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A dinâmica lúcida do amor

por Gustavo Gitti 18 February 2008 15 comentários



Drawing Hands, M.C. EscherNo último post (”Amor é coisa que não se recebe“), falei sobre a dinâmica da passividade e sobre como podemos descobrir nossa potência de amar.

Autonomia, no entanto, não significa auto-suficiência ou isolamento. Quando já praticamos esse amor livre, o que acontece quando iniciamos uma nova relação?

Uma mulher é o grande espaço para um homem praticar amor na sua forma mais incorporada, fascinante e desafiadora. Ele pode não precisar de uma mulher para ser feliz, porém a entrega feminina é o convite perfeito para que ele penetre tudo com seu amor e treine sua liberdade de se manter imóvel diante das tempestades e oscilações do feminino. Isto é, ele pode ser mestre em técnicas de apnéia, mergulho, canoagem ou surf, mas como praticar sem rios e oceanos?

Um homem, por sua vez, é também apenas um suporte para a mulher que se descobriu fonte de amor, que ficou inseparável da própria dança da vida. Ainda que ela não precise do amor de seu homem, é quando ela é conduzida com leveza e vigor que sua capacidade de entrega, radiância e amor pode se expressar desimpedidamente. Em outras palavras, ela pode saber movimentar seu corpo de mil maneiras no samba de gafieira, mas é preciso que haja música, espaço e alguém para conduzi-la.

O masculino precisa tocar o feminino para vir à tona e existir com força total. O feminino chama pelo masculino para conseguir saltitar e se desenrolar com toda a energia que a vida pode agüentar.

A autonomia do amor se expressa quando o amor não vai nem vem, nem se dá tampouco se recebe. Primeiro, sentimos o amor vindo de fora, recebemos e nos sentimos amados. Depois, percebemos que podemos agir, sentimos o amor por dentro e o expandimos aos outros. Até que, enfim, caímos sentados sobre a ilusão de nossas paredes e nos abandonamos dentro do amor. Paramos de tentar e deixamos o amor com ele mesmo… Depois dessa desistência, não há mais esforço para amar o outro. Há o amor e sua circulação, muito bem descrita pelo mestre zen Shunryu Suzuki na obra-prima Mente Zen, Mente de Principiante:

“O mundo interior não tem limites e o mundo exterior também é ilimitado. Nós dizemos “mundo interior” e “mundo exterior”, mas, na verdade, só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a garganta é uma espécie de porta de vaivém. O ar entra e sai como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa “eu respiro”, o “eu” está a mais. Não há um “você” para dizer “eu”. O que chamamos de “eu” é apenas uma porta de vaivém que se move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move, eis tudo.”

Essa respiração do amor move homens e mulheres de modos distintos. Ainda que, de uma perspectiva absoluta, não haja eu e outro, vida e morte, dentro e fora, nos mundos relativos há uma dinâmica lúdica entre os opostos. A não-dualidade é apenas o pano de fundo para incontáveis dualidades e pares de seres e fenômenos que vão surgir em cada vaivém. Ora, esse movimento é tão poderoso que produz bebês, if you know what I mean

O livre vaivém atua no homem que é capaz de viver com um amor autônomo instalado no meio do peito. Tudo o que ele quer é uma mulher que silenciosamente se entregue: “Eu sou sua, eu me rendo ao amor que vem de você, me conduza, dance comigo”. Ao oferecer seu melhor, ele faz uma exigência sutil. Sua proposta não aceita nada menos do que a completa liberação de todas as energias, ânimos e curvas que ela tem a oferecer.

Uma mulher cujo brilho é sua forma de amar os outros sem que ela sequer tenha de se aproximar de alguém, tudo o que ela quer é um homem que chegue sem pedir licença: “Eu me livrei do medo e quero ver até onde vai sua beleza. Se você já está dançando, pode soltar o cabelo e começar a girar”. Sua presença também exige. Sem liberdade e vigor, dificilmente um homem conseguirá permanecer ao seu lado.

Quando eles se encontram, a profundidade masculina é o par perfeito para a radiância feminina. A liberdade dele é o espaço para o espiralar do amor dela. Ele fica, presente, imóvel. Ela dança, graciosa, cintilante. Juntos, eles continuam amando de modo autônomo como já faziam com qualquer um, não há diferença. Movem-se a favor dos outros, para que todos se desdobrem, aflorem. Sem que ninguém nunca chegue a receber algo, ambos sentem prazer ao oferecer amor irrestrito. Um para o outro, e ambos para o mundo.

Na relação lúcida, ainda que a mulher anseie por alguém ou um homem deseje um corpo feminino, quem faz as exigências é o amor, não as identidades específicas ou personagens. Ambos estão rendidos não um ao outro, mas ao amor. Se pudéssemos ouvi-los, seria algo assim: “Aquilo que não sou ama, por mim, em você, tudo aquilo que você não é”.

* A imagem é do gênio M.C. Escher, Drawing Hands (1948). Sou fascinado por ela. Se pudesse, usaria para explicar praticamente todas as idéias que passam pela minha mente.

Perdi meu tempo.Você tem 12 anos?Tá frio hj, né?Quando sai o livro?Deu uma vontade de fumar... (1 votos | gostou do post?)
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15 comentários »

  • Rodrigo Santiago disse:

    Rapaz, vê lá, hein?
    O pessoal dos arco-íris da vida vão cair em cima de você ;-)

  • Gustavo Gitti disse:

    Rodrigo, você diz os gays? Não entendi lhufas o motivo.

    Abraço!

  • Angelo Reale disse:

    “Aquilo que não sou ama, por mim, em você, tudo aquilo que você não é”

    Essa frase sutil, não sei porque, me fez lembrar de seu ponto de vista, fantástico por sinal, sobre a ideia de sermos atores interpretando personagens em sketchs de amor.

    Excelente.

  • Vanilda disse:

    “..a profundidade masculina é o par perfeito para a radiância feminina..”

    Poxa, eu tb concordo com isso.

    mas, na maioria, o que se encontra são homens radiantes ofuscados ante a profundidade da mulher.

    Esse artigo complementa o anterior com maestria…Parabens.

  • Gustavo Gitti disse:

    Vanilda, essa idéia (profundidade e radiância) é do David Deida. Você encontra isso no livro INTIMATE COMMUNION.

    Como no Brasil, não tem nada parecido, eu sempre uso idéias dele e vou complementando e trazendo para nossa realidade, do meu jeito.

    Abração e obrigado pela leitura.

  • Bob disse:

    Mais um belo post com ótimas metáforas. Mais alimento para a mente.

    Agora num off-topic total, não é só você que é fascinado pelo Escher, quase todo físico e matemático também são fascinados por ele. As gravuras dele nos ajudam e muito a entender conceitos complexo de geometria.

  • Mulher Solteira disse:

    Obrigada pelo post de aniversário! :P

    Não sei por que, mas este me trouxe mais conforto do que o anterior. Você convidou no fim daquele texto para que as pessoas comentassem e, mesmo não me incomodando com as minhas próprias incongruências e contradições, simplesmente não consegui chegar a um pensamento minimamente organizado sobre o “não dar ou receber amor”.

    Só sei que nada sei. :( Quando li o post pela terceira vez as suas palavras já estavam dançando diante dos meus olhos, brincalhonas, fugindo dos meus pensamentos.

    A única coisa que eu sei: espero que a minha esperança invencível e infindável no amor não me decepcione.

    Beijos…

  • Thiago disse:

    Nada, NADA a declaar. excelente!

  • Passini disse:

    É…
    As Dualidades se completam, numa dança de que sempre pende para um lado. Essa foi a mensagem que eu tirei dos dois textos, a dualidade.

  • Lillo disse:

    Realmente o grande problema não é iniciar essa “dinâmica lúcida do amor”: Mantê-la por longo prazo (ou prazo indefinido) é bem mais difícil.

    E não falo da eterna conquista do amor.

    Eu namoro a um ano e oito meses e estou lutando contra a rotina dos meus próprios atos: Rotina da reconquista.

    Algumas vezes parece que mergulho num tanque de água gelada, ela. E tudo isso causado, imagino, por todos os meus constantes atos de reconquistá-la.

    Manter a linha tênue entre reconquistar e não sufocar tem sido um trabalho difícil.

    O grande medo não é perdê-la: Eu posso ser feliz sozinho, ou com qualquer outra mulher.

    O meu medo e o nosso amor sucumbir, por afago demais ou de menos.

    Penso em deixar surgir dela a iniciativa de manter essa chama acesa. Se tudo sucumbir não era pra ser. Ou não.

    Difícil.

    (Mais difícil ainda é comentar, sem trazer pro lado pessoal. haha)

  • srta. rosa disse:

    … Só entendi metade, mas o texto tá lindo, rsrsrs. Eu tenho um pouco de dificuldade quando as metáforas vem umas seguidas das outras (hehe).

    Bezzos,

  • Cíntia disse:

    Sabe, esse seu ost me lembrou muito de um dos meus trechos favoritos da Paixao segundo G.H., da Clarice Lispector… lá pela página 96 ela fala assim “Nesses intervalos nós pensávamos que estávamos descansando de um ser o outro. Na verdade era o grande prazer de um nao ser o outro: pois assim cada um de nós tinha dois.”
    Sempre que entro numa conversa sobre entrega em relaçoes termino me lembrando desse trecho, talvez por já ter me despersonalizado tanto numa relaçao que demorei muito depois pra descobrir que era eu mesma quando a festa acabou.
    Eu acho que as relaçoes exigem uma certa dedicaçao, exigem sem dúvida uma entrega, como mínimo algo de empatia. Mas sempre com a ressalva de que é muito importante a gente saber que ainda existe como indivíduo. É muito lindo formar “equipe” com alguém que é realmente parceiro e a gente pode viver coisas incríveis assim, mas acho que pra que seja saudável e nao sufoque ninguém é bem importante que cada um se conheça bem, é preciso saber onde chega cada um.
    Talvez seja só nesse momento que o amor realmente possa nao ir nem vir como você disse, simplesmente está.

  • Vanilda disse:

    Legal o livro, mas, por enquanto falta o ingles…rs, meu ex costumava ler alguns livros, traduzindo ao pé do ouvido, enquanto eu ficava debruçada em seu peito, “belos momentos”
    …Pena que lemos livros errados…hahaha

    Valeu a dica.

    Abraço.

  • cy disse:

    Esta semana ouvi um comentário sobre o ser humano ter corrido tanto pra lugar nenhum que se formou um imenso vazio na sua alma, onde o amor não encontrava mais ressonância.E tem fundamento esse comentário, pois parece que perdemos a capacidade de simplesmente ser, deixamos a leveza e a naturalidade para nos preocuparmos com técnicas, estratégias e outros tantos recursos. Ainda continuo achando que esta caminhada é simples.O que fazemos é torná-la complexa e dificil, cheia de obstáculos como se fosse impossível ser feliz, ou simplesmente amar.

  • Nati disse:

    Putz, até doeu o peito ler isso. De novo!
    A cada piscar de olhos nosso pra realidade ela aparece diferente. Mesmo lendo este texto outras vezes, ainda não tinha sentido o que senti.

    Esta frase está saltitando em meu peito.
    “Eu me livrei do medo e quero ver até onde vai sua beleza. Se você já está dançando, pode soltar o cabelo e começar a girar”.

    Putz..

    PQP!!!

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