A dor que geramos no meio do prazer

por Gustavo Gitti 17 April 2008 28 comentários

Prazer Dor Relacionamentos

Um dos sinais de que algo está errado em uma relação é o momento em que culpamos o outro pela nossa infelicidade. Sofremos, choramos e ainda culpamos o outro que está ao nosso lado, como se ele fosse, de fato, responsável por nossa dor, por tudo aquilo que não vai bem em nossa vida. Por vincularmos nosso desconforto a nosso parceiro, ao fugir de um lentamente nos afastamos do outro.

Após o fim, temos a sensação de que começamos certo, mas em algum momento saímos dos trilhos. E então buscamos outra relação, começamos do mesmo modo e nos esforçamos para não mais sair dos trilhos. Nunca suspeitamos de que o grande equívoco talvez resida no próprio começo.

Ora, se no fim culpamos o outro pelo nosso sofrimento, no início o responsabilizamos igualmente pela nossa felicidade. “Culpamos” o outro pelo nosso prazer porque sentimos nitidamente que o outro – com seus gestos, sua vida, seu amor – é a causa de nossas sensações e emoções mais deliciosas. Ao fim, ele causará sensações e emoções um pouco diferentes…

A mesma estrutura negativa que vai nos dinamitar já está presente quando nos sentimos confortáveis e radiantes. O prazer nos arrebata com a mesma força e do mesmo jeito que a dor. Em nenhum momento saímos dos trilhos: sempre estivemos fora, já começamos errado.

A pergunta inevitável é: “Se a essência da paixão, do enamoramento, é a conexão entre nosso prazer e a existência do outro, como nos desvencilharmos desse vínculo sem perder nem uma gota de paixão?”. Ou seja, existiria uma paixão autônoma? Não seria isso uma contradição, já que “paixão” significa passividade e assujeitamento, justamente o oposto de ação e liberdade?

P.S.: Minha tentativa de resposta vem em futuros posts. Por enquanto, quero só ouvir vocês. Para mim, essa não é uma questão teórica. Ela é viva, é presente. Dia a dia eu não preciso sequer pensar nela. É uma contração que surge nos meus ossos toda vez que vejo uma mulher pela qual eu poderia me apaixonar. E a resposta está surgindo assim também, lado a lado com hemácias e leucócitos…

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Para transformar nossas relações

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28 comentários »

  • Nati

    Não sei se culpo meus parceiros pela minha infelicidade. Ainda mais que poucas vezes me sinto mal mesmo. Quando decido terminar uma relação é porque ele não faz o que eu quero. Não que eu esteja infeliz, simplesmente não tenho o que espero. Isso é culpar?

    Já em relação à alegria, me sinto feliz, mesmo sem respostas do outro, ora mais ora menos. A idéia da presença do outro, por vezes, já é o detonador que preciso para me sentir feliz, leve, encantada.
    Mas claro, que quando a ação dele é mais direta, e tem características de enamoramento por mim, me sinto melhor ainda.

    Não sei se existe paixão autônoma. Porque pra mim, a paixão é pessoal. EU estou apaixonada ou não. Eu amo ou não. E o que me faz mais feliz ou menos, é o que eu posso dar, oferecer, alegrar. Se o outro recebe mais feliz eu fico. Se ele não recebe, eu fico menos. Mas a doação ainda assim é legitima.

    Quando estou apaixonada, me sinto como um balão de gás, que se não expandir estoura. Então, eu faço coisas, falo, me expresso, expandindo isso que sinto. E é meu.

    Neste raciocinio, a paixão é autônoma né?

    E sim, eu me sinto feliz.. Mesmo que o outro não se jogue aos meus pés.. hauhau
    MAs é claro, que é isso que gostaria de obter.

    Enfim, amamos e apaixonamos, o outro corresponder é um detalhe, maravilhoso, mas não fundamental para a existência do sentimento.

    E é interessante observar, que o mesmo amor que existe em mim, que eu criei, eu desfaço, quando não vejo mais sentido naquilo, ou quando me envolvo com outro amor, com outra paixão. Quando foco este sentimento pra outro lugar.

    O amor existe, só muda de foco de tempos em tempos. Será que somos tão autistas assim?

    =D

  • cy

    O fato de haver esta alternância na busca do que é o amor, mostra que ele ainda não chegou ou se instalou.A paixão vem rápida e vai rápida. O amor muda de fases , passa pela paixão, pelo arrebatamento e depois acalma. Talvez aí more a confusão. O amor pode se transformar em uma cumplicidade? Pode. É outra forma de amar, mais profunda e arrebatadora, porque você se doou inteiro. No entanto, para quem precisa de paixão pura, arrebatamento constante, o amor não terá lugar definitivo, pois pode virar monotonia. O amor pode esmaecer? Pode virar uma grande amizade? Pode, e você ganhou um amigo que te conhece como poucos. É uma faceta do amor.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Cy, mas mesmo em uma relação duradoura (“de amor”) isso acontece: eventualmente culpamos o outro por nosso sofrimento. Acha não?

    Concordo contigo: o amor passa por isso tudo. Às vezes esmaece, às vezes fica só amizade, às vezes volta a paixão, às vezes é pura monotonia. Mas pense na aventura que é passar 30 anos ao lado da mesma pessoa. Passar por tudo junto, sem largar do outro. Creio que isso é o maior desafio, a coisa mais radical, menos careta, mais putaria, selvagem, livre, mais libertária hoje em dia. ;-)

    To preparando um post sobre isso, sobre o espectro do amor.

    Abração pra ti!

  • Nando

    Cara, vou falar a verdade.
    Tô sofrendo pra caramba num relacionamento onde me encontro totalmente dependente emocionalmente e o pior… Isto ta aos poucos acabando comigo, com ela e com a relação. Não conheço o lado autonomo da paixão,mas o outro conheço bem e é amargo.Ela ja encontrou o caminho,mas por mais q eu queira, ainda não conseguio achar o caminho pra me desvincilhar desta dependencia.
    Aguardo os posts…

  • Alê

    Gustavo Gitti,

    Hoje vc conseguiu se aliar ao Contardo e me dar uma mega espetada no calcanhar de aquiles!
    Culpa é a palavra mais dolorida do momento pra mim. A mea culpa e a máxima culpa que coloquei fora de mim, julgando aquilo o motivo da minha suposta apatia, falta de brilho, tristeza de uns dias que já se foram… Fui pega num mecanismo louco de abstinência química do prazer que eu julgava pertencer a um indivíduo, como se ele tivesse ficado com o sapatinho de cristal e eu descalça com a abóbora e os ratinhos…
    E agora quando vejo alguém por quem posso me apaixonar, os sintomas vêm todos mas há um freio de mão que ainda não sei bem se se chama amadurecimento ou dor.
    Só sei que a última paixão me fez cegar a ponto de achar que era amor. Tava tão óbvio, ela nunca fazia a curva para o amor, sempre acabava antes nos maiores desafios e eu não via. Sofri muito pelo apego aquela química da paixão, fui pega na arapuca já que nunca havia me apaixonado simplesmente, sempre tive a sorte de viver a paixão que se transforma em amor.
    E hoje em dia parece tão difícil… Adianta fugir da paixão? Eu tenho mais perguntas pra te fazer que responder a sua, eu acho que não existe paixão autônoma, ela é totalmente condicionada até pelas reações químicas que provoca.
    Mas essa aventura eu quero de novo, passar anos ao lado de uma pessoa, perder o ar, ficar boba, menina, mas ver isso se transformar e amar profundamente, seja por quanto tempo for mas que ao menos eu sinta no sangue que é amor. Pra mim não há nada melhor e como diz a Cy, “o amor pode virar amizade e vc ganhou um amigo que te conhece como poucos.”
    Descobri quando perdi meu gde amor, o sofrimento se transformar como mágica em um querer bem, um carinho imenso, uma ligação espiritual. Quando perdi minha gde paixão, ficou mta raiva e apego, sensação de abstinência mesmo. E foi embora como veio…

  • cy

    Concordo com você, pois sempre estamos olhando para os lados e , dificilmente, pra dentro de nós. Se alguma coisa desandou, não existe culpado, existe descuido. Quanto ao tempo, não sei se daria esta definição….puts, acho que está mais para experiência alquimica do que aventura.

  • Neyde

    Gitti,sempre me deslumbro pelos seus escritos…A palavra pode soar um pouco”over”mas é explicada pelo meu espanto prazeiroso em ver como um cara tão jovem pode ser tão sábio(gêênioo…)Então…vou tentar responder sua pergunta por uma via muito teórica…Na prática,não culpabilizar e não responsabilizar o outro nem pela seu prazer ,nem pela sua dor é a resposta para uma relação saudável e criativa,penso.Nem sempre consigo,mas o que me ajuda,já que não tenho crenças na transcendência e em nenhuma prática religiosa, passa pela psicanálise,filosofia(principalmente wittgenstein)pragmatismo linguístico,a poesia ,etc,etc…Explico:paixão para mim é fusão,e aí a”passividade” e “assujeitamento’ ficam de fora e portanto ação e liberdade entram PORÉM “fusionadas”.Sabe ovo de duas gemas?então…E lá vamos “nós/eu/ele”…E quando o ovo de duas gemas se “transforma'(porque se tranforma,né?) em DOIS ovos…assim,sem aviso prévio.Ou porque um ovo “resolveu” retirar seu pedaço de clara( porque viu outra “gema” mais charmosa) ou porque as claras e as gemas começaram a se misturar num omelete indigesto…Aí,continuando na metáfora gastronômica não posso culpar,nem responsabilizar ninguém pelo prazer ou indigestão que ficar só me provoca.Coloco a minha a “paixão” ou “desejo de fusão” em busca de outro “objeto de paixão” e ela é “autonôma” porisso minha,porisso criativa,e quando encontro essa possibilidade de vivê-la DE NOVO com alguém(de preferência “autônomo”…rs)aí “poetas e seresteiros cantai …é chegada a hora de viver e sonhar”…é MTO BOM!!!na dor…espero passar e quero encontrar alguém que me ajude a ser “ovo de uma gema” mas com possibilidades de grandes OMELETES,omeletinhos,crepes,crepe suzette…rs
    É isso…beijos pra ti.

  • Vanilda

    Nossa, esse texto me pegou de jeito tb…

    Ale, o final do seu post relatou exatamente o q se passou comigo, estava quebrando a cabeça pra tentar transformar essa paixão em uma ligação espiritual tb, mais ainda não consegui, larguei de mão, dá uma raiva danada, e tento trasmutar essa raiva em alguma atividade fisica…rsrsrs…
    Acho q é por causa do apego, da quimica, do buraco fisico que abala diretamente nosso ego.

    e a alma fica quietinha, só observando a experiência.

    Gu, esse texto provocou uma avalanche de pensamentos e emoções, mais não consigo expressar uma só palavra….pegou de jeito…sniffff..

  • Ruda

    Na pratica a teoria é outra.

    Somos incapazes de sermos amantes autonomos…sempre esperamos algo do outro, é inerente ao ser humano, chama-se esperança.

    Se você não tem esperanças, não tem sonhos, e não tem nada.

    Eu prefiro ser um cafageste que aparece e some.
    Cria expectativas pelo prazer de frustra-las, por que eu me conheço e sei que realmente ainda não aprendi a amar uma só e elas não aprenderam a me deixar amar todas.

  • Gustavo Gitti (autor)

    Ruda, eu acho justamente o contrário: quando abandonamos a esperança, aí sim podemos realmente ter os mesmos sonhos.

    Anotei aqui: para você, não há paixão autônoma. Obrigadão! Quando eu postar o que eu sinto, aí você comenta novamente para enriquecermos esse diálogo.

    E adorei essa frase sobre o espírito do cafajeste: “ainda não aprendi a amar uma só e elas não aprenderam a me deixar amar todas”.

    Que tal experimentar amar todas através de uma só? Acha que é possível?

    Na minha pouca experiência, venho percebendo que não é possível amar todas as mulheres de fato me relacionando com todas elas. É quando me relaciono com apenas uma que consigo efetivamente amar todas.

    No fundo, porém, acho que isso não tem nada de romântico. É a essência da própria cafajestagem, pois o bom cafajeste ama apenas uma mulher e nela o universo, até que saia com outra na noite seguinte…

    Será possível ser um cafajeste de apenas uma mulher?

    ;-)

    Abração!

  • Vênus

    Retirei do blog
    http://ser-luz.blogspot.com/: “Talvez a culpa começasse a se dissolver se tivéssemos em mente que errar é humano, que todos estamos sujeitos a cometer erros. Isso não sem antes avaliarmos os motivos que nos levaram a cometer o erro, verificando se tal erro não poderia ser corrigido. Caso a correção do erro não fosse mais possível, restaria aceitar o fato e aprender a lição que a experiência trouxe, assumindo o compromisso de caminhar na direção do bem.”

  • myla

    acho q só existe paixão autônoma qdo a gente saca q o outro é algo, pra gente, totalmente dispensável. q ele pode e tem o direito d ir embora a hora q quiser e de nos amar do jeito q sabe. e o mais importante: q não é nele q devemos procurar a felicidade.

  • casidri

    olha gustavo estou casada a 3 meses e apendi que devo observar as minhas atitudes antes de julgar o meu marido.Muito do que ele faz é em resposta as minhas atitudes.
    Não digo que seja facil mas tento estou tentando…conseguindo? talves!

  • Johnny C

    poutz! eu ia dizer algo, mas a Myla chegou antes! E acho que é por isso que, mesmo longe e sem ser nada sério, meu último rolo tá sendo tão bom… nós dois temos consciência de que não precisamos um do outro pra sermos felizes, sabemos que a qualquer momento pode “dar a louca” em qualquer um dos dois e resolvermos que queremos ir em outra direção… não sei, é difícil pacas definir esse tipo de coisa. mas que tá tudo muito bom tá, e que venha o feriado da semana que vem pra ela vir pra brasília inaugurar minha casa nova! heh

  • Alê

    Gustavo, vi um filme que trata exatamente do que vc escreve nesse post: Dolls.
    Acho que vale muito a pena assistir e seria muito interessante ler sua visão sobre ele.
    Fica a sugestão!

  • Experimentos para se sentir vivo (1) - iPod e energia autônoma | Não Dois, Não Um: Um blog sobre relacionamentos lúcidos

    […] por toda a circulação de energia em nós. Com ela, talvez seja possível avançar na reflexão que iniciei aqui sobre a possibilidade de uma paixão autônoma como saída para o insatisfatório padrão atual. Ou seja, se é verdade que podemos mover nossa […]

  • thanatos

    acabei de ler o post sobre a energia autonoma, mas resolvi comentar por aqui.
    Eu acho que a paixão é mais uma das coisas impessoais que você cita. Não é minha paixão, é a paixão que está em mim. Talvez essa seja uma das únicas emoções que sempre é sentida dessa forma, naturalmente, e por isso as pessoas crerem que alguém a causa.

    a paixão está lá, sempre, eu penso. Algo somente a desperta, e algo pode ser externo ou interno. Só que quem dorme dificilmente desperta sozinho, e é mais comum que ocorra pelo meio externo. Talvez com alguma intenção, percepção, possamos agir sobre nós mesmos como se fossemos externos a nós, escolhendo a música do ipod, por exemplo. Uma vez desperta, a paixão já não é mais minha. Não importa mais muito quem é que despertou a paixão. Mais comum é que a mesma pessoa a desperte continuamente, e crie uma possessão da musa, mas se olhar bem, o apaixonado age apaixonado para todos, é facil perceber.
    O homem apaixonado trata todas as mulheres bem, não só aquela que despertou sua paixão, por exemplo…

  • myla

    oi Thanatos,

    fiz um caminho semelhante ao seu e tb comento aqui bem d breve: seu comment é um dos melhores q já li aqui no n2n1: cada palavra.

    //Talvez com alguma intenção, percepção, possamos agir sobre nós mesmos como se fossemos externos a nós, escolhendo a música do ipod, por exemplo.

    a gente geralmente se esquece dessa relação, a d nós-c-nós-msms (e se funde no outro, achando q ele é matriz d quase tudo o mais).

    no fundo a gente ainda lida muito nessa base: o eu comigo msm e, ainda aí, a gente faz uma merda atrás da outra…

    conseguir se ver como um outro, se lembrar q eu existo e q tb sou uma outra até pra mim msm, é show. mas isso tudo só ganha real sentido se se praticado, coisa normal d td dia.

    bjs

  • Carla Gonzalez

    Acredito que é preciso tomar posse de si mesmo. O que vc sente, é seu, é uma sensação sentida, através dos sentidos do seu corpo, pela sua alma. Precisamos sim de algo ou alguém que desperte, somos matéria, precisamos de toque. Mas atribuir uma sensação nossa a alguém é, além de muito limitador, nos colocar nas mãos de uma pessoa que, de repente, não terá tamanha disposição conosco. Daí cria-se ilusão e, consequentemente, desilusão(quanto maior o vôo, maior é a queda!).
    Quando se toma posse de si mesmo, a entrega não é a alguém, mas a si mesmo, é se dar o direito de sentir aquilo, de viver a intensidade do estar apaixonado em todo SEU potencial. SEU!
    Se não há uma paixão/pessoa em determinado momento, acho como grande alternativa recorrer a soma de inúmeras paixões. Cada um precisa saber O QUE lhe traz bem-estar; e aí, o que(um objeto) pode ser recorrido inúmeras vezes: Trabalho, arte, natureza… Ou seja, alimentando a própria fome de forma saudável, pois a gula só engorda!
    Dessa forma, viver apaixonado pode ser uma escolha!
    E seria buscar as próprias sensações. Seria essa entrega a si mesmo e que pode ser despertada até nas coisas mais simples da vida! É ser desejante! Ou melhor, assumir o próprio desejo de desejar(sentir!?) e escolher, dentro das nossas possibilidades, no que focar!
    bjssss

  • “Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo” (Michel Melamed) | Não Dois, Não Um: Um blog sobre relacionamentos lúcidos

    […] e agir a favor da felicidade do outro. Apegar-se é desejar que a própria felicidade venha das reações que cada ação do outro causa em nós. Um é ativo, outro é passivo. Um só depende de nós, em outro somos reféns. Nosso dilema é bem […]

  • Sher

    Acredito que nós geramos essa dor, sim, desde o início, quando tomamos o outro como objeto de nosso foco, largando nossa vida para viver a do outro. Acredito que a relação saudável, que o verdadeiro gostar, se faz quando (e isso leva um tempo até percebermos) conseguimos seguir cientes de nossa individualidade mesmo ante a paixão mais arrbatadora. Devemos, sim, nos apaixonar, mas devemos, junto com as experiências (que nem sempre todo mundo aprende) colocar na cabeça que o estado de euforia passa. E quando passar, se você tiver largado sua individualidade, aí, sim, vocÊ vai gerar dor em meio ao que era prazer. Dá para viver a exaltação da paixão, e dá pra ser muito feliz anos ao lado de alguém quando essa paixão se acalma, mas, para isso, devemos respeitar nossos limites e os do outro. Quando a euforia passar e vocÊ tiver largado todos os seus planos, a euforia do outro, que era o que te alimentava, vai passar a apontar sinais de “subnutrição” no seu organismo e na sua vida. Portanto, nos apaixonemos, mas jamais larguemos os nosso prazeres paralelos PELO outro. Pois este é o momento emq ue passamos a culpar e a exigir algo que nós mesmos criamos. E lembrar sempre, mesmo nas mais acaloradas discussões: nunca diga “você me faz sentir assim”. Diga apenas “eu me sinto assim” quando algo acontece. O outro só tem culpa por nossas dores porque damos espaço para tal.

    Ps.: relato de experiências próprias e uma ponta de alegria por saber que estou conseguindo aprender.

  • Amor, apego, nada. « Tão Certo como Flores no Deserto…

    […] e agir a favor da felicidade do outro. Apegar-se é desejar que a própria felicidade venha das reações que cada ação do outro causa em nós. Um é ativo, outro é passivo. Um só depende de nós, em outro somos reféns. Nosso dilema é bem […]

  • bruno

    Eu vejo essa questão como covardia. Covardia que aprendi por obsevação, por força do exemplo. Entrego minha felicidade e desejos e ao faze-lo, não dou crédito a pessoa ao meu lado, transfiro minha responsabilidade à ela. E quando deixo a direção da minha vida em outra mãos, me livro do fardo da escolha! E o absurdo reside na justificativa manca, que mostra a outra como displicente, ao me causar dor. É como um seguro, se tudo der errado, não tenho que lidar com erros e evoluções pessoais, posso dizer que a pessoa não soube amar, dividir e pronto. É um prêmio e tanto em um universo de pessoas tão cegas.

  • dani

    Gustavo,

    Acredito que como não somos seres perfeitos, também não conseguimos ser 100% libertários. Abrimos concessões para o bem da relação, que um dia voltam em forma de cobranças ou culpamos o outro por deixar de ser ou de acontecer.
    Tento ter relações suplementares, onde cada um exerce sua paixão autônoma pelo parceiro e por outras coisas da vida.
    O lance da culpa do outro pela nossa infelicidade acho que rola qdo vivemos relações complementares, do tipo, “você me completa”. Qdo alguém vem com essa frase pra mim eu já fico com um pé atrás.
    Roberto Freire tinha um poema que em um trecho dizia…”Somos um para o outro deliciosamente desnecessários.”
    Se toda a relação levasse esta frase a risca, acredito que viveríamos paixões e amores autônomos.

  • Sheila

    acredito que grande parte do nosso sofrimento se deve ao fato de atribuirmos ao outro a responsabilidade que temos de nós mesmos. quando começamos um relacionamento esperamos o tempo todo algo do outro, e muitas vezes nao pensamos se estamos correspondendo da mesma maneira como gostaríamos de ser correspondidos.
    o fato é que quanto mais autonomia e consciência de que somos totalmente responsáveis por nós mesmos, mais felizes podemos ser em um relacionamento.. pq assim, não cai uma pressão injusta sobre nenhum.
    fácil não é, de fato!!
    mas acho que daí o amor brota mais livre..
    pelas minhas experiências (q nao são muitas) passei a acreditar que a vida toda é feita de trocas. é mais ou menos aquela coisa de q tudo é questão de escolha, até a não escolha..
    assim, quando vc escolhe ficar com alguém exclusivamente está abrindo mão de ficar com outros.. e daí pra frente depende da forma como vc encara isso.. essa troca pode significar perda de oportunidades para alguns, enquanto que para outros significa um ombro sempre que preciso, um braço pra dormir de conxinha.. alguém pra peidar perto, alto, e ainda dar risada..
    assim a vida vai sendo feita.. vamos trocando os amigos, as convivências, as preferências. abrindo mão de algumas coisas para ganhar outras.. e tudo isso implica dor e alegria.. ou prazer.. enfim..
    mas a dor é tão importante quanto o prazer, pq é em contraste de um com o outro que vc aprende a valorizar certos momentos.. sem a dor, muitas vezes eles podem passar despercebidos ..
    com tudo na vida se aprende..
    adoro seus posts.. parabéns

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  • Vanessa

    O que seria da Vida na Terra se não existisse a oposição dos antagônicos? Essa contradição é bonita, não acha?
    Abraços

  • Roberto Vasconcelos

    Esse tipo de reflexão é algo que me leva a justamente procurar rejeitar de forma veemente qualquer sentimento que pareça com paixão. Nada pra mim é mais importante que o meu livre arbítrio, minha integridade, e que, mesmo com toda a consciência possível sobre esse fato, já fica à mercê das circunstâncias constantemente, valha se eu fosse alguém apegado às paixões.