocar, mas o principal é esta tomada de consciência, que entendo como o silêncio que nos permite mudar a trilha sonora.

    Abraço,

  • Isabella

    “O amor é filme”, Cordel do Fogo Encantado já dizia.

  • M

    Gitti,

    Me permita usar esse post para falar de um outro, mas que também é de música. O outro ao qual me refiro é o “11 canções para amar mais”, um dos melhores seus, aliás. Melhor no sentido de aplicação prática de toda essa sua incrível prosa sobre as loucuras (boas e algumas nem tanto) de se relacionar com alguém ou consigo mesmo.

    Mas o post… Todas elas são bem incidentais, casam com o clima, o momento e ilustram, recheiam e pra não dizer floreiam mais ainda o que já deveria ser muito bom. Desde que vi o “Alta fidelidade” com John Cusack, me tornei bastante apegado na criação de playlists para momentos. Hora uma viagem de carro longa do Rio a Salvador, hora uma festa de uma amiga que aniversariava, hora somente uma compilação de folks pra curtir um por do sol numa montanha ou praia qualquer, hora uma lista para os km do treino de corrida. Música definitivamente faz parte do meu dia. Uma pena eu não poder escutar a todo tempo durante o trabalho.

    Já que o papo também é relacionamento, tem uma música que fez parte da trilha de um relacionamento que vivi no último ano. A melodia era perfeita para contar a nossa estória, perfeita para ouvir na saudade, perfeita para ouvir na cama, até costumávamos nos gabar que havia sido feito para os dois.

    Ela, que aqui eu chamo de Orquídea, foi uma grande surpresa que me aconteceu, uma mulher fantástica que me conquistou (literalmente, pois foi ela que tomou a iniciativa do primeiro contato), me abriu horizontes nublados e me fez ir atrás de coisas pessoais que estavam perdidas há muito em minha vida. Por um ano foi um mundo girando a mil por hora, mas havia um pequeno detalhe sórdido nisso tudo. Como mencionei acima sobre as loucuras não tão boas dos relacionamentos: ela casada, eu me separando…

    Promessas, sonhos, desejos, planos a dois… Um crescimento de esperanças e expectativas normais a cada casal, mesmo que nós dois sempre estivéssemos ponderando esse envolvimento. Claro que um fim poderia já estar desenhado. Não há futuro em relacionamentos divididos, incompletos, atados a vínculos tão fortes como outros relacionamentos em paralelo. E o fim rolou. Há pouco tempo. Me separei sim, não por ela, mas totalmente por mim, buscando um crescimento pessoal, buscando vitórias em minha vida. Ela, ainda casada, sumiu por umas duas semanas antes do verdadeiro adeus. Deixei o silêncio e algumas reflexões intuitivas tomarem conta. Imaginei uma gravidez surgindo, selando definitivamente o fim de tudo isso. Dito e feito… Ela ligou chorando, sem conseguir falar e a pergunta sobre a gravidez saiu de mim, como uma profecia de um fim trágico.

    Ela agora tem as paradas do próprio relacionamento, que ainda existe, mas poderá dar asas ao sonho de ser mãe. Não houve mágoas, não me senti traído, nem roubado. Vivi uma estória louca, que seguramente marca meu coração para sempre. Ela foi fantástica em tudo! O lance, mesmo que muito imperfeito – pois não éramos livres para vivermos nossa vida juntos – foi único em minha vida. Defeitos… Mas o que nessa vida não tem defeitos?!

    E a tal trilha que tanto nos acompanhou, agora está sendo um exercício para eu aquietar meu coração e exorcizar esses “demônios”. Tentar acompanhar a letra sem derramar uma lágrima ainda é foda. Eu gaguejo algumas partes, mas não canso de escutá-la.

    Uma palhinha e o link para quem quiser ouvir…
    “Muitas vezes o coração
    Não consegue compreender
    O que a mente não faz questão
    Nem tem forças pra obedecer…”

    E eu adorava quando ela falava que Seu Jorge tem o sexo na voz.

    O link… http://www.youtube.com/watch?v=w6l8zrsf4LY

    Desculpa o desabafo longo! Eu precisava falar dela para alguém!

    Forte abraço e muito obrigado por tanta inspiração!

    M

  • Louise

    E eu achava que isso tudo só se passava na minha mente.
    Muito bem escrito este texto,
    com ideais tão pares das minhas que nem sei
    como não fui eu quem o escreveu.
    Geralmente acabo por partir da percepção
    que tenho de ser protagonista de algum longa (longuíssima),
    tipo um Show de Trumman, no qual as percepções acabam
    ficando distantes e externas ao mesmo tempo em que são
    de minha propriedade e exatas, configurando por vezes em
    uma ausência da sensação ou incapacidade de ter liberdade para editar, dirigir ou escolher os acordes perfeitos.

  • Gilmar

    “Ou seja, quase nunca agimos “do zero”, com autêntica liberdade. Para não dizer nunca. Isso sendo BEM otimista.”
    Valeu por responder e esclarecer, a parada é mesmo muito foda.

  • Renan Possari

    Me lembrou do SNL (Saturday Night Live) quando colocavam Imogen heap em cenas aleatórias

    ex: http://www.youtube.com/watch?v=MLyzscHXtWM

  • Gustavo Gitti (autor)

    hahaha muito bom, Renan.

  • Gustavo Gitti (autor)

    A parada é foda. Belo resumo, Gilmar.

  • Antonio Nunes

    Gustavo Gitti, Viadinho você!!!! Fanfarrão!!!! Zé Bunda!!!! Se acha pra pouca merda!!!

  • Renata

    Sempre atentei pra essa coisa da trilha sonora, sempre dei a maior importância.
    Tanto que, durante a faculdade, precisávamos fazer um trabalho sobre doenças renais crônicas e resolvemos contar a história de uma paciente que havia passado por transplantes sem sucesso, fazia hemodiálise desde a infância, entre muitos outros problemas.

    Com cenas filmadas durante um mesmo dia, montei o vídeo oficial e uma espécie de making off “extraoficial”. O primeiro comoveu a todos, principalmente no final quando aproveitamos pra citar que grande parte dos problemas que a “protagonista” havia enfrentado se deviam aos erros de diagnóstico dos quais ela havia sido vítima, e que todos os que estavam ali assistindo um dia encontrariam pessoas como ela e precisavam dar o melhor de si pra que aquelas cenas não se repetissem. Tenho absoluta certeza que a grande responsável pela comoção foi a trilha sonora. Nada do que foi falado era novidade, e se fosse dito em silêncio, não causaria o mesmo impacto.
    Por outro lado o segundo vídeo, com cenas protagonizadas pelas mesmas pessoas, vestindo as mesmas roupas, no mesmo lugar, no mesmo dia, com uma trilha sonora no melhor estilo “Shrek 2” levou todos às gargalhadas.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Pois é, trilha é essencial.

    Mas, Renata, você sacou que o texto não tem nada a ver com trilha sonora, né? ;-)

    Isso é só um meio de eu apontar pra outro processo que é difícil de descrever sem metáforas pra conduzir nossa mente.

  • gilmar

    É exatamente por ser uma foda o real valor da parada toda.

  • vivian

    Sempre penso em como temos uma trilha sonora cotidiana, composta de sensações, emoções e percepções… e como acabamos traduzindo o que sentimos em determinado momento para alguma música, que nos traz, através da audição, o que foi uma experiência multissensorial, resultando por fim em apenas pensamento.

    E valeu principalmente por me apresentar o Angelo Badalamenti.
    Essa música do vídeo do guri é a mais linda que já ouvi.
    Lembra muito o estilo do Ry Cooder em My Blueberry Nights.

    Beijos

  • Juliana

    Gitti, mais uma vez o seu texto abre a minha cabeça. GOsto do seu blog principalmente por causa dessa sua faculdade de nos fazer pensar com prazer.
    Os comentários da galera fazem a coisa ficar melhor ainda, e neste sentido foi ótimo o seu diálogo com o Davi. Ciladinha fácil de cair… e na verdade a gente cai mesmo sabendo que ela existe. Quem de nós nao tenta mudar a cena antes de aceitá-la quando ela dói?

    Obrigada e parabéns!

  • Ricardo

    Gustavo, parabéns!

    Trabalho com dança de salão e estou realizando pesquisas para uma oficina que aplicarei em um Encontro de Casais, uma reflexão sobre a dança que conduzimos em nossos relacionamentos. Quando felizmente me deparei com seu texto, que me conduziu a grandes reflexões. Obrigado

  • Lorena

    Excelente texto! Sempre que tenho o prazer de ler este blog, mergulho fundo no que foi dito, vejo todos os links, vídeos, faço os “exercícios propostos”, observo como respondo ao que li, etc. Mas, mesmo assim, nunca havia comentado nada. A verdade é que, hoje, o “exercício” de ouvir peace of mind pensando na vida inteira me fez perceber com empirismo assustador a mensagem do Gustavo. O que sai? Algo que me deixou feliz de perceber que o meu passado é muito maior que meu presente turbulento e que, apesar do tamanho da dor que pode se apresentar hoje, a música que toca dentro de mim é suave e antecipa que tudo vai acabar bem!

  • Manuel Radaelli

    Gitti, fazia tempo que não dava um pulo aqui pela tua “cabana” dos relacionamentos … =)

    Fiz por acaso, estava eu num desses momentos em que não se tem nada pra fazer e acaba se fazendo de tudo e mais um pouco, apenas se deixando levar … sem escolher!

    Gostei do texto. Primeiramente, porque quando li ele, eu li pensando, “criando” como voce diz, imaginando as várias situações possiveis e passadas, de corpo presente. E esse texto teve muito combustível pra nutrir pensamentos e em algumas (muitas) horas, confeço, teve até açao de comando mesmo!
    Segundo, porque a algum tempo atrás eu me identificava muito com textos budistas e lendo os comentários entendi mais ainda o que voce quis expressar no texto. O tal “amplo-além-da-vida” e o “livre”.

    Me lembrei de uma parábola (ou sei lá o que era aquilo) que dizia que buda estava com seu discípulo no chão de uma casa, quando uma mosca veio e pousou no seu rosto. Para espantá-la ele abanou o rosto com a mão e a mosca foi embora. E depois de um certo tempo quando a mosca já tinha voado buda se lembrou de algo e novamente tornou a fazer o mesmo movimento com a mão, para que amosca fosse embora dali, mas ela não estava mais lá. Vendo isso, o discípulo perguntou: “O que você está fazendo? A mosca já foi embora e você está abanando com a mão…”. Então buda disse: “Para espantar a mosca, naquela hora, fiz aquele movimento com a mão, mas o fiz distraído. Não foi um movimento consciente. Eu tinha me esquecido e de repente me lembrei. Agora, para corrigir aquele momento de inconsciência, estou fazendo novamente o movimento, mas desta vez estou consciente de todo o movimento, consciente de meu próprio corpo, mim mesmo… consciente de que ‘eu sou'”.

    Abraço cara
    Valeu a luz ai! =D

  • Gustavo

    Olá Gustavo,

    Virei leitor deste blog semana passada e desde lá não paro de ler…

    Esse blog tem q ser lidos todas as semanas.

    Tem alguns posts q tem q ser lidos repetidamente, para nunca esquecermos do q fazer, principalemnte nós, homens.

    mas na verdade vim aqui comentar de outro post, “http://nao2nao1.com.br/tensao-sexual-no-casamento/”

    ocorre que você cita um post de Cilana: “A tal da TS: a culpa é toda nossa“.

    porra, cara, tava louco pra ve o post, porém o blog da cilana só permite entrar pessoas convidadas…

    Imagino que você é amigo da cilana neh?hehehe entao pede pra ela liberar ali o post ou enviar ai pro meu email.

    Continue com esse belo trabalho.

  • Priscila

    Gitti, eu sempre termino os seus textos com uma sensação de frustração. É como se eu sempre, SEMPRE, perdesse a maior parte do que você quer dizer, com uma sensação bem real de água escorrendo pelos dedos… Que saco!

    Pelo que entendi, o foco do texto é sobre ter consciência de que somos construtores da nossa própria estória e pra não levar nada tão a sério, já que a realidade não existe, são apenas experiências. Que cada momento (e o subsequente) é livre. Era isso mesmo? =P

    Engraçado, que eu super me identifiquei com o que a Lara falou: “A todo momento sentimos que “já vimos esse filme” e isso nos deixa seguros para escolher a trilha.” e eu AMO ter a sensação de “deja-vu” quando chego num lugar novo ou tenho uma conversa com alguém. Me dá a impressão de estar seguindo o caminho de vida correto, o que é bem mind-freaking, se pensarmos que não há caminho.

    Pra mim, a parte mais difícil de todo esse texto é a parte da ação. Quando a gente vê, já está seguindo um roteiro que não tem muito a ver com o que a gente gostaria de escrever/viver.

    Alguma sugestão de ação/estudo/experiência/treino-samurai pra alcançar esse estado mental de liberdade?

    Bjo!

    Ps: Foi só eu que sentiu que o texto terminou sem uma conclusão? =P

  • Priscila

    E aproveitando o gancho, achei esse texto no blog de uma pessoa que admiro muito, a Tíccia. Tudo a ver com o assunto. (eu acho =p).

    “- Esta felicidade não é a minha, obrigada.”

    O jeito mais fácil de ser infeliz é viver a vida na expectativa de que a vida seja o que esperamos dela, de que a vida seja, enfim, a vida sonhada, fantasiada – que, diga-se – no mais das vezes, é o “modelo de vida” standard (ou Premium, se formos ambicioso como mandam as revistas) que o mundo nos fornece num kit com itens, cores, sabores, acessórios, cenas predeterminadas, trilha sonora (de acordo com o bom gosto vigente), objetivos a serem alcançados, níveis de dificuldade mínimos e que incorporamos lépidos, fagueiros e insuspeitos, como nossos.

    Do emprego ao filho que nos fariam felizes (se fossem como sonhamos), passando pela família e o casamento (nos modelos perfeitos e ideais), esperamos pelo dia em que abriremos os olhinhos, maravilhados olharemos ao redor e ganharemos um ótimo 5 estrelinhas de nós mesmos, um certificado inconteste e seguro de que agora tudo está como sempre deveria ter sido. Aí sim, seremos felizes. Aí sim, vamos poder sorrir e relaxar porque afinal, vencemos.

    Mas só de pensar sobre isso (pensar por si só já faz bem), de olhar as coisas por este ângulo (do quanto o “ideal” não é o nosso) por breves instantes, já percebemos o engodo da fantasia – e/ou pior ainda, mais grave e de mais difícil superação – percebemos uma suposta incapacidade e insuficiência atávicas de alcançar o objetivo ideal. Neste caso, antes de mais nada, é preciso perceber que não se trata de uma inaptidão particular de realizar “o sonho”, que não somos aleijados de espírito ou vontade, que não deixamos de deter excepcionalmente o dom a todos concedido – ou concedido aos ungidos (e para entender “só” isso pode ser que se leve a vida inteira). Depois, é preciso entender que: a) trata-se de uma impossibilidade geral e irrestrita, simplesmente porque “o sonho” é irrealizável para quem quer que seja, a despeito do que possa sussurrar a voz deslegitimadora e sarcástica dentro das nossas cabeças; e b) porque o ideal, a fantasia, o sonho nem é autenticamente nosso, nem é composto pelos nossos reais desejos.

    Aí podemos desistir de buscar a (in)felicidade padrão, podemos procurar entender o que faz a nossa própria, única, irrepetível, incopiável felicidade, a despeito do que os outros acharão dela (O que eu quero? O que é bom? O que eu gosto? O que me importa? Do que eu não abro mão? Quais são os preços que eu me disponho a pagar?) para então nos permitirmos ser felizes, pelo simples fato de termos/estarmos buscando o que realmente queremos, o que nos importa, o que desejamos, todos os dias.

    http://www.ticcia.com/index.php?itemid=2592

  • Gustavo Gitti (autor)

    Oi Priscila,

    “Gitti, eu sempre termino os seus textos com uma sensação de frustração.”

    Excelente!

    “Ps: Foi só eu que sentiu que o texto terminou sem uma conclusão? =P”

    Quando o texto tem alguma conclusão, é porque eu errei feio e me precipitei. Que bom que esse não teve.

    “Pra mim, a parte mais difícil de todo esse texto é a parte da ação. Quando a gente vê, já está seguindo um roteiro que não tem muito a ver com o que a gente gostaria de escrever/viver.

    Alguma sugestão de ação/estudo/experiência/treino-samurai pra alcançar esse estado mental de liberdade?”

    Liberdade não tem a ver com viver aquilo que gostaríamos de viver, mas com viver aquilo que surge, sem buscar outra coisa, sem lutar nem ceder a ponto de ser atropelado e não respirar direito, sem viver pouco justamente por tentar viver muito a la “Carpe diem” (que muitas vezes resulta em um corpo anestesiado e apático no dia seguinte).

    Há vários meios hábeis para melhorarmos a vida e termos mais estabilidade e ludicidade, mais leveza e visão ampla (muito disso já sugerimos e praticamos pela Cabana PdH), mas a minha única sugestão para dissolver padrões que impedem o acesso à nossa natureza livre e ampla, potente e flexível, precisa, leve, espaçosa, é meditação, estudo e contemplação sob a orientação de um professor qualificado que é um exemplo vivo de uma mente e de um corpo assim.

    Assim, tendo um exemplo vivo e um mapa preciso, podemos mergulhar nos dramas do mundo, no sexo, nas relações, na confusão e usar absolutamente todas as experiências (negativas ou positivas) como prática, como um modo de reconhecer a liberdade, o espaço sempre presente e disponível.

    Desse modo, não importa quem somos, não importa o local, não importa a situação, não importa nossa condição, nossa única prática se resume a sabedoria e compaixão, visão ampla e meios hábeis, liberdade, estabilidade, vivacidade, generosidade em todas as dez direções, conosco e com qualquer pessoa, sem distinção.

    É claro que com nossa namorada vamos fazer isso na cama também. Com nossa mãe vamos fazer isso mensalmente. Com nossos filhos de um jeito, com o pessoal do trabalho de outro, mas o foco não são os detalhes e sim essa visão ampla, incluindo aí todos os possíveis detalhes, claro. ;-)

    É assim que vejo o lance. E você?

    Beijo.

  • Priscila

    Gustavo,

    uia, eu nunca tinha pensado em liberdade como “viver aquilo que surge, sem buscar outra coisa” e sempre como “fazer o que eu tenho vontade”. Só essa diferenciação já tá me dando boas dores de cabeça pra tentar internalizar.

    Muito estranho, muito estranho. Onde ficam os meus desejos, nessa concepção de “viver aquilo que surge”? Não ficam? Há liberdade no desejo? Não há????

    Um exemplo prático: descobri a música há pouco tempo e poucas coisas no mundo me dão tanto prazer e felicidade quanto aprender o meu instrumento e tocar música. E tendo um emprego num escritório, em um horário meio massacrante (07:00h as 17:00h), grande parte do que se relaciona à música fica colocado nos horários após o trabalho. Eu me despenco duas vezes por mês da cidade onde moro para outra, a duas horas de distância, só pra fazer aula. Fora as duas aulas semanais na minha cidade (rsrsrs).

    Tive a oportunidade de passar uma semana inteira em um festival de música e voltei completamente pra baixo, porque precisava voltar à rotina de sempre. Me dá uma insatisfação imensa, uma tristeza, uma borocochozice total, não poder me dedicar mais à música. Agora (por esses dias mesmo) estou tomando a decisão de sair (ou não) desse emprego e fazer qualquer outra coisa que me dê mais tempo pra me dedicar à música. Uma escolha baseada no desejo, isso não é liberdade?

    Tantos anos pensando assim, seguindo os caminhos que o meu desejo/ minhas vontades ditavam (a liberdade) e entendendo como “não-liberdade” tudo que eu tenho que fazer motivada por qualquer coisa que estivesse fora do que “eu queria”! Tá difícil.

    Sobre a Cabana PdH, falei dela ainda essa semana para um amigo que acho que tem muito a ganhar com a convivência de vocês. Ele me respondeu ainda ontem sobre isso e acho que até se inscreveu. Pena que ainda não estão aceitando novos membros. Ela é aberta para meninas também? Achei que não. Tô perguntando porque você comentou dos meios que foram discutidos por lá pra alcançar mais estabilidade e ludicidade, e eu não tenho acesso a esses textos…

    Bjo.

  • Autoajuda Sentimental

    […] deparo com um post sensacional no Não2Não1, blog irmão (por ter o mesmo pai) do Papo de Homem. O post fala sobre a “música inaudível dos relacionamentos”, ou melhor, os sentimentos e […]

  • Leitura (e música) bacana « Autoajuda Sentimental

    […] deparo com um post sensacional no Não2Não1, blog irmão (por ter o mesmo pai) do Papo de Homem. O post fala sobre a “música inaudível dos relacionamentos”, ou melhor, os sentimentos e […]

  • Sites de Relacionamentos

    Até trilha sonora tem… Realmente hoje em dia só não casa quem não quer!

  • Renan B.T

    Oi, me desculpem comentar em um post relativamente antigo, mas um desses videos tem uma música que eu tinha gostado muito, e agora tá fora do ar no youtube, de alguém puder me passar como eu consigo acesso a ela, chamava Shakti – 08 (…) Obrigado

  • Luciana

    E então você enfim chega à pergunta essencial desse percurso que descrevo: “Qual música já estava tocando bem antes de eu colocar os fones?”. Ou: “Se eu conseguisse aumentar o volume da minha mente, que tipo de música eu ouviria?”.

    Depois dessa frase, fiquei pensando que as vezes quando vou encontrar com meu namorado ja estou com um trilha sonora de TPM e nem me dou conta… Dai que quando ele faz qualquer coisa, eu ja interpreto aquilo com maldade. E as vezes se eu estivesse com uma boa trilha sonora tal pensamento malefico nem estaria ali.
    Por isso, hoje quando percebo que essa trilha sonora da TPM esta tocando em meu inconsciente, eu fico quietinha, sem sair de casa, para nao criar filmes de terror com ninguem! :)