A dor que geramos no meio do prazer

Um dos sinais de que algo está errado em uma relação é o momento em que culpamos o outro pela nossa infelicidade. Sofremos, choramos e ainda culpamos o outro que está ao nosso lado, como se ele fosse, de fato, responsável por nossa dor, por tudo aquilo que não vai bem em nossa vida. Por vincularmos nosso desconforto a nosso parceiro, ao fugir de um lentamente nos afastamos do outro.
Após o fim, temos a sensação de que começamos certo, mas em algum momento saímos dos trilhos. E então buscamos outra relação, começamos do mesmo modo e nos esforçamos para não mais sair dos trilhos. Nunca suspeitamos de que o grande equívoco talvez resida no próprio começo.
Ora, se no fim culpamos o outro pelo nosso sofrimento, no início o responsabilizamos igualmente pela nossa felicidade. “Culpamos” o outro pelo nosso prazer porque sentimos nitidamente que o outro – com seus gestos, sua vida, seu amor – é a causa de nossas sensações e emoções mais deliciosas. Ao fim, ele causará sensações e emoções um pouco diferentes…
A mesma estrutura negativa que vai nos dinamitar já está presente quando nos sentimos confortáveis e radiantes. O prazer nos arrebata com a mesma força e do mesmo jeito que a dor. Em nenhum momento saímos dos trilhos: sempre estivemos fora, já começamos errado.
A pergunta inevitável é: “Se a essência da paixão, do enamoramento, é a conexão entre nosso prazer e a existência do outro, como nos desvencilharmos desse vínculo sem perder nem uma gota de paixão?”. Ou seja, existiria uma paixão autônoma? Não seria isso uma contradição, já que “paixão” significa passividade e assujeitamento, justamente o oposto de ação e liberdade?
P.S.: Minha tentativa de resposta vem em futuros posts. Por enquanto, quero só ouvir vocês. Para mim, essa não é uma questão teórica. Ela é viva, é presente. Dia a dia eu não preciso sequer pensar nela. É uma contração que surge nos meus ossos toda vez que vejo uma mulher pela qual eu poderia me apaixonar. E a resposta está surgindo assim também, lado a lado com hemácias e leucócitos…







(4 votos | gostou do post?)
Não sei se culpo meus parceiros pela minha infelicidade. Ainda mais que poucas vezes me sinto mal mesmo. Quando decido terminar uma relação é porque ele não faz o que eu quero. Não que eu esteja infeliz, simplesmente não tenho o que espero. Isso é culpar?
Já em relação à alegria, me sinto feliz, mesmo sem respostas do outro, ora mais ora menos. A idéia da presença do outro, por vezes, já é o detonador que preciso para me sentir feliz, leve, encantada.
Mas claro, que quando a ação dele é mais direta, e tem características de enamoramento por mim, me sinto melhor ainda.
Não sei se existe paixão autônoma. Porque pra mim, a paixão é pessoal. EU estou apaixonada ou não. Eu amo ou não. E o que me faz mais feliz ou menos, é o que eu posso dar, oferecer, alegrar. Se o outro recebe mais feliz eu fico. Se ele não recebe, eu fico menos. Mas a doação ainda assim é legitima.
Quando estou apaixonada, me sinto como um balão de gás, que se não expandir estoura. Então, eu faço coisas, falo, me expresso, expandindo isso que sinto. E é meu.
Neste raciocinio, a paixão é autônoma né?
E sim, eu me sinto feliz.. Mesmo que o outro não se jogue aos meus pés.. hauhau
MAs é claro, que é isso que gostaria de obter.
Enfim, amamos e apaixonamos, o outro corresponder é um detalhe, maravilhoso, mas não fundamental para a existência do sentimento.
E é interessante observar, que o mesmo amor que existe em mim, que eu criei, eu desfaço, quando não vejo mais sentido naquilo, ou quando me envolvo com outro amor, com outra paixão. Quando foco este sentimento pra outro lugar.
O amor existe, só muda de foco de tempos em tempos. Será que somos tão autistas assim?
=D
O fato de haver esta alternância na busca do que é o amor, mostra que ele ainda não chegou ou se instalou.A paixão vem rápida e vai rápida. O amor muda de fases , passa pela paixão, pelo arrebatamento e depois acalma. Talvez aí more a confusão. O amor pode se transformar em uma cumplicidade? Pode. É outra forma de amar, mais profunda e arrebatadora, porque você se doou inteiro. No entanto, para quem precisa de paixão pura, arrebatamento constante, o amor não terá lugar definitivo, pois pode virar monotonia. O amor pode esmaecer? Pode virar uma grande amizade? Pode, e você ganhou um amigo que te conhece como poucos. É uma faceta do amor.
Cy, mas mesmo em uma relação duradoura (”de amor”) isso acontece: eventualmente culpamos o outro por nosso sofrimento. Acha não?
Concordo contigo: o amor passa por isso tudo. Às vezes esmaece, às vezes fica só amizade, às vezes volta a paixão, às vezes é pura monotonia. Mas pense na aventura que é passar 30 anos ao lado da mesma pessoa. Passar por tudo junto, sem largar do outro. Creio que isso é o maior desafio, a coisa mais radical, menos careta, mais putaria, selvagem, livre, mais libertária hoje em dia. ;-)
To preparando um post sobre isso, sobre o espectro do amor.
Abração pra ti!
Cara, vou falar a verdade.
Tô sofrendo pra caramba num relacionamento onde me encontro totalmente dependente emocionalmente e o pior… Isto ta aos poucos acabando comigo, com ela e com a relação. Não conheço o lado autonomo da paixão,mas o outro conheço bem e é amargo.Ela ja encontrou o caminho,mas por mais q eu queira, ainda não conseguio achar o caminho pra me desvincilhar desta dependencia.
Aguardo os posts…
Gustavo Gitti,
Hoje vc conseguiu se aliar ao Contardo e me dar uma mega espetada no calcanhar de aquiles!
Culpa é a palavra mais dolorida do momento pra mim. A mea culpa e a máxima culpa que coloquei fora de mim, julgando aquilo o motivo da minha suposta apatia, falta de brilho, tristeza de uns dias que já se foram… Fui pega num mecanismo louco de abstinência química do prazer que eu julgava pertencer a um indivíduo, como se ele tivesse ficado com o sapatinho de cristal e eu descalça com a abóbora e os ratinhos…
E agora quando vejo alguém por quem posso me apaixonar, os sintomas vêm todos mas há um freio de mão que ainda não sei bem se se chama amadurecimento ou dor.
Só sei que a última paixão me fez cegar a ponto de achar que era amor. Tava tão óbvio, ela nunca fazia a curva para o amor, sempre acabava antes nos maiores desafios e eu não via. Sofri muito pelo apego aquela química da paixão, fui pega na arapuca já que nunca havia me apaixonado simplesmente, sempre tive a sorte de viver a paixão que se transforma em amor.
E hoje em dia parece tão difícil… Adianta fugir da paixão? Eu tenho mais perguntas pra te fazer que responder a sua, eu acho que não existe paixão autônoma, ela é totalmente condicionada até pelas reações químicas que provoca.
Mas essa aventura eu quero de novo, passar anos ao lado de uma pessoa, perder o ar, ficar boba, menina, mas ver isso se transformar e amar profundamente, seja por quanto tempo for mas que ao menos eu sinta no sangue que é amor. Pra mim não há nada melhor e como diz a Cy, “o amor pode virar amizade e vc ganhou um amigo que te conhece como poucos.”
Descobri quando perdi meu gde amor, o sofrimento se transformar como mágica em um querer bem, um carinho imenso, uma ligação espiritual. Quando perdi minha gde paixão, ficou mta raiva e apego, sensação de abstinência mesmo. E foi embora como veio…
Concordo com você, pois sempre estamos olhando para os lados e , dificilmente, pra dentro de nós. Se alguma coisa desandou, não existe culpado, existe descuido. Quanto ao tempo, não sei se daria esta definição….puts, acho que está mais para experiência alquimica do que aventura.
Gitti,sempre me deslumbro pelos seus escritos…A palavra pode soar um pouco”over”mas é explicada pelo meu espanto prazeiroso em ver como um cara tão jovem pode ser tão sábio(gêênioo…)Então…vou tentar responder sua pergunta por uma via muito teórica…Na prática,não culpabilizar e não responsabilizar o outro nem pela seu prazer ,nem pela sua dor é a resposta para uma relação saudável e criativa,penso.Nem sempre consigo,mas o que me ajuda,já que não tenho crenças na transcendência e em nenhuma prática religiosa, passa pela psicanálise,filosofia(principalmente wittgenstein)pragmatismo linguístico,a poesia ,etc,etc…Explico:paixão para mim é fusão,e aí a”passividade” e “assujeitamento’ ficam de fora e portanto ação e liberdade entram PORÉM “fusionadas”.Sabe ovo de duas gemas?então…E lá vamos “nós/eu/ele”…E quando o ovo de duas gemas se “transforma’(porque se tranforma,né?) em DOIS ovos…assim,sem aviso prévio.Ou porque um ovo “resolveu” retirar seu pedaço de clara( porque viu outra “gema” mais charmosa) ou porque as claras e as gemas começaram a se misturar num omelete indigesto…Aí,continuando na metáfora gastronômica não posso culpar,nem responsabilizar ninguém pelo prazer ou indigestão que ficar só me provoca.Coloco a minha a “paixão” ou “desejo de fusão” em busca de outro “objeto de paixão” e ela é “autonôma” porisso minha,porisso criativa,e quando encontro essa possibilidade de vivê-la DE NOVO com alguém(de preferência “autônomo”…rs)aí “poetas e seresteiros cantai …é chegada a hora de viver e sonhar”…é MTO BOM!!!na dor…espero passar e quero encontrar alguém que me ajude a ser “ovo de uma gema” mas com possibilidades de grandes OMELETES,omeletinhos,crepes,crepe suzette…rs
É isso…beijos pra ti.
Nossa, esse texto me pegou de jeito tb…
Ale, o final do seu post relatou exatamente o q se passou comigo, estava quebrando a cabeça pra tentar transformar essa paixão em uma ligação espiritual tb, mais ainda não consegui, larguei de mão, dá uma raiva danada, e tento trasmutar essa raiva em alguma atividade fisica…rsrsrs…
Acho q é por causa do apego, da quimica, do buraco fisico que abala diretamente nosso ego.
e a alma fica quietinha, só observando a experiência.
Gu, esse texto provocou uma avalanche de pensamentos e emoções, mais não consigo expressar uma só palavra….pegou de jeito…sniffff..
Na pratica a teoria é outra.
Somos incapazes de sermos amantes autonomos…sempre esperamos algo do outro, é inerente ao ser humano, chama-se esperança.
Se você não tem esperanças, não tem sonhos, e não tem nada.
Eu prefiro ser um cafageste que aparece e some.
Cria expectativas pelo prazer de frustra-las, por que eu me conheço e sei que realmente ainda não aprendi a amar uma só e elas não aprenderam a me deixar amar todas.
Ruda, eu acho justamente o contrário: quando abandonamos a esperança, aí sim podemos realmente ter os mesmos sonhos.
Anotei aqui: para você, não há paixão autônoma. Obrigadão! Quando eu postar o que eu sinto, aí você comenta novamente para enriquecermos esse diálogo.
E adorei essa frase sobre o espírito do cafajeste: “ainda não aprendi a amar uma só e elas não aprenderam a me deixar amar todas”.
Que tal experimentar amar todas através de uma só? Acha que é possível?
Na minha pouca experiência, venho percebendo que não é possível amar todas as mulheres de fato me relacionando com todas elas. É quando me relaciono com apenas uma que consigo efetivamente amar todas.
No fundo, porém, acho que isso não tem nada de romântico. É a essência da própria cafajestagem, pois o bom cafajeste ama apenas uma mulher e nela o universo, até que saia com outra na noite seguinte…
Será possível ser um cafajeste de apenas uma mulher?
;-)
Abração!
Retirei do blog
http://ser-luz.blogspot.com/: “Talvez a culpa começasse a se dissolver se tivéssemos em mente que errar é humano, que todos estamos sujeitos a cometer erros. Isso não sem antes avaliarmos os motivos que nos levaram a cometer o erro, verificando se tal erro não poderia ser corrigido. Caso a correção do erro não fosse mais possível, restaria aceitar o fato e aprender a lição que a experiência trouxe, assumindo o compromisso de caminhar na direção do bem.”
acho q só existe paixão autônoma qdo a gente saca q o outro é algo, pra gente, totalmente dispensável. q ele pode e tem o direito d ir embora a hora q quiser e de nos amar do jeito q sabe. e o mais importante: q não é nele q devemos procurar a felicidade.
olha gustavo estou casada a 3 meses e apendi que devo observar as minhas atitudes antes de julgar o meu marido.Muito do que ele faz é em resposta as minhas atitudes.
Não digo que seja facil mas tento estou tentando…conseguindo? talves!
poutz! eu ia dizer algo, mas a Myla chegou antes! E acho que é por isso que, mesmo longe e sem ser nada sério, meu último rolo tá sendo tão bom… nós dois temos consciência de que não precisamos um do outro pra sermos felizes, sabemos que a qualquer momento pode “dar a louca” em qualquer um dos dois e resolvermos que queremos ir em outra direção… não sei, é difícil pacas definir esse tipo de coisa. mas que tá tudo muito bom tá, e que venha o feriado da semana que vem pra ela vir pra brasília inaugurar minha casa nova! heh
Gustavo, vi um filme que trata exatamente do que vc escreve nesse post: Dolls.
Acho que vale muito a pena assistir e seria muito interessante ler sua visão sobre ele.
Fica a sugestão!
Deixe seu comentário!
Frases Não2Não1
Posts randômicos
Recomendo!
Mais livros...
Divulgue!
Blogs que leio
Blogs parceiros
Livro (em breve)
Categorias
Arquivo
Onde escrevo
Sobre o autor
Leia mais...
Twitter
Siga-me...
+ recentes
+ comentados
+ lidos