A Sagrada Loucura dos Casais

por Gustavo Gitti 3 July 2007 Um comentário

Sagrada Loucura dos CasaisA Sagrada Loucura dos Casais, Paule Salomon, Ed. Cultrix. Li há uns dois anos e gostei bastante. A autora traça a evolução dos casais, como se aplicasse um modelo desenvolvimentista (como o de Ken Wilber ou de Don Beck) às relações amorosas. Os estágios identificados por ela são: 1) Casal Matriarcal; 2) Casal Patriarcal; 3) Casal Conflituoso; 4) Casal Esclarecido; 5) Casal Lunar; 6) Casal de Andróginos e 7) Casal Desperto.

A epígrafe é uma citação de um diálogo do filme Asas do Desejo, de Wim Wenders:

“Não existe história maior do que a nossa, a do homem e da mulher. Essa será uma história de gigantes, invisíveis, uma história de novos ancestrais. Olhe os meus olhos! Eles são a imagem da necessidade, do futuro de todos na terra. A imagem que concebemos acompanhará a minha morte. Terei vivido dentro dessa imagem. Não existe nada, além de admiração, diante de nós dois, a admiração diante do homem e da mulher, que fez de mim um ser humano. Agora, eu sei o que nenhum anjo jamais saberá.”

Deixo uns trechinhos para os enamorados:

“Evoluir é mudar o nível de prazer.”

“O amor humano, encarnado no casal, é talvez o único valor que pode propor um sagrado coletivo fora de toda religião.”

“Fala-se no super-homem, mas não se fala numa super-mulher, porque a mulher, a verdadeira mulher, é a que faz do homem mais do que ele é. No caso da mulher, basta que ela exista para existir com plenitude. É preciso que o homem passe por ela para começar a existir…”

“A mulher é, o homem torna-se.”

“O homem precisa da intercessão da feminilidade para chegar a Deus, ou o que talvez não passe de outro modo de dizer, o homem precisa da integração da sua feminilidade para realizar sua androginia.”

“É necessário notar também que os homens fundaram muitas religiões, acumularam muitas palavras elucidativas sobre a vida espiritual, e esse saber teórico muitas vezes acabou por ultrapassar a vivência real de uma realização pessoal. A cultura tomou o lugar da experiência direta, o símbolo substitui o sentimento.”

“Um despertar considerável está em curso… Não há ideologia nesse movimento que vem da experiência; há simplesmente um desejo que sentir mais do que proclamar, um contato com o ser.”

“Os homens lunares, no sentido da reconciliação dos dois pólos, estão num nivel de evolução em que o psíquico avançou sobre o biológico. No plano interior, acontece um fenômeno importante, que é o da presença diante de si mesmo mediante esse contato com a mulher interior… Os homens lunares são muito sedutores para as mulheres… Eles gostam de receber carícias e se entregar com uma passividade femininam solicitando o lado ativo da mulher no amor.”

“O casal da unidade precisa ainda ser inventado.”

“Evoluir é suavizar os ângulos e aceitar a mudança. A maior esperança é sentir que em todo ser, mesmo no mais desesperado, no mais destruído, subsiste um núcleo intacto, inalterável, que pode mudar, rir, sorrir, sentir, amar.”

“A sexualidade, para revelar seus segredos, seus poderes e suas maravilhas, precisa ser acompanhada de um desenvolvimento interior.”

“Enquanto o medo diz ‘eu’, não existe entrega, os corpos se unem, mas as pessoas continuam separadas. A ruptura é também desse ‘eu’, esse ego que não quer se entregar, que cria cada vez mais os fantasmas do medo em relação ao outro. O círculo vicioso se revigora. Quando mais ativo e forte ele está nas múltiplas facetas de um ser, cada vez mais esse ‘eu’ quer existir, e cada vez mais a pessoa se afasta de sua capacidade de fusão.”

“Toda paixão é uma oportunidade de iniciação. Vamos até o extremo de nós mesmos, vamos até o extremo de nossas paixões, pois elas têm uma linguagem mais subterrânea e mais íntima; elas nos revelam a nós mesmos.”

“Os corpos podem se encontrar e relaxar um no outro; o sexo não está mais baseado na intensidade da excitação, mas no fato de a pessoa se descontrair profundamente, de vagar com o outro numa descontração profunda, que dá novo ânimo ao ser, num abandono oceânico.”

“O outro é para mim sempre inatingível, seja qual for a intensidade do amor que me anima. O outro me escapa, ele não está jamais onde eu achava que poderia encontrá-lo. Mas, ao mesmo tempo, eu tenho essa maravilhosa capacidade humana de poder me projetar, de me identificar com ele, de sentir o que ele sente ou de imaginar sentir o que ele sente. Eu sou o criador das sensações que recebo dele, e é essa a minha maneira de conhecê-lo, de descrevê-lo, de representá-lo para mim mesmo. A todo instante estou identificado com o meu corpo; tenho consciência do meu eu e posso também me identificar com uma paisagem, uma pedra, com um animal e, sobretudo, com outro ser humano. Eu sinto você, eu adivinho você, eu sou você. A loucura do amor é a vontade de se tornar o outro e tornar-se o outro para se esquecer de si mesmo. A sabedoria do amor está em saber entrar e sair. Eu me torno você, mas volto para mim. Eu adquiro como que uma leveza do ser para me desmultiplicar e, paradoxalmente, é assim que eu me aproximo mais do sentimento de unidade, que é o meu horizonte e a minha nostalgia.”

“Por você eu venço todo o medo da sombra e toda a sombra, toda a minha cumplicidade com a destruição e a morte, com a ruptura, e reafirmo a força da vida e a abundância da sua luz; eu saúdo a sua nobreza intemporal e a reconheço como minha.”

“O amor é em si mesmo a resposta, ao mesmo tempo que desperta a alma para a sua sabedoria.”

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Um comentário »

  • Myla

    gostei demais da citação “o outro é p mim sempre inatingível, (…)” – perfeita. diz tudo sem complexidades. já foi pro meu caderninho. muito obrigada :0)